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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Este Verão

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É provável que eu já tenha aqui escrito sobre o assunto, mas nunca é demais reconhecê-lo e relembrá-lo: semana a semana, mês a mês, dia a dia, achamos sempre que pouco acontece.

 

A nossa vida parece não mudar, parece estar sempre "na mesma como a lesma", raros são os eventos de monta, os momentos passam sem andarmos sempre a reparar neles a cada segundo. Mas o caminho é em frente. Há quem costume dizê-lo, e realmente faz sentido. Vai-se fazendo, pensando, criando, evoluindo - sabe-se lá o quê, do quê.

 

Por isso, é sempre com grande admiração que chego a Setembro, a olhar para o que se passou nos oito ou nove meses anteriores, como se fosse quase impossível ter feito tanto em tão pouco tempo. E o mundo e as outras pessoas também não pararam. Ainda agora era Junho e eu pensava que nada de especial acontecera ou poderia vir a acontecer, e de repente é Setembro e...

 

É como magia. De facto, menosprezo e subestimo insistentemente a acumulação natural de pequenos feitos e alterações na minha própria vida ao longo do tempo. Tudo junto dá uma bela conta de somar com que me distraí.

 

Este Verão, em particular, parece ter permitido o florescimento de várias primaveras.

 

Em Julho, escrevi algumas ideias sobre o que esperava fazer nos meses seguintes - um prazo a terminar por volta desta altura em que faço o famoso balanço da última estação. Queria atingir com antecedência a minha meta de 30 livros para 2021, queria escrever como nunca me convenci a escrever, queria adoptar um novo passatempo... E consegui fazer tudo isso e mais alguma coisita.

 

Principalmente os dois últimos meses passaram a voar. Ainda mal acredito.

 

Portanto, agora posso dizer que estou a escrever um livro que já conta com 87 000 caracteres. Pelo meio, escrevi contos, anotei ideias para empreitadas futuras e voltei a inscrever-me em concursos literários.

 

Passei a ter ao meu cuidado cerca de 20 a 30 vasos de plantas (árvores, suculentas, flores...). Estou incrédula, este novo interesse apoderou-se de mim.

 

Tenho lido com curiosidade e em abundância. E até ando a ler quase todos os livros que compro!

 

Ouvi dezenas de horas de podcasts, quase todos sobre escrita, autores, escritores e psicologia.

 

Finalmente estou a conseguir organizar o meu espaço de trabalho. E comecei a cobrar mais na minha actividade profissional e a estabelecer limites horários, o que me permitirá trabalhar menos e melhor, para poder escrever e estudar.

 

Consegui publicar com alguma regularidade e o blog foi destacado muitas vezes nas páginas dos Blogs do Sapo e no Sapo.

 

Ao fim de mais de dez anos, voltei a fazer crochet.

 

Fui estando com família e amigos que me visitaram ou que pude visitar, e falei muitas horas ao telefone com eles.

 

Nos últimos dias, retomei o exercício físico. 

 

Pensei muito bem no que quero mesmo fazer nos próximos anos, e como fazê-lo, a começar agora.

 

O Outono começou, de dia ainda faz calor apesar de as noites já estarem frias, daqui a três semanas recomeço o mestrado e começo a pós-graduação.

 

Os meus alunos vão voltar das suas férias e mudanças de casa, por isso vou voltar a dar a quantidade de aulas do costume.

 

Este fim de semana, vou arrumar a roupa fresca e vou buscar a roupa quente ao roupeiro da tralha.

 

Daqui a pouco, vai cheirar ao fumo das chaminés, a primeira versão do meu livro vai estar terminada e o meu cérebro vai voltar a pensar que os dias são aborrecidos, escuros e pouco produtivos por causa da meteorologia adversa e a luz fraca que me deprimem. A minha lista de tarefas vai ficar a abarrotar com trabalhos, projetos e novidades com as quais ainda nem sonho.

 

Daqui a pouco, há-de chegar outra fase. Mais uma. Só mais uma, antes de todas as outras, a toda a velocidade ou sem pressa nenhuma.

