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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Uma entrevista "Sem Fronteiras" a Carlos Barros: emigração, famílias, bem-estar e muitos sonhos

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Uma das grandes alegrias de trabalhar por conta própria é poder fazer outras coisas que não... trabalhar. Os meus dias raramente são iguais, o que por vezes é assustador, e noutras é uma benção. Tenho tempo e, acima de tudo flexibilidade - tempo e flexibilidade para estudar e aprender, para planear projectos profissionais e outros não remunerados, para escrever no blog, para ler a meio do dia, para ir ter com amigos, para sonhar acordada, para levar a cabo o que ainda me dá mais prazer do que o meu trabalho (que, por acaso, é bastante agradável). Claro que há dias mais ocupados e caóticos do que outros, mas a possibilidade de outros dias de serendipidade deixa-me leve.

 


Então, na semana passada decidi entrevistar o Carlos Barros, um amigo-estrela-cronista-entrevistador-investigador (e excelente cozinheiro de lasanha vegetariana), a propósito do seu primeiro programa de televisão-Internet/projecto de voluntariado social. Fi-lo só porque sim, porque é tão bom elogiar os nossos, mostrar aos outros o que eles andam a fazer, porque idealmente seremos a média das pessoas que nos rodeiam, e eu ficaria satisfeita por ser só um bocadinho do que os meus amigos são. O produto não ficou perfeito, mas foi feito com boas intenções.

 

Já tenho divulgado alguns projectos do Carlos no blogue e nas redes sociais, nomeadamente como cronista no Jornal Económico e no P3, mas agora este programa, que se chama "Sem Fronteiras", acaba por ser uma extensão de tudo o que o Carlos estuda, aquilo que ele sente, aquilo que o emociona e que o move. Foi um projecto em que se envolveu durante as férias, em vez de estar a descansar das mil e uma tarefas que lhe enchem o dia-a-dia, e isso diz tudo.

 

O objectivo do programa "Sem Fronteiras" é dar voz a quem deixou Portugal à procura de melhores condições de vida, em busca doutros sonhos e doutros horizontes. Desta forma, no programa vamos assistir a entrevistas tocantes a emigrantes portugueses, sobre a sua vida lá fora, sobre as suas visitas a Portugal, sobre as suas famílias e, em geral, sobre as suas vidas. É de destacar que a investigação do doutoramento do Carlos se chama Famílias Pelo Mundo, concentrando-se na solidariedade intergeracional e relações familiares, pelo que não haverá ninguém melhor do que ele para este tipo de entrevista. 

 

Além disso, como bem sabem se já acompanham o blog há algum tempo, também eu vivi muito longe de Portugal durante quase dois anos, por isso temas relacionados com a emigração tocam-me de forma especial. Se eu vivi o que vivi e senti o que senti durante tão pouco tempo, nem consigo imaginar o que vive e sente quem se encontra indefinidamente num contexto tão desafiante quanto viver noutro país, cultura, realidade...

 

Saí um pouco do que tem sido o registo do blog, voltando a publicar um vídeo como cheguei a fazer há dois anos, mas espero apresentar-vos um projecto interessante - feito por uma pessoa interessante e de quem gosto muito, e por isso bastante especial. 

 

(Entrevista filmada n'A Sala, apenas um dos meus sítios favoritos em Lisboa!)

[O Primeiro Capítulo] Quero escrever-lhes a agradecer, mas já esgotámos todas as palavras boas

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Ontem, tivemos "A Primeira Vez" d'O Primeiro Capítulo, com o convidado-cobaia-amigo Nelson Nunes, e eu ia dizer que foi ideia minha e da Elisa, mas não: já todos os presentes a tinham tido, e finalmente encontrámos a companhia que nos faltava. Confesso que, quando decidimos levar o projecto avante, não me ocorreu que suscitasse tanto interesse. Eu sabia que haveríamos de juntar algumas pessoas curiosas, mas... Mais do que isso: ontem demos as boas-vindas a um grupo como eu nunca tinha visto. Da quantidade de cursos de escrita criativa que já frequentei, dos eventos a que já fui, da licenciatura em Letras e das centenas de alunos que já ensinei nos últimos cinco anos, nunca me tinha deparado com tantos ditos escritores amadores numa só sala (dez!) que escrevessem, tão despretensiosos, de forma tão responsável, sensível.

