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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Dá vontade de dizer "forever and ever"

Quando comecei a namorar à séria, o meu pai garantiu-me que não havia amor como o primeiro. Na altura, eu já tinha tido um pseudo namorado, mas contei sempre essa pseudo relação como um fling adolescente, passageiro, muito sofrido e quase platónico. Dito isto, passei sete anos com essa deixa na cabeça, de que o primeiro amor é que é, principalmente para justificar por que a minha segunda relação foi boa, mas morna, sempre a faltar qualquer coisa sem saber bem o quê. Afinal, o primeiro amor é que tinha sido o melhor e provavelmente nada nem ninguém o iria superar. Conformei-me e acreditei que era este o fado duma relação adulta e desencantada, assente no real e na experiência palpável, sem os unicórnios e arco-íris de algo que começa quando somos tão novos e tudo também é novo e fresco. Se a minha primeira relação começada na idade adulta não tinha fogo-de-artifício nem confettis, era porque nem sequer era suposto. Afinal, duas pessoas que já viveram grandes e pequenas relações já vêm marcadas, têm as suas manias e hábitos estabelecidos, e têm vícios e expectativas goradas - perdão, devidamente alinhadas.

 

No entanto, parece que o meu pai não tinha razão (não é a primeira vez, claro). Talvez haja quem nos traga os confettis, o fogo-de-artifício, os unicórnios e os arco-íris como se fosse a primeira vez que os vemos, quem nos devolva a expectativa dum segundo ou terceiro amor como se fosse o primeiro, porque - aliás - é o primeiro do seu género, entre estas duas pessoas, nestas circunstâncias específicas. E eu olho para ele e acho que é bom demais para existir; e a pessimista que há em mim tentou alertá-lo para o quão desarranjada sou, mas num ápice ele fez-me ver que afinal eu só não tinha conhecido alguém que me fizesse relembrar o quão inteira posso ser; e aquilo que eu imagino que um homem (e um parceiro na vida) deve ser ele é sem lhe ter sido recomendada a lição; e ficamos bem nas fotografias, mesmo quando ficamos muito mal; e ele faz a minha família rir imenso, tanto quanto sinto que a família dele me faz rir; e ele está sempre a guardar as minhas mãos nas dele; e somos tão diferentes e tão iguais (a concordar quase sempre sem grande esforço, sendo eu tão caótica e ele tão comedido) que preenchemos todos os pré-requisitos para nos ser permitido usar clichés quando nos descrevemos forever and ever.

 

Além disso, ontem houve almoço de família e ele trouxe três tipos de pão artesanal, acrescentado ao facto de comer tudo o que a minha avó lhe põe à frente, alinhar na piada e confusão de ter o mesmo nome que o meu pai, e não fazer soar nenhum alarme à minha tia, por isso só pode ser uma excelente pessoa, a adição perfeita à malta lá de casa.

O primeiro dia de aulas

Porque só tenho boas memórias no que toca a aprender. Porque a meio de Julho já não aguentava de entusiasmo pela aproximação a meados de Setembro. Porque fazer ou esperar pelos horários e pelo ritmo semanal que me esperava nos meses seguintes me faz falta. Porque o cheiro dos livros novos e as capas imaculadas dos cadernos acabados de comprar me deixavam adivinhar o momento em que iria começar a escrever neles. Porque o meu último regresso às aulas nesta altura já foi há quatro anos. Porque estudar e ir à escola ou à universidade é também uma actividade social de que tenho saudades. Porque foi na escola que vivi os melhores momentos da minha vida. Porque quero voltar a sonhar com o que ainda não aprendi, os professores com quem ainda não falei e os colegas que ainda não conheci. Porque há três anos lectivos que me falta uma data para marcar o início de um novo ciclo (a conversa da continuidade é engraçada, mas não há nada como a expectativa de poder começar - quase - do zero). Porque este foi apenas mais um dos 3 Verões - consecutivos - mais estranhos de que me lembro. Porque preciso duma rentrée mais suave, como antes.

