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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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De volta à literatura em português: Luanda, Lisboa, Paraíso (Djaimilia Pereira de Almeida)

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Já imaginaram um mundo de homens sem mulheres? Sei que o Murakami e o Hemingway têm uns livros de contos com um título parecido, mas desta vez ficamo-nos por bem mais perto do que as paisagens nipónicas ou americanas. Ficamo-nos, mais particularmente, por Lisboa, começando em Luanda, em direcção ao Paraíso.

 

Hoje, escrevo sobre Luanda, Lisboa, Paraíso, o romance mais recente da autora portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida (que me despertou a atenção, curiosamente, por se ter doutorado num dos programas que me interessam na FLUL). Li-o este mês de propósito, para Uma Dúzia de Livros, criado pela Rita da Nova, cujo objectivo de Janeiro é ler "um livro escrito por uma mulher".


Antes de prosseguir, gostaria de partilhar já que o adorei. Luanda, Lisboa, Paraíso é um daqueles livros que parece ter sido escrito palavra a palavra, com todo o cuidado, nenhuma delas aleatória. Todas têm um sentido e um lugar. Cheguei a ler a mesma página várias vezes, para aproveitar todos os bocadinhos que poderia não ter saboreado à primeira, segunda ou terceira vez. Na minha opinião, é isto que faz um óptimo livro, seja qual for o género.


Os protagonistas desta história são pai e filho, Cartola e Aquiles, que vivem num mundo pouco justo e onde a desilusão é o prato do dia, acompanhados pelos seus amigos Pepe e Iuri. São homens que, embora não tenham aprendido a viver sem mulheres, têm de aprender a sobreviver sem elas. Claro que também há mulheres na história, mas as que existem estão bem longe, ou são figurantes das vidas dos homens que, por algum motivo, assombram. Os protagonistas são homens desorientados, as restantes são as mulheres que lhes dão norte ou que os denorteiam.


Apesar da dimensão aparentemente redutora sobre as personagens femininas que possam retirar das minhas primeiras impressões, a verdade é que um romance semelhante poderia ter sido igualmente escrito do ponto de vista dessas mulheres, porque também elas vivem sem homens. Esta foi a minha leitura, mas talvez outras pessoas consigam ler Luanda, Lisboa, Paraíso de forma diferente. Às mulheres, é concedida uma aura mística, superior, sensual, como se, tal como os deuses, fossem capazes de revelar o melhor dos homens quando uns e outros se amam.


Por vezes, os mundos dos homens e das mulheres convergem, e essas são provavelmente as únicas partes em que Luanda, Lisboa, Paraíso se tornou um pouco menos triste para mim. É uma história bonita, mas mesmo triste. Raramente encontro histórias felizes na boa literatura, já que tem de haver, pelo menos, algum conflito que interesse ao leitor. No entanto, tirando a promessa do amor e da família que vão sentindo de longe, Cartola e Aquiles raramente vivem, limitando-se a sobreviver.


E mais não digo, para não vos estragar com spoilers!

 

Luanda, Lisboa, Paraíso passou a ser um dos meus livros de ficção preferidos dos últimos tempos. Foi o primeiro deste ano, escrito por uma mulher (já que li tão poucas em 2018), e ainda bem que o escolhi para iniciar o desafio Uma Dúzia de Livros. Além disso, hei-de dar mais oportunidades aos livros da Djaimilia Pereira de Almeida. 

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