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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Este Verão

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É provável que eu já tenha aqui escrito sobre o assunto, mas nunca é demais reconhecê-lo e relembrá-lo: semana a semana, mês a mês, dia a dia, achamos sempre que pouco acontece.

 

A nossa vida parece não mudar, parece estar sempre "na mesma como a lesma", raros são os eventos de monta, os momentos passam sem andarmos sempre a reparar neles a cada segundo. Mas o caminho é em frente. Há quem costume dizê-lo, e realmente faz sentido. Vai-se fazendo, pensando, criando, evoluindo - sabe-se lá o quê, do quê.

 

Por isso, é sempre com grande admiração que chego a Setembro, a olhar para o que se passou nos oito ou nove meses anteriores, como se fosse quase impossível ter feito tanto em tão pouco tempo. E o mundo e as outras pessoas também não pararam. Ainda agora era Junho e eu pensava que nada de especial acontecera ou poderia vir a acontecer, e de repente é Setembro e...

 

É como magia. De facto, menosprezo e subestimo insistentemente a acumulação natural de pequenos feitos e alterações na minha própria vida ao longo do tempo. Tudo junto dá uma bela conta de somar com que me distraí.

 

Este Verão, em particular, parece ter permitido o florescimento de várias primaveras.

 

Em Julho, escrevi algumas ideias sobre o que esperava fazer nos meses seguintes - um prazo a terminar por volta desta altura em que faço o famoso balanço da última estação. Queria atingir com antecedência a minha meta de 30 livros para 2021, queria escrever como nunca me convenci a escrever, queria adoptar um novo passatempo... E consegui fazer tudo isso e mais alguma coisita.

 

Principalmente os dois últimos meses passaram a voar. Ainda mal acredito.

 

Portanto, agora posso dizer que estou a escrever um livro que já conta com 87 000 caracteres. Pelo meio, escrevi contos, anotei ideias para empreitadas futuras e voltei a inscrever-me em concursos literários.

 

Passei a ter ao meu cuidado cerca de 20 a 30 vasos de plantas (árvores, suculentas, flores...). Estou incrédula, este novo interesse apoderou-se de mim.

 

Tenho lido com curiosidade e em abundância. E até ando a ler quase todos os livros que compro!

 

Ouvi dezenas de horas de podcasts, quase todos sobre escrita, autores, escritores e psicologia.

 

Finalmente estou a conseguir organizar o meu espaço de trabalho. E comecei a cobrar mais na minha actividade profissional e a estabelecer limites horários, o que me permitirá trabalhar menos e melhor, para poder escrever e estudar.

 

Consegui publicar com alguma regularidade e o blog foi destacado muitas vezes nas páginas dos Blogs do Sapo e no Sapo.

 

Ao fim de mais de dez anos, voltei a fazer crochet.

 

Fui estando com família e amigos que me visitaram ou que pude visitar, e falei muitas horas ao telefone com eles.

 

Nos últimos dias, retomei o exercício físico. 

 

Pensei muito bem no que quero mesmo fazer nos próximos anos, e como fazê-lo, a começar agora.

 

O Outono começou, de dia ainda faz calor apesar de as noites já estarem frias, daqui a três semanas recomeço o mestrado e começo a pós-graduação.

 

Os meus alunos vão voltar das suas férias e mudanças de casa, por isso vou voltar a dar a quantidade de aulas do costume.

 

Este fim de semana, vou arrumar a roupa fresca e vou buscar a roupa quente ao roupeiro da tralha.

 

Daqui a pouco, vai cheirar ao fumo das chaminés, a primeira versão do meu livro vai estar terminada e o meu cérebro vai voltar a pensar que os dias são aborrecidos, escuros e pouco produtivos por causa da meteorologia adversa e a luz fraca que me deprimem. A minha lista de tarefas vai ficar a abarrotar com trabalhos, projetos e novidades com as quais ainda nem sonho.

 

Daqui a pouco, há-de chegar outra fase. Mais uma. Só mais uma, antes de todas as outras, a toda a velocidade ou sem pressa nenhuma.