Fui à Feira do Livro de Lisboa e já tive de arranjar uma nova estante

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1. Feiroooou! Sim, estou muito contente, e sim, já tive de arranjar outra estante.

2. Sou uma pessoa bastante nostálgica. Depois de Março de 2020, passei a trabalhar exclusivamente em casa, por isso já estava cheia de saudades de Lisboa, onde só voltei umas cinco vezes desde então, todas elas visitas rápidas ou por motivos muito específicos e nunca no centro. Ontem, tinha planos para lá passar o dia. O trânsito na A2 fluía; o céu azul e a brisa fresca indicavam o início deste dia maravilhoso; a ideia de rever amigos queridos deixava-me num estado de entusiasmo leve pelo qual esperei vários meses. No entanto, assim que cheguei ao túnel do Marquês, lembrei-me de que gosto é de conduzir (pouco, muito pouco) fora da cidade, de viver longe de semáforos e lugares de estacionamento duvidosos, e de não ter de apanhar o metro e o comboio todos os dias.

3. Terei sempre Lisboa guardada no coração, principalmente pelas livrarias e pelos amigos. Por uns e por outros, vale sempre a pena regressar.

 

Aproveito para também vos deixar com os livros que comprei na Feira do Livro:

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Já leram algum destes? E têm recomendações do género "crónica (mais ou menos) autobiográfica"?

A propósito, o livro Depois a Louca Sou Eu, da autora Tati Bernardi, é um dos livros da minha vida. Acho que, depois de o ler pela primeira vez, há dois anos, nem me cheguei a aperceber de quanto mudaria a minha vida, a minha própria escrita, a minha forma de ver o mundo. Comprei para oferecer, claro está, agora que tem uma nova edição pela Tinta-da-China.

As dores do trabalhador independente

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Living with solitude is a skill we all need and one we can improve, but being alone all day, every day or even most days, can be tough. It is much harder to frown out your inner critic when you don't have other, noisier people around to shout over it, or quieter ones to talk you down, and though it might spur on creativity and innovation, it's also much easier for unwanted thoughts to bubble up and overtake you. - Rebecca Seal, em How to Work Alone (and Not Lose Your Mind)

 

Trabalhar por conta própria torna as nossas dores muito solitárias. Se, por um lado, todas as vitórias parecem arrancadas a ferro e fogo, contra todas as expectativas, provando o esforço empreendido e a argúcia que lá encontrámos para resolver os desafios, por outro, todas as dores permanecem no nosso peito, quais batatas quentes que ficaram a arder no nosso colo, por não termos a quem passar o fardo. Não temos ninguém com quem partilhar o fardo das dificuldades, das desilusões ou dos insucessos. Estamos por nossa conta, para o bem (efémero, fácil de esquecer) e, acima de tudo, para o mal (o que mais relembramos, insistentemente).

 

De facto, é mais fácil prestar atenção ao que corre mal, do que ao que corre bem. Maldito enviesamento cognitivo! Diz a ciência que, para cada coisa negativa, devemos ter três positivas. Para quem trabalha sozinho, esta percepção errónea mata aos poucos a nossa confiança e o nosso bem-estar global.

 

Ultimamente, a existência de altos e baixos nas minhas atividades tem-me deixado mais cansada. Parece que, para cada nova alegria e fonte de satisfação, germina um novo obstáculo. Por outro lado, tenho de me recordar com frequência que o que interessa é não regredir, mesmo quando não há progresso. E que, além dessas atividades profissionais mais óbvias, tenho outras atividades nas quais posso encontrar consolo e realização - a escrita e o estudo sendo exemplos claros disso, não me trazendo remuneração neste momento, mas representando vitórias de um tipo diferente, não menos válido e, decerto, valioso na mesma medida.