 

Neste primeiro encontro d'O Primeiro Capítulo, tivemos participantes com formações académicas muito distintas, e quase nunca relacionadas com a literatura ou a escrita criativa (engenharia, arquitectura, finanças, enfermagem, ciência política, sociologia, biologia...). No entanto, todos cultivam um enorme amor e prazer pelas letras, provando que não temos de nos definir exclusivamente pelos empregos que nos pagam as contas, e que os nossos interesses podem divergir imenso, enriquecendo-nos tanto. Somos seres com potenciais tão complexos!

 

No final, restou-me uma sensação particular: fiquei cheia. Não sei bem de quê, porque é um tipo de satisfação indescritível. Devo ter deixado todas as palavras com quem as apanhou. Queria agradecer, e nem sei bem por onde começar.

 

O grupo teve muita química, demonstrámos o interesse comum pela elaboração de textos desafiantes, "com qualidade", e mostrámos vulnerabilidade suficiente para ouvirmos a nossa escrita pela voz doutra pessoa, sem por vezes nunca termos tido uma experiência semelhante. Ouvimos, recolhemos e distribuímos opiniões. Acho que fomos generosos. Queríamos, acima de tudo, ajudar e sermos ajudados, dar e receber, mostrando-nos disponíveis durante algumas horas para integramos um colectivo improvisado. Poucas ou nenhumas eram as pessoas que conhecíamos previamente, mas toda a conversa foi harmoniosa e fluiu pelo dobro do tempo previsto (na verdade, até os vizinhos terem afugentado os últimos resistentes, que doutra forma teriam ficado a conversar noite fora, e não só sobre escrita).

 

Em Novembro há mais! Com os mesmos ou outros participantes, contaremos dar as boas-vindas a mais interessados em partilhar os seus primeiros, segundos ou milésimos capítulos (graças ao apoio d'A Sala, um dos melhores espaços para simplesmente se estar e conviver, em Lisboa).

 

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Há uma frase que a Elisa tem dito nos últimos dias e que eu já referi antes: somos a média das cinco pessoas com quem passamos mais tempo. Elas inspiram-nos, mostram-nos caminhos alternativos e partilham o seu conhecimento connosco. Por isso, obrigada à própria Elisa (que é uma máquina de fazer coisas giras acontecerem), ao Nelson (que deve ser das pessoas mais organizadas que conheço, a julgar pela quantidade de livros que lê e pelos projectos em que se envolve) e a esta dezena de escritores de segunda-feira... por fazerem parte dessa equação maravilhosa, promissora. Estes últimos meses foram uma montanha-russa, e agora que a poeira está a assentar sei que é de pessoas assim que tenho de me rodear.

 

✍️ Em breve, divulgaremos a data e o tema para Novembro, tal como todas as outras informações úteis para quem se quiser juntar a nós! E, além disso, também começaremos a gravar o respectivo podcast O Primeiro Capítulo!

 

Até lá, sigam-nos por aqui:

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O Primeiro Capítulo dum projecto e podcast muito, muito bons!

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Já que não posso começar a rentrée psicológica com o primeiro dia de aulas, venho por este meio lançá-la com um novo projecto para o qual fui arrastada: O Primeiro Capítulo, um encontro por pessoas que gostam de escrever, para pessoas que também gostam de escrever.

 

Desde o início do ano que comecei a ir aos pequenos-almoços mensais das Creative Mornings Lisbon (das quais já vos falei imensas vezes), onde conheci a Elisa Baltazar, a host actual. Parece que a Elisa é uma máquina de fazer coisas acontecer, por isso não foi com grande surpresa que, já não me lembro bem como, decidimos fazer... isto que estamos a fazer! Queríamos escrever, queríamos conhecer mais pessoas que também queiram escrever, e temos vontade de criar uma oportunidade para todos esses escritores de gaveta se encontrarem, trocarem umas quantas ideias e partilharem alguns textos. Acreditamos que esta é uma forma de enriquecimento e crescimento.

