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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

O primeiro dia

Não eras o meu amor, eras o meu amigo. Não me davas só flores, davas-me abrigo. Agora, não sei quem és, já não sei com quem vivo. És só alguém que se parece contigo.

("Agora", Carolina Deslandes)

 

Acho que escrevo isto para quem está desse lado e que poderá estar a passar pelo mesmo. Ou que terá passado por alguma situação semelhante. Ou que poderá vir a passar. São só meia dúzia de pensamentos, umas quantas conclusões sobre quase nada.

 

Costuma a sabedoria popular avisar que ninguém é de ninguém, que não devemos tomar pessoa nenhuma como garantida, mas isso são tudo frases bonitas, que na realidade não se aplicam com tamanho grau ético. Se não descansássemos o coração, se não pensássemos que tudo há-de correr bem, que há estabilidade e que poderemos contar às cegas com os outros, o que seria feito de nós? Passaríamos a vida inteira com o coração nas mãos; morreríamos, novos e exaustos, de ansiedade.

 

Portanto, quando surgem falhas, ou quando somos apanhados pela imprevisibilidade do que vai na cabeça - na vida - da outra parte, corremos o risco inevitável de levar um banho de água gelada, de nos sentirmos engolidos, incapacitados, consumidos e amputados duma parte do corpo que nem sabíamos que existia. O pior é começar de novo. Encharcados. A patinhar o chão. A salpicar todos por quem passamos. 

 

Metáforas à parte, o pior é começar de novo. Acordar num dia aleatório dessa fase da qual nem nos recordamos bem (porque é tudo tão igual, mas tão confuso), pensar que já chega e colocar todos os mecanismos de superação em trabalho reforçado. Este é só o primeiro dia, custa horrores e se calhar nem nos lembramos de quando ou como aconteceu. É um dia sobre o qual nem reza a história.

 

Ligamos aos amigos todos, aguentamos mais uns sermões sobre como o outro lado é que terá ficado a perder (até também acreditarmos nisso de forma veemente), experimentamos todos os argumentos que apoiam uma última mensagem (só mais uma!), os amigos levam-nos a jantar a ver se o mal é da fome, deixam-nos brincar com os filhos para despistar o relógio biológico, contam-nos as histórias deles (que, por norma, tendem a ser mais conflituosas, tortuosas e conturbadas do que as nossas), planeiam arranjinhos com outros amigos solteiros, distraem-nos com mais comida... 

 

Algum tempo depois, damos por nós a pensar cada vez menos nessa pessoa, a pensar que, de facto, a coisa não correu bem, mas que nem tudo foi mau e há que lembrar isso com carinho e respeito, que a hipótese de reconciliação nem a nós nos agradaria porque o que era já não é, mas que - surpresa - se calhar até há pessoas bestiais que andam por aí e que ainda nem conhecemos. E que todos merecemos encontrar a felicidade e que não nos devemos martirizar nem aos outros por tentarem também o melhor que podem, porque não é justo deixarem-se ficar como estão e serem infelizes.

 

Além disso, começamos também a acreditar no que andávamos a repetir como um mantra: temos saúde, trabalho, amigos que nos alimentam e nos emprestam os filhos, uma família que nos desculpa passarmos as noites inteiras fechados no quarto a ouvir discursos motivacionais, que há mais peixe no mar, etc.

 

O que fica definitivamente é um sentimento irremediável de incompreensão. Como é que é possível sermos, sentirmo-nos, tão próximos de alguém e, numa questão de dias, passarmos a habitar esferas que nem se tocam? "Porquê a mim, que fiz o melhor que pude e soube?" Por que é que nem há notícias, um cuidado, uma chamada? "Nunca mais vou encontrar alguém assim!" Enchemos esse vazio de respostas, primeiro com comida (um elemento omnipresente na minha recuperação, viva os mil-folhas e o ginásio), depois com gente positiva ou que faça por nos compreender, com novos hobbies, com novas rotinas, deixamos de achar piada a músicas de The Script (I am the woman who can't be moved, I'm still alive but I'm barely breathing, you're going through six degrees of separation, lá lá lá, pronto, já chega, Beatriz) e passamos a evitá-las, experimentamos redes sociais onde nunca tínhamos imaginado entrar... tentando sempre perceber até que ponto é possível separar o antes do depois. Testamos limites, possibilidades de recuperação. 

 

Mas tudo se vai fazendo, garanto-vos que o panorama vai melhorando a pouco e pouco, praticamente sem notarmos.