 

Para colmatar alguma solidão sentida no processo, sinto que tem ajudado falar com uma amiga, também ela freelancer. Ultimamente, partilhamos dores muito parecidas, nas suas causas, manifestações, efeitos. Seja a ansiedade, seja a autoestima (temporariamente) posta em causa, seja as mil interrogações sobre o que fazer, quando fazer e como fazer... Sem dúvida, ajuda dividir as dores, mesmo que numa curta chamada ou mensagem, como faríamos ao almoço com colegas de trabalho, se trabalhássemos no mesmo espaço físico, no mesmo emprego.

 

Aliás, esse é um dos conselhos que li este fim-de-semana no livro que vos sugiro até sem ter chegado a meio da leitura, Solo: How to Work Alone (and Not Lose Your Mind):

Ser trabalhador independente a partir de casa, no meio duma pandemia, a viver longe da cidade, não tem de ser uma atividade solitária e isolada, ainda que pela sua natureza tenha de ser uma atividade realizada de forma individual, a sós com a nossa própria pessoa e mais ninguém (a tal que, tantas vezes, se tem de desdobrar em empregado, chefe, contabilista, marketeer, criativo, estafeta, gestor de equipa...; e que, por isso, se encontra exausta).

 

Ou seja, partilhar a experiência com mais gente da nossa confiança, que num contexto de empresa adoraríamos ter como colegas, pode ser uma solução para não nos sentirmos tão desacompanhados e para, acima de tudo, eles nos irem lembrando daquilo que teimamos em esquecer - como a normalidade das dores absolutamente inevitáveis, quiçá fundamentais, desta escolha profissional/económica que tomámos há uns anos. E que está tudo bem. E que não há problema sério nenhum, só as queixas habituais.

Aniversários, bolachas, e abraços (suprimidos)

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Três dos meus amigos já fizeram anos durante a pandemia. Um. Dois. Três. E eu também. Quatro pessoas. A quinta faz daqui a nove dias.

 

São cinco encontros sem abraços, beijos, apertos, festinhas, nem sequer a liberdade de não nos preocuparmos com o possível desleixo de uma palmadinha. É só uma palmadinha, mas a distância de segurança obriga à eliminação de todo e qualquer ensaio de contacto físico. Até o contacto visual se torna doloroso, como prova última do afastamento coagido.

 

A pandemia trouxe bolachas caseiras ao domicílio a cada um dos meus amigos nos seus aniversários (apesar de hoje ser o dia do terceiro contemplado, ainda se admirou muito que eu lá tivesse aparecido à porta), mas também o desconforto das despedidas sem algo que as marque. Se outros povos vivem bem sem o quente do xi-coração, parabéns a eles. Pelo menos na minha vida, ninguém do meu círculo mais próximo costumava livrar-se de ser esganado pelo pescoço com um "gosto tanto de ti!".

 

O risco de contágio até pode ser irrelevante nalgumas situações: todos nós, à partida, tão isolados quanto possível. No entanto, se todos violássemos esse cuidado, acabávamos a multiplicar exponencialmente a quantidade de interacções. Enfim, é difícil viver estes tempos quando somos pessoas que dependem tanto do contacto de pele com pele, bochecha com bochecha. Hoje, estive duas horas a falar com o amigo aniversariante, primeiro só a caminhar lado a lado, depois sentados num banco de jardim, e a alegria de o ver pela primeira vez em seis meses misturou-se facilmente com a angústia de não me poder aproximar.

 

No meu lanche de aniversário, uma amiga acabou por desafiar a sorte: atirou-se para cima de mim mal me viu. Perdida por um abraço, perdida pelos restantes. Acabei por me render e por deixar que o dia passasse com todo o toque possível. Soube tão bem. Foi, provavelmente, o melhor dia desde meados de Março, porque pude fingir, durante algumas horas, que estava tudo normal, pelo menos em relação a uma pessoa. A minha amiga acabou por beijar e abraçar outros membros da minha família, e fingimos que não fazia mal (não fez, felizmente), que poderia ter sido um dia normal de Junho doutro ano qualquer.

