Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Procrastinar Também é Viver

Blog sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Epá, que convencida!

07.04.22 | BeatrizCM

Talvez por causa da terapia, talvez por causa de procurar o que escrever, vou-me lembrando de coisas que aconteceram na minha infância. Pergunto-me: que experiências me terão moldado? Na maior parte das vezes, só me lembro de bocados desconexos e sem valor narrativo. De vez em quando, lá me ocorre qualquer coisa relevante. Ou curiosa, que me faz indagar.

 

Nunca gostei muito dos momentos de auto-avaliação no final de cada período no colégio. Sempre os achei desnecessários e causa para grande ansiedade. Se, por um lado, marcavam o final de mais uma fase de trabalho (missão cumprida!, que alívio, a seguir vinham as férias), por outro representavam um real suplício.

 

Não, não era um suplício pela nota. Eu não ficava ansiosa pelos resultados. Eles eram invariavelmente bons. Mas era de facto nesse ponto que o problema começava, que eu deixava de gostar do momento em que os professores perguntavam:

 

- Então, que nota achas que vais ter?

 

Até ao secundário, eu nunca estudei. Retirava prazer em ler por diversão, aprendia montes de coisas pelos livros, pelos filmes e séries, pelos documentários, em casa. Fazia os trabalhos na véspera e muitas vezes nem os fazia, mas chegava às aulas com as respostas na ponta da língua. Apesar de ter passado o oitavo e o nono ano de fones num ouvido, com o olho num livro, e o outro ouvido e o outro olho nos professores, os resultados nunca mudaram. De certa forma, eu fazia trabalho invisível e tinha muitas oportunidades para aprender fora da escola. Só não era 5 quando era 4. Só não era Muito Bom, quando era Bom+, com a excepção de Educação Física (sempre fui coerente).

 

Por isso, no final de cada período, eu devia responder, de forma confiante: eu vou ter um 5, porque fiz as contas e a matemática não mente.

 

Só que, quando eu (ou qualquer outro colega) respondia que merecia nota máxima, a turma caía-me em cima.

 

 

- Epá, Mendes, que convencida!

 

Eu podia retaliar. Podia apontar para as evidências. No fundo, eu nem sabia por que tínhamos de ter aquela conversa, porque não lhe encontrava nenhum benefício. No final, teria de fingir humildade. Um quatrozinho, por caridade. Afinal, eu não devia esfregar as minhas boas notas, interesse e diversão honesta perante a plateia que não conseguia tais resultados, nem proveito durante o processo (o que, com frequência, se justifica, porque já sabemos que nem todos aprendemos da mesma forma).

 

Ora, com doze ou treze anos eu era parva, mas não tanto, e nem sempre. Alinhava em responder que merecia um 4 na pauta, mesmo que estivesse ciente de que não era verdade. Só para dar o jeito...

 

Esta podia ser só mais uma memória aleatória de uma idade longínqua. Claro que sim. Podia tê-la deixado lá atrás e seguido com a minha vida. Contudo, mal me passou pela cabeça recentemente, não pude evitar analisá-la e escrever sobre ela. É o que eu faço, escrever.

 

Surgiram-me várias perguntas. Por exemplo, será de episódios assim que nasce a falsa modéstia? Ou, mais do que isso, será daqui que nasce a baixa autoestima? Tanto uma quanto a outra têm terreno fértil, já que só resta uma sensação de indiferença perante resultados positivos.

 

E, depois, o elogio à mediocridade. Quando se é tão novinho, isto marca. Se eu não tivesse alguém em casa que me repetisse, todos os dias, que o melhor é sermos nós mesmos e valorizar todas as nossas características únicas, o nosso esforço, as nossas qualidades, provavelmente teria pensado que a norma devia ser respeitada e que eu devia manter-me na média, se queria ser bem sucedida.

 

Por fim, também me pergunto: onde estavam os adultos, quando nesta e também noutras ocasiões, eu só obtinha reacções hostis ao reconhecer as minhas capacidades e interesses? Não acuso ninguém (até porque eram outros tempos, houve excepções, e a minha memória pode falhar), mas tenho de apontar que a falta de intervenção me deixava bastante espantada. Gostava que mais adultos tivessem dito "olhem lá, se ela fez as contas e tudo somado dá 93%, queriam o quê, que ela tivesse um 3 no final?!"

 

É como se, ao chegarmos à idade adulta, tivéssemos qualificações e experiência para ganharmos 1000€, mas só nos quererem pagar 800€. Ou os nossos colegas ou clientes acharem que sim, que é o que merecemos. Este gaslighting não nos é totalmente estranho, pois não?

 

Reconhecermos o nosso valor justo não é sermos "convencidos". Não é sermos arrogantes. Não é acharmo-nos melhores do que os outros. É acreditarmos no que merecemos, no que trabalhámos, no que sabemos fazer, no que conseguimos atingir. Acredito que devemos dizê-lo mais vezes às crianças. E também acredito que o devamos dizer aos adultos, caso eles se tenham esquecido.

 

Hoje em dia, continuo a fazer a minha auto-avaliação. Não dá sempre nota máxima, mas raramente dá menos do que o valor justo. Menos do que isso não é negociável.

Nota 5, pela confiança.