 

Sem mais demoras, este é o texto de apresentação do encontro e podcast O Primeiro Capítulo!

 

𝐏𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐠𝐨𝐬𝐭𝐚𝐦 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐫𝐞𝐯𝐞𝐫 𝐩𝐫𝐨𝐜𝐮𝐫𝐚𝐦 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐠𝐨𝐬𝐭𝐚𝐦 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐫𝐞𝐯𝐞𝐫

Dizem que para bem escrever são necessárias duas coisas, ler e escrever.
Concordamos, mas achamos, também , que é necessário optimizar a forma como se lê e a forma como se escreve.
Não é à toa que escritores tão importantes como Bocage, Alexandre Herculano, Almada Negreiros, Fernando Pessoa ou Mário de Sá Carneiro se juntavam em tertúlias onde, entre outros temas politicos e intelectuais, falavam de literatura.
Acreditamos que a interação também inspira, também ensina e também motiva.
Assim, o Primeiro Capítulo é um ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

Nestes encontros o objetivo passa, principalmente, por escrever. Escrever todos os meses ou, pelo menos, uma vez por mês. Não mais que 500 palavras sobre um tema que se mostre desafiante.
Uma vez escrito o texto, juntamo-nos e passamos esse texto a alguém para ler em voz alta. Este exercício permite-nos ver como outra pessoa entoa o nosso texto. Ouvir as nossas palavras pela boca de outro pode dar-nos toda uma nova perspetiva sobre a forma como escrevemos. Durante essa leitura não haverá lugar a comentários ou correções. O objetivo é que esta leitura nos dê espaço para repensar a forma como escrevemos.
Depois desta leitura, haverá espaço para comentários. Todos, exceto aquele que o escreveu, terão a oportunidade de comentar aquilo que sentiram falta no texto ou que possa ter ficado menos claro. Finalmente, serão feitas questões ao autor.
Em nenhum destes momentos, o autor terá a palavra. O objetivo aceitar a crítica como construtiva e ter tempo para refletir sobre a mesma.

Finalmente, contaremos também com a presença de um profissional da indústria para partilhar dicas, ideias comentários e, claro, inspirar-nos.

 

Mais concretamente, o objectivo destes encontros é discutir em conjunto textos que tenhamos produzido, sobre o tema lançado cada mês. Também contaremos com convidados especiais em todos esses encontros, que poderão oferecer críticas mais construtivas e algumas dicas relacionadas com o seu trabalho e possíveis obras.

 

Toda a informação pode ser encontrada online, no Instagram e no Facebook d'O Primeiro Capítulo, assim como no site Meetup.

 

Para Outubro, já temos tudo tratado e combinado, e estamos mesmo a aceitar inscrições! O nosso primeiro convidado no dia 7 (segunda-feira) será o Nelson Nunes, um autor de quem já vos falei por aqui, e conhecendo-o há quase uma década e tendo acompanhado a carreira (e a riqueza da estante) dele durante estes anos todos, tenho a certeza de que vamos ter conversas muito interessantes sobre escrita e livros. Para participarem, enviem-me/enviem-nos uma mensagem pelas plataformas e redes sociais sugeridas, ou um e-mail para podcastprimeirocapitulo@gmail.com.

 

Além do encontro, também faremos um podcast d'O Primeiro Capítulo... Mas falarei de tudo a seu tempo! Por agora, gostava muito que acompanhassem este projecto do meu coração, que  hão-de sair daqui belíssimas ideias. E espero ver alguém dos blogs nos nossos encontros! Conto convosco? 💚

Vistos, ouvidos e validados

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Todos queremos ser vistos. Queremos ser vistos, no sentido de não precisarmos de chamar a atenção para a recebermos, no sentido de darmos e ser-nos dado. O que provavelmente todos nós procuramos não é só a admiração dos outros, o que nos obrigaria a algum feito ou conquista extraordinária, mas sim o reconhecimento de que existimos apenas por existirmos.

