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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Faz parte

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Faz parte a ansiedade. Faz parte o silêncio. Faz parte ter dias bons. Faz parte ter dias maus. Andamos todos nesta roleta russa de emoções, horas vagas e ocupadas, novidades e notícias, opiniões e impressões. Faz parte não saber muito, nem saber nada.

 

Também me sinto assim, mas estou a tentar interiorizar: faz parte. Não sei muito bem como me sinto, na verdade, só sei que é assim. Há momentos em que acho mesmo que estou contente e bem-disposta, mesmo que na hora seguinte dê comigo a ruminar de peito apertado. Aliás, escrevo este texto porque preciso de esvaziar tudo. Faz parte desabafar, mais do que nunca, e talvez a vulnerabilidade se torne mais popular daqui para a frente. Faz parte ser-se vulnerável, ter dúvidas e dores.

 

As pessoas à minha volta também estão assim. Agora, estamos em todo o lado, sem estarmos em lado algum. Tenho falado diariamente com amigos, continuo a dar aulas por videoconferência e a trabalhar pela Internet e no computador. Não me canso nos transportes, tenho mais tempo para dormir; só que não tenho sono, tal como não tenho concentração, e ando presa num ciclo de escassez. (O tempo encolheu, ou faz parte?)

 

Não é copo meio cheio, nem meio vazio – é só ter um copo e não saber o que se verte lá para dentro. Mas faz parte não ter respostas às perguntas que nos ocorrem agora, não é?

 

Faz parte ter saudades, sem data de regresso. Faz parte ter quebras de rede a meio duma conversa e ter de renovar votos pelo Skype. Faz parte mudar para o Zoom, porque o Skype está em baixo.

 

Faz parte olhar com preocupação, e ao mesmo tempo curiosidade, para as mudanças que se prevêem na economia. As estruturas económicas e sociais vão mudando, ainda que temporariamente, ainda temporariamente, e o desconhecido, a ameaça e a instabilidade fazem parte. Isto faz tudo parte duma receita que nunca experimentámos.

 

Faz parte não discernir o espaço de trabalho e de lazer, faz parte sentir a revolta de quem vê o seu emprego em risco, faz parte sentir um luto colectivo pelas vítimas. Faz parte acharmo-nos todos um bocadinho vítimas. Faz parte viver um dia de cada vez, porque não somos imunes ao que acontece aos outros. Enfim, faz parte pensarmos que isto está a correr muito mal, mas que por outros motivos tem seriamente de correr bem – para guardarmos a nossa sanidade mental, a dos que nos são próximos, a dos que estão longe, a de toda a gente. E ter esperança, faz parte? Espero que sim.

 

Faz parte juntar pânico e optimismo, chorar e rir no mesmo dia, sentirmo-nos sós e tão bem acompanhados. Faz parte ter partes e viver por partes.

Era uma vez, um diário positivo

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Esta é uma publicação um pouco diferente das que são o costume por aqui, mas com um convite que gostaria de partilhar convosco, pessoas que adoram escrever, ou que gostariam de escrever mais, de preferência se isso vos trouxer algo de positivo, tão necessário nestes tempos conturbados que estamos a viver. É engraçado pensar que este workshop foi o meu projecto pessoal, profissional e da pós-graduação nos últimos meses, nunca prevendo que no início de Abril estaríamos... assim, neste espaço psicológico, resguardados em casa. Eu própria me sinto muito feliz por ter andado a estudar o tema, que agora se revela tão útil. Mas adiante.

Se estiverem interessados, ou se conhecerem alguém que esteja, não hesitem em mostrar-lhe este evento.

 

***

 

Comecei a escrever muito miúda (ainda mais do que agora). Escrever era o meu trabalho favorito da escola e fazia de propósito para o meu P.I.T. (quem se lembra do Plano Individual de Trabalho?) calhar sempre com produção escrita. Confesso que fiz muita batota à conta disso. Escrever sempre me fez sentir bem, sempre me fez sentir capaz e mais organizada nas ideias. Aliás, desta necessidade surgiu o blog.
 