 

Gostava de poder voltar a ter o primeiro dia de aulas na terceira semana de Setembro.

Feliz ano lectivo para todos! 🍀

Procura de identidade, propósito e pertença: Normal People (Sally Rooney)

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Embirro com modas, por isso não acredito logo nos grandes êxitos de vendas e de Goodreads. Costumo fazer um finca-pé insistente e certamente irracional no que toca aos bestsellers. Como refinada snob, orgulho-me de não acreditar nem à segunda, nem à terceira, às vezes nunca. Ainda por cima, tenho evitado ficção nos últimos tempos, porque simplesmente me sinto incapaz de pôr o nariz na vida doutras personagens, já tendo o suficiente no meu prato. No entanto, apesar da hesitação, mais cedo ou mais tarde dou o braço a torcer, principalmente quando pessoas em cujos gostos eu confio começam a falar muito bem dos ditos.

 

Aconteceu com Normal People, de Sally Rooney. Já andava com vontade de o ler, mas a procrastinação da leitura preliminar continuou, e continuou, e continuou. Até que a Rita falou bem dele no nosso último encontro Uma Dúzia de Livros, desmanchando todas as minhas muralhas anti-êxito de vendas. Pronto, está bem, dois dias depois já o tinha na mão, acabei de o ler em menos de 24 horas... Foi um deslumbramento imediato, uma urgência sôfrega, nem tive tempo de me aperceber o que tinha acontecido. Foi um fartote de chapadas e montanhas-russas, apenas comparável ao meu romance pirosão favorito One Day, e mesmo ao amigo de faca e alguidar, Love, Rosie. Ao longo dos anos, já tenho escrito sobre o primeiro e digo-vos: este Normal People é ainda melhor.

 

Porque não é só lamechice. Não é só sobre o desencontro de protagonistas antagónicos durante vários anos. É tanto, mas tanto mais do que uma história superficial sobre dois jovens adultos. Na verdade, mais do que isso, é uma história sobre assimetrias sociais, sobre as relações entre pares, entre famílias e entre a família, a procura de um propósito na vida, a procura da pertença e um lugar no mundo, a transição para a idade adulta e, enfim, é sobre o que significa (querer-se) ser normal. É sobre como a relação que temos com outras pessoas molda quem somos e em quem nos tornamos, para onde vamos, aquilo de que gostamos. Este livro pôs-me a pensar sobre todas essas variantes, condicionantes e temáticas na minha própria história pessoal e das pessoas que me rodeiam. Assim, sem dúvida que vale a pena ler ficção. 

 

Dito isto, o design do livro e a estrutura do romance podem fazê-lo parecer o corriqueiro young adult, mas não se deixem enganar pelas aparências. Tive de pousar o livro várias vezes, de tão incomodada que me sentia, debatendo-me simultaneamente com a vontade de ler mais um página, e outra, e outra. Não querendo brincar com as vossas expectativas, espero mesmo que gostem de ler Normal People, pelo menos metade daquilo que eu gostei. A autora Sally Rooney rendeu-me, fico a aguardar pela série, e em breve darei uma chance a Conversations with Friends.

O fim dos anos "teen" (nãããão!)

Os últimos tempos têm sido de constante mudança. Não sou só eu - também todos os meus amigos estão a tornar-se indivíduos adultos e a definir com cada vez mais clareza que tipo de pessoa, com que tipo de interesses, com que tipo de ambições vão ser.

Ando muito nostálgica por estes dias. Neste grupo, há quem já esteja a dar os primeiros passos numa carreira musical, há quem já esteja quase a acabar os seus cursos, há quem tenha terminado relações de longo prazo sem muito mais futuro, há quem continue à procura de novas soluções e de novos caminhos. Mas todos, todos nós começamos a ficar cada vez mais diferentes uns dos outros. As personalidades que têm sido moldadas durante anos anteriores estão a estruturar-se e a solidificar-se. Mesmo que as pessoas se encontrem em permanente evolução ao longo da vida, creio que no final da adolescência deixe de haver aquela mudança constante que sentíamos quando tínhamos 15, 16, 17, 18 anos. Foi como se, entre os 19 e os 21 anos, se estivesse a operar uma magia qualquer.