 

Cada vez que vejo amigos, tenho tanta vontade de os abraçar, de violar a distância de segurança, de não fazer nada do que é recomendado. Apetece-me apertá-los tanto, que pareça que lhes vão sair os olhinhos pelas pálpebras. Em vez disso, faço bolachas de côco ou gengibre e aceno-lhes um adeus desenxabido.

 

Esta pandemia está a dar cabo de mim.

 

***

 

Na fotografia, uma das primeiras fornadas de ensaio nas primeiras semanas de quarentena.

20 para 2020: acima de tudo, amor, conhecimento e livros

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Já estamos no quarto dia do ano e eu não escrevo no blog há vinte e sete. Regressei, mas não sem uma certa culpa de abandonar a prática da escrita, e do reconhecimento de quem gosta de ler o que se publica por aqui.

Recomecemos.

 

No ano passado, escrevi e disseminei por aí a lista "19 para 2019", ideia que pedi emprestada à Gretchen Rubin. Antes de 2019 terminar, cedi à curiosidade de a revisitar. Foi assim que concluí: excedi-me de formas que nunca imaginei. Claro que a maioria dos pontos relacionados com livros jamais teriam condições para ser concretizados, em doze meses tão ocupados e repletos de reviravoltas. Tive tantas decisões para tomar; doze meses que pensei que não teria energia nem engenho para transformar, mas afinal doze meses em que aconteceu o suficiente para valerem por trinta e seis. Jamais teria tempo para levar a cabo tanta leitura, porque jamais imaginei metade do que acabou por fazer parte de 2019.

 

Dito isto, 2019 foi o ano em que tive como nunca - e em que deixei de me preocupar com - impostor syndrome, porque fui eu que fiz acontecer tudo o que aconteceu e quem fez um esforço por conhecer as pessoas que conheci, por isso vamos lá deixar-nos de tretas! (Momento reservado para uma pequena dança da vitória desta que vos escreve.) Se me tivessem dito em Janeiro que iria abandonar o segundo mestrado, começar um terceiro, ter o meu local de trabalho, ir ao ginásio religiosamente todas as quartas-feiras, tirar quase dez formações, viajar com a minha cara-metade e fazer não só novas amizades, como também liderar um grupo de escrita... eu diria que era mentira, porque não é possível fazer isso tudo em 365 dias.

 

Além disso, destaco esta ideia: foram as pessoas as grandes culpadas do balanço positivo, apesar da minha narrativa pessoal se basear na crença de que sou um bocado bicho. Pela positiva, destaco duas pessoas (sem prejuízo para todas as outras, como a minha família e a família do João, a Inês, a Daniela, o Carlos, a Joana e o Rui). No início do ano, conheci a Elisa. A Elisa (que migrou ontem para os Blogs do Sapo) também se surpreende bastante quando os planos dela lhe correm bem, ou quando algo inesperado surge. Desde que a conheci, no encontro de Março das CreativeMornings Lisboa, sinto que os nossos caminhos se tinham mesmo de cruzar e que fazemos realmente a diferença na vida uma da outra. A Elisa é a parceira ideal e tem preocupações e objectivos que tocam nos meus. Esquece-se facilmente das suas próprias capacidades, mas vai fazendo e acumulando conquistas sem se dar conta. Além dela, destaco o João, que aparentemente nem sequer tinha muito a ver comigo (ele calmo e pragmático, estável; eu caótica e sempre a ruminar, sempre a mudar de ideias), excepto o facto de termos descoberto que fazemos um do outro pessoas muito melhores e mais felizes, e que partilhamos o mais importante, que são os valores e os desejos para o futuro, além da sensação discutivelmente pirosa de já nos conhecermos há muito mais tempo. Ora, estas duas pessoas marcaram 2019, por me fazerem acreditar que tudo é possível, se tivermos a companhia certa.

 

Este ano, ainda estou a fazer a minha lista "20 para 2020". No entanto, não poderei divulgá-la por completo no blog, uma vez que algumas das linhas contemplam planos surpresa com e para outras pessoas que lêem o meu blog. Mas... não poderia deixar de partilhar algumas partes.

