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Procrastinar Também é Viver

Blog sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Os poetas passam recibos verdes

24.01.22 | BeatrizCM

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No belíssimo livro Vamos comprar um poeta, de Afonso Cruz, os poetas são comprados como bens de consumo, como quem adquire um aspirador. Acabam por ser uma mistura de animais de estimação e escravos, usados para bel-prazer dos seus proprietários - que, por um lado, não os entendem e chegam a troçar deles; mas que, por outro, se apropriam das suas gracinhas (dos seus versos e dos seus pensamentos) para fazer brilharetes perante outros humanos.

 

A sensibilidade e talento dos poetas e o seu contributo para a sociedade são, desta forma, menosprezados. Os poetas não passam de macaquinhos, uma espécie de bicho raro e extravagante sem nada para oferecer ao mercado e que, ainda por cima, causam despesa a quem os tem. A certa altura, uma personagem diz que uma experiência a faz sentir "Como se fosse lucrativo". Ela queria dizer que se sentia bem. Só o lucro importa.

 

No pequeno livro de Afonso Cruz, os poetas são seres marginalizados, equiparados a papagaios. Todo o livro é triste, incluindo a nota do autor, no final. Ainda assim, há esperança.

 

E é com uma nota de esperança que também escrevo este texto. Porque paguei parte da faculdade e pequenos luxos da adolescência e do início da idade adulta a escrever, ora com prémios literários que fui ganhando, ora com um trabalho a escrever para blogs através de uma agência de marketing. Porque quero continuar a escrever, por ser o que mais gosto de fazer, e a ser paga por isso. Porque quero que as minhas competências sejam valorizadas. Porque não quero ser vista apenas como um bicho raro, como o são os poetas da história de Afonso Cruz.

 

A ideia de talento ainda é limitada no nosso inconsciente colectivo, como se ter talento, ou ter jeito, fosse uma característica adquirida à nascença. Não é possível contabilizar o que aprende ou como pratica um artista (sublinhemos: um profissional da arte), dado que nada disso é mensurável. Por isso, mantemos a ideia de "talento", que por sua vez forma a ideia de que escrever, pintar, desenhar, tocar um instrumento ou fazer artesanato são "gracinhas", passatempos.

 

E podem ser. Mas, para muitos, estas actividades são o seu trabalho. Aliás, para muitos, o passatempo dos outros é uma fonte de rendimento extremamente interessante, sem esforço. É o que concluo, cada vez que alguém me envia um e-mail ou uma mensagem a pedir para divulgar isto ou aquilo, para lhes escrever reviews de livros que publicaram, até para escrever para sites profissionais e cheios de amor pela arte e cultura... a custo zero. Lá pelo meio, mencionam que os temas e a abordagem ficam ao critério da autora. Dizem-no com orgulho, até, o orgulho de quem não quer maçar muito, e de quem ainda se prontifica a tratar da promoção do texto ou trabalho nas suas redes sociais, provando como todos podem tirar dividendos deste acordo. A anedota faz-se sozinha... a bendita exposição não nos compra a casa, enlatados ou consultas no dentista.

 

No fundo, eu sei de quem é a culpa. A culpa é desses indivíduos, empresas ou entidades, mas também pode tornar-se facilmente culpa de quem o faz de graça, sem cobrar. Estas duas partes alimentam-se mutuamente. Porque os primeiros precisam de arte e engenho, e os segundos precisam que a sua arte e engenho sejam vistos. Eu sei, porque também já o fiz. Também já escrevi para o P3 do Público, cheia de boas intenções e motivação, até que reparei que o acesso às minhas crónicas começou a ser barrado pela paywall. Ou seja, eu escrevi conteúdo gratuitamente, mas esse conteúdo nem sequer está disponível para que eu e outras pessoas sem assinatura leiam. Nem sequer pode ser usufruído pela comunidade, que era o que eu mais queria. Aprendi a minha lição.

 

É muito chato pagar a quem escreve ou faz umas coisas. Afinal, o discurso público sobre a arte é, insistentemente, que é uma coisa gira que uns tipos fazem, esquecendo-se de que, se é uma coisa gira assim tão insignificante, pode muito bem ser feita por qualquer pessoa, como lavar a loiça ou cuidar de suculentas. E por que não o fazem?

 

Escrevo este texto cheia de esperança, mas a partir de um sítio de grande revolta, enquanto profissional das humanidades e das artes. Escrevo com indignação, em nome uma carreira que começo a construir de forma cada vez mais sólida e reflectida, com formação superior e profissional à altura. Estou a frequentar, nomeadamente, um mestrado em Estudos Comparados e uma pós-graduação em Escrita de Ficção, enquanto escrevo dois livros e concorro a vários prémios literários por ano. Com toda a minha vida a girar em torno das Letras (incluindo o facto de ser formadora certificada, professora de Português e Inglês, e ter formação em edição e revisão de texto), o mínimo que peço é que tenham a noção e decência de não tomar o que faço como uma palermice ou um passatempo.

 

Sim, eu tenho um blog. Muita gente tem blogs. Não somos pagos por isso, mas assim é porque o determinamos. Para mim, este blog é uma espécie de diário ou caixa de apontamentos sobre a vida, sobre as pessoas de quem gosto, sobre os livros que leio e os filmes que vejo, sobre aquilo que penso. Sobre quem sou. E é o espaço em que, simplesmente, pratico. Por isso é que me recuso a escrever sobre outras coisas e assuntos além dos que me apetece, por apetecer.

 

Fora deste blog, sou uma trabalhadora independente que tem contas para pagar e uma vida para desfrutar. Passo recibos verdes, pago impostos e pago Segurança Social.

 

Se gostariam de trabalhar comigo, contactem-me. Prometo profissionalismo, seja porque precisam de alguém que escreva para um blog ou para outro tipo de publicação, opine sobre um manuscrito, edite ou traduza um texto, ensine Inglês ou Português.

 

E depois disto, ainda querem comprar um poeta?

 

***

Na imagem: a autora no seu local de trabalho, o escritório, onde dá aulas, assiste a aulas, envia e-mails, escreve, passa recibos verdes, emite declarações, paga contas e procrastina.

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