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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

A nécessaire da pessoa com quem fui de férias

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A pessoa com quem fui de férias chega ao quarto e começa logo a arrumar o que tem dentro da mala no roupeiro e gavetas do hotel. No tempo em que eu permaneci estarrecida a apreciar a vista e li uns centímetros de Instagram e Twitter, calças de ganga e t-shirts passadas a ferro, vincadas, ficam no fundo, por baixo dos cabides, que por sua vez penduram três camisolas mais quentes para a noite. A toalha de praia também fica por ali, nem reparei bem, mas tenho a certeza de que tudo encontrou o seu sítio.

 

Perto do espelho por cima do aparador, pousa a nécessaire - e eu nem sabia que haveria à face da terra um homem com nécessaire - preta, sóbria, adulta, sólida, imaculada, lá dentro uma caixa de plástico com a pasta e a escova de dentes, gel de banho e desodorizante, e sei lá mais o que um homem adulto com uma nécessaire preta, sóbria, adulta, imaculada levará para umas férias minúsculas à beira do rio com a namorada que assiste a toda esta ordem sóbria, adulta, sólida, imaculada.

 

Como se não bastasse, pede licença para a mala de viagem ser encostada à janela, do lado da cama que normalmente escolho; e eu finalmente olho em volta do quarto a que chegámos há quinze minutos e percebo que, afinal, a minha avó talvez não me tenha tentado domar nas lides domésticas para que eu viesse a tratar da pessoa com quem fosse de férias, mas sim para eu não me surpreender quando estivesse com um homem que me estendesse o biquíni na varanda depois do banho, que dobrasse as toalhas antes de as pôr no varão e não salpicasse o lavatório quando o usa; para eu não fazer figuras tristes com a minha bolsa (que nem merece ser chamada de nécessaire, denominação fina e por isso inapropriada) de plástico transparente para onde costumo enfiar mil tralhas enquanto lá couberem todas, recolhidas doutros mil cantos do quarto no fim desses dois dias e meio de estadia até ao destino seguinte; para eu parecer menos bicho trapalhão e/ou não ter de levar ninguém ao hospital por causa de alguma queda, ou de volta a Lisboa por causa de simplesmente não ter deixado boa impressão; porque, se eu não namorasse com esta pessoa com quem fui de férias, os meus ténis encardidos teriam ficado no meio do quarto, o meu biquíni teria ficado a demolhar a um canto da banheira e provavelmente teria deixado qualquer coisa pelo caminho ao sair (um par de meias, os chinelos, o lanche da manhã...).

 

Não é que eu me considere muito desorganizada sequer, porque não sou e as últimas linhas são um mero exagero necessário ao assunto da nécessaire, mas faltar-me-ia brio (e vergonha na cara) se não primasse pelos bons exemplos à minha volta, recusando-me a ser melhor do que sou hoje, não pensando em comprar uma nécessaire que não esteja peganhenta de um qualquer condicionador de cabelo vertido há mais de um mês ou não acarinhando a esperança de me rodear sempre de pessoas como aquela com quem fui de férias.

 

*Este texto foi parcialmente escrito na Praia do Alamal, destino fluvial da nécessaire aqui discutida. A fotografia ilustrativa deste post é a tal vista que me distraiu no primeiro parágrafo, aliás tirada durante esse mesmo período de tempo.

Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és!

Nos últimos meses, tenho sentido e dado cada vez mais valor a esta expressão tão popular: diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és! Apesar de ser inútil querermos ser iguaizinhos a alguém, quer física, quer psicologicamente, acredito que as pessoas com quem nos relacionamos - e de quem, idealmente, escolhemos rodear-nos - tem muita influência na forma como pensamos e agimos.


Acho que, em primeiro lugar, é indispensável encontrarmos quem nos sirva de exemplo a seguir. Estar com quem me mostre "como se faz" é meio caminho para me sentir mais motivada a ser e a fazer melhor. Não tenho de procurar sempre alguém para admirar fora do meu alcance imediato, por contar com modelos próximos e que, não sendo os mais ricos, reconhecidos ou irrepreensíveis, me permitem vê-los a uma escala mais humana e real. Em suma, vejo nos meus amigos uma fonte de inspiração e também de apoio - o que me leva ao segundo ponto.


