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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procura-se uma alegre casinha, tão modesta quanto eu

Não é para mim, é para uma amiga, começa assim este texto, da forma mais sincera e menos deslumbrada possível. Já vivi do outro lado do mundo e, quando regressei, não me quis iludir: ter onde viver em ou perto de Lisboa é um luxo hoje em dia. Acabei de ver num grupo de Facebook um lote para venda num parque de campismo nos subúrbios por 20.000€. Vamos rir para não chorar? Na zona da minha casa, o preço de vivendas geminadas aumentou cerca de 50.000€ desde o ano passado, quando também andei atenta; já nem há apartamentos para alugar, só para comprar - eu vivo a quase uma hora e meia de Lisboa. Como é que é possível?

 

A minha família deixou Lisboa e mudou-se para a margem Sul do Tejo há mais de 30 anos. Há menos de 20, um certo ministro chamou à margem Sul "um deserto". Certamente nunca terá passado por Almada, Seixal, Amora, Barreiro, Quinta do Conde... Há muitas décadas que a margem Sul já não é o destino de férias e fins-de-semana dos lisboetas. Com o advento da Fertagus e outras empresas de transportes, o distrito de Setúbal foi recebendo cada vez mais pessoas, Lisboa passou a ser cada vez mais acessível, enquanto os passes a custos reduzidos implementados este ano têm aumentado a procura de habitação na extensa área metropolitana de Lisboa. O trânsito e os carros continuam lá, mas os comboios, barcos e autocarros seguem todos os dias um pouco mais cheios do que no dia anterior.

 

Eu ainda não estou activamente à procura de casa, mas os meus amigos estão. Ora porque vivem demasiado longe de Lisboa para que as viagens diárias sejam sustentáveis, ora porque querem constituir a sua própria família, ora porque querem simplesmente ter o seu espaço - e, neste último grupo, também me incluo - precisamos de viver nalgum lado. 

 

Temos falado várias vezes sobre sair de Lisboa. Não será fácil, mas vemo-nos a procurar emprego noutras zonas do país, onde seja mais barato (quiçá possível) viver, onde não tenhamos de ser mais uma formiga numa lata de sardinhas à qual que chamam transporte público, onde possamos respirar, onde não tenhamos de andar aos encontrões com ninguém, onde não tenhamos de perder tempo de vida dum lado para o outro. Lisboa é uma cidade em franco crescimento, mas com elevados custos para o bem-estar da população, reduzindo-se a qualidade de vida constantemente, quando as infraestruturas e os serviços já não conseguem dar resposta a tantos habitantes (quando temos de tirar senha quatro meses antes para renovar o Cartão de Cidadão; ou quando deixamos de ter vaga para os nossos filhos nos jardins de infância e escolas públicas).

 

Os meus amigos querem encontrar casa, eu quero encontrar um escritório só para mim. Lisboa não tem espaço para nós. Será que Lisboa não nos quer? 

 

Claro que nada é tão simples quanto isto. As leis do mercado imobiliário ditam que os preços podem continuar a aumentar. Ainda há muita procura. No entanto, até alguns estrangeiros que se estão agora a mudar ou a pensar mudar-se para Lisboa começam a fazer contas à vida. Eu sei disso em primeira mão, porque são eles os meus clientes e potenciais clientes. Trabalho e falo com eles todos os dias e sei disto em primeira mão: nem os rendimentos médios americanos, ingleses ou alemães conseguem pagar 2000€ ou 3000€ por um apartamento onde possam construir uma família com o conforto desejado. Investimento estrangeiro my ass. Nem os estrangeiros ficam com vontade de investir os seus rendimentos neste país.  Lisboa chegou a ser cool promovendo o seu baixo custo de vida. Agora... agora nada.

