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Procrastinar Também é Viver

Blog sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Folhas

01.09.22 | BeatrizCM

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Eu, que leio tudo simbolicamente, que preciso de uma lógica mística e misteriosa para organizar o mundo, não poderia deixar de reparar nesta coincidência.

Em Julho, quando regressámos de um fim de semana prolongado fora de casa, a Couve estava amarela. Fui encontrar todas as folhas, enormes e normalmente suculentas, bastante desidratadas, finas e pálidas. Só uma folha nova surgia no meio do caule. Pequena, mas verde. Menos frondosa, mas viva.

 

Ainda pensei que tivesse sido falta de água, falta de luz, até falta de companhia. Fiz uma espécie de luto pela minha planta favorita, companheira de trabalho, teaching assistant nas minhas aulas por videochamada. (Quem vai lendo o que publico sobre esta planta, que insisto em humanizar, sabe que lhe ganhei uma certa afinidade.)

 

Ao fim de mais uns dias, desisti da reanimação. Nem toda a água de todos os rios do mundo poderia salvar as folhas murchas, três no total. E a pequena ali no meio, impávida, e serena, e verde. Cortei as folhas falecidas. Enquanto isso, surpresa: um rebento que surgia da folha sobrevivente, como um protesto tímido. Desde então, lá se encontram as duas a crescer.

 

Ao mesmo tempo, também eu sinto que pude deixar cair a roupagem antiga, que deixei amarelar sem querer. Tal planta, tal humana? Talvez.

 

Há algum tempo que me sentia pronta para acolher novidades. Já andava a dizer que precisava de um novo desafio, que os actuais já não eram suficientes ou que tinham mudado.

 

Umas circunstâncias levaram a outras. Ora pela força, ora pelo acaso. Faltava-me qualquer coisa, como se um bicho-carpinteiro me picasse, obrigando-me a estar em movimento.

 

E, depois, veio o fim de Agosto. Sempre adorei o início do ano lectivo e surgiram-me uns botões de folha que, não tarda, hão-de rebentar. Até a Couve já o antecipava. Hoje, já é Setembro!

 

(Foto: a Couve, 29 de Julho de 2022)