 

Para mim, a chave tem sido levar um dia de cada vez, sem elevar demasiado as expectativas, tentanto aceitar que não podemos controlar tudo. Podemos querer muito que aconteça qualquer coisa que talvez nunca venha a acontecer (ou vice-versa, podemos tentar impedir que aconteça sem o conseguirmos evitar). 

 

Por isso, cada dia é um primeiro dia. 

 

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Sobre a felicidade dos outros

Ultimamente, tenho pensado muito em felicidade. Tenho pensado, em particular, na felicidade dos outros. Tenho-me perguntado muitas vezes "o que é que leva estas pessoas a serem tão felizes?". Por isso, concluí, é que muita gente passa imenso tempo imersa nas redes sociais. Queremos saber qual é a solução dos outros. O que é que eles fazem, como é a sua vida, o que os leva a estarem tão satisfeitos quanto aparentam? Como é que se constroem e mantêm aqueles sorrisos?

 

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 https://www.pexels.com/

 

No entanto, é raro encontrar essa solução para a felicidade dos outros ao virar da esquina duma foto de Instagram ou dum texto num blogue, não é? Com alguma frequência, dou por mim a apenas ver fotografias de gente feliz, gente de bem consigo e com o mundo, gente inteira. Uma foto depois de correrem a maratona; um amor imaculado; um prato cheio de verdes com aspecto gourmet; uma catarata em Bali; um grupo de amigos à volta duma mesa; um diploma de excelência; um corpo definido.

 

É normal, todos queremos conhecer e partilhar histórias de sucesso. É mais intuitivo mostrar e consumir conteúdo que transmita energias positivas do que energias negativas.

 

Mas só vemos, uma e outra vez, uma parte do processo: o final, o happy ending, o desfecho, tal como na ficção.

 

Nota intermédia: quando eu era miúda, saltava sempre a parte das cassetes em que a Cinderela era humilhada pelas irmãs más e em que a Bela Adormecida se picava na roca de fiar. 

 

Acho que é isso que nós fazemos e repetimos enquanto adultos, num ciclo vicioso. O meio, a forma como se atinge o ideal de picture perfect, é propositada ou inadvertidamente omitido. Pode ser intencional, ou pode mesmo acontecer sem querer. 

 

Raramente encontro esse "meio" do processo nas redes sociais. Não há para amostra as noites que se passaram no ginásio para se abater aquelas dez gramas a mais de gordura corporal (talvez dez segundos numa story); ou as horas, dias, anos de desespero e bloqueio que um criativo passou à frente do computador ou do bloco de notas até aquela ideia fantástica lhe ocorrer; ou as dificuldades que um casal aguentou, os desentendimentos, as discussões, o ata e o desata que veio a culminar num casamento de sonho; ou as mil e uma relações falhadas que se coleccionaram até se conhecer "o tal"; ou as horas extra que o viajante teve de trabalhar para poder visitar o seu destino; ou o lixo e a loiça que se teve de limpar duma cozinha ao preparar dois pratos que se comeram em dez minutos; ou as noitadas e o esgotamento nervoso a que aquele aluno brilhante se teve de submeter até alcançar o mérito.

 

A verdade deve ser, na minha opinião: muitas vezes, também não queremos saber. Não interessa. Queremos é distrair-nos, ver coisas felizes.

E a verdade é, sem dúvida: num momento de tensão ou desilusão, quase ninguém se lembra de tirar uma fotografia aos lenços de papel em que chorou lágrimas, baba e ranho, entranhas e dois terços da alma. Simplesmente, não se faz.

 

Sem querermos, sem ser essa a nossa vontade racional, só olhamos para o que é bom e final. Depois, perguntamo-nos "como é que ele consegue? como é que ela faz?". Então, eu passei sempre a relembrar(-me): para isto ter acontecido, qualquer coisa veio antes. Pode ter sido boa, pode ter sido má. Com uma ou outra variação, as vidas humanas não são assim tão diferentes entre si. Há um rol limitado de enredos, embora cada um com as suas especificidades (tal como no teatro grego).

 

Para alguém ter o que mostra ter, seja massa muscular, dinheiro, fama, sucesso profissional, uma relação duradoura, um doutoramento, um livro, uma família feliz... algo há-de ter acontecido antes, ou nos bastidores, sem que o voyeur inquisitivo se dê conta. Claro que o grau de dificuldade pode variar de pessoa para pessoa, de contexto para contexto. Mas não sintamos pressão desnecessária para copiar ou almejar ao que os outros são capazes de fazer, de forma instantânea. Tiremos um dia de cada vez, pássaro por pássaro, para construir aquilo que queremos para nós (diz a autora Anne Lamott no livro que ando a ler agora, Bird by Bird).

