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Procrastinar Também é Viver

Blog sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Gutenberg, Adamastor e Florbela Espanca entram num blog e...

02.05.22 | BeatrizCM

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Gutenberg inventou a imprensa. Alguns séculos depois, alguém terá inventado os ecrãs. Estamos rodeados de papel e de ecrãs. Eu, pelo menos, estou rodeada de papel e de ecrãs. São eles que dominam a minha secretária e o meu escritório. Uns e outros fazem parte da minha vida desde que me lembro, não fosse eu uma millennial nascida mesmo a meio dos anos 90. Vivemos num mundo que muito deve a Gutenberg, mas que, em simultâneo, tem disponíveis tecnologias electrónicas inimagináveis.

Depois desta conversa fiada, perguntam vocês: o que têm Gutenberg e os ecrãs (de televisão, telemóvel, tablet, computador...) em comum? Têm quase tudo, sem surpresa. Aliás, já devem ter ouvido falar do projeto Gutenberg, uma biblioteca online que disponibiliza ebooks, de forma 100% gratuita (normalmente, obras que já se encontram no domínio público), com uma boa edição. Se a impressão de livros em série democratizou o acesso ao objecto e à leitura, o que diremos dos livros electrónicos? Lá voltaremos.

Entretanto, é caso para dizer: andou Gutenberg a inventar a imprensa, e cá andamos nós a armazenar e a ler centenas de livros e documentos sem precisar de impressões ou papel! Mas tudo uma por uma boa causa, e uma causa sustentável e acessível a todos.

Há alguns dias, fui contactada pelo Ricardo Lourenço, responsável pelo Projecto Adamastor, um projecto sem fins lucrativos semelhante ao projecto Gutenberg, mas para literatura lusófona. Também se trata de uma iniciativa dedicada à disponibilização, em formato digital, de obras literárias em domínio público. Nunca tinha ouvido falar dele, mas fiquei muito contente por saber que existe.

Tenho lido cada vez mais mulheres, primeiro de forma consciente, e agora só porque calha, porque me identifico e porque faz sentido. Nisto, até já ando a ler o último ebook lanaçado pelo Projecto Adamastor: Vozes Femininas, uma antologia de contos e novelas de escritoras do séc. XIX e início do séc. XX (e o que eu adoro ler e escrever ficção breve...?!).

Não conheço a maioria das autoras publicadas nesta antologia, mas não posso deixar de mencionar que, com todo o mérito, lá encontramos um conto de Florbela Espanca, "O Regresso do Filho". Ando a preparar um artigo sobre os contos de Florbela para a revista cultural e académica de Vila Viçosa, por isso tem sido uma figura muito presente, por quem acabo por nutrir um carinho e admiração cada vez mais especiais. Espero sentir algo parecido pelas suas colegas de "voz".

Felizmente, o acesso a bons livros e outros recursos escritos encontra-se cada vez mais facilitado pela existência de ebooks e ereaders (como o Kobo e o Kindle, assim como tablets e computadores). Fico cheia de esperança que cada vez mais pessoas o consigam ver e começar a utilizá-los.

Segundo este relatório da empresa OverDrive (distribuidora de conteúdo educativo), 38 000 escolas em 71 países triplicaram o uso de ebooks e áudiolivros desde 2019. Não admira! Afinal, são excelentes formas de fomentar o interesse dos alunos, trazendo-lhes facilmente os recursos necessários para as mãos. Se onde moro, em Vila Viçosa, só se arranjam livros no posto dos CTT e numa ou noutra papelaria (livros manhosos e edições desactualizadas e desinteressantes, maioritariamente), o que dizer de sítios muito mais remotos do país, da Europa, do planeta?

Isto faz-me lembrar, imediatamente, da saga dos computadores Magalhães. Claro que muitas pessoas tinham dúvidas sobre a sua eficácia. Claro que foi um projecto com muitas falcatruas por trás. No entanto, imagino que para muitos alunos tenha sido esse o primeiro contacto com um computador, com a Internet e os recursos digitais. Foi uma iniciativa louvável. Ainda espero, um dia destes, um novo plano de distribuição de tablets e ereaders, por exemplo, para que mais pessoas possam aceder ao livro, sem terem medo dele, sem acharem que o livro é só para uns e não para outros.

Devemos apoiar projectos nacionais que, tal como o Projecto Adamastor, fomentem a literacia, a literacia digital e o dispobilização gratuita de livros. Tornar a cultura acessível e interessante é uma missão ambiciosa, mas que apoio inteiramente.

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