 
Seja ficção ou não-ficção, nunca deixei de querer brincar com as palavras, com as observações do mundo e com o mundo interior das personagens. Por isso, quando comecei a estudar Psicologia, encontrei a peça que faltava no meu puzzle: poder partilhar com outras pessoas todos os benefícios para a saúde mental - e, por consequência, física - de escrever regularmente.
 
 
Dito isto, preparei um dia cheio de actividades de Diário Positivo para daqui a uma semana: a data é 4 de Abril (Sábado), e o workshop vai ser completamente online.
 
Descrição:
"Acha que escrever um diário é como uma terapia para acalmar a alma, organizar as ideias e perceber as suas emoções? A escrita é parte de si e escreve para se sentir melhor?
 
O Workshop de Diário Positivo será um dia de aprendizagem sobre como utilizar um diário em prol do bem-estar e duma melhor saúde mental, através de pequenas intervenções e exercícios escritos que podem ser realizados autonomamente.
 
Como o nome do workshop indica, daremos uma importância reforçada às emoções positivas, mas sem nos esquecermos da escrita expressiva e do papel da literacia sobre todos os tipos de emoções e pensamentos numa vida feliz e equilibrada."

 

***

 

O resto das informações está:
 
 
Obrigada, e espero ver-vos em breve!
 
 

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Ser mulher e artista: Dear Girls (Ali Wong)

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Quando vi os dois especiais da comediante Ali Wong na Netflix, fiquei logo fã. Ela é duma perversidade e duma inocência contraditoriamente claras, e foi ao ler esta autobiografia que as percebi realmente e passei a admirá-las ainda mais. Dear Girls é para as filhas de Ali Wong, mas - quiçá - também se dirige a todas as mulheres.

 

Queria saber de onde vem esta mulher. Queria saber como se complementam os seus legados culturais. E por que é que as piadas dela têm uma linguagem tão conspurcada pela sexualidade exuberante dos seus primeiros anos enquanto adulta, e como é que a família e as restantes pessoas que a rodeiam convivem com esse lado perverso e cru. Como é que o marido lida e as filhas podem vir a lidar com a fama alcançada de tantas das suas histórias privadas? E como é que se constrói uma carreira em stand-up comedy, e que público foi a Ali tendo longo dos anos, partindo do facto de ser mulher e uma minoria étnica nos Estados Unidos, e de os textos que escreve assumirem marcadamente esses pontos de vista?

 

Tantas, mas tantas perguntas; tantas, mas tantas respostas. Ali Wong é frontal e a sua verdade é enternecedora. Acho-a destemida e hilariante.

 

O livro Dear Girls divide-se em capítulos que são cartas às duas filhas, Nikki e Mari, a quem se dirigem as lições, conselhos e histórias de vida contadas pela mãe, mas que são também reconhecidas logo no início como "desculpa" para que o livro exista e tenha sido escrito. Ali Wong acaba por se dirigir, sem pudor, a um público de leitores bem maior. Do que depender de mim, direi: ainda bem!


Ler este livro é um risco, porque nem todos teremos interesse em ler sobre a vida duma mulher aleatória a viver do outro lado do oceano, uma mulher com raízes tão diferentes das nossas, com um trabalho como poucos têm, com uma visibilidade enquanto figura pública que só uma percentagem dos seres humanos tem (felizmente!).


No entanto, as preocupações e detalhes do dia-a-dia da Ali Wong são também os nossos, tão reconhecíveis. À parte a comediante e actriz, ela é mãe, filha, irmã, mulher, amiga, cidadã e parte das suas comunidades. Tanto nos separa como liga, tanto nos afasta como aproxima.

 

Finalmente, a maior prova de humanidade da estrela, que afinal terá sempre o seu alter ego histriónico e público, reside na última carta: um posfácio escrito pelo marido, Justin Hakuta. Justin poderia ser um anónimo, só que é a grande musa da maioria das histórias contadas nos espectáculos da mulher e também neste livro. Por outro lado, é ele quem mantém a família firme e que assegura a estabilidade necessária à sua cara-metade caótica, criativa e sempre na estrada. É ele que, apesar de ter estudado em Harvard, se orgulha em vender merchandise das tours nas bancas dos espectáculos. É ele quem assume tarefas que ainda são vistas como trabalho feminino no lar. É ele quem escreve uma carta de amor e dedicação total ao bem-estar dos seus nesta carta muito especial. A carta dele é a cola que junta todos os pedaços de vida que lemos até este último capítulo.