 

No outro dia, eu dizia a uma amiga (bem, na verdade devo tê-lo dito a todos quanto me tenham querido ouvir nas últimas semanas): "sinto que poucos me compreendem, porque nunca ninguém passou por esta situação que me aflige, nestas circunstâncias em que me encontro". E ela confirmou que, de facto, poucas pessoas me compreenderiam.

 

Mas, mais uma vez, todos já passámos por fases terríveis ou acidentadas, por um ou por outro motivo. Já todos sofremos desgostos. É cliché, mas "podia ter sido pior", ou "há quem tenha passado por pior", ou curto e grosso "há pior"; "tu tens tanto e queixas-te", "o que é que queres mais?", "agradece aquilo que tens".

 

Em alternativa, recomendo a abordagem ligeiramente passivo-agressiva, ainda que hilariante, doutro amigo (doutorando em Psicologia, que lá sabe o que faz): "tu já ouviste o que estás a dizer???".

 

Aceitam-se mais sugestões e opiniões. Vamos lá discutir isto da felicidade, vamos?

 

Mais uma vez, tudo é mais facilmente escrito do que feito. Se tu, leitor(a), estás a passar por uma fase menos plena... também eu. Força nisso. Não nos esqueçamos de que há sempre qualquer restinho de qualquer bocadinho de vida para aproveitar. Um dia de cada vez. É isto que eu repito ao meu lado mais emocional e dramático. Amanhã há-de ser melhor. Não faz mal andar de estômago virado, com os ácidos a transbordarem. E, se nos sentirmos voltar atrás... Acontece... Vamos lá!

Paris há três anos

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Estive em Paris há três anos. Foi a minha primeira viagem "de crescida" (será lamechice escrever isto?). Na altura fiquei muito orgulhosa por fazê-la, uma vez que também fui eu que a paguei e organizei. Quero muito lá voltar, depois de algumas outras viagens que ainda me faltam cumprir. Na altura, fui com a Inês e foi muito especial poder ir com ela. Aos 12 anos, combinámos que haveríamos de fazer um cruzeiro aos 18. Foi mais um cruzeiro de avião, mas... água não faltou!

 

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A visita a Versalhes foi a minha parte favorita. Fiquei deslumbrada e fiquei sempre a pensar "e se tivesse ido num dia menos movimentado, será que teria aproveitado mais?". Estava imenso frio e vento, mas esteve quase sempre sol e pudemos visitar todos os sítios que queríamos - e mais alguns, visto que apanhámos uma greve dos aeroportos franceses e ficámos mais um dia ou dois do que o previsto.

 

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Também adorei a Ópera Garnier, mais do que o Louvre, e ainda me sinto ofuscada por tanto ouro, mesmo depois deste tempo todo! Há sítios e imagens que nos ficam na cabeça.

 

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Tenho pensado... como assim, já passaram três anos? Até parece estranho. As viagens quase que servem de marcos na vida. Entre esta viagem e aquela, aconteceu tal e tal. Desde que vim daqui e dali, isto e isto deu-se. Portanto, há que encher a vida de viagens! Para mim, são como os pregos que sustêm as fiadas de eventos na sucessão dos dias. Mal posso esperar pela próxima. Até lá, ficam as memórias das anteriores.

 

E vocês, quais foram, são ou seriam as vossas viagens de sonho?

Sobre flores (e copos, vá)

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Quando era pequena, achava as flores murchas uma aberração doutro mundo: descoloradas, feias, a deitarem muco pelos caules cortados, com as folhas e pétalas a caírem por terra. No entanto, ao crescer, acho que lhes fui ganhando uma certa admiração. As flores murchas também têm a sua beleza. Já foram flores vivas, que distribuíram cor ao mundo, que alegraram o dia de alguém, que foram invejadas. Já foram mais do que natureza em decomposição.

 

Tudo isto para dizer que, tal como a metáfora do copo meio cheio, que está igualmente meio vazio, também aqui venho (re?)criar a metáfora das flores murchas, que já foram flores radiosas. Há sempre um quê de positivo a retirar de todas e quaisquer situações, qualquer coisa que se ganha ou ganhou. Por isso, não entendo as pessoas que insistem em ver sempre caules putrefactos, sem se lembrarem que flores são flores, já estiveram num jardim a saborear o vento ou num ramo que alguém já terá recebido. O que existe numa medida, existe noutra.