Quero começar a aprender Latim ou Alemão.

Quero fazer duas viagens, uma delas à Tailândia.

Quero criar dois cursos presenciais e um online.

Quero terminar o mestrado executivo em Psicologia Positiva Aplicada.

Quero fazer um MBA em Gestão e Coordenação Pedagógica da Formação.

Quero passar a ir ao ginásio duas vezes por semana.

Quero comprar um computador novo.

Quero ver 30 filmes.

Quero conhecer três séries do início ao fim.

Quero ser contida e não comprar mais de 20 livros.

Quero continuar a escrever para o P3, pelo menos uma vez por mês. E para o blog todas as quinzenas.

(E quero ter tempo e dinheiro para concretizar tudo isto.)

 

Esta é uma das épocas do ano em que mais escrevemos sobre balanços e esperanças. É verdade que não funciona para toda a gente da mesma maneira, que há quem prefira ver os anos como uma linha contínua, mas cabe a cada um de nós adoptar os hábitos que mais lhe fazem sentido. Para mim, é este: há quem ache celebrar um novo ano lamechas; eu acho bonito e bem intencionado. Ter e partilhar objectivos é saudável, inaugurar ciclos permite-nos ganhar fôlego e expectativas renovadas. Assim sendo, também vos desejo um novo ciclo cheio de mais e melhor, com um rácio de positividade de 3 por 1, para que possam florescer (diz a Barbara Fredrickson e os outros entendidos da Psicologia Positiva). E prometo voltar a procrastinar mais, escrevendo com regularidade. Sobre livros. Possivelmente sobre livros.

 

Até breve.

Uma entrevista "Sem Fronteiras" a Carlos Barros: emigração, famílias, bem-estar e muitos sonhos

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Uma das grandes alegrias de trabalhar por conta própria é poder fazer outras coisas que não... trabalhar. Os meus dias raramente são iguais, o que por vezes é assustador, e noutras é uma benção. Tenho tempo e, acima de tudo flexibilidade - tempo e flexibilidade para estudar e aprender, para planear projectos profissionais e outros não remunerados, para escrever no blog, para ler a meio do dia, para ir ter com amigos, para sonhar acordada, para levar a cabo o que ainda me dá mais prazer do que o meu trabalho (que, por acaso, é bastante agradável). Claro que há dias mais ocupados e caóticos do que outros, mas a possibilidade de outros dias de serendipidade deixa-me leve.

 


Então, na semana passada decidi entrevistar o Carlos Barros, um amigo-estrela-cronista-entrevistador-investigador (e excelente cozinheiro de lasanha vegetariana), a propósito do seu primeiro programa de televisão-Internet/projecto de voluntariado social. Fi-lo só porque sim, porque é tão bom elogiar os nossos, mostrar aos outros o que eles andam a fazer, porque idealmente seremos a média das pessoas que nos rodeiam, e eu ficaria satisfeita por ser só um bocadinho do que os meus amigos são. O produto não ficou perfeito, mas foi feito com boas intenções.

 

Já tenho divulgado alguns projectos do Carlos no blogue e nas redes sociais, nomeadamente como cronista no Jornal Económico e no P3, mas agora este programa, que se chama "Sem Fronteiras", acaba por ser uma extensão de tudo o que o Carlos estuda, aquilo que ele sente, aquilo que o emociona e que o move. Foi um projecto em que se envolveu durante as férias, em vez de estar a descansar das mil e uma tarefas que lhe enchem o dia-a-dia, e isso diz tudo.

 

O objectivo do programa "Sem Fronteiras" é dar voz a quem deixou Portugal à procura de melhores condições de vida, em busca doutros sonhos e doutros horizontes. Desta forma, no programa vamos assistir a entrevistas tocantes a emigrantes portugueses, sobre a sua vida lá fora, sobre as suas visitas a Portugal, sobre as suas famílias e, em geral, sobre as suas vidas. É de destacar que a investigação do doutoramento do Carlos se chama Famílias Pelo Mundo, concentrando-se na solidariedade intergeracional e relações familiares, pelo que não haverá ninguém melhor do que ele para este tipo de entrevista. 