 

Se gostam de autobiografias e comédia, e se se interessam pela riqueza dos EUA, esta pode ser uma leitura à vossa medida.

20 para 2020: acima de tudo, amor, conhecimento e livros

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Já estamos no quarto dia do ano e eu não escrevo no blog há vinte e sete. Regressei, mas não sem uma certa culpa de abandonar a prática da escrita, e do reconhecimento de quem gosta de ler o que se publica por aqui.

Recomecemos.

 

No ano passado, escrevi e disseminei por aí a lista "19 para 2019", ideia que pedi emprestada à Gretchen Rubin. Antes de 2019 terminar, cedi à curiosidade de a revisitar. Foi assim que concluí: excedi-me de formas que nunca imaginei. Claro que a maioria dos pontos relacionados com livros jamais teriam condições para ser concretizados, em doze meses tão ocupados e repletos de reviravoltas. Tive tantas decisões para tomar; doze meses que pensei que não teria energia nem engenho para transformar, mas afinal doze meses em que aconteceu o suficiente para valerem por trinta e seis. Jamais teria tempo para levar a cabo tanta leitura, porque jamais imaginei metade do que acabou por fazer parte de 2019.

 

Dito isto, 2019 foi o ano em que tive como nunca - e em que deixei de me preocupar com - impostor syndrome, porque fui eu que fiz acontecer tudo o que aconteceu e quem fez um esforço por conhecer as pessoas que conheci, por isso vamos lá deixar-nos de tretas! (Momento reservado para uma pequena dança da vitória desta que vos escreve.) Se me tivessem dito em Janeiro que iria abandonar o segundo mestrado, começar um terceiro, ter o meu local de trabalho, ir ao ginásio religiosamente todas as quartas-feiras, tirar quase dez formações, viajar com a minha cara-metade e fazer não só novas amizades, como também liderar um grupo de escrita... eu diria que era mentira, porque não é possível fazer isso tudo em 365 dias.

 

Além disso, destaco esta ideia: foram as pessoas as grandes culpadas do balanço positivo, apesar da minha narrativa pessoal se basear na crença de que sou um bocado bicho. Pela positiva, destaco duas pessoas (sem prejuízo para todas as outras, como a minha família e a família do João, a Inês, a Daniela, o Carlos, a Joana e o Rui). No início do ano, conheci a Elisa. A Elisa (que migrou ontem para os Blogs do Sapo) também se surpreende bastante quando os planos dela lhe correm bem, ou quando algo inesperado surge. Desde que a conheci, no encontro de Março das CreativeMornings Lisboa, sinto que os nossos caminhos se tinham mesmo de cruzar e que fazemos realmente a diferença na vida uma da outra. A Elisa é a parceira ideal e tem preocupações e objectivos que tocam nos meus. Esquece-se facilmente das suas próprias capacidades, mas vai fazendo e acumulando conquistas sem se dar conta. Além dela, destaco o João, que aparentemente nem sequer tinha muito a ver comigo (ele calmo e pragmático, estável; eu caótica e sempre a ruminar, sempre a mudar de ideias), excepto o facto de termos descoberto que fazemos um do outro pessoas muito melhores e mais felizes, e que partilhamos o mais importante, que são os valores e os desejos para o futuro, além da sensação discutivelmente pirosa de já nos conhecermos há muito mais tempo. Ora, estas duas pessoas marcaram 2019, por me fazerem acreditar que tudo é possível, se tivermos a companhia certa.

 

Este ano, ainda estou a fazer a minha lista "20 para 2020". No entanto, não poderei divulgá-la por completo no blog, uma vez que algumas das linhas contemplam planos surpresa com e para outras pessoas que lêem o meu blog. Mas... não poderia deixar de partilhar algumas partes.

Quero começar a aprender Latim ou Alemão.

Quero fazer duas viagens, uma delas à Tailândia.

Quero criar dois cursos presenciais e um online.

Quero terminar o mestrado executivo em Psicologia Positiva Aplicada.

Quero fazer um MBA em Gestão e Coordenação Pedagógica da Formação.