 

Escrevemos em blogs, criamos redes sociais e escolhemos a melhor foto de perfil, publicamos stories no Instagram, damos o nosso melhor em discussões sociais, aparecemos em meet-ups, criamos listas de leitura no Goodreads, apostamos em relações pessoais diversas com pessoas de alguma forma semelhantes a nós, melhoramos o CV, preparamos apresentações, ensaiamos a forma como nos rimos e vestimos, porque - em grande parte - queremos ser vistos, ouvidos e validados, mas o objectivo final deve com certeza passar por conseguirmos ser vistos, ouvidos e validados por causa natural, isto é, sem precisarmos de nos explicar, nem o que sentimos, sem precisarmos de nos esforçar a todo o momento, sendo nós mesmos.

 

O cliché ganha profundidade quando queremos ser incondicionalmente vistos, ouvidos e validados por quem nos rodeia num Sábado ao final da tarde, sem banho tomado, vestidos com peças de pijama desirmanadas, a mastigar bolachas de sour cream de boca aberta, a espalhar migalhas pelo chão, de pernas escancaradas e a coçar a caspa oleosa para dentro das unhas, com os olhos inchados por termos chorado com a morte do cão Marley na televisão pela 54ª vez na vida - pelo menos tanto quanto nos dias em que o resto do mundo também tem razões para nos ver, ouvir e validar.

 

Aquilo de que andamos todos à procura é quase um amor paternal ou maternal da parte de familiares, amigos e parceiros, uma imitação da segurança sem constrangimentos que idealmente teremos sentido quando éramos pequenos. Por muito independentes e decididos, precisamos de quem tome conta de nós, ou sobre quem nós acreditemos que o pudesse fazer caso fosse necessário, queremos alguém que demonstre afecto só porque lhes apeteceu, que nos perguntem como estamos sem termos de acenar com três sinais de trânsito e uma avioneta, que nos liguem só para desejar um bom dia, sejam espontâneos nas demonstrações e não poupem no afecto e nos elogios - afinal, diz-se que nos tornamos aquilo em que os outros acreditam que somos ou nos podemos tornar.

A nécessaire da pessoa com quem fui de férias

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A pessoa com quem fui de férias chega ao quarto e começa logo a arrumar o que tem dentro da mala no roupeiro e gavetas do hotel. No tempo em que eu permaneci estarrecida a apreciar a vista e li uns centímetros de Instagram e Twitter, calças de ganga e t-shirts passadas a ferro, vincadas, ficam no fundo, por baixo dos cabides, que por sua vez penduram três camisolas mais quentes para a noite. A toalha de praia também fica por ali, nem reparei bem, mas tenho a certeza de que tudo encontrou o seu sítio.

 

Perto do espelho por cima do aparador, pousa a nécessaire - e eu nem sabia que haveria à face da terra um homem com nécessaire - preta, sóbria, adulta, sólida, imaculada, lá dentro uma caixa de plástico com a pasta e a escova de dentes, gel de banho e desodorizante, e sei lá mais o que um homem adulto com uma nécessaire preta, sóbria, adulta, imaculada levará para umas férias minúsculas à beira do rio com a namorada que assiste a toda esta ordem sóbria, adulta, sólida, imaculada.

 

Como se não bastasse, pede licença para a mala de viagem ser encostada à janela, do lado da cama que normalmente escolho; e eu finalmente olho em volta do quarto a que chegámos há quinze minutos e percebo que, afinal, a minha avó talvez não me tenha tentado domar nas lides domésticas para que eu viesse a tratar da pessoa com quem fosse de férias, mas sim para eu não me surpreender quando estivesse com um homem que me estendesse o biquíni na varanda depois do banho, que dobrasse as toalhas antes de as pôr no varão e não salpicasse o lavatório quando o usa; para eu não fazer figuras tristes com a minha bolsa (que nem merece ser chamada de nécessaire, denominação fina e por isso inapropriada) de plástico transparente para onde costumo enfiar mil tralhas enquanto lá couberem todas, recolhidas doutros mil cantos do quarto no fim desses dois dias e meio de estadia até ao destino seguinte; para eu parecer menos bicho trapalhão e/ou não ter de levar ninguém ao hospital por causa de alguma queda, ou de volta a Lisboa por causa de simplesmente não ter deixado boa impressão; porque, se eu não namorasse com esta pessoa com quem fui de férias, os meus ténis encardidos teriam ficado no meio do quarto, o meu biquíni teria ficado a demolhar a um canto da banheira e provavelmente teria deixado qualquer coisa pelo caminho ao sair (um par de meias, os chinelos, o lanche da manhã...).

