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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Ler as notícias

Nos últimos meses, andei a sentir, mais do que nunca, a redundância das redes sociais e da comunicação social. No ano passado, o excesso de informação chegou mesmo a contribuir para os meus ataques de pânico e para o estado de pânico em que vivia em geral, mas continuei a consumi-la, ou a tentar consumi-la até ao início deste ano.

 

O excesso de informação fez-me sentir insuficiente. Eu queria ler as notícias, queria ler tudo, estar a par de tudo o que me interessava. Nunca achei que fosse FOMO (fear of missing out), porque eu não tinha medo, só tinha pena, antes considerando esta vontade de não estar alheia a nada como uma sede aparentemente saudável de saber mais. Afinal, se eu soubesse mais, também teria mais chances de ter tudo sob controlo.

 

Obviamente, isto não correu bem a longo prazo. A ansiedade constante é o preço a pagar, mas felizmente comecei a olhar em volta. Olhei para duas pessoas como exemplos especiais: o meu namorado só vê o telejornal ou vai ouvindo os canais de informação enquanto come, prepara a comida ou limpa a cozinha; uma amiga que é jornalista assegurou-me que nem ela está a par de tudo, apesar de trabalhar em notícias europeias para o nosso canal público. Nenhum deles é fã acérrimo de redes sociais, nem essa minha amiga, cujo trabalho também passa pela gestão de notícias no Twitter, Facebook, Instagram e por aí fora. Ambos consomem informação de forma equilibrada. Há momentos específicos para o fazer.

 

Aos poucos, apercebi-me da quantidade de tempo que passava com o nariz enfiado no telemóvel. Primeiro, instalei uma app para vigiar a utilização diária. Apesar de parte desse tempo ser gasto a trabalhar ou estudar (marcar aulas, tomar notas, falar com futuros clientes e parceiros, escrever, ler), a verdade é que cheguei marcar recordes inacreditáveis: entre cinco a sete horas por dia.

 

Desculpei-me a médio prazo com o facto de também passar muito tempo a falar com amigos e com o meu namorado por mensagens, e por nem sequer utilizar o computador. Por fim, descobri uma série nova de que gosto muito e concluí que aquelas três horas diárias a devorar episódios provavelmente correspondiam a três horas que eu passava a procrastinar na Internet noutros dias. Ora... Se tinha arranjado três horas para ver uma série, poderia continuar a arranjá-las sistematicamente para tantas outras actividades, certo?

 

Assim foi. Pelo meio, li o livro As Notícias, do meu autor favorito do momento, Alain de Botton. Neste livro confirmam-se as minhas suspeitas. Por exemplo, muitas das notícias que consumimos diariamente não são tão importantes quanto a urgência dos media faz parecer (e quem diz notícias diz conteúdos vários que nos passam pelos olhos avulso). Há uma tendência para a catástrofe, para o voyeurismo e para o que confirma a nossa suspeita de que o ser humano não presta. É normal, porque o nosso cérebro ainda não está formatado para a recepção constante de informação do século XXI, ainda não sabe seleccionar intuitivamente.

 

Enquanto consumidora, acho importante escolher conteúdos úteis e notícias que também sejam positivas, que não mostrem só a face negra da condição humana. Ser humano é saber o que vai mal no mundo, para assim sobrevivermos e sabermos o que há para melhorar, que batalhas lutar. Por outro lado, ser-se humano também é olhar para as conquistas, para feitos alheios e personalidades que admiremos, procurar respostas para o que podemos emular para nos desenvolvermos e crescermos; é regozijarmo-nos pela generosidade e talento alheios, é reconhecermos o valor acrescentado. É lermos e vermos informação graças à qual podemos tomar acção.

 

Em suma: nem sempre é imprescindível ler as fofocas sobre a celulite daquela cantora, nem conhecer os pormenores sórdidos do homem que assassinou a família com um machado, nem destrinçar a falência duma empresa do Japão ou o mais recente escândalo sexual ou político. Tal como no trânsito, podemos questionar-nos: que bem fará eu olhar? Que bem fará eu ler as notícias? 

 

Enquanto andamos distraídos a olhar para o lado - isto é, para as manchetes, alertas de última hora, títulos infindáveis sobre a nova crise da época, últimas descobertas científicas sobre propriedades antioxidantes do abacate colhido em lua cheia - podemos estar a perder algo realmente importante, bonito ou útil.

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