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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Pelos direitos das criancinhas

 

Todas as crianças devem ter direito a quem assista às suas necessidades. Devem ter um porto de abrigo. Devem estar rodeadas de exemplos e figuras protectoras. Devem poder estar acompanhadas na sua descoberta do mundo, fazendo uso das suas faculdades em desenvolvimento, nomeadamente imaginação, empatia, perspicácia, inteligência emocional, comunicação interpessoal.

Em vez disso, cada vez me apercebo mais da quantidade crescente de ditas mães, em particular nos transportes públicos, que preferem ter as fuças (que não há outra referência anatómica possível) na porcaria do telemóvel. Temo pelo dia em que os psicólogos deste mundo comecem a divulgar resultados científicos sobre sintomas de abandono precoce por causa de dispositivos tecnológicos terem sido mais importantes para as figuras parentais do que os filhos, futuros pacientes que encherão os bolsos de terapeutas dentro de menos de uma década.

Sim, é verdade que estas mães podem estar cansadas. Podem querer ter um momento de descanso, nem que seja dois minutos de prazerosa indulgência nas redes sociais desta vida, uma palavrinha no grupinho de WhatsApp com as amigas, alguns momentos em que a mulher com vontade própria se sobrepõe ao chamamento da maternidade...

No entanto, deixem-me insistir nesta crítica: vejo mães com as fuças metidas nos ecrãs, com as crianças a apontarem para aqui e para ali, olha ali, um semáforo, olha ali, outro menino, oh mãe, olha que giro, olha ali, o que é aquilo...? Não é uma vez, não são duas nem três, chegam a ser dez minutos de tortura para quem rodeia estas progenitoras obviamente alienadas da natureza. Está quieto, deixa-me em paz, olha as pessoas, estás a ser chato, estou a ficar sem paciência, estás-aqui-estás-a-levar, epá, cala-te, já não te posso ouvir. Primeiro, as crianças rejubilam ao maravilhar-se com o mundo; depois, começam a falar mais baixinho, com cuidado; finalmente, choramingam e conformam-se.

São não só ignoradas, mas admoestadas e silenciadas. E mais: são ridicularizadas. Crianças pequenas, talvez quatro, cinco ou seis anos, a serem ridicularizadas pelas próprias mães, por estarem a ser chatinhas, por não estarem quietas, por não estarem caladas, por estarem a fazer barulho em público! E tudo isto a ser dito enquanto nem sequer as olham nos olhos, sempre com a merda dos narizes enfocinhados para a frente, cegas, frias, embrutecidas como bestas de carga de palas nos olhos.

Ridículo é este modelo de maternidade (não sendo a minha amostra representativa, ainda nunca vi nenhum pai fazer tal coisa). É ridículo e triste. Teremos toda uma geração muito em breve que terá sido preterida em função de caixas de luz com texto e imagens. Se a minha geração perdeu pais para os amantes, para a bebida, para o jogo, para as dívidas e outros vícios que tais, as vindouras perdê-los-ão para a entropia digital dos nossos dias. A indignidade desta realidade crescente revolta-me e só aumenta o meu descrédito nos cidadãos contemporâneos. Correndo o risco de ser injusta, quiçá politicamente incorrecta (uuuuuuh), quem nem consegue criar os filhos, estimular-lhes as capacidades cognitivas, físicas, ou simplesmente por não lhes conseguir mostrar o que é o amor... não deveria receber uma visitinha das entidades competentes?

Ora, vergonha alheia. Toda a gente sabe que as criancinhas só servem para sacar likes no Instagram.

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