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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Pensamentos sobre tentar escrever um livro (outra vez), auto-censura e outras inquietações

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Ando a tentar escrever um livro há anos. Há cerca duma década (portanto, quando era um bebé), ganhei alguns prémios literários revelação a nível nacional, no secundário ganhei outros do município onde estudei, cheguei a escrever um ou dois livros pequenos e muito maus, e, depois disso, parece que fui amaldiçoada por uma praga que me impede de prosseguir além da terceira ou quarta página de seja o que for que tente criar, por muito boa que a premissa inicial seja.

 

Eu sei o nome dessa praga. Aliás, foram várias. Foram as ilusões e desilusões da adolescência. Foi a adaptação à escola pública. A descoberta de autores que eu pensava - e penso - nunca ser capaz de superar. Foram os exames nacionais. A entrada na universidade. Conjugar estudos e trabalho. Viagens, intercâmbios. Foi o fim da licenciatura e o processo de "adultização". Foi o trabalho e os estudos simultâneos outra vez. Foi o meu regresso e as respectivas desventuras. Foi a permanente auto-censura de achar que nunca sou capaz de escrever nada de jeito, ou que não tenho experiência de vida que me credibilize.

 

Mas, na verdade... Sabem o que foi? Sabem o que talvez ainda seja? Falta de concentração. Falta de compromisso. Muitas e variadas desculpas. Socorrer-me da alegria e da tristeza para justificar a minha falta de acção. Ora estou tão feliz que nem tenho tempo para escrever, porque uma pessoa feliz não é tão criativa. Ora estou tão infeliz que não arranjo paciência para pensar nos meus dramas, quanto mais nos das personagens.

 

Entretanto, esgotei as desculpas. Tenho trabalhado muito menos do que alguma vez trabalhei nos últimos cinco anos da minha vida. Ando num período em que não me sinto arrasada por nenhum sentimento positivo ou negativo que me permitam desleixar e entrar num novo ciclo de "não tenho cabeça para escrever".

 

No início da semana passada, recomecei a escrever. Uma coisa é escrever um texto para o blogue, que me costuma levar duas ou três horas a escrever, na loucura, e em que só me preocupo com as minhas inquietações. O registo é informal, é só uma espécie de monólogo. O formato é simples, o enredo vai-se desenvolvendo sem eu ter de puxar pela cabeça, a trama é muitas vezes desinteressante e, em geral, não estou preocupada se vou suscitar vozes críticas ou não.

 

Então, comecei a escrever uma coisa qualquer que tem de ter qualidade literária, gerar interesse e ter o potencial de criar reacções nos outros, de ser relevante para mais alguém além de mim. Quer dizer, não sou do tipo de pessoa que escreve para ficar na gaveta. Ah, e também tenho de o fazer de modo a não olhar para o texto, franzir o sobrolho e pensar, de novo, "mas que grande porcaria, ainda não vai ser desta".

 

Escrever um livro, ou essa coisa qualquer (que não tem outro nome) assim é difícil, porque é um compromisso a longo prazo. Não se escrevem dez páginas num dia. Ontem, por exemplo, escrevi um parágrafo. Noutros dias, se calhar vou só reler e rever. Ou pensar. Vou ter de aguentar esta história que tenho na cabeça por meses. Ou pior, anos. Vou ter de arranjar uma lógica para o que quero contar. Quem são os protagonistas... ainda nem sei bem. Tenho de conhecer essa gente toda. Tenho de lhes dar um propósito na vida e um motivo para existirem na minha cabeça.

 

Quando começo a escrever, sei o que quero contar, mas não como o fazer. Por vezes, só quero que essa narrativa passe a existir, à custa de duas cenas que imaginei e que tenho de encaixar algures. Isto quer dizer que ando a tentar escrever pelo menos uma centena de páginas, somente porque ando a idealizar umas quatro. Não faz sentido, mas sinto-me no dever de as pôr na ordem.

 

Outro factor de censura quanto a escrever um livro é ter medo que alguém que faça parte da minha vida real se reveja nem que seja numa borbulha duma personagem e me venha pedir satisfações. "Olha lá, isto não sou eu?" Já aconteceu e a ideia teve de ficar na gaveta. Neste momento, estou a tentar adoptar uma posição mais neutra, mas também mais discreta. Obviamente, é impossível não incluir detalhes, características ou manias de pessoas que eu conheço (nem que seja alguém que eu tenha visto ou ouvido no comboio, o que também já aconteceu), por isso faço questão de entrar em enormes afazeres mentais para camuflar e misturar tudo o que possa. Se não conseguir fazê-lo por algum motivo, tenciono comunicá-lo a quem o tiver de fazer, se essa altura chegar (afinal, o que escrevo até pode nunca chegar a ver a luz do dia).

 

Deixei-me de censuras e auto-censuras, ando mais num "logo se vê", excepto no que toca a escrever com regularidade e disciplina. Por outro lado, há que ver esta tentativa como um passatempo mesclado de ambição pessoal. Sem pressão... Bem, só  bocadinho. Desde que li o Bird by Bird da Anne Lamott que meti na cabeça que "pássaro a pássaro" é a melhor estratégia. Vamos ver se também funciona comigo. Quão difícil pode ser escrever um livro? Muito. Mas ninguém gosta mais de desafios do que eu. 

 

(Se não for desta, têm permissão para me azucrinar a cabeça.)

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