 

Não é que eu me considere muito desorganizada sequer, porque não sou e as últimas linhas são um mero exagero necessário ao assunto da nécessaire, mas faltar-me-ia brio (e vergonha na cara) se não primasse pelos bons exemplos à minha volta, recusando-me a ser melhor do que sou hoje, não pensando em comprar uma nécessaire que não esteja peganhenta de um qualquer condicionador de cabelo vertido há mais de um mês ou não acarinhando a esperança de me rodear sempre de pessoas como aquela com quem fui de férias.

 

*Este texto foi parcialmente escrito na Praia do Alamal, destino fluvial da nécessaire aqui discutida. A fotografia ilustrativa deste post é a tal vista que me distraiu no primeiro parágrafo, aliás tirada durante esse mesmo período de tempo.

Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és!

Nos últimos meses, tenho sentido e dado cada vez mais valor a esta expressão tão popular: diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és! Apesar de ser inútil querermos ser iguaizinhos a alguém, quer física, quer psicologicamente, acredito que as pessoas com quem nos relacionamos - e de quem, idealmente, escolhemos rodear-nos - tem muita influência na forma como pensamos e agimos.


Acho que, em primeiro lugar, é indispensável encontrarmos quem nos sirva de exemplo a seguir. Estar com quem me mostre "como se faz" é meio caminho para me sentir mais motivada a ser e a fazer melhor. Não tenho de procurar sempre alguém para admirar fora do meu alcance imediato, por contar com modelos próximos e que, não sendo os mais ricos, reconhecidos ou irrepreensíveis, me permitem vê-los a uma escala mais humana e real. Em suma, vejo nos meus amigos uma fonte de inspiração e também de apoio - o que me leva ao segundo ponto.


Partilhar interesses, áreas de estudo, ambições, estilos de vida e/ou visões sobre a vida em geral com quem me rodeia é um consolo por poder sentir que não estou sozinha, mesmo à distância. Claro que devemos constituir uma dose saudável de desafio uns para os outros - não é só acenarmos sempre que sim e concordarmos -, mas, no meio de tanta confusão, ansiedade e receio do desconhecido que enfrentamos no dia-a-dia, é indispensável poder contar com alguns focos de apoio e conforto.


Além disto tudo, a positividade que as relações interpessoais me trazem é a garantia de que podemos juntar todos os nossos dias negativos e torná-los suportáveis, quiçá dar-lhes sentido. Sinto que os meus amigos são, neste momento, a família que eu vou escolhendo. No entanto, também a minha família nuclear se insere neste contexto. São pessoas generosas, preocupadas e doces, mas também são, cada um à sua maneira, pessoas lutadoras, a quem a vida nem sempre é facilitada, mas que insistem em fazer e ser melhores sempre que possível.


Escrevo este texto porque tanto eu quanto todas estas pessoas à minha volta estão a passar por fases pessoais, académicas e profissionais particularmente turbulentas. Há quem esteja a começar a carreira, há quem a esteja a tentar consolidar ou a apostar numa nova. Há quem esteja a criar e há quem esteja a refazer a sua vida, há quem precise de qualquer coisa mais. Cada um de nós em áreas diferentes, acabamos por partilhar o facto de andarmos a saltar obstáculos relativamente novos.


Escrevi no início do texto "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és". No entanto, não sei se sou igual às pessoas com quem ando, mas posso tentar olhar para cima e tentar lá chegar. Não desfazendo nas minhas próprias qualidades, admiro-os bastante. Consigo ver-lhes os defeitos, mas também tantas qualidades que também espero ter e poder oferecer-lhes.