 

Além disso, como bem sabem se já acompanham o blog há algum tempo, também eu vivi muito longe de Portugal durante quase dois anos, por isso temas relacionados com a emigração tocam-me de forma especial. Se eu vivi o que vivi e senti o que senti durante tão pouco tempo, nem consigo imaginar o que vive e sente quem se encontra indefinidamente num contexto tão desafiante quanto viver noutro país, cultura, realidade...

 

Saí um pouco do que tem sido o registo do blog, voltando a publicar um vídeo como cheguei a fazer há dois anos, mas espero apresentar-vos um projecto interessante - feito por uma pessoa interessante e de quem gosto muito, e por isso bastante especial. 

 

(Entrevista filmada n'A Sala, apenas um dos meus sítios favoritos em Lisboa!)

[O Primeiro Capítulo] Quero escrever-lhes a agradecer, mas já esgotámos todas as palavras boas

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Ontem, tivemos "A Primeira Vez" d'O Primeiro Capítulo, com o convidado-cobaia-amigo Nelson Nunes, e eu ia dizer que foi ideia minha e da Elisa, mas não: já todos os presentes a tinham tido, e finalmente encontrámos a companhia que nos faltava. Confesso que, quando decidimos levar o projecto avante, não me ocorreu que suscitasse tanto interesse. Eu sabia que haveríamos de juntar algumas pessoas curiosas, mas... Mais do que isso: ontem demos as boas-vindas a um grupo como eu nunca tinha visto. Da quantidade de cursos de escrita criativa que já frequentei, dos eventos a que já fui, da licenciatura em Letras e das centenas de alunos que já ensinei nos últimos cinco anos, nunca me tinha deparado com tantos ditos escritores amadores numa só sala (dez!) que escrevessem, tão despretensiosos, de forma tão responsável, sensível.

 

Neste primeiro encontro d'O Primeiro Capítulo, tivemos participantes com formações académicas muito distintas, e quase nunca relacionadas com a literatura ou a escrita criativa (engenharia, arquitectura, finanças, enfermagem, ciência política, sociologia, biologia...). No entanto, todos cultivam um enorme amor e prazer pelas letras, provando que não temos de nos definir exclusivamente pelos empregos que nos pagam as contas, e que os nossos interesses podem divergir imenso, enriquecendo-nos tanto. Somos seres com potenciais tão complexos!

 

No final, restou-me uma sensação particular: fiquei cheia. Não sei bem de quê, porque é um tipo de satisfação indescritível. Devo ter deixado todas as palavras com quem as apanhou. Queria agradecer, e nem sei bem por onde começar.

 

O grupo teve muita química, demonstrámos o interesse comum pela elaboração de textos desafiantes, "com qualidade", e mostrámos vulnerabilidade suficiente para ouvirmos a nossa escrita pela voz doutra pessoa, sem por vezes nunca termos tido uma experiência semelhante. Ouvimos, recolhemos e distribuímos opiniões. Acho que fomos generosos. Queríamos, acima de tudo, ajudar e sermos ajudados, dar e receber, mostrando-nos disponíveis durante algumas horas para integramos um colectivo improvisado. Poucas ou nenhumas eram as pessoas que conhecíamos previamente, mas toda a conversa foi harmoniosa e fluiu pelo dobro do tempo previsto (na verdade, até os vizinhos terem afugentado os últimos resistentes, que doutra forma teriam ficado a conversar noite fora, e não só sobre escrita).

 

Em Novembro há mais! Com os mesmos ou outros participantes, contaremos dar as boas-vindas a mais interessados em partilhar os seus primeiros, segundos ou milésimos capítulos (graças ao apoio d'A Sala, um dos melhores espaços para simplesmente se estar e conviver, em Lisboa).