Partilhar interesses, áreas de estudo, ambições, estilos de vida e/ou visões sobre a vida em geral com quem me rodeia é um consolo por poder sentir que não estou sozinha, mesmo à distância. Claro que devemos constituir uma dose saudável de desafio uns para os outros - não é só acenarmos sempre que sim e concordarmos -, mas, no meio de tanta confusão, ansiedade e receio do desconhecido que enfrentamos no dia-a-dia, é indispensável poder contar com alguns focos de apoio e conforto.


Além disto tudo, a positividade que as relações interpessoais me trazem é a garantia de que podemos juntar todos os nossos dias negativos e torná-los suportáveis, quiçá dar-lhes sentido. Sinto que os meus amigos são, neste momento, a família que eu vou escolhendo. No entanto, também a minha família nuclear se insere neste contexto. São pessoas generosas, preocupadas e doces, mas também são, cada um à sua maneira, pessoas lutadoras, a quem a vida nem sempre é facilitada, mas que insistem em fazer e ser melhores sempre que possível.


Escrevo este texto porque tanto eu quanto todas estas pessoas à minha volta estão a passar por fases pessoais, académicas e profissionais particularmente turbulentas. Há quem esteja a começar a carreira, há quem a esteja a tentar consolidar ou a apostar numa nova. Há quem esteja a criar e há quem esteja a refazer a sua vida, há quem precise de qualquer coisa mais. Cada um de nós em áreas diferentes, acabamos por partilhar o facto de andarmos a saltar obstáculos relativamente novos.


Escrevi no início do texto "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és". No entanto, não sei se sou igual às pessoas com quem ando, mas posso tentar olhar para cima e tentar lá chegar. Não desfazendo nas minhas próprias qualidades, admiro-os bastante. Consigo ver-lhes os defeitos, mas também tantas qualidades que também espero ter e poder oferecer-lhes.


No meio disto tudo, fica a gratidão por saber que estamos a navegar em barcos tão distintos e tão iguais e, ainda assim, nos vejo disponíveis para os outros. Às vezes são almoços ou lanches de meia hora, jantares tardios encaixados em fins de dia caóticos ou uma mensagem desirmanada. Enfim, continuamos por aqui.


E que, depois da tempestade, venha a bonança. Ou, pelo menos, o descanso merecido e a recompensa justa.

Há um ano em Portugal

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Fez ontem um ano que estou em Portugal e muito do que eu esperava não se concretizou nestes primeiros doze meses a seguir ao regresso. Parte da rede de apoio desmoronou-se, o mestrado com o qual eu tinha andado a sonhar não me entusiasma tanto quanto eu previa, a alegria de voltar para o pé da família e dos amigos reveza-se com contas interiores por ajustar.


No entanto, fecham-se portas e abrem-se janelas. Já não dou aulas numa universidade, mas gosto bastante do que faço e vou gostando do que estudo. A viagem à Escócia, onde prometi voltar a cada novo dia no meio duma cidade de betão, realizou-se. Continuei a escrever, tive tempo e disposição para ler e para fazer planos que me entusiasmam. Conheci quem me inspire e faça bem, nunca me faltaram abraços.


O que eu quero dizer é que a vida aconteceria inevitavelmente lá ou cá, assim ou assado. Não é um sentimento de impotência, mas sim de controlo: a vida não parou, porque me tenho esforçado para que não pare e para que vá seguindo um rumo agradável à navegação. A iniciativa própria tem peso nos eventos; não controlamos tudo, mas aquele bocadinho que aterra nas nossas mãos é um óptimo começo.