No meio disto tudo, fica a gratidão por saber que estamos a navegar em barcos tão distintos e tão iguais e, ainda assim, nos vejo disponíveis para os outros. Às vezes são almoços ou lanches de meia hora, jantares tardios encaixados em fins de dia caóticos ou uma mensagem desirmanada. Enfim, continuamos por aqui.


E que, depois da tempestade, venha a bonança. Ou, pelo menos, o descanso merecido e a recompensa justa.

Há um ano em Portugal

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Fez ontem um ano que estou em Portugal e muito do que eu esperava não se concretizou nestes primeiros doze meses a seguir ao regresso. Parte da rede de apoio desmoronou-se, o mestrado com o qual eu tinha andado a sonhar não me entusiasma tanto quanto eu previa, a alegria de voltar para o pé da família e dos amigos reveza-se com contas interiores por ajustar.


No entanto, fecham-se portas e abrem-se janelas. Já não dou aulas numa universidade, mas gosto bastante do que faço e vou gostando do que estudo. A viagem à Escócia, onde prometi voltar a cada novo dia no meio duma cidade de betão, realizou-se. Continuei a escrever, tive tempo e disposição para ler e para fazer planos que me entusiasmam. Conheci quem me inspire e faça bem, nunca me faltaram abraços.


O que eu quero dizer é que a vida aconteceria inevitavelmente lá ou cá, assim ou assado. Não é um sentimento de impotência, mas sim de controlo: a vida não parou, porque me tenho esforçado para que não pare e para que vá seguindo um rumo agradável à navegação. A iniciativa própria tem peso nos eventos; não controlamos tudo, mas aquele bocadinho que aterra nas nossas mãos é um óptimo começo.


Além disso, tem sido um ano de reaprendizagem. Reaprendi a depender um pouco dos outros, reaprendi a estar acompanhada, reaprendi a confiar nas minhas decisões e reaprendi a não me preocupar demasiado por antecipação, mas sim a esforçar-me apenas dando o meu melhor, de acordo com as circunstâncias, não almejando a feitos heróicos e, certamente, irreais. Neste caso, aprendi mesmo, pela primeira vez, que não sou de ferro. Foi um ligeiro passo atrás para poder continuar em frente.


Ao chegar ao aeroporto de Lisboa, após 30h de viagem, deparei-me com esta frase de José Luís Peixoto (que, por coincidência, eu conhecera algumas semanas antes em Banguecoque):

 

Quando chegares, não te esqueças de onde partiste.

 

(Frase esta que eu lera, também algumas semanas antes, no livro O Caminho Imperfeito, que JLP escreveu sobre algumas das suas experiências na Tailândia e sobre viagens.)

 

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De facto, não nos podemos esquecer de onde vamos partindo, seja territorial, mas também profissional ou emocionalmente. É difícil prever o próximo destino, mas costuma-se dizer que devemos, em vez disso, apreciar a viagem. Talvez os clichés tenham razão.

 

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O melhor de 2018 foi a superação

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Ponderei muito se deveria escrever este texto. Ponderei mais um tanto até realmente o escrever - e procrastinei-o. 2018 tem sido um ano que eu não teria vontade de repetir. Houve anos em que cheguei ao fim e pensei "muito bem, este foi dos bons". 2018 não. Passou-se e, se eu tivesse um comando para controlar a visualização dos episódios, repetiria um par de situações e ficaria feliz. Talvez por isso não saiba sequer o que partilhar sobre os últimos meses que não tenha já sido escrito por este blogue fora.

 

Vejamos... Despedi-me do emprego que eu mais queria na vida, deixei um mestrado a meio, regressei de quase dois anos a viver em Banguecoque, renovei amizades e listas de contactos, recomecei, reaprendi a viver em família, defini novos objectivos profissionais, procurei uma nova auto-imagem, não só saí como saltei de pára-quedas da minha zona de conforto, descobri novos interesses, inscrevi-me no mestrado dos meus sonhos (e não fiquei impressionada) e - o mais importante - tive de reconhecer a minha fragilidade face a circunstâncias que não consigo controlar, paralelamente àquilo que me cabe a mim decidir. Já diz o livro, quem mexeu no meu queijo? A certa altura, senti que toda a gente me metia as mãos no meu prato excepto eu, mas no final ficou a lição de que, se nos comem o queijo, temos de ir à procura do fiambre.

