Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Sobre o que eu penso ser o choque cultural

Não houve qualquer hipótese da minha licenciatura em Ciências da Cultura, ou as experiências de intercâmbio em que participei, me prepararem para o que é o choque cultural sobre o qual vos venho escrever.

 

Quase no fim desta experiência a viver no estrangeiro, cheguei à conclusão de que há vários graus de choque cultural, que nalguns aspectos traz habituação, noutros traz frustração. 

 

Habituei-me à comida picante, ao trânsito louco, à falta de raciocínio rápido e pragmatismo, à ausência de pontualidade, à língua (que aprendi a falar, pelo menos de forma a desenrascar-me e a mostrar educação e gratidão), aos contrastes da população, à mistura de mundos, às casas de madeira à beira dos canais a conviverem ao lado dos condomínios modernos de 20+ andares, à hierarquização e aos alunos que se prostram aos meus pés para me falarem, aos tailandeses que estudaram no estrangeiro e dos quais não se sabe o que esperar, ao sotaque tailandês que esquarteja as outras línguas em arestas flácidas. 

 

Mas, depois de todo este processo de habituação e de tantas outras alterações a concessões a que submeti a minha forma de pensar, comportar e viver, também cabe aos tailandeses decidirem se querem acolher-me (ou a qualquer outro estrangeiro) na sua própria comunidade. Eles dizem que sim, e é verdade, eu sei que eles querem mesmo acolher os estrangeiros. 

 

O problema é que falar é mais fácil do que concretizar. Na minha opinião, as relações entre pessoas resultam de negociações bilaterais constantes. Dá-se e recebe-se. A maioria dos tailandeses dá o suficiente, não dá aquilo a que não é obrigado. Assim, as relações que fui estabelecendo ficam pela rama.

 

Não me queixo, apenas tento analisar. Fiz amigos, estou-lhes agradecida por me terem acolhido, dentro do que se conseguiu, mas o meu conceito de amizade quer ir mais longe, precisa de mais, quando o deles não. Trabalhar e viver num meio exclusivamente tailandês, trabalhar para o governo, viver nos subúrbios, leva-me a sentir que necessito de mais do que o que me querem dar e talvez seja isso o verdadeiro "choque cultural": a negociação mal sucedida ou insuficiente de conceitos tão abstractos quanto amizade, carinho, sentimentos, emoções, visões do mundo.

 

Para mim, todos estes conceitos estão no fim da linha da adaptação cultural, porque não são uma necessidade vital, mas sim o que sustém a vida a longo prazo, o que torna possível viver no estrangeiro ou longe do sítio onde crescemos.

 

Há vários níveis de choque cultural. Primeiro, não gostamos da comida. Depois, perdemos a paciência com a maneira diferente de fazer as coisas. Quando já nos resolvemos quanto aos primeiros choques ("é mesmo assim!"), mais desafios se apresentam. E mais. E mais. E mais complexos. E a exigirem mais de nós. E podemos vencê-los, moldando indefinidamente a forma como pensamos, comportamos e vivemos; ou chega a uma altura em que já não dá mais. É assim que eu me sinto.

 

Não me sentir parte de nenhum grupo ou comunidade é o derradeiro efeito do meu choque cultural, que é um choque do que se sente no coração e no fundo do estômago. É o resultado da procura de sentido na vida dos outros, quando só se encontram portas meio abertas. É o choque de se tentar aprofundar o superficial, de passar os colegas a amigos, que não funciona. O derradeiro desafio da transculturalidade.

 

Mas não faz mal! É mesmo assim. Faz tudo parte desta experiência que é a vida humana. A minha vida. Estou em paz com o que posso dar e receber. Já referi o quão agradecida me sinto por poder, sequer, escrever acerca de tudo isto? 

 

(E, não tendo concluído o meu mestrado por cá, posso dizer que aprendi o suficiente para uma pós-graduação em gestão da interculturalidade! )

2 comentários

Comentar post