Além disso, tem sido um ano de reaprendizagem. Reaprendi a depender um pouco dos outros, reaprendi a estar acompanhada, reaprendi a confiar nas minhas decisões e reaprendi a não me preocupar demasiado por antecipação, mas sim a esforçar-me apenas dando o meu melhor, de acordo com as circunstâncias, não almejando a feitos heróicos e, certamente, irreais. Neste caso, aprendi mesmo, pela primeira vez, que não sou de ferro. Foi um ligeiro passo atrás para poder continuar em frente.


Ao chegar ao aeroporto de Lisboa, após 30h de viagem, deparei-me com esta frase de José Luís Peixoto (que, por coincidência, eu conhecera algumas semanas antes em Banguecoque):

 

Quando chegares, não te esqueças de onde partiste.

 

(Frase esta que eu lera, também algumas semanas antes, no livro O Caminho Imperfeito, que JLP escreveu sobre algumas das suas experiências na Tailândia e sobre viagens.)

 

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De facto, não nos podemos esquecer de onde vamos partindo, seja territorial, mas também profissional ou emocionalmente. É difícil prever o próximo destino, mas costuma-se dizer que devemos, em vez disso, apreciar a viagem. Talvez os clichés tenham razão.

 

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O melhor de 2018 foi a superação

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Ponderei muito se deveria escrever este texto. Ponderei mais um tanto até realmente o escrever - e procrastinei-o. 2018 tem sido um ano que eu não teria vontade de repetir. Houve anos em que cheguei ao fim e pensei "muito bem, este foi dos bons". 2018 não. Passou-se e, se eu tivesse um comando para controlar a visualização dos episódios, repetiria um par de situações e ficaria feliz. Talvez por isso não saiba sequer o que partilhar sobre os últimos meses que não tenha já sido escrito por este blogue fora.

 

Vejamos... Despedi-me do emprego que eu mais queria na vida, deixei um mestrado a meio, regressei de quase dois anos a viver em Banguecoque, renovei amizades e listas de contactos, recomecei, reaprendi a viver em família, defini novos objectivos profissionais, procurei uma nova auto-imagem, não só saí como saltei de pára-quedas da minha zona de conforto, descobri novos interesses, inscrevi-me no mestrado dos meus sonhos (e não fiquei impressionada) e - o mais importante - tive de reconhecer a minha fragilidade face a circunstâncias que não consigo controlar, paralelamente àquilo que me cabe a mim decidir. Já diz o livro, quem mexeu no meu queijo? A certa altura, senti que toda a gente me metia as mãos no meu prato excepto eu, mas no final ficou a lição de que, se nos comem o queijo, temos de ir à procura do fiambre.

 

A sabedoria popular também diz que "o que não arde cura e o que aperta segura". Feitas as contas, podia ser outro lema para o meu último ano. Sei que foi dos melhores anos em lições várias, novidades, descoberta permanente. Estou feliz por isso. No entanto, em 2019 quero menos reboliço.

 

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No lado bom - óptimo! - destaco a minha viagem solo à Escócia, que gostaria imenso de repetir mal seja possível, no mínimo à minha cidade favorita, Edimburgo. Subir o Arthur's seat foi das experiências mais satisfatórias do último par de anos, tanto pela vista panorâmica sobre Edimburgo, como ainda pela superação simbólica de medos e obstáculos. 

 

Destaco as pessoas que conheci. Por vezes sofro de memória selectiva, mas não me lembro de nenhuma pessoa que tenha conhecido sem que a viesse a admirar. Os amigos e a família também não tiveram um papel fácil e o carinho que me dedicaram não tem comparação em palavras.

 

Destaco o blogue. Consegui escrever mais do que no ano passado, o Sapo também o destacou várias vezes, chegaram novos leitores, fui encontrando motivação para cá voltar. Gosto de saber que vos tenho por aqui e que os meus exercícios de escrita e reflexão não ficam apenas para mim.

 

Destaco os livros que li. Embora ache que ainda tenho de aprender a ler melhor, já fiquei satisfeita com a quantidade (desafio do Goodreads superado!), porque também tive de ir lendo outros materiais para a faculdade no último trimestre. Ainda vou publicar o meu balanço livrólico detalhado antes de o ano acabar (antes disso, só tenho de terminar um ou dois livros).

