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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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O primeiro dia

12.05.18 | BeatrizCM

Não eras o meu amor, eras o meu amigo. Não me davas só flores, davas-me abrigo. Agora, não sei quem és, já não sei com quem vivo. És só alguém que se parece contigo.

("Agora", Carolina Deslandes)

 

Acho que escrevo isto para quem está desse lado e que poderá estar a passar pelo mesmo. Ou que terá passado por alguma situação semelhante. Ou que poderá vir a passar. São só meia dúzia de pensamentos, umas quantas conclusões sobre quase nada.

 

Costuma a sabedoria popular avisar que ninguém é de ninguém, que não devemos tomar pessoa nenhuma como garantida, mas isso são tudo frases bonitas, que na realidade não se aplicam com tamanho grau ético. Se não descansássemos o coração, se não pensássemos que tudo há-de correr bem, que há estabilidade e que poderemos contar às cegas com os outros, o que seria feito de nós? Passaríamos a vida inteira com o coração nas mãos; morreríamos, novos e exaustos, de ansiedade.

 

Portanto, quando surgem falhas, ou quando somos apanhados pela imprevisibilidade do que vai na cabeça - na vida - da outra parte, corremos o risco inevitável de levar um banho de água gelada, de nos sentirmos engolidos, incapacitados, consumidos e amputados duma parte do corpo que nem sabíamos que existia. O pior é começar de novo. Encharcados. A patinhar o chão. A salpicar todos por quem passamos. 

 

Metáforas à parte, o pior é começar de novo. Acordar num dia aleatório dessa fase da qual nem nos recordamos bem (porque é tudo tão igual, mas tão confuso), pensar que já chega e colocar todos os mecanismos de superação em trabalho reforçado. Este é só o primeiro dia, custa horrores e se calhar nem nos lembramos de quando ou como aconteceu. É um dia sobre o qual nem reza a história.

 

Ligamos aos amigos todos, aguentamos mais uns sermões sobre como o outro lado é que terá ficado a perder (até também acreditarmos nisso de forma veemente), experimentamos todos os argumentos que apoiam uma última mensagem (só mais uma!), os amigos levam-nos a jantar a ver se o mal é da fome, deixam-nos brincar com os filhos para despistar o relógio biológico, contam-nos as histórias deles (que, por norma, tendem a ser mais conflituosas, tortuosas e conturbadas do que as nossas), planeiam arranjinhos com outros amigos solteiros, distraem-nos com mais comida... 

 

Algum tempo depois, damos por nós a pensar cada vez menos nessa pessoa, a pensar que, de facto, a coisa não correu bem, mas que nem tudo foi mau e há que lembrar isso com carinho e respeito, que a hipótese de reconciliação nem a nós nos agradaria porque o que era já não é, mas que - surpresa - se calhar até há pessoas bestiais que andam por aí e que ainda nem conhecemos. E que todos merecemos encontrar a felicidade e que não nos devemos martirizar nem aos outros por tentarem também o melhor que podem, porque não é justo deixarem-se ficar como estão e serem infelizes.

 

Além disso, começamos também a acreditar no que andávamos a repetir como um mantra: temos saúde, trabalho, amigos que nos alimentam e nos emprestam os filhos, uma família que nos desculpa passarmos as noites inteiras fechados no quarto a ouvir discursos motivacionais, que há mais peixe no mar, etc.

 

O que fica definitivamente é um sentimento irremediável de incompreensão. Como é que é possível sermos, sentirmo-nos, tão próximos de alguém e, numa questão de dias, passarmos a habitar esferas que nem se tocam? "Porquê a mim, que fiz o melhor que pude e soube?" Por que é que nem há notícias, um cuidado, uma chamada? "Nunca mais vou encontrar alguém assim!" Enchemos esse vazio de respostas, primeiro com comida (um elemento omnipresente na minha recuperação, viva os mil-folhas e o ginásio), depois com gente positiva ou que faça por nos compreender, com novos hobbies, com novas rotinas, deixamos de achar piada a músicas de The Script (I am the woman who can't be moved, I'm still alive but I'm barely breathing, you're going through six degrees of separation, lá lá lá, pronto, já chega, Beatriz) e passamos a evitá-las, experimentamos redes sociais onde nunca tínhamos imaginado entrar... tentando sempre perceber até que ponto é possível separar o antes do depois. Testamos limites, possibilidades de recuperação. 

 

Mas tudo se vai fazendo, garanto-vos que o panorama vai melhorando a pouco e pouco, praticamente sem notarmos.

 

Para mim, a chave tem sido levar um dia de cada vez, sem elevar demasiado as expectativas, tentanto aceitar que não podemos controlar tudo. Podemos querer muito que aconteça qualquer coisa que talvez nunca venha a acontecer (ou vice-versa, podemos tentar impedir que aconteça sem o conseguirmos evitar). 

 

Por isso, cada dia é um primeiro dia. 

 

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