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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Solidão no meio de dez milhões

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Foi em Bangkok que me senti só pela primeira vez. Custa muito admitir que nos sentimos sós, porque é mais fácil estarmos em negação. Quando cheguei ao ponto de o reconhecer, já tinha passado por muitas fases.

 

A primeira fase foi arranjar sempre algum bode expiatório para o descontentamento. No início, não podia ir a casa no Natal. Depois, arranjei uma forma e fui. Dois meses depois, mudei de apartamento, culpando as baratas debaixo da bancada da cozinha que me comiam o jantar, o lixo à saída do condomínio e a má gestão do edifício. No novo condomínio, sentia falta dum animal de estimação. À revelia das regras - ainda que à semelhança da prática de tantos outros vizinhos - arranjei um gato. Depois do gato, veio a minha avó. Por dois meses, senti-me acompanhada, mas sabendo que não iria durar para sempre.

 

Entretanto, a fase de estar triste sem saber porquê. Uma melancolia imensa, um vazio e muita inquietação.

 

Por fim, a consciência de que me sinto... de que me tenho sentido só. Do outro lado da linha, chegam-me palavras cheias de amor, mas essas só se ficam pela metade. É pela falta delas que me sinto assim, é por, como acontece com os fantasmas, as poder ouvir e ver, sem lhes tocar, que me sinto isolada neste mundo que é o mesmo, parecendo uma realidade paralela.

 

Não sei se é assim que todos se sentem quando se mudam para outro país. Espero que não. Talvez eu sinta, por acréscimo, todo o isolamento cultural, geográfico, visual como consequência de estar tão longe.

 

Bangkok é uma cidade com dez milhões de pessoas, mas nunca me senti tão sozinha antes, nem quando vivia num sítio com uns poucos milhares de pessoas.

 

Tenho amigos em Bangkok, mas cada um está na sua vida, cada um vive noutra ponta da cidade. Estar longe da família e daqueles que amamos tem disto. Não há ninguém à nossa espera em casa, raramente há quem se disponha, à última hora, a acompanhar-nos seja onde for. Não há certezas de nada. Não há ninguém que possamos alcançar à distância duma chamada.

 

Mas, se eu precisar dalguma coisa, é só ligar - dizem eles.

Do que eu preciso é de não ter de ligar.

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