Fui à Feira do Livro de Lisboa e já tive de arranjar uma nova estante

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1. Feiroooou! Sim, estou muito contente, e sim, já tive de arranjar outra estante.

2. Sou uma pessoa bastante nostálgica. Depois de Março de 2020, passei a trabalhar exclusivamente em casa, por isso já estava cheia de saudades de Lisboa, onde só voltei umas cinco vezes desde então, todas elas visitas rápidas ou por motivos muito específicos e nunca no centro. Ontem, tinha planos para lá passar o dia. O trânsito na A2 fluía; o céu azul e a brisa fresca indicavam o início deste dia maravilhoso; a ideia de rever amigos queridos deixava-me num estado de entusiasmo leve pelo qual esperei vários meses. No entanto, assim que cheguei ao túnel do Marquês, lembrei-me de que gosto é de conduzir (pouco, muito pouco) fora da cidade, de viver longe de semáforos e lugares de estacionamento duvidosos, e de não ter de apanhar o metro e o comboio todos os dias.

3. Terei sempre Lisboa guardada no coração, principalmente pelas livrarias e pelos amigos. Por uns e por outros, vale sempre a pena regressar.

 

Aproveito para também vos deixar com os livros que comprei na Feira do Livro:

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Já leram algum destes? E têm recomendações do género "crónica (mais ou menos) autobiográfica"?

A propósito, o livro Depois a Louca Sou Eu, da autora Tati Bernardi, é um dos livros da minha vida. Acho que, depois de o ler pela primeira vez, há dois anos, nem me cheguei a aperceber de quanto mudaria a minha vida, a minha própria escrita, a minha forma de ver o mundo. Comprei para oferecer, claro está, agora que tem uma nova edição pela Tinta-da-China.

Há sortes que não se fazem, que só se têm

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Há sortes que não se fazem, que só se têm. Talvez criemos as condições para as recebermos da melhor forma possível, mas no final do dia o que é fascinante é vê-las chegar, assentar arraiais e criarem raízes na nossa vida, bafejada por ventos com certeza soprados por trevos de quatro folhas. Que sortes são!

 

Saiu-me a sorte grande no amor. Aliás, sai-me a sorte grande todos os dias, no presente do indicativo, repetidamente. Não há hesitação. Não conheço um abundância de amores assim, acho que são poucos, o que sinceramente é uma pena. Felizmente, acho que vários amigos meus lá encontraram sortes semelhantes, mas gostava muito que mais pessoas as pudessem ter.

 

No outro dia, dizia a outra amiga: "quando começa, quando nos estamos a conhecer, não sabemos, e até pensamos que há alguma coisa errada, pensamos que parece tudo muito estranho". De facto, foi isso que me deu toda a certeza de que eu não ia deixá-lo fugir-me entre os dedos, mal conheci o João. Era tudo novo, tudo me parecia novo, sentia tudo de novo e como novo. Fiz bem em acreditar nessa estranheza. Surpreendia-me constantemente e tinha de contrariar o hábito e as crenças de que tudo o que não fosse como eu achava que havia de ser estava mal, porque era exactamente isso que estava bem.

 

Mas, em geral, só pode ter sido sorte, só pode ser sorte. Só preciso de ter encontro marcado com ela no dia-a-dia.

 

E resta-me desejar que todas as pessoas cheguem a encontrar-se numa relação que é de facto uma parceria, onde não há pretensiosismo, falsidade, necessidade de perfeccionismo, nem receios e medos, dúvidas, demasiados dias maus aos quais se perca a conta.

 

É tão bom viver num estado de paz e calma, onde existe uma rede para cair quando se tropeça; e onde há um projecto comum, sonhos comuns, vontades comuns e, por isso, um espaço e um ambiente propícios aos projectos, sonhos e vontades individuais; e onde nos sentimos em família, ligados a alguém que nos rega de amor, humor e fé.

 

Por mais namoros, casamentos, uniões de facto, relações amorosas mais ou menos temporárias ou estáveis assim...!