Quero passar a ir ao ginásio duas vezes por semana.

Quero comprar um computador novo.

Quero ver 30 filmes.

Quero conhecer três séries do início ao fim.

Quero ser contida e não comprar mais de 20 livros.

Quero continuar a escrever para o P3, pelo menos uma vez por mês. E para o blog todas as quinzenas.

(E quero ter tempo e dinheiro para concretizar tudo isto.)

 

Esta é uma das épocas do ano em que mais escrevemos sobre balanços e esperanças. É verdade que não funciona para toda a gente da mesma maneira, que há quem prefira ver os anos como uma linha contínua, mas cabe a cada um de nós adoptar os hábitos que mais lhe fazem sentido. Para mim, é este: há quem ache celebrar um novo ano lamechas; eu acho bonito e bem intencionado. Ter e partilhar objectivos é saudável, inaugurar ciclos permite-nos ganhar fôlego e expectativas renovadas. Assim sendo, também vos desejo um novo ciclo cheio de mais e melhor, com um rácio de positividade de 3 por 1, para que possam florescer (diz a Barbara Fredrickson e os outros entendidos da Psicologia Positiva). E prometo voltar a procrastinar mais, escrevendo com regularidade. Sobre livros. Possivelmente sobre livros.

 

Até breve.

Dá vontade de dizer "forever and ever"

Quando comecei a namorar à séria, o meu pai garantiu-me que não havia amor como o primeiro. Na altura, eu já tinha tido um pseudo namorado, mas contei sempre essa pseudo relação como um fling adolescente, passageiro, muito sofrido e quase platónico. Dito isto, passei sete anos com essa deixa na cabeça, de que o primeiro amor é que é, principalmente para justificar por que a minha segunda relação foi boa, mas morna, sempre a faltar qualquer coisa sem saber bem o quê. Afinal, o primeiro amor é que tinha sido o melhor e provavelmente nada nem ninguém o iria superar. Conformei-me e acreditei que era este o fado duma relação adulta e desencantada, assente no real e na experiência palpável, sem os unicórnios e arco-íris de algo que começa quando somos tão novos e tudo também é novo e fresco. Se a minha primeira relação começada na idade adulta não tinha fogo-de-artifício nem confettis, era porque nem sequer era suposto. Afinal, duas pessoas que já viveram grandes e pequenas relações já vêm marcadas, têm as suas manias e hábitos estabelecidos, e têm vícios e expectativas goradas - perdão, devidamente alinhadas.

 

No entanto, parece que o meu pai não tinha razão (não é a primeira vez, claro). Talvez haja quem nos traga os confettis, o fogo-de-artifício, os unicórnios e os arco-íris como se fosse a primeira vez que os vemos, quem nos devolva a expectativa dum segundo ou terceiro amor como se fosse o primeiro, porque - aliás - é o primeiro do seu género, entre estas duas pessoas, nestas circunstâncias específicas. E eu olho para ele e acho que é bom demais para existir; e a pessimista que há em mim tentou alertá-lo para o quão desarranjada sou, mas num ápice ele fez-me ver que afinal eu só não tinha conhecido alguém que me fizesse relembrar o quão inteira posso ser; e aquilo que eu imagino que um homem (e um parceiro na vida) deve ser ele é sem lhe ter sido recomendada a lição; e ficamos bem nas fotografias, mesmo quando ficamos muito mal; e ele faz a minha família rir imenso, tanto quanto sinto que a família dele me faz rir; e ele está sempre a guardar as minhas mãos nas dele; e somos tão diferentes e tão iguais (a concordar quase sempre sem grande esforço, sendo eu tão caótica e ele tão comedido) que preenchemos todos os pré-requisitos para nos ser permitido usar clichés quando nos descrevemos forever and ever.

 

Além disso, ontem houve almoço de família e ele trouxe três tipos de pão artesanal, acrescentado ao facto de comer tudo o que a minha avó lhe põe à frente, alinhar na piada e confusão de ter o mesmo nome que o meu pai, e não fazer soar nenhum alarme à minha tia, por isso só pode ser uma excelente pessoa, a adição perfeita à malta lá de casa.

