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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Eu, Inês

 

No quinto ano, passei a ter vários professores. Era uma novidade para mim, mas fiquei muito entusiasmada. Todos os dias, as caras e as matérias rodavam. Havia vários estilos de ensino, pessoas diferentes, livros que se retiravam da mochila, que se punham dentro, que se passavam para a prateleira debaixo da mesa, que se confundiam com os do colega do lado.


Também foi no quinto ano que descobri que me chamava Inês - ou assim julgavam os professores que se esqueciam do meu nome. Eu só pensava que, tal como eu tinha vários professores, também eles tinham vários alunos - aliás, muitos mais. Então, desculpava-os e esquecia o assunto.


Os anos passaram e cheguei ao fim da escola secundária como começara o quinto ano: obviamente, Inês. Ao longo deste tempo todo, foi esse o meu nome. Até vim a descobrir que os professores sabiam realmente que eu me chamava Beatriz - mas era normal olharem para mim e sair-lhes "Inês". Já me conheciam há mais dum ano ou dois e não o conseguiam evitar.


Depois, segui para a universidade, mais especificamente para a Faculdade de Letras. Foram três anos bastante felizes, durante os quais tive imensas disciplinas enriquecedoras e essenciais para a definição dos meus interesses até à actualidade. Quanto ao meu nome, metade dos professores acertava ao fim dum par de vezes e nomes aleatórios. A outra metade chamava-me, obviamente, Inês.

 

No fim da licenciatura, fui trabalhar e estudar para Banguecoque. Por acaso, nunca ninguém me chamou Inês - seria no mínimo estranho, dada a fonética estrangeira e falta de equivalente claro em inglês ou, Buda nos livre, em tailandês.


No ano passado, voltei a Portugal e tenho continuado a trabalhar e a estudar maioritariamente com estrangeiros, excepto numa empresa, onde tenho dado aulas de inglês há alguns meses. Penso que todos sabem que eu me chamo Beatriz por esta altura, mas ontem confirmou-se a perpetuação da saga: uma das alunas chamou-me, obviamente, Inês.


O mais engraçado disto tudo é que uma das coisas que me lembro de a minha família me ter dito quando era criança é que eu era para me chamar ou Beatriz... ou Mariana... ou, obviamente, Inês.


E, por acaso, tenho tido muita sorte com quem se chama Inês na minha vida. Há coincidências felizes! Isto é coisa de Inês.


Se eu já vivi outra vida, só poderei ter sido, obviamente, Inês. Se houver outra vida depois da morte, a minha única expectativa é que eu me chame, obviamente, Inês.