 

Nota: prestar atenção à inteireza do que nos rodeia e acontece. 

 

(Eu não disse que iria recomeçar os posts motivacionais-inspiradores? Já agora, atentai no meu material fotográfico mais recente, estou feita uma pró...caria! :p)

Os bebés podem curar tudo, não é?

Em 2016, por coincidência na mesma altura em que decidi ficar a trabalhar noutro continente, deram-me uma sobrinha. Na verdade, não me foram apresentados os termos e condições deste presente, nem sequer o modelo de que se tratava (na altura, até poderia ser um sobrinho, ou dois, ou três). Só sabia que, daí a alguns meses, se tudo corresse bem, existiria pelo menos mais uma pessoa cá fora, neste mundo: acabou por ser uma luzinha chamada Luizinha.

 

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Não pude acompanhar a Luizinha enquanto cresceu na barriga da sua mãe, a minha amiga Daniela. Mas fui a segunda ou terceira pessoa a saber da possibilidade de ela existir. Pude assistir a uma das ecografias, quando vim a Portugal no Natal. Nessa manhã, confirmei: um bebé emociona-nos, mesmo quando ainda não está deste lado. Choramos por eles, quase antecipando o quanto nos farão rir, as alegrias que trarão a quem os rodeia. Das restantes ecografias, recebi as imagens pelo telemóvel. Até receber as primeiras fotografias duma recém-nascida, e depois duma bebé a rir-se, e depois duma bebé palradora numa chamada de vídeo, e depois duma bebé que comia sopa, e depois duma bebé que se empoleirava no berço a dançar. 

 

Tive de deixar passar grande parte do primeiro ano da Maria Luiza. Durante muito tempo, não pude pegar-lhe enquanto foi pequenina e frágil, não a pude visitar, não pude ser uma presença assídua, nem abraçar a Daniela para lhe agradecer o facto de, desde o primeiro resquício de vida desta pessoa, me ter sido permitido fazer parte deste processo, da vida desta criança. No entanto, desde o primeiro dia, eu fui a Tia Bea, graças a esta sobrinha que me ofereceram pela via do coração.

 

Agora que tenho passado mais tempo com esta família que me faz tão bem à alma e que, ao visitá-la, me acolhe como se também eu fosse uma extensão do seu núcleo, tenho a certeza:

 

Os bebés podem curar tudo.

 

Um bebé é uma data de coisas: sendo um novo ser humano, constitui a prova de que o futuro está ali à esquina; é uma fonte de amor que jorra de mãos gordinhas e gengivas tenras, cabeças aveludadas, aroma a leite e toalhitas, rendas na roupa, gorros tricotados, sapatos onde nem cabem os nossos dedos;

...um bebé é a personificação do optimismo, porque um bebé ri e nós rimos também, um bebé descobre as folhas e as árvores e nós sentimos que também os vemos pela primeira vez; um bebé atira-se para o nosso colo e faz-nos acreditar que somos especiais (mesmo quando faz o mesmo a mais mil e quinze pessoas); um bebé olha-nos nos olhos e os astros alinham-se para que tudo pareça estar no sítio onde sempre tivera de estar; um bebé nem está connosco e é como se estivesse sempre ao nosso lado.

 

Um bebé nem sabe falar e já deixa a sensação de que, bem feitas as contas, já sabe tudo sobre a vida. Quando estou com a Luizinha (infelizmente, não tantas vezes quanto gostaria), ou quando a vejo em fotos, vídeos, ou memórias, sinto que tudo tem remédio. Sinto que tudo no mundo está alinhado. Sinto que há paz. Ela sorri e eu não posso deixar de sorrir. Ela grita e eu grito também. Dizem que os bebés imitam o que os adultos fazem... e se formos nós a imitá-los? 

 

Os bebés curam, nem que seja temporariamente, o que nos fere sem se ver. Não são enfermeiros, nem médicos, nem políticos, mas tiram-nos de letargias e permitem-nos ter esperança. Não são comediantes, mas arrancam-nos as maiores gargalhadas. Não são professores, mas ensinam-nos a reparar no mundo como se fosse a primeira vez. Se só passassem anúncios da Dodot, da Johnson & Johnson e da Chicco em horário nobre na televisão, provavelmente o mundo seria um bocadinho melhor. 