As dores do trabalhador independente

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Living with solitude is a skill we all need and one we can improve, but being alone all day, every day or even most days, can be tough. It is much harder to frown out your inner critic when you don't have other, noisier people around to shout over it, or quieter ones to talk you down, and though it might spur on creativity and innovation, it's also much easier for unwanted thoughts to bubble up and overtake you. - Rebecca Seal, em How to Work Alone (and Not Lose Your Mind)

 

Trabalhar por conta própria torna as nossas dores muito solitárias. Se, por um lado, todas as vitórias parecem arrancadas a ferro e fogo, contra todas as expectativas, provando o esforço empreendido e a argúcia que lá encontrámos para resolver os desafios, por outro, todas as dores permanecem no nosso peito, quais batatas quentes que ficaram a arder no nosso colo, por não termos a quem passar o fardo. Não temos ninguém com quem partilhar o fardo das dificuldades, das desilusões ou dos insucessos. Estamos por nossa conta, para o bem (efémero, fácil de esquecer) e, acima de tudo, para o mal (o que mais relembramos, insistentemente).

 

De facto, é mais fácil prestar atenção ao que corre mal, do que ao que corre bem. Maldito enviesamento cognitivo! Diz a ciência que, para cada coisa negativa, devemos ter três positivas. Para quem trabalha sozinho, esta percepção errónea mata aos poucos a nossa confiança e o nosso bem-estar global.

 

Ultimamente, a existência de altos e baixos nas minhas atividades tem-me deixado mais cansada. Parece que, para cada nova alegria e fonte de satisfação, germina um novo obstáculo. Por outro lado, tenho de me recordar com frequência que o que interessa é não regredir, mesmo quando não há progresso. E que, além dessas atividades profissionais mais óbvias, tenho outras atividades nas quais posso encontrar consolo e realização - a escrita e o estudo sendo exemplos claros disso, não me trazendo remuneração neste momento, mas representando vitórias de um tipo diferente, não menos válido e, decerto, valioso na mesma medida.

 

Para colmatar alguma solidão sentida no processo, sinto que tem ajudado falar com uma amiga, também ela freelancer. Ultimamente, partilhamos dores muito parecidas, nas suas causas, manifestações, efeitos. Seja a ansiedade, seja a autoestima (temporariamente) posta em causa, seja as mil interrogações sobre o que fazer, quando fazer e como fazer... Sem dúvida, ajuda dividir as dores, mesmo que numa curta chamada ou mensagem, como faríamos ao almoço com colegas de trabalho, se trabalhássemos no mesmo espaço físico, no mesmo emprego.

 

Aliás, esse é um dos conselhos que li este fim-de-semana no livro que vos sugiro até sem ter chegado a meio da leitura, Solo: How to Work Alone (and Not Lose Your Mind):

Ser trabalhador independente a partir de casa, no meio duma pandemia, a viver longe da cidade, não tem de ser uma atividade solitária e isolada, ainda que pela sua natureza tenha de ser uma atividade realizada de forma individual, a sós com a nossa própria pessoa e mais ninguém (a tal que, tantas vezes, se tem de desdobrar em empregado, chefe, contabilista, marketeer, criativo, estafeta, gestor de equipa...; e que, por isso, se encontra exausta).

 

Ou seja, partilhar a experiência com mais gente da nossa confiança, que num contexto de empresa adoraríamos ter como colegas, pode ser uma solução para não nos sentirmos tão desacompanhados e para, acima de tudo, eles nos irem lembrando daquilo que teimamos em esquecer - como a normalidade das dores absolutamente inevitáveis, quiçá fundamentais, desta escolha profissional/económica que tomámos há uns anos. E que está tudo bem. E que não há problema sério nenhum, só as queixas habituais.

7/30 (conduzir é a minha meditação)

Adoro conduzir. Acho que sou uma boa condutora, excepto no que toca a estacionar, mas nem é só por isso que gosto de conduzir. Conduzir é a minha meditação, porque é naquele período de tempo em que mal posso fazer outra coisa além de olhar em frente e controlar o carro que fico mais absorta em ideias paralelas que me vão ocorrendo.