O meu grupo de amigos, não aqueles que fiz posteriormente na faculdade, mas sim aqueles com que cresci (uns, desde os tempos de colégio, outros que conheci no secundário) enchem-me de uma ternura imensa. A diferença de idades, entre os 17 e os 23 anos, não interfere, porque andamos todos muito a par dos restantes no que toca à evolução pessoal. Penso que, acima de tudo, fico feliz por ninguém estar a ficar para trás e por poder assistir ao que cada um vai fazendo com a sua vida.

Tenho muita sorte por todos os meus amigos gostarem uns dos outros. Eu sou amiga de todos eles, nem todos são amigos do peito entre si, mas entendemo-nos às mil maraviilhas e, quando uma parte do grupo se decide juntar, juntam-se todos e acabou-se. Acho que já o referi aqui imensas vezes e hei-de repeti-lo sempre que me sentir tão nostálgica quanto neste momento.

É o fim dos teen, não é? Está-me a bater aquela impressãozinha que me aperta o coração.

Tornar-se adulto deve ser "isto"... O pessoal não sabe se há de permanecer nos teen, se há-de ser c'xido.

Acho mas é que "isto" é tudo muito repentino e precoce, pá! Estou mas é depressiva!

Velhos... estamos a ficar velhos!

Aqui me encontram a ter pensamentos de velha. É que nem a minha avó - setenta e um anos em cima daqueles ossos e músculos imparáveis - deve dar por si a tê-los. Como a sua neta. Agora. E durante os últimos dias. Ora fui eu que fiz dezoito anos há umas semanas, ora amanhã é a minha melhor amiga (aquela!, a que conheci no meu primeiro dia na pré-primária), ora é a outra que já vai para o segundo ano da faculdade, e o outro que fez vinte anos na segunda-feira, mais o meu namorado, ainda ontem... Como é que, parecendo tão de repente, chegámos onde chegámos e inaugurámos esses abstractos e enormes conceitos de "futuro" e "projecto de vida"?

 

Porém, a questão principal é esta: a partir de que idade é que ultrapassamos o limite máximo da infância e passamos à idade adulta? Com dezoito, dezanove e vinte anos, continuo a ver-me a mim e aos meus amigos como criancinhas tardias, miúdos e miúdas com vários direitos que ainda lhes são estranhos, assumindo responsabilidades de gente grande, responsabilidades para a vida, mas que continuam a fazer caretas uns para os outros, a berrar no meio da rua, a borrar a cara com gelado, a organizar festas de pijama e a não querer comer os legumes e a sopa. Estamos naquela fase em que, embora já não brinquemos com bonecos, ainda temos vontade de (voltar a) permanecer na ignorância acerca de determinados factos da vida e da sociedade e de continuar a depender do papá e da mamã para isto e para aquilo. Desconhecemos a nossa própria condição.

Este é o momento em que me sinto questionar cada vez com mais persistência o que se seguirá depois do "agora". Calculo que não seja a única. Penso que, no geral, havemos todos de passar por certas ocasiões decisivas para os nossos percursos pessoais em que qualquer alternativa por que possamos optar nos pareça susceptível de ser "a tal". Queremos seguir em frente e descobrir o que aí vem, desejando simultaneamente arranjar tempo para poder tentar e errar e voltar a tentar qualquer uma das opções que se nos apresentem.

É como se voltássemos àquelas reuniões de família aborrecidíssimas em que nos isolávamos por não nos identificarmos com ninguém - nem com os nossos primos mais novos, nem com os nossos pais, tios e avós. Se nos identificarmos, sequer, com as nossas pessoas, já vamos com sorte! Aí é que deve residir a resposta às minhas questões: seremos sempre crianças ou adultos, ou um misto dos dois, enquanto quisermos e quando melhor nos aprouver. No imediato, não encontro outra possibilidade...

