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Procrastinar Também é Viver

Blog sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Ser jovem - mas a que custo?

15.11.21 | BeatrizCM

Jovens. Hoje em dia, chamam-nos jovens até termos 40 anos. A partir dos 40, começamos a dizer "os 40 são os novos 30", e por aí fora. Jovens, para sempre, até que esse sempre se acabe.

 

Há alguns meses que ando a escrever uma data de crónicas sobre dores várias, sendo uma delas inteiramente dedicada esta inquietação (que é minha, e que talvez também seja vossa):

- Ser "jovem", mas a que custo?

 

Por um lado, queremos ser jovens à força (se os outros indivíduos, a sociedade e as instituições querem que o sejamos, como não haveríamos de o desejar de igual forma?), seja jovem de idade, de condição física, de aspecto, de leveza. Mas, repito, a que custo?

 

Pessoalmente, vejo-me a braços com uma frequente infantilização e frequente desdém por ser nova, e por parecer ainda mais nova. Por ser jovial. Como quase tudo na vida, é coisa que não mata, mas que mói. E dói. É coisa que, paradoxalmente, envelhece, se não o rosto, talvez a alma. Algum dia serei um ser humano pleno de direitos e de presença?

 

Sou incapaz de perdoar a condescendência e a displicência com que tantos sujeitos (homens e mulheres, sem distinção de nota) tratam a minha geração. A sobranceria. A superioridade. A irresponsabilidade com que se dirigem a nós, que temos agora 20 ou 30 anos. Caramba, até 40.

 

Ora somos a promessa para o futuro, os derradeiros arautos iluminados, nascidos para curar o sofrimento da humanidade; ora somos bebés de colo, irredutivelmente inábeis e carentes de cuidados, mas imerecedores de atenção, porque ainda não somos parte desse grupo selecto de "crescidos". Eles é que sabem. Nós vamos comendo na mesa do canto. Nós, "jovens", somos, para tantos, homens e mulheres pela metade. Rapazes e raparigas. Miúdos. Crianças.

 

Ser "jovem" pode tão rapidamente ser um elogio (tão jovem e já alcançou tanto!) ou pode ser desprezo (é jovem, sabe lá da vida!).

 

Parece resmunguice, mas de um ponto de vista social, da organização da vida em comunidade, a infantilização crónica de uma determinada geração é grave. Atrasar o "crescimento" dos indivíduos no jargão partilhado é nocivo, porque, se somos "jovens", não somos humanos plenos de direitos e com acesso ao kit mais básico de dignidade - nomeadamente, um salário que condiga com as nossas qualificações (e com a condição humana), autoridade no nosso meio académico e profissional, respeito por parte de entidades de serviço público com os quais temos de lidar para, simplesmente, viver (bancos, hospitais, mercado imobiliário, instituições políticas...). Afinal, um dia acordamos e somos "velhos" que nunca tiveram a chave para a existência plena. E, mais uma vez, somos descartados. É essa uma face do meu medo.

 

Somos "jovens", portanto não somos adultos. Aos 26, começo a acreditar que, aos olhos de algumas pessoas com quem me venho cruzando, talvez nunca chegue aos 15. Talvez passe directamente para a terceira idade.

 

E por isso é que guardo sentimentos ambíguos quanto aos chavões "Qualquer Coisa para os Jovens". Estarão mais próximos duma benção ou duma maldição?

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