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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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O bicho de ensinar

Eu gosto de ensinar. Aliás, adoro ensinar. Acho que, no fundo, nunca me imaginei a fazer outra coisa. Antes, desculpava o bicho, porque pensava que ele só era alimentado pelo contacto quotidiano com os professores. Durante muitos anos, quase toda a minha vida, a escola foi a única realidade que conheci. A escola, os livros, os meus colegas alunos, eu aluna, os professores.
Então, tentei desmistificar o meu bicho. Pus-me a explorar outros interesses, a procurar o gosto pelo jornalismo, pela escrita, pela cultura, pela literatura. Mas cheguei sempre à mesma conclusão: o melhor mesmo seria poder ensinar todos esses outros bichos, ser professora de qualquer forma.
Quando ensino alguém, quando ajudo alguém com os trabalhos da escola, quando sinto que transmito algum tipo de conhecimento; esse é o momento em que me sinto mais realizada. Estou a contribuir para o mundo, estou a dar a minha parte. Sem o meu bicho, outras pessoas, crianças, jovens, quem quer que seja, não conseguiriam alcançar o que alcançaram. Não conseguiriam encontrar aquele texto especial que lhes levei e que nunca leriam num dos seus manuais, não aprenderiam a conjugar o verbo "conseguir" tão depressa, não passariam a perceber outras línguas de forma tão rápida, nomeadamente a língua do estudo eficiente e a língua da curiosidade.
Neste momento, só aspiro a professora algumas horas por semana. Contudo, já contornei obstáculos que se julgavam insuperáveis. Ressuscitei o Inglês, semeei o Francês e tornei o Português menos pandoresco. Neste momento, são só crianças e adolescentes, mas quem se seguirá no futuro?
Como inimigas, tenho as metas curriculares. São inimigas agridoces, que tanto permitem aferir o "conhecimento" contabilizável, como impedem o aproveitamento de outras competências tão importantes como o crescimento pessoal do aluno, a responsabilidade ou a curiosidade na aprendizagem. "Ah e tal, se o aluno obtiver essas competências, conseguirá aprender, logo terá melhores notas." Por muito que o desejemos, a situação não é assim tão linear. Há quem demore mais a chegar ao "conhecimento" contabilizável do que outros. Há quem simplesmente não se adapte ao sistema de avaliação como ele é imposto. Há quem seja apenas um aluno brilhante a Ciências Naturais e deteste Espanhol. É assim tão inédito?
E depois há outro papel de "professora de 7 horas por semana": o de colmatar o que os professores de 40 horas por semana não são capazes de transmitir: justificar o conhecimento, explicar para que é que serve a matéria, atribuir-lhe uma vertente útil. De que é que serve aos alunos estarem a empilhar Os Lusíadas durante seis meses, se não lhes explicam em que é que eles ficam a ganhar? Somos todos tão bons a escrever cartas de motivação para arranjar empregos de sonho, em empresas de sonho, e abafando a competição... Porque é que não escrevemos também uma carta de motivação em nome da escola e do saber e da matéria, que convença as nossas criancinhas, e os nossos adolescentezinhos, e os nossos adultinhos de que aprender não é uma seca e de que para tudo o que aprendem há um intuito?

 

 

[E, depois, cada vez que digo a um professor que quero ser professora, sou recebida com esgares de sofrimento. "Um desperdício, uma aluna tão boa, tão cheia de potencial, que pode fazer tanto mais na vida, a querer ser professora!" Já não pode haver professores cheios de potencial neste país. Preferiam que eu fosse trabalhar para o departamento de comunicação ou de relações internacionais de uma qualquer empresa? Ou que fosse para a redacção de uma revista online, light ou cor-de-rosa (onde acabam muitos alunos da minha área de estudos)? Não que houvesse algum mal nisso, mas agora acham que eu serei mais feliz, mais valorizada e mais útil para a sociedade se não escolher ser professora? Para que é que eu estou destinada, afinal??? Como é que esse potencial que me encontram pode ser aproveitado?
Ser-se professor já não é ter uma profissão nobre. I wonder why...]

 

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