 

Adoro bebés - em particular, a minha luzinha chamada Luizinha. ♥

 

 

Uma luzinha chamada Luizinha... 😍

Uma publicação partilhada por Beatriz (@beatrizcanasmendes) a

 

(Se eu sou assim com os filhos dos outros, imaginem como será quando me calhar a mim...) 

 

Nota: a Luizinha é, provavelmente, a bebé mais calma que eu já vi. Desta forma, talvez a minha opinião aqui expressa reflicta essa paz que ela emana. Conselho... consultem um especialista antes de arranjar um exemplar. 

 

 

Com o que se parece um desgosto?

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Duma forma estranhamente masoquista, mas acima de tudo curiosa acerca da condição humana e das emoções, sempre me interroguei com o que se assemelharia um desgosto - não daqueles de criança ou adolescente, não um sentimento vão; um desgosto adulto, com proporções significativas e consequências reais. 

 

Entretanto, esse tipo de desgosto não tardou. Ou não tardaram. Foram logo vários, uns a seguir aos outros. E eu só sei que foram realmente desgostos porque, de facto, nunca tinha sentido nada assim na vida (que ainda não é longa, apesar de tudo). 

 

Com o que se parece um desgosto? Ironicamente, não se parece com muito. É uma mistura de tudo e não é nada. Os meus deixaram-me apenas a ausência de qualquer coisa que lá estava antes, deixando de estar. Ao mesmo tempo, há desapontamento, desorientação, desamparo, desequilíbrio, des-tudo. No apogeu dessa série de desapontamentos, pensei que talvez se pudessem comparar com um ovo: um ovo que andou a ser carregado por uma quantidade razoável de tempo, circulou por caminhos diversos, dum lado para o outro, passeou até por algumas mãos, depositaram-se expectativas naquele pequeno peso, mas alguém ou alguma circunstância fê-lo cair, apenas para se descobrir que, partido, não tinha nada lá dentro. 

 

E depois? Fica a casca, picada, pisada, incompleta, a desmanchar-se nas mãos de quem o tenha apanhado. 

Os filmes de amor que podem consumir-vos um fim-de-semana inteiro se seguirem o meu conselho

Não interessa se são bem amados, ou mal, se estão apaixonados, têm o coração partido, estão enamorados forever and ever, ou se andam em tratamento de purga - if you know what I mean - porque estes filmes de amor vão-vos aquecer o peito, talvez atiçar possíveis borboletas que andem a criar na boca do estômago... A minha lista de filmes de amor, sobre o amor, tem escolhas para todos os gostos e disposições, uns com finais felizes, outros com finais com pés na terra. Aqui vai.

 

1. One Day (2011)

Acho que já mencionei este filme e livro nos meus blogues. Li o livro muito antes de ver o filme, li-o primeiro em português, emprestado por uma amiga, e depois o original em inglês, uma edição ranhosa, mole e suja que comprei ao preço da chuva na minha livraria preferida em Banguecoque. Ainda a tenho. Dois melhores amigos passam décadas a andar para trás e para a frente numa relação platónica insatisfatória e, entre as peripécias dos 20 e dos 30 anos, uma pessoa só tem vontade de lhes espetar uma chapada, porque obviamente eles amam-se profundamente (diz o livro e o filme) e têm é de ficar juntos. Além disso, o filme tem a Anne Hathaway, uma das minhas actrizes favoritas desde Os Diários da Princesa.

 

 

2. About Time (2013)

Esta é a história dum rapaz chamado Tim e da sua vida maravilhosa desde o momento em que descobre que, como herança de família, lhe foi concedido o dom de viajar para o passado para o poder reviver, alterar ou melhorar. Claro que, sendo ele um jovem bastante descoordenado, desbocado e pouco popular entre o sexo feminino, o seu dom é utilizado para seduzir aquela que ele acha ser o amor da sua vida, a Mary. Além de "filme de amor", este filme é uma comédia romântica, mesmo com alguns momentos mais tensos à mistura. Aliás, acho este filme verdadeiramente hilariante. É preciso ter cuidado com o destino do futuro quando se altera o passado!

 

 

3. Love, Rosie (2014)

Mais um par de melhores amigos em desencontro com o amor por muitos anos, tanto em filme como em livro, mas com outras circunstâncias. É impressão minha ou os britânicos gostam muito deste tema? Já agora, acho que desenvolvi uma grande crush pelo actor, cujo nome nem me lembro, mas que também entra no Me Before You (que não entra nesta lista, porque é bonito e tal, mas demasiado lamechas, até tendo em conta os meus standards).

