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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Quase rezei para gostar: Jesus Cristo Bebia Cerveja (Afonso Cruz)

Já vos contei da primeira experiência a ler Afonso Cruz: fiquei triste por pensar que iria ser a revelação do ano, e foi mais a desilusão do semestre. No entanto, decidi dar uma segunda oportunidade, porque outras pessoas confirmaram que, da bibliografia do autor, Flores não era o melhor.

 

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Assim sendo, avancei para o outro livro que já tinha comprado: Jesus Cristo Bebia Cerveja. Neste, Afonso Cruz conta a história duma neta - Rosa - e duma avó - Antónia - que vivem no cimo dum monte, perto duma aldeia caricata. Comecei logo por gostar da premissa, que já tinha conhecido quando ouvi Afonso Cruz numa feira cultural em Banguecoque, há um par de anos. Também eu sou neta única, também eu tenho uma avó que substitui e compensa por qualquer mãe biológica que tenha tido outras ambições na vida, e também eu tenho medo que a minha avó adoeça e perca qualidade de vida, mas certa de que, se fosse necessário, também eu montaria uma Jerusalém no meio do Alentejo.

 

Apesar de achar que não é o melhor livro dum autor português contemporâneo que leio, gostei bastante de Jesus Cristo Bebia Cerveja. Todas as personagens têm uma faceta de loucura que só a literatura poderia catalogar tão bem, e que não me surpreenderiam se existissem na vida real. Na sua falta de sentido, fazem sentido. É um elenco que, senti, enriqueceu o meu imaginário, que me obrigou a pôr-me na pele de Rosa e a alegrar-me e a incomodar-me com a narrativa dos seus dias.

 

A aparente temática religiosa - Jesus Cristo Bebia Cerveja - é só um chavão, mas outras discussões são deixadas no ar para as apanharmos: o papel da mulher como cuidadora primária da família, o papel do homem possivelmente dependente das mulheres na família e na sociedade, o significado do amor romântico, o cosmopolitanismo e as viagens, as relações entre empregados e empregadores, a importância da educação moral e emocional vs. instrução - tudo isto misturando um cenário que não cheira a passado, nem a presente, nem a futuro, mas que me cheirou definitavamente a uma imagem mental do interior de Portugal.

 

Além disso, apesar de o final ser triste q.b., promete um renascimento de igual forma. Quando gosto de uma personagem, prefiro acreditar que outras vidas lhe restarão para outros livros hipotéticos. Depois de decisões difíceis, algo virá, bom ou mau.

 

Jesus Cristo Bebia Cerveja, porque, afinal, todas as histórias podem ser contestadas e reimaginadas.

 

📚 Entretanto, instalou-se na minha casa uma febre de Afonso Cruz, pelo que já tenho Os Livros que Devoraram o Meu Pai O Macaco Bêbedo Foi à Ópera recomendados e preparados para descolarem da estante. Por onde começo - alguma sugestão?

Estas devem ter espinhos: Flores (Afonso Cruz)

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Quando penso em comprar um livro, tento ler as primeiras páginas antes de o fazer, ou ler sobre ele para nivelar as expectativas. Gosto principalmente de ler opiniões doutros autores ou contactos do Goodreads cujos gostos eu ache semelhantes aos meus.

 

Passei por esse processo com Flores, de Afonso Cruz. Até já me tinham falado sobre ele em mais do que um clube de leitura, por isso estava confiante de que haveria de, pelo menos, achar-lhe piada. Também já me tinham dito que não era o melhor romance do autor, daí tê-lo escolhido antes do outro que comprei, Jesus Cristo Bebia Cerveja, sobre o qual o ouvi falar numa conferência em Banguecoque quando lá vivi (e sobre o qual ainda estou curiosa).

 

No entanto, não foi com Flores que me senti arrebatada. Tem apontamentos interessantes, que me levaram a pousar o livro por alguns momentos para reflectir sobre eles, mas a segunda metade do livro revelou-se penosa com demasiada rapidez. Digo isto tal e qual o senti, o que não quer dizer que o resto das pessoas também não gostem de Flores. Antes pelo contrário, as avaliações que li no Goodreads são positivas, por isso fica a ideia de ser uma mera impressão pessoal.

 

A mim, o que que mais desagradou foi a impressão insistente de que deveria estar a ler ou a fazer outra coisa qualquer, pela repetição, falta de sentido, monólogos insosos, falta de diálogos que - na minha opinião, enriqueceriam tanto o enredo. Penso que esta sensação também se deveu às personagens demasiado semelhantes entre si, com vidas emocionais que me pareceram ser alimentadas por fantasmas da mesma origem, não se conseguindo distinguir uma voz doutra, sem ser pelo conteúdo associado a cada uma. Persistiu a impressão de que faltava qualquer coisa, pelo que infelizmente não me senti interessada em terminar o livro.

 

Estou desconsolada, mas ainda não desisti. Embora não tenha marcado Flores como lido no Goodreads, mas sim como "desistência", darei uma oportunidade a Jesus Cristo Bebia Cerveja e darei notícias assim que possível.