São só fotografias

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Uma das maiores pequenas alegrias que posso ter é entrar numa casa alheia cheia de fotos tiradas ao longo dos anos. É o meu guilty pleasure, derreto-me e amoleço com isto. Sou uma voyeuse de paredes, estantes e de tampos de móveis, gosto de imaginar as histórias por trás das imagens e de reconstruir narrativas familiares através do meu entendimento de visitante. Essas fotografias são a exibição da própria felicidade, das memórias que se querem preservar. Porque estão dentro de casa e não num mural de rede social, não são para os outros, são para quem lá vive - isto é, consistem numa selecção de lembranças preferidas, mesmo que não tenham sido curadas para os olhos dos outros, uma representação do que os habitantes da casa consideram ser o mais importante acerca de si mesmos e que gostam de rever diariamente.

 

E uma família feliz não tem só fotografias das crianças ou dos grandes eventos com pose pensada, tem fotos de tudo e mais alguma coisa: das férias de Verão, retratos da escola, aniversários, casamentos, Natais, momentos de convívio e olhares que saíram fotogénicos. O repertório não se cinge a uma só categoria ou a um grupo de pessoas, não é necessariamente o mesmo que se descarregaria no Facebook, e mais haverá nos álbuns que se imaginam através desta amostra.

 

Não são só fotografias, afinal.

A última romântica

Para o João, que de repente me pôs a pensar nestas coisas

 

Entristece-me que as pessoas se revelem cada vez mais cépticas quanto à existência dum "amor para sempre". Antes dos casamentos, prevêem já os divórcios. Começam relações com a boca pequenina, passinho a passinho. Não se deixam arrebatar. É tudo morno, não é? 

 

Infelizmente, também eu me sinto vítima deste contexto cuidadosamente contido, muito quadrado. Tento contrariá-lo, mas prevalece um receio constante de prematuridade, que ao não partir de mim há-de partir doutros lados. Não estou a declarar quem afinal terá razão nesta equação que nos melindra, mas sim que nos anexamos à partida a crenças de amor e dedicação forreta, com medo de merecer essa atenção, e com medo de magoar quem nos quer tanto bem. Às vezes, até parece que só não temos medo de quem nos quer um pouco menos, pela familiaridade da potencial rejeição. Desculpamo-nos com antecedência, não se dê isto e aquilo... Desconfiamos até de quem oferece largueza, porque simplesmente não estamos habituados.

 

E contagiamos quem nos rodeia, uns aos outros. Incubamos atitudes defensivas. Cultivamos mais medo do desconhecido, observando à distância os românticos, com uma curiosidade de antropólogo-comentador-de-bancada.

 

Mas eu quero ser romântica - não necessariamente a última, apenas uma em muitos. Quero apreciar a aproximação das pessoas que fazem por isso, quero acreditar que há quem conheçamos hoje para o resto da vida, que veremos envelhecer. Talvez nos faltem modelos, vivos e de pensamento, para nos assegurarem da exequibilidade do amor [e da amizade] que se descobre, constrói, insiste, desconstrói e sobrevive.

 

Onde vamos beber desse conhecimento de causa? Às artes? Aos media? Aos autores contemporâneos ou aos clássicos? Muitos de nós vimos de famílias desmanchadas e remontadas, aprendemos o que é um casamento mas não aquele em que nos pretendemos envolvidos, vivemos na sociedade líquida que só acredita no "até mais ver" e no "por agora é isto". Mas nós queremos fé, onde antes só havia condicionamento, convenção e comodismo. Nós, esta geração que agora procura uma ressignificação do que é o amor para sempre, queremos não só mais, mas melhor.

 

No entanto, não se acha romântica, a geração líquida, porque se acha a meio dum processo que não entende. E eu a querer ser romântica, e por vezes a não conseguir, porque também me encho de dúvidas. Sou uma céptica a tentar curar-se. Paciência a rodos é necessária, minha e de todo o lado. E, acima de tudo, é preciso encontrar e conhecer a pessoa certa, que amoleça e amenize o impacto das paredes que vão caindo, uma a uma. Há que partir as que fui erguendo nos últimos anos. Tenho de aprender a não me sentir permanentemente ansiosa, com medo que as pessoas, amigos, futuros-tudo, não queiram realmente desmanchar a bagagem e ficar por aqui. Habituei-me ao efémero, um conformismo pelo fim que me assustou quando as minhas relações passadas (românticas e de amizade) terminaram. Fica um vazio, muitas perguntas irreplicáveis, alguma nostalgia, mas pouco mais, porque o fim eminente nunca tinha deixado de figurar nos créditos.