 

O que pagamos em impostos, o que recebemos em salários e rendimentos, versus o que nos pedem por um quarto esconso que seja... São desproporcionais. E não, não queremos viver em quartos para sempre, nem em casa das nossas famílias. Em vez de estarmos a progredir, estamos a regredir. Na geração dos meus pais, além de haver emprego, havia a possibilidade de se ter uma casa própria - um luxo, não é verdade? Agora, vivemos em partes de casa, se calhar até dividimos um quarto com mais pessoas. Sabem quem fazia isso aqui em Lisboa?  Os meus bisavós. Há setenta anos. 

 

(E, já viram...? Se as pessoas que conheço não têm a possibilidade de pagar uma habitação própria, sendo efectivos nas empresas e instituições onde trabalham, ganhando pelo menos 50% mais do que o salário mínimo em início de carreira e tendo um nível académico superior, o que será das pessoas que não cumprem estas condições...? Será esta cidade só para os ricos, mesmo ricos, ostracizando todos abaixo da classe média alta...?)

 

Ah e tal, mas isto é tudo porque Lisboa está a desenvolver-se, ou preferimos ter Lisboa como era antes? Este argumento é tão humilhante para quem constrói a sua vida na capital, que nem merece resposta.

 

Então, e quem vive e trabalha em Lisboa, para o que conta? 

 

Durante as férias, passei por Tomar. Fiquei com vontade de me mudar logo. Espreitei várias montras de agências imobiliárias e babei pelos preços apresentados. Pagando o mesmo que pagaria por um mero escritório de 10m2 sem luz natural em Lisboa, poderia arranjar um T2 ou T3 no centro da cidade de Tomar; poderia andar dum lado ao outro em menos duma hora, teria espaços verdes, parques, restaurantes, livrarias, lojas de roupa, museus, cineclube, escolas, o instituto politécnico... Tudo isto ali, a menos de duas horas de Lisboa (da "civilização"). Quão utópico é querer-se viver, em vez de se sobreviver?

 

Pergunto-me se não começaremos a sair de Lisboa, aos poucos. É isso que a maioria dos meus amigos ambiciona neste momento. Afinal, quem está mal muda-se, não é verdade? Eu provavelmente também não terei vontade de continuar por cá, se tiver oportunidade de viver noutro sítio. Lisboa já não me parece uma cidade sustentável. Vivemos no "demais" constante. Já nem o oásis de viver no meio do pinhal e a 20 minutos das praias me parece suficiente nos tempos que correm, se para lá chegar tenho de passar por provações e agitações que me achincalham os nervos e me cansam mais do que o próprio ritmo diário de trabalho e enriquecimento pessoal e profissional. Perco quase metade dum dia de trabalho a deslocar-me, e o que me salva é trabalhar por conta própria e poder evitar horas de ponta e escolher quantas e a que horas trabalho.

 

Não sou economista, apesar de me interessar por estes temas, por isso não vos sei responder o que seria necessário fazer para melhorar Lisboa, se regular os preços do mercado imobiliário, se aumentar os rendimentos das pessoas, se construir e renovar mais casas na Grande Lisboa, se outra coisa qualquer. E se fosse só isso... Ainda teríamos de pensar nos problemas que surgem duma cidade sobrehabitada e sobreexplorada. Sei que não é assim que os indivíduos que contribuem para o desenvolvimento duma cidade que se diz tão na moda, um exemplo de criatividade, inovação e empreendedorismo, merecem viver. Onde está o retorno? Quando essas pessoas deixarem de ter forças e motivação para contribuir, quem é que quererá cá ficar? 

 

Por agora, procura-se uma alegre casinha, tão modesta quanto eu, mas sem pressão. Pode ainda não ser para mim, pode ser para os meus amigos. Ainda tenho outros planos para o meu dinheiro, mas gostava de ter esperança, de saber, que a liberdade de voltar a ter o meu espaço é uma realidade e não um sonho inconcretizável. Ficarei à espera que esta bolha rebente. Plop.

 

(Entretanto, lembrei-me de que já escrevi sobre este tema... É clicar...)

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