Quando for grande...

Costumamos perguntar muitas vezes às criancinhas o que querem elas ser quando forem grandes.
Quando andava na primária, dizia que queria ser veterinária e só descobri que já não o desejava ser quando tinha mais ou menos dez anos e tive de ver o meu companheiro de brincadeiras na infância, o Misha (cão), sofrer à conta dos tratamentos violentos a que o submetiam. Também eu sofri muito ao assistir a tal suplício e, perante a minha aflição, o veterinário da família saiu-se com uma frase que me marcou imenso e que, provavelmente, nunca esquecerei - "Há pessoas que gostam demasiado de animais para serem veterinários". E ele tinha razão: eu mal era capaz de os ver levar uma vacina, quanto mais imaginar-me numa sala de operações com as tripas deles nas mãos, sob a minha responsabilidade. Foi nessa altura que desisti da minha primeira ambição. Entretanto, o Misha morreu (a eutanásia foi o único modo encontrado para lhe acabar com as dores do reumático e a infelicidade expressa em intermináveis dias e noites a ganir por não se conseguir levantar sozinho).
Depois, passei algum tempo sem saber muito bem o que fazer da vida. Coloquei em hipótese tornar-me bióloga. Após esse período de alguma despreocupação quanto ao futuro, pensei em ser actriz. Essa pancada prolongou-se até ao oitavo ano, talvez até ao nono. Porém, antes de entrar no secundário, comecei a aperceber-me dos riscos de uma carreira instável e o prazer em escrever começou a manifestar-se cada vez com mais intensidade - cheguei à conclusão de que queria ser escritora e/ou jornalista. Enveredei por Línguas e Humanidades e não me arrependo, apesar de reconhecer que talvez tivesse sido mais sensato ter optado antes por um curso profissional do que pelo ensino recorrente.
Até agora, julgo que mantenho a mesma opinião de há quase três anos atrás: escrever é uma das coisas que mais gosto de fazer e comunicar, em geral, dá-me um gosto imenso. Aliás, não vão mais longe: tenho um blogue por alguma razão! No entanto, já não penso tão assertivamente sobre tentar construir uma carreira jornalística. Em parte, tenho receio que a paixão pela escrita seja atenuada ou que não se encaixe num ambiente demasiado profissional. Opiniões... A poucos meses de ter de optar por um curso no ensino superior que poderá ditar o rumo da minha vida nos próximos anos, tenho a sensação de estar mais confusa do que nunca. Não é que não tenha certezas acerca da minha vocação, mas e se nem tudo se tratar disso? Também me sinto atraída pelo ensino, por antropologia, política... E, mesmo dentro da área da cultura e da comunicação, existem diversos cursos, em diversas universidades de Lisboa, cada um com as suas vantagens e desvantagens. Por agora, vou mantendo a minha lista de opções em aberto. Já sou "grande" e ainda não sei o que quero ser.

Expondo o meu caso pessoal, queria chegar à seguinte conclusão: de nada vale perguntar às criancinhas sobre as suas ambições profissionais futuras. Afinal, são crianças e, mesmo que gostem de brincar ao faz de conta, questões difíceis sobre o mundo adulto não lhes trarão necessariamente facilidade ao respectivo processo de decisão quando ele se impõe realmente, vários anos depois. 
Na minha opinião, em vez de as "pressionarmos" com preocupações que não lhes são devidas em tão tenra idade, devíamos tentar estimulá-las a interessar-se por diferentes áreas de estudo e, principalmente, a saberem que tipo de pessoa querem ser no futuro, cultivando-lhes o gosto em serem indivíduos úteis para o mundo, com bom senso e valores morais bem definidos. Talvez essa seja uma das falhas na educação das crianças de hoje em dia, talvez eu esteja errada - mas não custará reflectir sobre o assunto, pois não?