 

E se deixar...? Por que haveria eu de perpetuar o sentimento de perda antecipada? E se eu já tiver acordado para um "para sempre" sem o saber?

Porque, no final do dia, eu sinto que até tenho o que é necessário para ser a última romântica dos nossos tempos. Uma romântica com os olhos bem abertos, mas - ainda assim - uma romântica. E das pirosas.

Uma entrevista "Sem Fronteiras" a Carlos Barros: emigração, famílias, bem-estar e muitos sonhos

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Uma das grandes alegrias de trabalhar por conta própria é poder fazer outras coisas que não... trabalhar. Os meus dias raramente são iguais, o que por vezes é assustador, e noutras é uma benção. Tenho tempo e, acima de tudo flexibilidade - tempo e flexibilidade para estudar e aprender, para planear projectos profissionais e outros não remunerados, para escrever no blog, para ler a meio do dia, para ir ter com amigos, para sonhar acordada, para levar a cabo o que ainda me dá mais prazer do que o meu trabalho (que, por acaso, é bastante agradável). Claro que há dias mais ocupados e caóticos do que outros, mas a possibilidade de outros dias de serendipidade deixa-me leve.

 


Então, na semana passada decidi entrevistar o Carlos Barros, um amigo-estrela-cronista-entrevistador-investigador (e excelente cozinheiro de lasanha vegetariana), a propósito do seu primeiro programa de televisão-Internet/projecto de voluntariado social. Fi-lo só porque sim, porque é tão bom elogiar os nossos, mostrar aos outros o que eles andam a fazer, porque idealmente seremos a média das pessoas que nos rodeiam, e eu ficaria satisfeita por ser só um bocadinho do que os meus amigos são. O produto não ficou perfeito, mas foi feito com boas intenções.

 

Já tenho divulgado alguns projectos do Carlos no blogue e nas redes sociais, nomeadamente como cronista no Jornal Económico e no P3, mas agora este programa, que se chama "Sem Fronteiras", acaba por ser uma extensão de tudo o que o Carlos estuda, aquilo que ele sente, aquilo que o emociona e que o move. Foi um projecto em que se envolveu durante as férias, em vez de estar a descansar das mil e uma tarefas que lhe enchem o dia-a-dia, e isso diz tudo.

 

O objectivo do programa "Sem Fronteiras" é dar voz a quem deixou Portugal à procura de melhores condições de vida, em busca doutros sonhos e doutros horizontes. Desta forma, no programa vamos assistir a entrevistas tocantes a emigrantes portugueses, sobre a sua vida lá fora, sobre as suas visitas a Portugal, sobre as suas famílias e, em geral, sobre as suas vidas. É de destacar que a investigação do doutoramento do Carlos se chama Famílias Pelo Mundo, concentrando-se na solidariedade intergeracional e relações familiares, pelo que não haverá ninguém melhor do que ele para este tipo de entrevista. 

 

Além disso, como bem sabem se já acompanham o blog há algum tempo, também eu vivi muito longe de Portugal durante quase dois anos, por isso temas relacionados com a emigração tocam-me de forma especial. Se eu vivi o que vivi e senti o que senti durante tão pouco tempo, nem consigo imaginar o que vive e sente quem se encontra indefinidamente num contexto tão desafiante quanto viver noutro país, cultura, realidade...

 

Saí um pouco do que tem sido o registo do blog, voltando a publicar um vídeo como cheguei a fazer há dois anos, mas espero apresentar-vos um projecto interessante - feito por uma pessoa interessante e de quem gosto muito, e por isso bastante especial. 

 

(Entrevista filmada n'A Sala, apenas um dos meus sítios favoritos em Lisboa!)