 

De qualquer forma, acabei o ano a fazer aquilo de que gosto, em boa companhia, sem nenhum desejo por concretizar, com planos para novos projectos e talvez uma viagem ou outra. Saldo positivo!

 

2018 superado, que 2019 sirva para continuar a melhorar! (E já nem digo que sirva para escrever um livro, mas começar a tese já não seria mau.)

 

Imagens: Edinburgh Central Library e Calton Hill, Edimburgo, Maio de 2018

Não tenho cá procrastinado

Perdoem-me os dois ou três leitores habituais a falta de assiduidade na procrastinação blogosférica. Há fases assim. Felizmente! Nem blogue, nem Instagram, e Facebook reduzido. Ainda se escapa o Goodreads. Também já passei por algumas fases excessivas, mas, de facto, sinto falta de escrever aqui com mais regularidade. Na verdade, até tenho escrito alguns textos, mas ou os deixo a meio, ou serão publicados nos próximos dias (viva!).

 

Começo o meu mestrado na segunda-feira. Finalmente sinto alguma estabilidade pseudo-profissional - aliás, trabalho não me falta e já o começo a recusar quando aparece mais. Dum ponto de vista pessoal, têm-me acontecido coisas estupendas. À maioria dos meus amigos também. Tirando um ou outro desgosto ou imprevisto desagradável, não mudaria nada. Gente querida e feliz à minha volta. Livros. Desafios. E o tempo que vai voando quando estamos bem.

 

Piroseiras de quem está naquela altura do mês... Não me liguem, mas eu hei-de voltar melhor na próxima vez.

 

Bom fim-de-semana! 

36 perguntas que levam ao amor - a minha experiência pessoal

(contém alguns spoilers)

 

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Decidi deixar-vos um texto de opinião sincera acerca da minha experiência pessoal com as 36 perguntas que levam ao amor, desenvolvidas por uma equipa de investigadores e (viralmente) testadas por uma escritora - dado que é uma prática que podemos levar a cabo para sermos mais felizes, e que até já vos recomendei há poucos dias.

 

De facto, confirmo que, mais do que levar ao amor, as ditas 36 questões constituem um exercício que ajuda a criar intimidade em geral (até podem ser respondidas com um amigo ou um relativo desconhecido), mas, mais do que isso, acabo por considerá-las um desbloqueador de conversa. Até podemos pensar que sabemos tudo acerca de alguém, mas estas 36 perguntas provam que há sempre uma preferência, sonho, memória ou curiosidade sobre o nosso "parceiro de questionário" que nos faltava perguntar-lhe mais directamente.

 

Uma vez que fiz as 36 perguntas que levam ao amor com alguém de quem gosto muito e de quem me tenho tornado bastante próxima (em grande parte por já termos partilhado muita informação pessoal semelhante à pretendida pelo presente questionário e por termos muito em comum), sentimos que as nossas respostas choviam no molhado, ou que já sabíamos/prevíamos algumas sobre um e sobre outro, ou que eram frequentemente "eu também". Segundo o estudo, as questões deveriam ser feitas entre dois relativos estranhos - o que provavelmente corresponde ao propósito de muitas, só que em outras não faz sentido. Mas já lá iremos...

 

Em termos de duração do questionário, penso que depende muito do vosso perfil: são indivíduos muito faladores? Sentem-se acanhados? Já terão partilhado recentemente algumas das respostas a estas perguntas ou perguntas semelhantes? Em média, recomendo cerca de uma a uma hora e meia para responder à totalidade do questionário. Hão-de encontrar perguntas fáceis de responder e outras que vos farão reflectir ou discutir por algum tempo, uma vez que o exercício se divide em três partes, sendo a primeira composta por perguntas mais banais e a segunda e terceira por perguntas cada vez mais delicadas.

 

Ainda assim, tenho algumas falhas a apontar, falhas essas que me surpreenderam, talvez por causa das expectativas elevadas que tantos artigos, talks e divulgação me fizeram construir.

