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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

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Depois de ler a carta da Elodie Almeida

A aflição de perder alguém próximo repentinamente deve ser angustiante. A aflição de perder alguém próximo de maneira totalmente evitável e estúpida deve ser ainda pior. Imagine-se, então, acrescentar-se esta lista ao factor juventude.
Ao contrário do que a comunicação social faz parecer, não concordo que um homem de 29 anos seja ainda considerado jovem. Seja como for, esta foi uma morte jovem, prematura.
Não imagino a agonia em que devem estar a família e a namorada deste homem. Ao ler as palavras da namorada, Elodie Almeida, publicadas no Expresso, até eu experimentei um pouco da angústia que elas veiculavam. Não posso falar pelos pais, nem pelos avós ou tios, porque não sou mãe, muito menos avó ou tia. Mas sou namorada, e é pelas namoradas deste mundo que eu mais sinto.
Quando li o texto da namorada do David Duarte no Expresso, tinha acabado de chegar de um serão com o Ricardo. Todos os dias penso na minha sorte em tê-lo como namorado e como o melhor amigo que alguém alguma vez poderá ter, em todas as dimensões do dia-a-dia. E só de imaginar o que seria dar com ele paralisado, ter de o levar para o hospital, e depois para outro, não encontrando lá resposta nenhuma senão sentimentos de impotência e sabê-lo morto dois dias depois... Só de imaginar que "pode acontecer a qualquer um", fico novamente chocada com a fragilidade e efemeridade da vida humana.
A perda não é completamente expressável. Pensar "e se tivesse comigo" rouba-me muitas palavras.
Só sei que uma morte estúpida (no seu contexto, na medida em que poderia nem ter passado pela cabeça de alguém se as devidas precauções tivessem sido levadas a cabo) não deixa de ser uma morte que choca. Todas as mortes chocam, mas morrer aos 29 anos por negligência médica é diferente de morrer aos 90 de causas naturais.
O que será desta namorada, a pessoa com quem mais me consigo identificar? Ela é que o acompanhou desde que surgiriam os primeiros sintomas de que algo estava mal. Foi também a ela que não se dignaram ligar quando foi declarada a morte cerebral do David. Que trauma!
Teriam eles planos de vida para o futuro, seriam eles felizes? E se os tivessem, e se o fossem, o que vai ser desta mulher de 25 anos? Como é que alguém vive em paz, sabendo que provavelmente lhe terão morto o amor da sua vida antes de terem tido, sequer, a oportunidade de serem felizes durante muitos anos, talvez para sempre? Aliás, até poderia acontecer o amor não perdurar e daqui a umas semanas terminarem a relação por unha do pé e meia. O problema é que a morte tem destas particularidades: elimina a possibilidade de todas as hipóteses futuras, as boas e as más, só deixa perguntas sem resposta.
Se me tivesse acontecido isto a mim... Ao Ricardo... Sei que nunca conseguiria superar a 100% o facto de o meu namorado ter morrido de forma tão violenta e desnecessária. Também sei que a vida continuaria e que a minha teria de ser emocionalmente refeita, ou remendada, mas tal só aconteceria porque eu e ele já falámos sobre estes temas (mórbido ou precavido, a verdade é que devemos estar sempre resolvidos com tudo e todas as pessoas, para que não fiquem pontas soltas na eventualidade). É provável que este casal, o Duarte e a Elodie, nunca tenha tido uma conversa do género e que ela agora fique com um fardo emocional nas mãos porque nem toda a gente que se põe a falar em "se, por algum motivo, te acontecer qualquer coisa" e a encarar realisticamente que a única condição para morrer é estar vivo, mesmo que sejamos os indivíduos mais saudáveis do mundo.
Se eu perdesse o Ricardo neste momento por causas semelhantes, a minha vida nunca mais seria a mesma. Imagino-me mais amarga, menos sorridente, mais nostálgica. Imagino os meses, ou anos, em que ainda ficaria a sonhar com o que teria sido um futuro com ele. Casaríamos? Não casaríamos? Teríamos filhos? Quantos? Com quem se pareceriam mais? E viveríamos num apartamento, ou teríamos conforto financeiro suficiente para vivermos numa moradia e fazer férias no estrangeiro todos os anos? E o Ricardo voltaria à universidade? Ou continuaria a ser um auto-didacta em diversas áreas do saber? Seríamos felizes juntos até ao resto dos nossos dias ou sofreríamos uma crise de meia-idade e pediríamos um divórcio sem concordarmos com as condições um do outro?
É melhor ficar por aqui. Eu sei que ter pena nem sempre é visto como o sentimento mais nobre, mas eu tenho muita pena da família e da namorada do David Duarte, da provação por que tiveram e terão de passar, até que no luto seja encontrado algum consolo.
É preciso morrer alguém e que a essa morte seja dado destaque na comunicação social para que sejam postas mãos à obra. É o país que temos, por enquanto.

 

(Nem a propósito, na semana passada, alguém muito próxima de mim chamou o 112 porque o pai tinha tido um ataque cardíaco, e quem a atendeu nem sequer o nome da rua sabia escrever, tendo perdido imenso tempo a fazer mil e uma perguntas sobre como soletrar, sobre o distrito, sobre referências... E ponho-me a lembrar que quando trabalhei no call center bastava pôr o código postal no Google Maps para saber onde é que a pessoa se encontrava. Verifica-se que o sistema adoptado por uma empresa para encontrar as lojas mais próximas da MiniSom é mais eficiente do que um sistema de cuidados de saúde em emergência do Estado para encontrar uma ambulância.)

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