[O Primeiro Capítulo] Quero escrever-lhes a agradecer, mas já esgotámos todas as palavras boas

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Ontem, tivemos "A Primeira Vez" d'O Primeiro Capítulo, com o convidado-cobaia-amigo Nelson Nunes, e eu ia dizer que foi ideia minha e da Elisa, mas não: já todos os presentes a tinham tido, e finalmente encontrámos a companhia que nos faltava. Confesso que, quando decidimos levar o projecto avante, não me ocorreu que suscitasse tanto interesse. Eu sabia que haveríamos de juntar algumas pessoas curiosas, mas... Mais do que isso: ontem demos as boas-vindas a um grupo como eu nunca tinha visto. Da quantidade de cursos de escrita criativa que já frequentei, dos eventos a que já fui, da licenciatura em Letras e das centenas de alunos que já ensinei nos últimos cinco anos, nunca me tinha deparado com tantos ditos escritores amadores numa só sala (dez!) que escrevessem, tão despretensiosos, de forma tão responsável, sensível.

 

Neste primeiro encontro d'O Primeiro Capítulo, tivemos participantes com formações académicas muito distintas, e quase nunca relacionadas com a literatura ou a escrita criativa (engenharia, arquitectura, finanças, enfermagem, ciência política, sociologia, biologia...). No entanto, todos cultivam um enorme amor e prazer pelas letras, provando que não temos de nos definir exclusivamente pelos empregos que nos pagam as contas, e que os nossos interesses podem divergir imenso, enriquecendo-nos tanto. Somos seres com potenciais tão complexos!

 

No final, restou-me uma sensação particular: fiquei cheia. Não sei bem de quê, porque é um tipo de satisfação indescritível. Devo ter deixado todas as palavras com quem as apanhou. Queria agradecer, e nem sei bem por onde começar.

 

O grupo teve muita química, demonstrámos o interesse comum pela elaboração de textos desafiantes, "com qualidade", e mostrámos vulnerabilidade suficiente para ouvirmos a nossa escrita pela voz doutra pessoa, sem por vezes nunca termos tido uma experiência semelhante. Ouvimos, recolhemos e distribuímos opiniões. Acho que fomos generosos. Queríamos, acima de tudo, ajudar e sermos ajudados, dar e receber, mostrando-nos disponíveis durante algumas horas para integramos um colectivo improvisado. Poucas ou nenhumas eram as pessoas que conhecíamos previamente, mas toda a conversa foi harmoniosa e fluiu pelo dobro do tempo previsto (na verdade, até os vizinhos terem afugentado os últimos resistentes, que doutra forma teriam ficado a conversar noite fora, e não só sobre escrita).

 

Em Novembro há mais! Com os mesmos ou outros participantes, contaremos dar as boas-vindas a mais interessados em partilhar os seus primeiros, segundos ou milésimos capítulos (graças ao apoio d'A Sala, um dos melhores espaços para simplesmente se estar e conviver, em Lisboa).

 

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Há uma frase que a Elisa tem dito nos últimos dias e que eu já referi antes: somos a média das cinco pessoas com quem passamos mais tempo. Elas inspiram-nos, mostram-nos caminhos alternativos e partilham o seu conhecimento connosco. Por isso, obrigada à própria Elisa (que é uma máquina de fazer coisas giras acontecerem), ao Nelson (que deve ser das pessoas mais organizadas que conheço, a julgar pela quantidade de livros que lê e pelos projectos em que se envolve) e a esta dezena de escritores de segunda-feira... por fazerem parte dessa equação maravilhosa, promissora. Estes últimos meses foram uma montanha-russa, e agora que a poeira está a assentar sei que é de pessoas assim que tenho de me rodear.

 

✍️ Em breve, divulgaremos a data e o tema para Novembro, tal como todas as outras informações úteis para quem se quiser juntar a nós! E, além disso, também começaremos a gravar o respectivo podcast O Primeiro Capítulo!

 

Até lá, sigam-nos por aqui:

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O Primeiro Capítulo dum projecto e podcast muito, muito bons!

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Já que não posso começar a rentrée psicológica com o primeiro dia de aulas, venho por este meio lançá-la com um novo projecto para o qual fui arrastada: O Primeiro Capítulo, um encontro por pessoas que gostam de escrever, para pessoas que também gostam de escrever.