 

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Há uma frase que a Elisa tem dito nos últimos dias e que eu já referi antes: somos a média das cinco pessoas com quem passamos mais tempo. Elas inspiram-nos, mostram-nos caminhos alternativos e partilham o seu conhecimento connosco. Por isso, obrigada à própria Elisa (que é uma máquina de fazer coisas giras acontecerem), ao Nelson (que deve ser das pessoas mais organizadas que conheço, a julgar pela quantidade de livros que lê e pelos projectos em que se envolve) e a esta dezena de escritores de segunda-feira... por fazerem parte dessa equação maravilhosa, promissora. Estes últimos meses foram uma montanha-russa, e agora que a poeira está a assentar sei que é de pessoas assim que tenho de me rodear.

 

✍️ Em breve, divulgaremos a data e o tema para Novembro, tal como todas as outras informações úteis para quem se quiser juntar a nós! E, além disso, também começaremos a gravar o respectivo podcast O Primeiro Capítulo!

 

Até lá, sigam-nos por aqui:

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O Primeiro Capítulo dum projecto e podcast muito, muito bons!

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Já que não posso começar a rentrée psicológica com o primeiro dia de aulas, venho por este meio lançá-la com um novo projecto para o qual fui arrastada: O Primeiro Capítulo, um encontro por pessoas que gostam de escrever, para pessoas que também gostam de escrever.

 

Desde o início do ano que comecei a ir aos pequenos-almoços mensais das Creative Mornings Lisbon (das quais já vos falei imensas vezes), onde conheci a Elisa Baltazar, a host actual. Parece que a Elisa é uma máquina de fazer coisas acontecer, por isso não foi com grande surpresa que, já não me lembro bem como, decidimos fazer... isto que estamos a fazer! Queríamos escrever, queríamos conhecer mais pessoas que também queiram escrever, e temos vontade de criar uma oportunidade para todos esses escritores de gaveta se encontrarem, trocarem umas quantas ideias e partilharem alguns textos. Acreditamos que esta é uma forma de enriquecimento e crescimento.

 

Sem mais demoras, este é o texto de apresentação do encontro e podcast O Primeiro Capítulo!

 

𝐏𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐠𝐨𝐬𝐭𝐚𝐦 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐫𝐞𝐯𝐞𝐫 𝐩𝐫𝐨𝐜𝐮𝐫𝐚𝐦 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐠𝐨𝐬𝐭𝐚𝐦 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐫𝐞𝐯𝐞𝐫

Dizem que para bem escrever são necessárias duas coisas, ler e escrever.
Concordamos, mas achamos, também , que é necessário optimizar a forma como se lê e a forma como se escreve.
Não é à toa que escritores tão importantes como Bocage, Alexandre Herculano, Almada Negreiros, Fernando Pessoa ou Mário de Sá Carneiro se juntavam em tertúlias onde, entre outros temas politicos e intelectuais, falavam de literatura.
Acreditamos que a interação também inspira, também ensina e também motiva.
Assim, o Primeiro Capítulo é um ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

Nestes encontros o objetivo passa, principalmente, por escrever. Escrever todos os meses ou, pelo menos, uma vez por mês. Não mais que 500 palavras sobre um tema que se mostre desafiante.
Uma vez escrito o texto, juntamo-nos e passamos esse texto a alguém para ler em voz alta. Este exercício permite-nos ver como outra pessoa entoa o nosso texto. Ouvir as nossas palavras pela boca de outro pode dar-nos toda uma nova perspetiva sobre a forma como escrevemos. Durante essa leitura não haverá lugar a comentários ou correções. O objetivo é que esta leitura nos dê espaço para repensar a forma como escrevemos.
Depois desta leitura, haverá espaço para comentários. Todos, exceto aquele que o escreveu, terão a oportunidade de comentar aquilo que sentiram falta no texto ou que possa ter ficado menos claro. Finalmente, serão feitas questões ao autor.
Em nenhum destes momentos, o autor terá a palavra. O objetivo aceitar a crítica como construtiva e ter tempo para refletir sobre a mesma.

