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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Não li sinopses e fui apanhada de surpresa: Dom Casmurro (Machado de Assis)

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Nos últimos meses, tenho lido cada vez menos ficção. Talvez por isso mesmo precise de ser cada vez mais surpreendida, por haver menos oportunidades para ler só porque sim, logo tal contexto convidar à procura de melhores experiências individuais, mesmo que escassas.


Comecei a não ler sinopses. No máximo, tenho lido as contracapas (mas não as badanas). A história tem um título que me agrade? Já ouvi falar bem? As primeiras páginas, lidas ainda na livraria, em amostras online ou em aventuras em estantes alheias lá de casa, conseguem suscitar a minha atenção? Então, não preciso de mais nada para continuar.


Não ler sinopses veio acrescentar-se ao hábito já antigo de não ler informação adicional antes de acabar a leitura do livro. Nada de entrevistas ao autor a propósito do lançamento desse ou doutros livros, comentários da crítica, opiniões várias fora do meio do Goodreads a que já me habituei. Prefiro ter o mínimo de contexto acerca do que gostaram ou não no enredo, estrutura, personagens...


E, depois, por causa destes cuidados redobrados, há surpresas, como Dom Casmurro, de Machado de Assis.


Não quero vir para aqui presentear-vos com spoilers desnecessários, mas digamos que eu nunca pensei que a história de Bentinho Santiago se desenrolasse assim. É daquelas narrativas mornas, muito lentas, mas que de repente ganham velocidade e pegam fogo a todas as nossas expectativas! Nossas... Entenda-se, as de quem não se tenha informado muito acerca do que se trata.


Desde a primeira página que pressenti que Dom Casmurro não chegaria a ser um dos meus livros favoritos. Sim, é um clássico (até o li inserido no tema de Março d'Uma Dúzia de Livros) mas o ritmo dos acontecimentos é irregular, o que ora me entusiasmava, ora me enfastiava. Foram menos de duzentas páginas que valeram por muitas mais - de certa forma, nem sei se duma forma positiva ou negativa.


Claro que, entre o "pára, arranca" da vida de Bentinho Santiago, vieram as surpresas. Estas não são realmente surpresas, porque são mencionadas na biografia de Machado de Assis e em sinopses menos generalistas que as da contracapa da edição que tenho de Dom Casmurro. Quando lá cheguei, até tive de reler algumas páginas. Senti que só podia ter perdido alguma coisa, entre as viagens de metro que gastei a ler, mas não. As fantasias da psique afectada de Dom Casmurro levavam a crer que tinha lido tudo bem. Pregou-me um desgosto.


Entre a análise fina dos costumes da época e dos humores, amores e desamores das personagens, em particular do narrador Bentinho, instalou-se tanta indiferença quanto caos. Restou-me fechar o livro sem saber se gostei ou desgostei em maior intensidade. Dom Casmurro foi um misto de tudo e mais alguma coisa. À parte a riqueza das referências intertextuais, da crítica social, da profundidade dos sentimentos e da vida da psique, ficou sempre a parecer que a loucura do protagonista deixou qualquer coisa a desejar.


Se já leram Dom Casmurro, de Machado de Assis, e também se sentiram desorientados quando finalmente acabou, digam-me como se consolaram dele.

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