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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Livros: bilhetes de ida e volta para o resto do mundo

Não consigo imaginar um mundo sem livros. Aliás, literalmente, é-me impossível imaginar o mundo sem ter livros, nos quais posso ler acerca doutras pessoas, terras, momentos históricos, hábitos, tradições, formas de estar e pensar, cânones, situações e sentimentos.

 

Nunca me considerei uma criança ou uma adolescente particularmente sociável. Passei os meus primeiros cinco anos de vida em casa, sem irmãos, primos, pares da mesma idade. Sempre senti uma certa tendência a ser mais individualista, na medida em que me habituei a estar sozinha e a fazer muita coisa sozinha. Mesmo depois de entrar na escola, nunca causei furor entre colegas, gostava mais da companhia de adultos e continuei a preservar o meu espaço. Os livros, silenciosos e disponíveis, foram uma grande companhia e ensinaram-me, desde que aprendi a lê-los, a entender melhor as outras pessoas. Não viajei fisicamente até aos dezanove, mas já tinha viajado doutras formas. Além disso, os livros permitem-nos entrar no mundo mental, nas memórias de quem já desapareceu, doutros tempos. Acho que a vez em que melhor me apercebi deste alcance foi quando li a Brevíssima Relação da Destruição das Índias Ocidentais, de Bartolomeu de las Casas, provavelmente o primeiro relato do que realmente se passava no dito Novo Mundo, escrito na era dos Descobrimentos, no século XVI. Por conta dos livros, também viajamos no tempo.

 

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É assim que me sinto quando leio livros como The Thing Around Your Neck, de Chimamanda Ngozi Adichie - que posso viajar e conhecer outras pessoas sem sair do mesmo sítio. Graças a umas quantas páginas e histórias doutro lado do mundo, posso lá ir. Nunca estive na Nigéria nem nunca tinha tido interesse em saber mais sobre este país. Contudo, já li três ou quatro livros da mesma autora, o que me permitiu conhecer bastante do seu passado e compreender as circunstâncias presentes (nomeadamente, políticas). Nos últimos dias, o projecto Humans of New York tem contado histórias de nigerianos na capital, Lagos, e muitos dos entrevistados poderiam ser personagens dos livros da CNA, tal é a mestria com que ela relata as pessoas do seu país de origem; só que são indivíduos reais que, através da ficção, eu pude conhecer muito antes de a realidade se me ter apresentado. A ficção também tem o condão de nos abrir portas para o mundo verídico.

 

Em The Thing Around Your Neck, uma série de contos vai-nos apresentando histórias diversas sobre personagens inspiradas em nigerianos contemporâneos, com destaque para experiências de emigração para os EUA. Não gostei de todos os contos, mas a maioria não só foi capaz de me entreter, quanto ainda de gerar mais interesse sobre temas que até são da minha área de estudos, e de me fazer reflectir, sentir empatia, imaginar, sair da minha zona de conforto cultural, emocional, eurocêntrica. A escrita da autora pode parecer demasiado simples, sem floreados, desinteressante, mas é possível ir descobrindo o que realmente constitui o seu estilo e o que a torna especial. Consegue dar voz àquelas personagens que vivem entre a ficção e a realidade. Por isso, recomendo que leiam os seus livros na língua original, inglês, sempre que possível.

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