Finalmente, contaremos também com a presença de um profissional da indústria para partilhar dicas, ideias comentários e, claro, inspirar-nos.

 

Mais concretamente, o objectivo destes encontros é discutir em conjunto textos que tenhamos produzido, sobre o tema lançado cada mês. Também contaremos com convidados especiais em todos esses encontros, que poderão oferecer críticas mais construtivas e algumas dicas relacionadas com o seu trabalho e possíveis obras.

 

Toda a informação pode ser encontrada online, no Instagram e no Facebook d'O Primeiro Capítulo, assim como no site Meetup.

 

Para Outubro, já temos tudo tratado e combinado, e estamos mesmo a aceitar inscrições! O nosso primeiro convidado no dia 7 (segunda-feira) será o Nelson Nunes, um autor de quem já vos falei por aqui, e conhecendo-o há quase uma década e tendo acompanhado a carreira (e a riqueza da estante) dele durante estes anos todos, tenho a certeza de que vamos ter conversas muito interessantes sobre escrita e livros. Para participarem, enviem-me/enviem-nos uma mensagem pelas plataformas e redes sociais sugeridas, ou um e-mail para podcastprimeirocapitulo@gmail.com.

 

Além do encontro, também faremos um podcast d'O Primeiro Capítulo... Mas falarei de tudo a seu tempo! Por agora, gostava muito que acompanhassem este projecto do meu coração, que  hão-de sair daqui belíssimas ideias. E espero ver alguém dos blogs nos nossos encontros! Conto convosco? 💚

Vistos, ouvidos e validados

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Todos queremos ser vistos. Queremos ser vistos, no sentido de não precisarmos de chamar a atenção para a recebermos, no sentido de darmos e ser-nos dado. O que provavelmente todos nós procuramos não é só a admiração dos outros, o que nos obrigaria a algum feito ou conquista extraordinária, mas sim o reconhecimento de que existimos apenas por existirmos.

 

Escrevemos em blogs, criamos redes sociais e escolhemos a melhor foto de perfil, publicamos stories no Instagram, damos o nosso melhor em discussões sociais, aparecemos em meet-ups, criamos listas de leitura no Goodreads, apostamos em relações pessoais diversas com pessoas de alguma forma semelhantes a nós, melhoramos o CV, preparamos apresentações, ensaiamos a forma como nos rimos e vestimos, porque - em grande parte - queremos ser vistos, ouvidos e validados, mas o objectivo final deve com certeza passar por conseguirmos ser vistos, ouvidos e validados por causa natural, isto é, sem precisarmos de nos explicar, nem o que sentimos, sem precisarmos de nos esforçar a todo o momento, sendo nós mesmos.

 

O cliché ganha profundidade quando queremos ser incondicionalmente vistos, ouvidos e validados por quem nos rodeia num Sábado ao final da tarde, sem banho tomado, vestidos com peças de pijama desirmanadas, a mastigar bolachas de sour cream de boca aberta, a espalhar migalhas pelo chão, de pernas escancaradas e a coçar a caspa oleosa para dentro das unhas, com os olhos inchados por termos chorado com a morte do cão Marley na televisão pela 54ª vez na vida - pelo menos tanto quanto nos dias em que o resto do mundo também tem razões para nos ver, ouvir e validar.

 

Aquilo de que andamos todos à procura é quase um amor paternal ou maternal da parte de familiares, amigos e parceiros, uma imitação da segurança sem constrangimentos que idealmente teremos sentido quando éramos pequenos. Por muito independentes e decididos, precisamos de quem tome conta de nós, ou sobre quem nós acreditemos que o pudesse fazer caso fosse necessário, queremos alguém que demonstre afecto só porque lhes apeteceu, que nos perguntem como estamos sem termos de acenar com três sinais de trânsito e uma avioneta, que nos liguem só para desejar um bom dia, sejam espontâneos nas demonstrações e não poupem no afecto e nos elogios - afinal, diz-se que nos tornamos aquilo em que os outros acreditam que somos ou nos podemos tornar.