 

Por exemplo, é muito provavelmente ao conduzir que tenho mais ideias de escrita, de cenários, de desbloqueio e de esclarecimento de dúvidas criativas, de resolução de problemas prementes variados. Só tenho pena que conduzir polua e seja dispendioso, porque, por mim, eu pegaria no carro todos os dias e iria por aí fora.

 

Gosto da calma de conduzir e gosto das memórias que tenho dentro do carro. Tenho memórias de tudo e mais alguma coisa. De conversas importantes e doutras das quais nem me lembro, de relações a começarem e a acabarem comigo em frente do volante ou no lugar do pendura, de momentos de reflexão profunda, momentos de solidão e momentos de confraternização. E não me posso esquecer das viagens de carro de quando era miúda, por mais curtas que fossem, com a minha avó, mesmo que a maioria tenha sido só casa-colégio-casa.

 

Na faculdade, aprendi um conceito sobre o qual tenho a impressão de já ter escrito aqui, o conceito de "não-lugar", de Marc Augé. Eu gosto muito de lugares que não o são, como o interior de carros, autocarros e comboios, lugares que são apenas espaços de transição, mas onde a vida não deixa de acontecer.

 

Há uma certa paz dentro de um carro, a solo ou com companhia, mas conduzir, em particular conduzir sozinha até aos meus próprios destinos, é a minha meditação.

 

(Este texto corresponde foi escrito em atraso, correspondendo à contribuição de 11 de Abril. Por essa razão, hoje ainda publicarei mais um.)

5/30 (ser feliz dá trabalho)

Parece uma contradição, mas ser feliz dá muito trabalho. Se houve lição que retirei destes últimos anos (na prática) e ainda mais após uma pós-graduação em Psicologia Positiva Aplicada (teoricamente), é que ser feliz não é possível se vivermos em modo automático.

 

Ser feliz implica exercitar músculos que nem sabíamos que tínhamos. São músculos psicológicos, mentais, relacionais. Não é uma coisa atingível por "dá cá aquela palha", é necessário investir muito esforço para querermos sair do modus operandi por defeito, porque nem sempre a nossa intuição está certa. Não devemos reagir, mas sim agir consoante a avaliação das circunstâncias e da paz a mais longo prazo.

 

Quando era mais nova, pensava que iria ser muito fácil para mim ser uma adulta feliz. Era só querer, e eu queria muito, mesmo muito. Até tinha um plano! Ainda não sendo adulta há muito tempo, já tenho a certeza de que vim ao engano - não vimos todos, cheios de vontade de ser crescidos?

 

É importante garantirmos que somos feliz, ou que nos aproximamos das expectativas que tenho quanto ao que significa a felicidade, o que envolve escolhas, passos atrás e mudanças e adaptações constantes. Envolve exercício, planeamento e estratégia. E também envolve esquecermo-nos deles, de vez em quando, mas não sempre.

4/30 (não adoptem cachorros)

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Nos últimos meses, tenho-me apercebido que mais e mais pessoas têm arranjado animais de estimação. É inevitável: passamos mais tempo em casa, por isso temos mais disponibilidade para adoptar um amigo de quatro patas.

 

É na última frase que residem os derradeiros enganos. Em primeiro lugar, há que repensar as condições que temos neste momento para adoptar um animal, mas não só as condições de agora-agorinha, como também (e principalmente) a longo prazo. Em segundo lugar, um animal não é um amigo de quatro patas; é mais um filho de quatro patas. Os amigos vão e vêm, mas um filho é (ou deveria ser) para sempre.

 

Os animais precisam de nós. Precisam da nossa atenção, do nosso amor e carinho, e também do nosso dinheiro (em quatro meses, já devemos ter gasto várias centenas de euros em vacinas e consultas). Além disso, quando adoptamos cachorros, eles precisam que brinquemos ainda mais com eles, que lhes limpemos o cocó e o chichi, que protejamos os móveis das investidas dos dentinhos, que os treinemos, que lhes ensinemos a não comer tudo o que conseguem pôr na boca, que fiquemos acordados porque choram ou porque lhes apetece brincar às três da manhã.