 

Desde o início do ano que comecei a ir aos pequenos-almoços mensais das Creative Mornings Lisbon (das quais já vos falei imensas vezes), onde conheci a Elisa Baltazar, a host actual. Parece que a Elisa é uma máquina de fazer coisas acontecer, por isso não foi com grande surpresa que, já não me lembro bem como, decidimos fazer... isto que estamos a fazer! Queríamos escrever, queríamos conhecer mais pessoas que também queiram escrever, e temos vontade de criar uma oportunidade para todos esses escritores de gaveta se encontrarem, trocarem umas quantas ideias e partilharem alguns textos. Acreditamos que esta é uma forma de enriquecimento e crescimento.

 

Sem mais demoras, este é o texto de apresentação do encontro e podcast O Primeiro Capítulo!

 

𝐏𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐠𝐨𝐬𝐭𝐚𝐦 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐫𝐞𝐯𝐞𝐫 𝐩𝐫𝐨𝐜𝐮𝐫𝐚𝐦 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐠𝐨𝐬𝐭𝐚𝐦 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐫𝐞𝐯𝐞𝐫

Dizem que para bem escrever são necessárias duas coisas, ler e escrever.
Concordamos, mas achamos, também , que é necessário optimizar a forma como se lê e a forma como se escreve.
Não é à toa que escritores tão importantes como Bocage, Alexandre Herculano, Almada Negreiros, Fernando Pessoa ou Mário de Sá Carneiro se juntavam em tertúlias onde, entre outros temas politicos e intelectuais, falavam de literatura.
Acreditamos que a interação também inspira, também ensina e também motiva.
Assim, o Primeiro Capítulo é um ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

Nestes encontros o objetivo passa, principalmente, por escrever. Escrever todos os meses ou, pelo menos, uma vez por mês. Não mais que 500 palavras sobre um tema que se mostre desafiante.
Uma vez escrito o texto, juntamo-nos e passamos esse texto a alguém para ler em voz alta. Este exercício permite-nos ver como outra pessoa entoa o nosso texto. Ouvir as nossas palavras pela boca de outro pode dar-nos toda uma nova perspetiva sobre a forma como escrevemos. Durante essa leitura não haverá lugar a comentários ou correções. O objetivo é que esta leitura nos dê espaço para repensar a forma como escrevemos.
Depois desta leitura, haverá espaço para comentários. Todos, exceto aquele que o escreveu, terão a oportunidade de comentar aquilo que sentiram falta no texto ou que possa ter ficado menos claro. Finalmente, serão feitas questões ao autor.
Em nenhum destes momentos, o autor terá a palavra. O objetivo aceitar a crítica como construtiva e ter tempo para refletir sobre a mesma.

Finalmente, contaremos também com a presença de um profissional da indústria para partilhar dicas, ideias comentários e, claro, inspirar-nos.

 

Mais concretamente, o objectivo destes encontros é discutir em conjunto textos que tenhamos produzido, sobre o tema lançado cada mês. Também contaremos com convidados especiais em todos esses encontros, que poderão oferecer críticas mais construtivas e algumas dicas relacionadas com o seu trabalho e possíveis obras.

 

Toda a informação pode ser encontrada online, no Instagram e no Facebook d'O Primeiro Capítulo, assim como no site Meetup.

 

Para Outubro, já temos tudo tratado e combinado, e estamos mesmo a aceitar inscrições! O nosso primeiro convidado no dia 7 (segunda-feira) será o Nelson Nunes, um autor de quem já vos falei por aqui, e conhecendo-o há quase uma década e tendo acompanhado a carreira (e a riqueza da estante) dele durante estes anos todos, tenho a certeza de que vamos ter conversas muito interessantes sobre escrita e livros. Para participarem, enviem-me/enviem-nos uma mensagem pelas plataformas e redes sociais sugeridas, ou um e-mail para podcastprimeirocapitulo@gmail.com.

 

Além do encontro, também faremos um podcast d'O Primeiro Capítulo... Mas falarei de tudo a seu tempo! Por agora, gostava muito que acompanhassem este projecto do meu coração, que  hão-de sair daqui belíssimas ideias. E espero ver alguém dos blogs nos nossos encontros! Conto convosco? 💚