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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Este não é um texto sobre estradas

25.07.18 | BeatrizCM

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Este não é um texto sobre estradas. 

 

Vamos lá ser directos e linguisticamente vagos sobre este tema: acabar uma relação de longa duração é uma... isso. Ficamos virados do avesso. Desorientados. Parece que perdemos uma parte do que (pensávamos que) éramos. É como se, a meio da peça que estamos a representar, nos faltasse subitamente o guião. Não há encenador que nos valha, os dramaturgos ficaram sem material e nós somos meros actores sem linhas para dizer.

 

Os seguintes pensamentos podem surgir aleatoriamente, por isso perdoem-me alguma incoerência ou atabalhoamento, já que a génese deste texto resultou duma conversa igualmente experimental que tive com um amigo (aquele que, ainda por cima, é das psicologias) e também me serve de chuva-de-ideias para o que ando a escrever. Se tiverem algo a partilhar, força!

 

O que senti de imediato, na altura, é que acabar uma relação é vermo-nos obrigados a alterar uma data de hábitos que tomávamos como garantidos, parte fixa dos nossos dias. Podia até ser apenas uma chamada ou uma mensagem antes de dormir. Podia ser um hobbie partilhado que passamos a fazer sozinhos, um nome que já não ouvimos ninguém chamar-nos (nem que seja o típico "oh amor"). Com mais ou menos margem de previsão, passamos a integrar e a adoptar novos ritmos, novos hábitos que substituem os antigos. Quebra-se a rotina.

 

Além disso, numa relação de longa data, ficamos com a sensação de conhecer a outra pessoa melhor do que ninguém e que, por outro lado, essa pessoa nos compreende como nenhum outro consegue. Não é preciso justificarmos a forma como nos sentimos ou comportamos. O outro entende o nosso horário de sono, o gancho das piadas que contamos, a nossa hesitação em situações sociais, com que tipo de pessoas mais simpatizamos, já sabe em que preciso momento vamos esconder a cara num filme de terror, lê as entrelinhas com fluência e é capaz de prever em quem votamos a cada nova época de eleições e porquê.

 

O que me leva àquilo em que desabou a tal conversa:
Quando, finalmente, começamos a ganhar alguma clareza e a tentar conhecer outras pessoas, resta-nos uma situação ambígua: por um lado, olhamos para trás, para esse cenário onde fomos tão felizes e nos sentimos tão confortáveis, mas cujo caminho se tornou uma estrada cheia de buracos que já não dá para retomar; por outro, um caminho virgem de terra batida onde temos de construir estradas a partir do nada, desde o início.

 

E construir estradas novas tem tanto de trabalho meritório quanto de tarefa hercúlea! Mas é uma real estucha, parece que nunca dá em nada e há mesmo caminhos que temos de abandonar, porque não há alcatrão que pegue nesses terrenos lamacentos onde chove e deslizam solos constantemente. E quando há rios (quiçá, mares) pelo meio e é preciso erguer pontes? Só de pensar, já me sinto exausta. Sim, é uma aventura, que lindo que é admirar a obra feita no final, mas ninguém nos oferece garantias de que aquela estrada alguma vez vai ser funcional! Ou que, no final, não se revela uma via estreita onde se anda de bibicleta com canteiros de flores (o que não é nada mau, mas e o investimento já levado a cabo em materiais para as infraestruturas rodoviárias?). É que uma pessoa até guarda na memória algumas noções de como ir dum sitio ao outro e de como desbravar caminho, vai olhando para a estrada antiga em busca de inspiração, mas o método é sempre diferente, são novos tempos, novos terrenos, novos veículos em circulação. Assim sendo, dá vontade de ficar antes em casa, criar gatos e viver as aventuras dos livros, que é mais económico e polui menos.

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