 

No outro dia, a Coffee aprendeu a abrir os ecopontos cá de casa e decidiu comer a embalagem do salmão fumado (é fina). Ingeriu um pouco de plástico e um pouco de alumínio, que não tardaram a, no dia seguinte, descer nas fezes. Chegou a sangrar um pouco, talvez tenha ficado com o intestino arranhado. Felizmente, acabou por ficar bem, recuperou, e nós não ganhámos para o susto.

 

E, depois da pandemia e de a vida voltar ao normal (que há-de voltar, apesar de parecer um cenário longínquo!), devemos assegurar que mantemos as mesmas condições para tratar bem os nossos bichos. Eles não vivem um ou dois anos. Podem mesmo chegar aos vinte.

 

Não arranjem animais de estimação, e muito menos bebés, a menos que consigam assegurar todos os recursos materiais e imateriais para uma vida feliz em família.

 

(Na foto: Coffee Bean, duquesa de Vila Viçosa, roedora de pantufas, comedora do ecoponto amarelo, rainha da gastroenterite.)

Todos gostamos de colo

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Adoptei o ilustre Lord Ennui quase da noite para o dia, faz em Maio quatro anos. Após alguns meses a viver sozinha em Banguecoque, senti necessidade de ter companhia. Senti necessidade de ter alguém à minha espera em casa.

 

Passando muitas horas fora, e sendo a minha casa dessa altura um estúdio com 29m2, um cão não seria opção; mas um gato, animal mais independente e que, tendo os brinquedos e acessórios necessários, não precisa de muito espaço horizontal, seria o novo companheiro ideal. Depois, informei-me sobre raças de gatos que tivessem tendência a ser mais silenciosos. Sim, eu sou céptica quanto à compra de animais, mas aos 21 anos, a viver do outro lado do mundo há quase um ano, a querer dar uma passada maior do que a perna, a precisar desesperadamente de companhia e a viver num condomínio que não permitia seres que não os humanos, eu não tinha muita margem de manobra.

 

A verdade é que manifestei, a todos quantos me quisessem ouvir, que pretendia adoptar um gato de raça. Mas eu não tinha dinheiro para essa aventura - o equivalente a 500-1000€ - pelo que teria de esperar. Foi a desafiar todas as probabilidades, expectativas e reviravoltas do destino que, cerca de dois dias depois, Lord Ennui apareceu na minha vida.

 

Sempre me pareceu um gatarrão, apesar de nas fotos e na memória da minha avó, que esteve connosco durante esse Verão, ser sempre mais pequeno do que é agora. Lord Ennui é um gato exótico de pêlo curto, apesar de ser um engano. Tem pêlo bastante longo, em comparação a outros gatos, e está sempre a largar novelos por todo o lado. Por isso, grande parte do seu tamanho é, realmente, pêlo. Adoptei-o com onze meses, supostamente resgatado de um criador que tratava mal os animais, e recebido numa clínica veterinária nos subúrbios mais subúrbios de Banguecoque, onde o fui buscar numa noite em que chovia o céu inteiro com muita força. Ao sair do táxi para a veterinária, enterrei os pés na lama e fiquei encharcada, uma das mil vezes em que isso aconteceu durante a minha estadia na Grande Manga.

 

Lord Ennui sempre foi um gato bom companheiro. Quando era mais novo, gostava de brincar à apanhada com os meus pés, que fugiam debaixo do edredom, e ele ficava por cima a saltitar e a espetar as unhas fininhas até alcançar a presa. Sempre gostou de se sentar perto de mim, de ficar onde me conseguisse ver, de mirar o movimento e as pessoas da casa. Mesmo quando nos mudámos para Portugal, eu regressada e ele cá pela primeira vez, as suas preferências continuaram a ser as mesmas. Nunca quis colo, nunca se mostrou muito carente por maior proximidade do que a sua simples presença na mesma divisão que os donos. Nunca se deixou abraçar por mais de um ou dois minutos. Nunca se deitou nas minhas pernas, nem sequer chegadinho ao meu lado, apesar de ter apetite sexual e gostar de o mostrar com frequência em relação aos meus braços. A maior prova de proximidade física talvez tenha sido dormir costas com costas comigo, nos primeiros tempos a seguir à adopção.