 

Como já referi, as 36 perguntas que levam ao amor são mais úteis quando não somos muito íntimos do nosso parceiro de questionário, caso contrário, o desenrolar da actividade revela-se previsível e repetitivo.

 

Contudo, as minhas maiores reservas partem do facto de algumas perguntas parecerem ter sido desenvolvidas para quem já tem alguma relação, por exemplo, quando temos que nomear 5 factos positivos sobre o nosso parceiro (pergunta 22) ou temos que referir aquilo de que honestamente gostamos nele (pergunta 28). Então, e se o tivermos acabado de conhecer? Só se respondermos "bom cabelo, boas pernas, bom traseiro, sorriso simpático, voz clara", que podem ser apenas banalidades insignificantes (passe-se o pleonasmo).

 

Finalmente, impõe-se a derradeira questão: mas estas 36 perguntas levam mesmo ao amor?

 

Não, não levam. Acho que esse título que lhe atribuíram funciona na qualidade de "golpe de marketing", mas o amor deveria ser, obviamente, mais do que responder a perguntas. Estas 36 perguntas levam, sim, à sensação de maior proximidade, ao estabelecer-se uma espécie de compromisso quanto à aceitação mútua das vulnerabilidades de cada participante. Criam uma oportunidade para sinceridade, generosidade e abertura que se querem recíprocas. Deste modo, no final resta a gratidão pela partilha.

 

(E compreende-se por que motivo podem ser usadas para aproximar indivíduos de comunidades, religiões, etnias, crenças distintas; ou para reaproximar casais cuja relação não esteja a passar pelos melhores dias.)

 

No final do exercício, é-nos proposto que nos olhemos nos olhos por quatro minutos, um tipo de jogo do sério. Eu e o meu parceiro conseguimos aguentar mais ou menos... quatro segundos (demos o nosso melhor, juro). Seja como for, claro que os quatro minutos podem ser determinantes para se criar intimidade com alguém que não se conheça bem. Sinceramente, não entendi que fizesse uma grande diferença no nosso caso, mas cada caso é um caso - não é o que se costuma dizer? 

 

Agora, desafio-vos a tentar estas 36 perguntas que levam ao amor com alguém igualmente disposto a ser uma cobaia para a ciência contemporânea. Quais serão as vossas conclusões? O que virão a sentir? Se o fizerem, partilhem os resultados connosco. Boa sorte! 💪

5 ideias científicas (e simples) para sermos mais felizes

Recentemente, comecei a seguir um podcast que já recomendei no Instagram e que não me farto de impingir a quem não se importe de me ouvir por trinta segundos sobre ele. Chama-se The Science of Happiness (traduzido fica "A Ciência da Felicidade") e é promovido pelo Greater Good Science Center, da UC Berkeley (EUA). Ouço-o através do Spotify, mas também está disponível no iTunes e no site do centro. Dito isto, fica entendido que a procura da felicidade é elevada a ciência. Sermos mais felizes é uma coisa que se aprende e que vem nos livros - quem diria?

 

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No entanto, mais do que promover a sua procura, este podcast sugere que a felicidade pode ser praticada, tal como qualquer habilidade. Há formas de a exercitar para a tornar mais forte e constante, métodos sobre os quais ouvimos falar de vez em quando, por uma ou outra razão, mas que nem sabemos terem sido investigados com todo o rigor científico. Podemos ser felizes se, tal como estudamos para um exame ou treinamos no ginásio, nos aplicarmos nuns quantos exercícios frequentes, tendo em vista fortalecer a felicidade quotidiana. Em cada epsiódio, é apresentada "a practice designed to boost happiness, resilience, kindness, or connection", com um guinea pig, um entrevistado, que tenta aplicar essa prática no seu dia-a-dia.

