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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Professorar ou não professorar?

Sempre me disseram, a partir do momento em que escolhi Línguas e Humanidades no secundário, que se era essa a minha escolha, então "ia para quê, para professora"? No fim do nono ano, era esse cenário que quase me impunham, como se nas humanidades não houvesse espaço para mais nada senão o ensino e, pior ainda, como se houvesse algum mal em ser-se professor. Senti este criticismo da parte de, principalmente, colegas e, ah ah ah, professores (feliz e curiosamente, a minha família nunca se preocupou com as minhas opções escolares e académicas, sempre confiaram em mim), mas também nunca me deu para pensar em particular nessas atitudes acusatórias. E sim, eu cheguei a ouvir "que desperdício, uma aluna com tão boas notas a ir para Humanidades!". Oh, sim, tem sido terrível, já agora.

No entanto, só por volta do décimo primeiro ou do décimo segundo ano é que comecei a levar essa alternativa de me tornar professora a sério. Motivada em grande parte pela pressão normal para me candidatar a uma licenciatura que me fizesse sentir concretizada, submeti-me a montes de introspecção e avaliei todas as minhas opções: basicamente, todas aquelas que poderia imaginar no domínio das humanidades e até algumas mais viradas para as ciências (!!!- estou a brincar, pensei em Psicologia). Com uma média bastante satisfatória, pude dar-me ao luxo de pensar e repensar muito.

O ensino começou então a mexer comigo, devagar, devagarinho, quase parado. Na verdade, ainda me mói o juízo de vez em quando. No ano passado, o primeiro da licenciatura em Ciências da Cultura, comecei a dar explicações mais a sério (já gostava de as dar por gozo), neste caso a alunos do ensino básico e... gostei. Gosto, a melhor dizer. Adoro sentir que estou a marcar alguma diferença na maneira como os "meus miúdos" olham para o verbo estudar, adoro ver as caras deles quando descobrem que não é assim tão difícil, adoro saber que a minha missão foi cumprida ao assistir ao sucesso deles.

Atribuo grande parte da "culpa" desta minha queda aos óptimos professores que fui e que vou tendo ao longo do meu percurso. Também tive maus e mesmo péssimos professores, mas "desses não reza a História". Os bons continuam a exercer influência no modo como vejo o ensino e a própria actividade de ensinar, de dar a conhecer e de explicar.

Dito isto, impõe-se uma pergunta: será que eu gostaria de ser professora a longo prazo? E outra: será que eu gostaria de ser professora em Portugal, no ensino público? A resposta à primeira ainda está por conhecer, mas a resposta à segunda é um assertivo NÃO. Pelo menos, enquanto as condições de trabalho do pessoal docente não levarem uma debandada de alterações que lhes restituam a dignidade a que todos os seres humanos têm direito.

É que, hoje em dia, os professores parecem não ter direito a nada. Assentar arraiais e constituir uma família é quase considerado um luxo. Começar a carreira é extremamente difícil, mas até que ponto os professores serão capazes de chegar vivos ou, no mínimo, com ânimo ao dia em que ela estabilizar, finalmente?

Eu quero ter liberdade para conciliar o meu projecto pessoal de vida com o meu projecto profissional, por isso será que devo esperar desenrascar-me no ensino, mesmo que tenha de fazer alguns sacrifícios? Será que vale a pena correr esse risco?

Dada a situação actual do país, em específico com as falhas frequentes e permanentes do Ministério da Educação (e respectivo ministro, é de sublinhar) perante os professores e, por consequência, perante os alunos, é difícil adivinhar um futuro fácil. Basta ligar o telejornal durante os últimos dias para perceber que a coisa não está nada bonita.

Ter passado de “condenada a ser professora” para “potencial professora em formação” não me facilitou a vida. Aliás, parece-me que ando sempre atrás dos caminhos mais difíceis, das escolhas mais manhosas.

Será que é melhor explorar outra qualquer vocação que me assista e esquecer esta história? Ná, provavelmente isso não vai acontecer, porque o que tem de ser tem muita força.

Estejam atentos aos próximos episódios.

 

(Outro texto recomendado: http://coconafralda.clix.pt/2014/10/professores.html)

2 comentários

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    BeatrizCM 12.10.2014 12:10

    Ora aí está, continuemos à espera da mudança, mas lutando sempre por ela :)
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