 

A sabedoria popular também diz que "o que não arde cura e o que aperta segura". Feitas as contas, podia ser outro lema para o meu último ano. Sei que foi dos melhores anos em lições várias, novidades, descoberta permanente. Estou feliz por isso. No entanto, em 2019 quero menos reboliço.

 

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No lado bom - óptimo! - destaco a minha viagem solo à Escócia, que gostaria imenso de repetir mal seja possível, no mínimo à minha cidade favorita, Edimburgo. Subir o Arthur's seat foi das experiências mais satisfatórias do último par de anos, tanto pela vista panorâmica sobre Edimburgo, como ainda pela superação simbólica de medos e obstáculos. 

 

Destaco as pessoas que conheci. Por vezes sofro de memória selectiva, mas não me lembro de nenhuma pessoa que tenha conhecido sem que a viesse a admirar. Os amigos e a família também não tiveram um papel fácil e o carinho que me dedicaram não tem comparação em palavras.

 

Destaco o blogue. Consegui escrever mais do que no ano passado, o Sapo também o destacou várias vezes, chegaram novos leitores, fui encontrando motivação para cá voltar. Gosto de saber que vos tenho por aqui e que os meus exercícios de escrita e reflexão não ficam apenas para mim.

 

Destaco os livros que li. Embora ache que ainda tenho de aprender a ler melhor, já fiquei satisfeita com a quantidade (desafio do Goodreads superado!), porque também tive de ir lendo outros materiais para a faculdade no último trimestre. Ainda vou publicar o meu balanço livrólico detalhado antes de o ano acabar (antes disso, só tenho de terminar um ou dois livros).

 

De qualquer forma, acabei o ano a fazer aquilo de que gosto, em boa companhia, sem nenhum desejo por concretizar, com planos para novos projectos e talvez uma viagem ou outra. Saldo positivo!

 

2018 superado, que 2019 sirva para continuar a melhorar! (E já nem digo que sirva para escrever um livro, mas começar a tese já não seria mau.)

 

Imagens: Edinburgh Central Library e Calton Hill, Edimburgo, Maio de 2018

Não tenho cá procrastinado

Perdoem-me os dois ou três leitores habituais a falta de assiduidade na procrastinação blogosférica. Há fases assim. Felizmente! Nem blogue, nem Instagram, e Facebook reduzido. Ainda se escapa o Goodreads. Também já passei por algumas fases excessivas, mas, de facto, sinto falta de escrever aqui com mais regularidade. Na verdade, até tenho escrito alguns textos, mas ou os deixo a meio, ou serão publicados nos próximos dias (viva!).

 

Começo o meu mestrado na segunda-feira. Finalmente sinto alguma estabilidade pseudo-profissional - aliás, trabalho não me falta e já o começo a recusar quando aparece mais. Dum ponto de vista pessoal, têm-me acontecido coisas estupendas. À maioria dos meus amigos também. Tirando um ou outro desgosto ou imprevisto desagradável, não mudaria nada. Gente querida e feliz à minha volta. Livros. Desafios. E o tempo que vai voando quando estamos bem.

 

Piroseiras de quem está naquela altura do mês... Não me liguem, mas eu hei-de voltar melhor na próxima vez.

 

Bom fim-de-semana! 

36 perguntas que levam ao amor - a minha experiência pessoal

(contém alguns spoilers)

 

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Decidi deixar-vos um texto de opinião sincera acerca da minha experiência pessoal com as 36 perguntas que levam ao amor, desenvolvidas por uma equipa de investigadores e (viralmente) testadas por uma escritora - dado que é uma prática que podemos levar a cabo para sermos mais felizes, e que até já vos recomendei há poucos dias.