 

 

Desta forma, aqui vos recomendo 5 ideias científicas (e simples) para sermos mais felizes - ou seja, 5 métodos explicados em 5 episódios do podcast The Science of Happiness:

 

1. Ouvir como se fosse o primeiro encontro

Neste episódio, o protagonismo é dado à "escuta activa" - isto é, uma técnica de comunicação que visa destacar a importância de ouvir como deve ser, ou escutar atentamente, mostrando-o claramente ao(s) outro(s) interveniente(s). Uma parte importante do processo é olhar as outras pessoas nos olhos enquanto conversamos, uma vez que esse pequeno gesto ajuda à libertação de oxitocina, uma substância química que tem o papel de estimular o sentimento de bem-estar e de ligação aos outros, também conhecida como "a hormona do amor", que obviamente contribui para sermos mais felizes.

 

2. Escrever uma carta de agradecimento a alguém que nos tenha marcado

O objectivo é escrever uma carta de agradecimento, mesmo que esta nunca seja lida ou recebida pela pessoa a quem se destina. O que interessa é quem escreve relembrar a sua importância, o quão feliz e abençoada a sua vida possa ter-se tornado por ter cruzado caminhos com o destinatário. É como pôr os pés na terra e valorizar a influência que outros possam ter tido no seu presente.

 

3. Caminhar regularmente no exterior (com um dos criadores do filme Inside Out, ou Divertida-Mente)

Quando caminhamos, não estamos apenas a fazer algum exercício físico. Desligados de conversas e dos nossos meios habituais, a nossa mente descansa e ganha tempo e espaço para reflectir, para sermos mais felizes com a nossa voz interior - uma óptima prática para bloqueios criativos! Principalmente se estivermos entre a natureza ou cenários agradáveis, o pensamento flui, o raciocínio liberta-se, a pressão sanguínea baixa e o stress também. O objectivo é saborear o momento. Podemos fazê-lo sozinhos ou, por exemplo, ao passear os nossos cães.

 

4. 36 perguntas para nos apaixonarmos por alguém

Esta é uma prática que muitos já devem conhecer desta TedTalk ou deste artigo. São 36 perguntas que, supostamente, nos fazem apaixonar pela pessoa com quem partilhamos o questionário. Contudo, além disso, podem ainda ser usadas para aprofundar uma relação, recuperar alguma intimidade perdida (que é o caso da participante entrevistada neste episódio) ou - veja-se! - quebrar barreiras culturais, sociais e religiosas. E, ao sentirmo-nos mais próximos de alguém, imaginem o que acontece... oxitocina, como sempre. Estabelecendo relações mais significativas e íntimas, sermos mais felizes torna-se uma consequência natural.

 

5. Imaginar que nunca teríamos conhecido a nossa cara-metade

A um grupo foi pedido que descrevessem a forma como tinham conhecido a sua cara-metade; ao outro foi pedido que imaginassem que nunca a tinham conhecido, por algum acaso (ou desacaso) do destino. Chegou-se à conclusão de que os participantes do segundo grupo se sentiram mais satisfeitos nas suas relações algum tempo depois do estudo do que os do primeiro grupo. Pensar como seria a sua vida sem aquela pessoa especial, investir no exercício de counting their blessings, fê-los valorizar as suas vidas em comum, ganhando alguma objectividade.

 

 ***

 

Terminada a lista, será que alguém vai tentar uma destas práticas para ser mais feliz? Ou será que vai ganhar curiosidade em ouvir o podcast? Por que não tentam ouvi-lo agora nas férias, no carro ou na praia?

 

Só tenho pena que ainda não haja nenhum podcast semelhante em português. Até agora, já ouvi todos os vinte episódios disponíveis, tentei três destas práticas que vos sugeri, mais outras quantas de The Science of Happiness, por isso dá para perceber o quanto admiro este projecto.

 

Fico à espera das vossas opiniões e relatos de possíveis experiências para serem mais felizes. 

