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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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O resto dos primeiros dias

18.06.18 | BeatrizCM

Já aqui escrevi que há sempre um primeiro dia em tudo, nomeadamente no que toca ao fim duma era, ao fim duma relação, ao fim dum amor. Por acaso, eu lembro-me mais ou menos desse dia que decidi tornar o meu primeiro, mas apenas porque conduziu a uma série de eventos que é possível localizar no tempo com precisão.

 

No entanto, cada vez mais me apercebo de que essa série de eventos constitui, sim, essa série de primeiros dias que tenho experimentado. Há um primeiro dia para quase tudo.

 

Estou a acabar de ler um livro (sobre o qual vos irei escrever, com toda a certeza) que me tem feito pensar no percurso que um amor calca, desde que deitamos os olhos em alguém interessante pela primeira vez, passando por uma relação épica, até que, por algum motivo, pela combinação duma infinidade de circunstâncias, cada um segue o seu caminho. Nesse livro, também se fala dos tais "primeiros dias", o que me tocou bastante.

 

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Essays in Love, Alain de Botton

 

Tocou-me, porque, pela primeira vez, li nas palavras de alguém, tão longe geográfica e temporalmente (o autor é suíço, residente em Londres, e o livro foi escrito antes de eu nascer) o que eu já defendia e que sinto que as pessoas que me rodeiam não compreendem: os primeiros dias são feitos do esforço para criar novas memórias e hábitos. Como numa cassete, gravam-se novas cenas por cima das antigas. Aquele restaurante onde só íamos com X? Há que voltar lá com outras pessoas, talvez os nossos amigos mais queridos, que deixarão uma marca eficiente nas nossas novas memórias. O sofá lá de casa, onde tantas vezes nos aninhávamos? É passar lá mais tempo a realizar um projecto pessoal significante, como ler o nosso novo livro favorito ou mesmo a escrever um - senão, convidar outra vez os amigos para lanchar e para maratonas de filmes. O local A, B, C? Fazer o mesmo, escrever memórias por cima, partilhar esses espaços com outras pessoas e em contextos renovados. O objectivo? Deixar de associar tudo o que possamos encontrar na nossa vida diária, necessariamente, à mesma pessoa, ao mesmo conjunto de emoções.

 

É assim, então, que encaro a criação de primeiros dias. São passos pequenos, quiçá minúsculos, em direcção a alguma paz, para que o coração não entre em sobressaltos constantes. Mal comparado, é como aquele dito popular, "a sarna dum cão cura-se com a sarna doutro". Não digo que precisemos dum "rebound" na forma doutra pessoa como alvo romântico, mas cada vez entendo com maior clareza que o "rebound" pode ter origem em várias pessoas, vários locais, várias razões, várias actividades. O dito "rebound" é multilateral. Não é a sarna dum só cão, é a sarna de vários cães, gatos, periquitos, lebres, roedores, até de tartarugas e peixinhos de aquário. É a minha avó sentada na minha cama até eu conseguir adormecer quando mais me custava, são os meus amigos a dizer-me para eu ter vergonha na cara cada vez que ameaço lamentos por mais de cinco minutos, é uma ou outra nova amizade ou as que se aprofundam, é a viagem à Escócia, é o meu trabalho, são os livros novos que compro e leio, novas músicas, séries e filmes, é a minha festa de aniversário, é a tarde de ontem sozinha na praia, são os almoços-surpresa com o meu pai, as conversas com a minha tia, é a minha sobrinha pequenina que me vê tão poucas vezes mas que parece já ter consciência de quem sou, é este blogue, é o ginásio, são os cursos livres que tirei, o mestrado que aí vem...

 

E, assim, vou coleccionando não só primeiros, como também segundos, terceiros e quartos dias. E por aí fora.

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