 

De facto, confirmo que, mais do que levar ao amor, as ditas 36 questões constituem um exercício que ajuda a criar intimidade em geral (até podem ser respondidas com um amigo ou um relativo desconhecido), mas, mais do que isso, acabo por considerá-las um desbloqueador de conversa. Até podemos pensar que sabemos tudo acerca de alguém, mas estas 36 perguntas provam que há sempre uma preferência, sonho, memória ou curiosidade sobre o nosso "parceiro de questionário" que nos faltava perguntar-lhe mais directamente.

 

Uma vez que fiz as 36 perguntas que levam ao amor com alguém de quem gosto muito e de quem me tenho tornado bastante próxima (em grande parte por já termos partilhado muita informação pessoal semelhante à pretendida pelo presente questionário e por termos muito em comum), sentimos que as nossas respostas choviam no molhado, ou que já sabíamos/prevíamos algumas sobre um e sobre outro, ou que eram frequentemente "eu também". Segundo o estudo, as questões deveriam ser feitas entre dois relativos estranhos - o que provavelmente corresponde ao propósito de muitas, só que em outras não faz sentido. Mas já lá iremos...

 

Em termos de duração do questionário, penso que depende muito do vosso perfil: são indivíduos muito faladores? Sentem-se acanhados? Já terão partilhado recentemente algumas das respostas a estas perguntas ou perguntas semelhantes? Em média, recomendo cerca de uma a uma hora e meia para responder à totalidade do questionário. Hão-de encontrar perguntas fáceis de responder e outras que vos farão reflectir ou discutir por algum tempo, uma vez que o exercício se divide em três partes, sendo a primeira composta por perguntas mais banais e a segunda e terceira por perguntas cada vez mais delicadas.

 

Ainda assim, tenho algumas falhas a apontar, falhas essas que me surpreenderam, talvez por causa das expectativas elevadas que tantos artigos, talks e divulgação me fizeram construir.

 

Como já referi, as 36 perguntas que levam ao amor são mais úteis quando não somos muito íntimos do nosso parceiro de questionário, caso contrário, o desenrolar da actividade revela-se previsível e repetitivo.

 

Contudo, as minhas maiores reservas partem do facto de algumas perguntas parecerem ter sido desenvolvidas para quem já tem alguma relação, por exemplo, quando temos que nomear 5 factos positivos sobre o nosso parceiro (pergunta 22) ou temos que referir aquilo de que honestamente gostamos nele (pergunta 28). Então, e se o tivermos acabado de conhecer? Só se respondermos "bom cabelo, boas pernas, bom traseiro, sorriso simpático, voz clara", que podem ser apenas banalidades insignificantes (passe-se o pleonasmo).

 

Finalmente, impõe-se a derradeira questão: mas estas 36 perguntas levam mesmo ao amor?

 

Não, não levam. Acho que esse título que lhe atribuíram funciona na qualidade de "golpe de marketing", mas o amor deveria ser, obviamente, mais do que responder a perguntas. Estas 36 perguntas levam, sim, à sensação de maior proximidade, ao estabelecer-se uma espécie de compromisso quanto à aceitação mútua das vulnerabilidades de cada participante. Criam uma oportunidade para sinceridade, generosidade e abertura que se querem recíprocas. Deste modo, no final resta a gratidão pela partilha.

 

(E compreende-se por que motivo podem ser usadas para aproximar indivíduos de comunidades, religiões, etnias, crenças distintas; ou para reaproximar casais cuja relação não esteja a passar pelos melhores dias.)

 

No final do exercício, é-nos proposto que nos olhemos nos olhos por quatro minutos, um tipo de jogo do sério. Eu e o meu parceiro conseguimos aguentar mais ou menos... quatro segundos (demos o nosso melhor, juro). Seja como for, claro que os quatro minutos podem ser determinantes para se criar intimidade com alguém que não se conheça bem. Sinceramente, não entendi que fizesse uma grande diferença no nosso caso, mas cada caso é um caso - não é o que se costuma dizer? 

 

Agora, desafio-vos a tentar estas 36 perguntas que levam ao amor com alguém igualmente disposto a ser uma cobaia para a ciência contemporânea. Quais serão as vossas conclusões? O que virão a sentir? Se o fizerem, partilhem os resultados connosco. Boa sorte! 💪