O melhor que um amigo nos pode dizer

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Não costumo pensar em mim como tendo resposta para seja qual for o menor problema à face do universo. Eu nem a cozinhar sou boa. Nunca fui popular. Não sei nadar. Sou terrível a matemática, sou daquelas que se perde em contas de subtrair. Sou a mais nova dos meus amigos. Por norma, tenho poucos filtros, falo do coração e com o coração na boca. Às vezes, acho que me acontece tudo sem argumento. Ultimamente, só tenho velejado as ondas da vida ao sabor do vento. Logo se vê. 

 

Mas alguma coisa devo andar a fazer bem. Ontem, uma amiga disse-me que gostaria de ser mais como eu, seguindo o que eu faço e a maneira como lido com diversas situações e pessoas. Isto é o melhor que um amigo nos pode dizer, principalmente se for uma pessoa que tenhamos sempre admirado de volta.

 

Podemos conquistar a admiração de qualquer pessoa, mas conquistar a admiração dum amigo é das melhores sensações possíveis. É preciso tocarmos a fasquia com o efeito em dobro - por vezes, não temos objectividade suficiente para avaliar um amigo em toda a sua plenitude, verdade seja dita; é difícil esquecermo-nos de que aquele indivíduo extremamente competente em tantos domínios é o mesmo a cujos piores momentos nós assistimos na primeira fila.

 

Claro que, inevitavelmente, os nossos amigos vêem algo de especial em nós, ou nem sequer o seriam. Mas chegar ao ponto de nos confirmarem, verbal e abertamente, que querem ser mais como nós... É qualquer coisa.

 

É ainda infinitamente mais saboroso um amigo dizer que quer ser como nós exactamente numa questão que pensávamos não dominar. A minha amiga não me disse "quero dar aulas com a mesma alegria que tu". Ela disse-me, literalmente, "vou adoptar a tua visão de vida" (logo a mim, que me considero cada vez mais míope em tanto assunto). Pelos olhos dos outros, é como se descobríssemos facetas nossas que desconhecíamos e às quais nunca demos importância. Pelos olhos dos outros, descobrimos o quão mais fortes e competentes somos na realidade.

 

O melhor que um amigo nos pode dizer é que somos uma referência, um exemplo a seguir. Não há palavras para descrever tamanha gratidão por esta partilha.

 

Finalmente, proponho: e que tal, para começar bem a semana, dedicarmos dois minutos do nosso dia a elogiar um amigo? 

Uma Follow Friday diferente

Eu sei que é suposto o Follow Friday ser realizado entre os blogues da plataforma do Sapo, mas, desta vez, vou usá-lo para partilhar convosco a escrita duma pessoa que eu admiro imenso. Pela sua inteligência, sensibilidade e generosidade em tudo o que faz (incluindo o seu trabalho como investigador na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, mas também nos gestos quotidianos que dedica aos que lhe são próximos), hoje decidi destacar o meu amigo Carlos, que, além dos seus deveres académicos e profissionais, escreve para o P3 e, veja-se, é um autor publicado! (Ahahaha.) Ainda por cima, escreve sobre tópicos realmente importantes para a humanidade.

 

O Carlos é licenciado em História, mestre em Psicologia e tem agora em mãos o seu projecto de doutoramento em Psicologia, especializando-se em Migrações, o que revela bastante acerca do quão multifacetado é. Como é óbvio, enquanto amigos só falamos praticamente de porcarias e trivialidades, de fofocas e de tontices. No entanto, o Carlos é uma das pessoas mais cultas que conheço, além de ter uma inteligência emocional superior ao normal. Consegue ler os outros. Sabe consolar, sabe o que dizer. Mas, às vezes, falta-lhe confiança nas suas próprias capacidades.

 

Por isso, deixo aqui o meu manifesto: Carlos, cria um blogue. Precisas de o fazer. O mundo precisa de ler o que tu escreves, precisa que partilhes o que guardas para ti, para os amigos ou para a investigação. Senão, já sabes, resta-te criar um canal de culinária "a nu" no YouTube.

