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Procrastinar Também é Viver

Blog sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Escreve, escreve, escreve, escreve, escreve...

06.08.22 | BeatrizCM

Queixo-me muito e com frequência de ter uma fraca memória. Há episódios da minha vida que se evaporam de tal maneira da caixa negra que, quando mas contam (ou recontam), é como se eu ficasse a saber de recordações de uma antepassada longínqua, vagamente familiar. São coisas que digo, coisas que faço, coisas que leio ou ouço, para mais tarde as esquecer... de novo.

A minha avó ralhava-me quando vivia com ela. Ralhava-me por causa desta cabeça fraca e despistada. Eu nunca me lembrava de recados, pedidos ou recomendações que ela me tivesse feito. Entrava tudo por um ouvido e saía pelo outro, dizia ela. E rematava "és igual ao teu pai, nunca se lembram do que vos digo". A genética não mente.

 

Esqueço-me de datas especiais, de quando as pessoas fazem anos ou estão doentes, esqueço-me de responder quando alguém me liga ou envia mensagem, do prazo para pagar a conta da água e do telemóvel, de enviar prendas de aniversário em tempo útil.

Esqueço-me dos nomes dos meus alunos e dos meus vizinhos. E, ainda pior, mais alarmante, uma causa de preocupação e de estarrecimento: raramente me lembro da história ou das ideias dos meus livros e filmes favoritos. Há pouco tempo, numa livraria, quis saber se tinham algum livro da Ann Patchett em stock, e não me lembrei de um único título para perguntar.

Assim sendo, resta-me escrever tudo, tudo aquilo em que penso, que aprendo e que tenho de fazer. Tenho um diário, cadernos para cada parte da minha vida, um quadro branco em cima da secretária, blocos e listas, resmas de post-its espalhadas pelas gavetas, um dossier com folhas soltas.

Quem me quer fazer feliz só tem de me oferecer cadernos. Não interessa se são de capa dura, de capa mole, folhas de gramagem alta ou baixa, cadernos Moleskine ou da loja dos trezentos, temáticos ou simples. Com as canetas é que sou muito exigente, e não admira que seja, porque preciso de canetas que não borrem e que deslizem rapidamente no papel.

A primeira vez que me apercebi verdadeiramente desta necessidade de escrever tudo deve ter sido na escola secundária. Comecei com listas de coisas para fazer. E depois poemas. Letras para canções que nunca foram musicadas. Ideias. Aos 16 anos, criei este blog. Nos anos da licenciatura, aprendi a usar as apps de notas e a minha vida nunca mais voltou a ser a mesma com a descoberta do Google Keep. E do Google Docs. A mais simples app de notas serve, para ser honesta, mas a capacidade de sincronização automática e simultânea entre vários dispositivos facilita tudo ainda mais.

 

Gosto muito do conceito de "segundo cérebro", aplicado às notas que tiramos. Tiago Forte é um impulsionador dessa ideia, e de como a organização pela escrita é um instrumento capaz de mudar a nossa vida. Ganhando competências de sistematização e organização da informação, libertamos a nossa capacidade mental para nos dedicarmos a outros assuntos, nomeadamente àquilo que nos motiva mais, que nos traz mais alegria e que nos faz sentir, como se costuma dizer, produtivos. Escrever é um ponto de partida para a organização, mental e no mundo exterior. Temos é de encontrar o suporte mais conveniente para o fazer, digital ou analógico.

 

 

Para mim, é mais uma questão de me sentir inteira. Integralmente eu. É importante sentir que não deixo nada nem ninguém para trás, que cumpro os meus objetivos e responsabilidades. Para isso, preciso de tantos cérebros quanto possível. De qualquer forma, adoro criar e ver a mancha de texto resultante. Dá-me confiança saber que está ali a crescer qualquer coisa material, palpável, mensurável, legível.

 

Na Oficina de Escrita de Crónica Literária da Tinta-da-China, Gregorio Duvivier dizia que o seu trabalho sobrevive à base de notas e rascunhos, mensagens para si mesmo, e que assim ficava garantido que nunca começaria nenhum texto com uma folha em branco. E não há nada pior do que uma folha em branco. Quando o ouvi dizer isso, ri-me com prazer e alívio. Faço o mesmo. Tenho pavor de começar seja o que for do zero.

 

Se não tivesse este hábito (ou mania), com certeza não conseguiria concretizar metade do que tenho concretizado. Não seria capaz de trabalhar e estudar ao mesmo tempo, já vai fazer dez anos em breve. Não conseguiria ligar os meus interesses. Seria impossível encontrar lógica para tudo. Seria impossível sobreviver partindo de páginas em branco.

 

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