 

No entanto, o meu pai contou-me há alguns meses que Lord Ennui se punha no colo dele. Suspeitei, mas era verdade. Algumas semanas depois de vir morar com o João, o Lord Ennui e a Coffee Bean para Vila Viçosa, o gato também se deixou ficar algum tempo nas pernas do João, por iniciativa própria. Uns dias depois, foi a minha vez de saborear essa vitória, mas foi sol de pouca dura. Não ficou muito tempo.

 

Finalmente, este fim-de-semana, Lord Ennui não só se enroscou na manta por cima do meu colo, como lá passou pelas brasas e a ronronar. Foram cerca de vinte minutos em que temi mexer-me um único milímetro, não fosse incomodar e espantar sua excelência. Acabou por se levantar para se ir esticar na carpete, mas ninguém me tira o gozo de finalmente ter sido mais ou menos escolhida pelo meu próprio gato para servir de cama humana. Como diz a Rita, foi um occupy, um belo de um occupy.

 

Lord Ennui demorou quase quatro anos a gostar do meu colo. Talvez ainda nem goste dele, mas, no final de contas, pode ser que ele já perceba que o meu colo é um lugar seguro, onde pode vir ronronar sempre que lhe apetecer. Afinal, todos gostamos de colo.

Aniversários, bolachas, e abraços (suprimidos)

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Três dos meus amigos já fizeram anos durante a pandemia. Um. Dois. Três. E eu também. Quatro pessoas. A quinta faz daqui a nove dias.

 

São cinco encontros sem abraços, beijos, apertos, festinhas, nem sequer a liberdade de não nos preocuparmos com o possível desleixo de uma palmadinha. É só uma palmadinha, mas a distância de segurança obriga à eliminação de todo e qualquer ensaio de contacto físico. Até o contacto visual se torna doloroso, como prova última do afastamento coagido.

 

A pandemia trouxe bolachas caseiras ao domicílio a cada um dos meus amigos nos seus aniversários (apesar de hoje ser o dia do terceiro contemplado, ainda se admirou muito que eu lá tivesse aparecido à porta), mas também o desconforto das despedidas sem algo que as marque. Se outros povos vivem bem sem o quente do xi-coração, parabéns a eles. Pelo menos na minha vida, ninguém do meu círculo mais próximo costumava livrar-se de ser esganado pelo pescoço com um "gosto tanto de ti!".

 

O risco de contágio até pode ser irrelevante nalgumas situações: todos nós, à partida, tão isolados quanto possível. No entanto, se todos violássemos esse cuidado, acabávamos a multiplicar exponencialmente a quantidade de interacções. Enfim, é difícil viver estes tempos quando somos pessoas que dependem tanto do contacto de pele com pele, bochecha com bochecha. Hoje, estive duas horas a falar com o amigo aniversariante, primeiro só a caminhar lado a lado, depois sentados num banco de jardim, e a alegria de o ver pela primeira vez em seis meses misturou-se facilmente com a angústia de não me poder aproximar.

 

No meu lanche de aniversário, uma amiga acabou por desafiar a sorte: atirou-se para cima de mim mal me viu. Perdida por um abraço, perdida pelos restantes. Acabei por me render e por deixar que o dia passasse com todo o toque possível. Soube tão bem. Foi, provavelmente, o melhor dia desde meados de Março, porque pude fingir, durante algumas horas, que estava tudo normal, pelo menos em relação a uma pessoa. A minha amiga acabou por beijar e abraçar outros membros da minha família, e fingimos que não fazia mal (não fez, felizmente), que poderia ter sido um dia normal de Junho doutro ano qualquer.

 

Cada vez que vejo amigos, tenho tanta vontade de os abraçar, de violar a distância de segurança, de não fazer nada do que é recomendado. Apetece-me apertá-los tanto, que pareça que lhes vão sair os olhinhos pelas pálpebras. Em vez disso, faço bolachas de côco ou gengibre e aceno-lhes um adeus desenxabido.

 

Esta pandemia está a dar cabo de mim.

 

***

 

Na fotografia, uma das primeiras fornadas de ensaio nas primeiras semanas de quarentena.