 

Nesta Follow Friday, já "seguiram" os vossos amigos? Deixo-vos a sugestão de os recomendarem! 😅😁

Um tipo de pessoa muito especial

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Há pessoas que passam despercebidas a vida inteira. Há pessoas que precisam de se esforçar para se fazerem ver. Há pessoas que entram numa sala e a iluminam. E há pessoas que, sorrateira, humilde e discretamente, conquistam toda a gente à sua volta em todas as salas do mundo.

 

A Inês é o melhor exemplo deste último tipo de pessoa. A existência deste perfil na Inês é tão icónico que ela nunca foi minimamente gozada no colégio nem na escola. Partindo do princípio de que os dois melhores amigos dela eram "gordos" e passaram a infância a ser achincalhados (eu incluída nesse par), de que a Inês teve dentes de tubarão até aos doze ou treze anos e de que não é uma super-modelo (apesar de ser elegante, gira gira tipo helicóptero, ter estilo e ter uns olhos clarinhos, uns caracóis maravilhosos e pele de bebé), a Inês poderia, no mínimo, ter aguentado umas bocas infantis no colégio.

 

Mas não.

 

Não conheço uma única pessoa que alguma vez tenha dito mal da Inês nas costas. Não conheço uma única pessoa que não goste dela. Em vinte e três anos, isto é um feito. Nem no auge das intrigas do sexto ou sétimo ano a Inês foi vítima do quotidiano "não sei quem gosta de não sei quem". Nunca ouvi rumores, boatos ou comentários maldosos sobre ela. Nunca, nunca, nunca.

 

A Inês emana uma calma que até pode não ser a que ela sente por dentro, mas que deixa os que a rodeiam muito impressionados (deixa-me a mim, pelo menos). A Inês é capaz de entrar calada e sair muda dum sítio qualquer, mas de certeza que, passados dez minutos, já tem no mínimo três pessoas à volta dela. A Inês não precisa de falar para ter o mundo aos pés dela. Perguntem ao resto dos amigos dela... Todos a têm como referência, seja qual for a crise em que estejam. A Inês é aquela amiga que tem sempre solução para todas as neuras dos que lhe pedem ajuda.

 

A Inês tem este poder sobre os outros de os fazer sentir parvos, tontos, mas sem os humilhar. Cada vez que me chateio com ela, até posso espernear, mandar vir, ter dúvidas existenciais... mas fico sempre com a sensação de que a Inês me vai levar a melhor e vai acabar a ter razão (em dezassete anos de amizade, ela só não teve razão uma vez, que aconteceu para aí há um mês, vocês vejam).

 

Ainda por cima, além de todos estes atributos invejáveis, a Inês é intelectual e emocionalmente inteligente e tem um coração do tamanho do mundo. Estão a ver aquelas pessoas "que nunca fariam mal a uma mosca" se o puderem evitar? A Inês é uma delas. Nunca diz asneiras (e repreende quem as diga ao lado dela), não grita no trânsito, diz o que tem a dizer directamente a quem o tem de dizer, a coisa mais violenta que já a ouvi gritar em quase duas décadas é o ocasional "OH BEATRIZ!". A Inês é tão boa pessoa, que passou dois meses a mediar o fim duma relação entre dois dos melhores amigos, que lhe andaram a esfregar o juízo constantemente, cada um a puxar para um lado, até aquilo ter mesmo dado as últimas. Mas ela fê-lo, como faz tudo na vida, com uma graça, paciência e bom senso que a maioria de nós perde ao fim de dois dias numa situação de tensão.

 

Não, nem sempre concordo com o que a Inês diz ou faz. Por vezes, sinto que andamos repetidamente às avessas por causa dos mesmos problemas. No entanto, não conheço ninguém com a cabeça e o coração tão no sítio, com valores morais e éticos tão definidos e tão correcta para com os restantes seres humanos do mundo.

 

Tenho uma sorte enorme por a Inês, calma, discreta e muito (muito, muito, muito, muito) mais calada do que eu, fazer parte da minha vida. 

 

Parabéns, Inês! Este é o teu postal de aniversário, porque os de papel são caríssimos e não dá para os ler a muitas pessoas ao mesmo tempo. Até já, que estou atrasada para o nosso almoço.