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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

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Não sou (totalmente) contra a praxe

   Como cheguei a contar-vos, abandonei a “minha” praxe ao fim de três horas. Não me identifiquei, achei que a minha vida não dependia daquilo e que tinha mais que fazer. Tive colegas que passaram, noite e dia, durante duas semanas, imersos nos rituais de praxe. Não foram às aulas durante esses dez dias úteis e julgo que continuaram a faltar pontualmente sempre que havia algum evento relacionado.

   (Não me interpretem mal: eu falto a algumas das minhas aulas, chego atrasada propositadamente, sei que muitas delas são inúteis. Porém, nos primeiros dias de faculdade, eu queria era assistir a tudo e mais alguma coisa, pôr-me a par do que se passava naquele mundo novo, que tipo de professores eram os meus, se as matérias eram fáceis ou difíceis. Afinal, é para isso que estou a pagar mais de mil euros por ano - fora o resto.)

   Mas, voltando ao tópico inicial, a ideia dos doutores e veteranos era que os caloirinhos passassem o máximo de tempo possível nas praxes, mesmo que tivessem que faltar a compromissos e por aí fora. Eu é que fugi enquanto pude, eu que trabalhava na altura e eu que não ousava que colocassem em questão a minha assiduidade e participação nas aulas. Sim, foi uma escolha, e não fui a única a tomá-la, de entre todos os colegas.

   O que ainda me faz comichão é dizerem que é preciso haver praxe para os alunos se poderem integrar e conhecerem-se uns aos outros e à cidade onde estudam. Por acaso, infelizmente, na minha faculdade, até acho que isso é uma realidade: depois de abandonar a praxe, foram mais as vozes que se desagradaram do que as que apoiaram, e nenhum suposto doutor ou veterano se chegou ao pé de mim e se voluntariou para me apresentar fosse o que fosse. Se não tivessem sido alguns amigos mais velhos que conhecia noutros cursos a orientarem-me, os meus primeiros dias na FLUL ter-se-iam passado num reboliço, sem conhecer os cantos à casa nem as suas histórias e particularidades. Porém, nada de preocupações! Fiz bons conhecimentos na mesma, estabeleci óptimas relações com os meus novos colegas e no espaço de três ou quatro dias já estava fina, como se sempre ali tivesse estudado!

   Então, é preciso participar na praxe para sermos ajudados? É preciso participar na praxe para fazermos amigos? É preciso ser-se um doutor ou veterano trajado para se ajudar um caloiro não praxante? É preciso ser-se aceite em determinado grupo para nos sentirmos integrados nalguma coisa? É preciso faltar às aulas e sair-se à noite e tratar pessoas com a nossa idade na terceira pessoa, com deferência, para se ter toda a experiência académica em dia?

   Se não têm “aptidões sociais”, meus caros, arranjem-nas. Chamam-se carisma, simpatia, abertura de espírito, lata, desenrascanço. Chama-se “saber-se afirmar perante os outros”, “ter-se personalidade”. Não é preciso ir-se para a praxe para se fazerem amigos para a vida durante os nossos tempos universitários! Mas esperem…

   Não me quero aqui armar em desmancha-prazeres ou chata-do-contra, quero apenas mostrar a minha opinião, e ela é: não sou contra a praxe. Sou sim, contra a praxe violenta, que desrespeita os direitos individuais dos que nela participam. Sou, também, contra a praxe elitista, através da qual se estipulam hierarquias e lugares sociais – todos os seres humanos devem conviver em equidade, logo, se os estudantes são seres humanos (acho eu!), devem respeitar esse preceito.

   E a minha opinião é, igualmente: que haja fiscalização. Que ponham a polícia, as direcções das faculdades, as associações de estudantes ou o diabo a quatro, mas as praxes têm de ser fiscalizadas, para evitar que aconteçam mais desgraças como a que aconteceu no Meco e, provavelmente, em tantos outros pontos do país. E – aí sim – se a fiscalização ainda for ineficiente e não houver outra maneira de parar os excessos, não vejo que arranjem mais soluções senão ilegalizar o ritual de praxe em definitivo e absoluto. Será mesmo complicado…

   Por isso, não sou totalmente contra a praxe porque cada um tem o que quer e merece, e, se gosta de levar com farinha e pastilha elástica no cabelo, isso é lá com a sua pessoa; e, se gosta que lhe façam monocelhas e que o obriguem a rastejar na lama, ninguém lhe deve negar tal prazer masoquista. Até acredito que existam boas e recomendáveis praxes, cheias de boas intenções e excelentes para semear amizades duradouras e inesquecíveis. No entanto, alguém tem de defender os caloiros que não sabem dizer não quando existem abusos. Alguém tem de os fazer ver a luz, seja ela o que for, para que o ciclo não se perpetue e para que no ano que vem ou para o próximo eles não ajam da mesma maneira enquanto doutores, veteranos, duxes ou o que raio lhes chamarem, face às novas larvas, bichos, caloiros.

   E vejam mas é se começam a ajudar os caloiros não praxados a integrar-se, porque eles também são caloiros e também precisam de novos amigos! ‘Tá bem? Pode ser?

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