 

 

4. The Time Traveler's Wife (2009)

O conceito de tempo atrai-me sempre para livros e filmes. Quando se brinca com a ordem cronológica dos acontecimentos, é quase certo que me tornarei leitora ou audiência em menos de nada. Mais uma vez, li o livro e, passados uns meses, vi o filme. Principalmente o livro está muito bem pensado, mesmo não sendo a maior obra literária de sempre. O filme está fraquinho, quando comparado ao livro, mas entretém. No entanto, em livro ou filme, é interessante sabermos o futuro das personagens, mesmo sem saber o passado, e depois saber o passado sem saber o futuro, ou saber o futuro sem saber o presente... E por aí fora!

 

 

5. Celeste and Jesse Forever (2012)

Ao contrário de alguns dos filmes de amor já enlistados, este filme é mesmo um filme sobre o amor, tal como ele é, sem grandes truques cinematográficos. É daquelas histórias que poderiam acontecer a qualquer um de nós. A Celeste e o Jesse estão a divorciar-se, vivem mais ou menos separados, mas são o melhor amigo um do outro. Super querido, tirando o facto de eles não terem resolvido ou pensado muito no que implica uma separação, não terem falado o suficiente para resolverem, em primeiro lugar, os problemas mais profundos da relação e terem os dois alimentado esperança num reatamento por razões diferentes, tomando-se por garantidos (ai, que errado!, que comichão!). Dêem uma oportunidade à Celeste e ao Jesse, porque o filme deles encontra-se muito facilmente na Internet. E foi mostrado no Festival Sundance. Em suma, é dos meus filmes favoritos, pela simplicidade da história, mas profundidade da mensagem, pelos momentos ternurentos, que são quase todos, e pela crueldade das cenas de tensão.

 

 

Para onde vamos depois de terminar o ensino secundário?

Vai fazer cinco anos que terminei o ensino secundário. Parece pouco, mas meia década já deu para muito. O mais curioso, para mim, é a diversidade de caminhos das pessoas com quem andei na escola - do meu ano e sem ser do meu ano.

 

Há muita gente que já anda em mestrados, há quem tenha repetido o secundário no ensino profissional, há quem tenha ido logo trabalhar, há quem concilie estudos e trabalho. Há quem já tenha filhos, há quem só tenha coleccionado namorados. Alguns já vão no segundo filho e/ou no 35º namorado/a.. Há quem se tenha tornado jogador de futebol, há quem se tenha casado ou tido filhos com um. Outros participaram na Casa dos Segredos, e/ou iniciaram negócios. Há quem tenha ido para a tropa ou para a marinha. Alguns emigraram ou foram estudar para fora do país ou para o outro lado de Portugal. Uns trabalham nos supermercados onde vamos todos os dias, outros trabalham em escritórios de alto gabarito ou bancos, ou são professores ou educadores, engenheiros de várias áreas, biólogos, psicólogos (vários), animadores socioculturais, antropólogos, actores, ...

 

Depois de terminar o ensino secundário, nenhum outro casal de pombinhos sobreviveu, pelo menos dos que me lembre do meu ano. A maioria das pessoas engordou. Muitas das miúdas "todas boas" do secundário estragaram-se. Há muitas que não eram "as mais boas", mas que ficaram bem giras. Os rapazes tornaram-se, por norma, melhores do que estavam (a puberdade mais tardia ajudou). Por outro lado, há quem já pareça ter quarenta anos, antes sequer de avistar os 25. E há quem continue na mesma. 

 

Antes de terminar o ensino secundário, nunca pensei no quão diferentes poderiam vir a ser os caminhos futuros de tanta gente que cresceu na mesma vila e frequentou as mesmas escolas/cafés/parques/centros comerciais durante tantos anos. Começamos todos no mesmo sítio, de forma semelhante, partilhamos a infância e/ou a adolescência, mas seguimos por vias tão criativas quanto o nosso ADN. A vida é uma coisa estranha, não é?

5 palavras para 2018

Se a minha palavra-chave para 2017 for "trabalho", a de 2018 poderia ser "descanso". Estou convencida de que não seria possível fazê-lo a tempo inteiro (apesar de não me importar de ter uma ou duas semanas sem pensar em trabalhar ou estudar, ou complicar seja o que for), por isso decidi escolher 5 palavras para 2018 que sejam ligeiramente mais assertivas acerca do que já é provável que aconteça.

 

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Ordem, no caos das novidades que aí vêm.

Amor, que tudo deve curar e que, vindo de tantas fontes que me têm dado de beber, tem também que ser cultivado e oferecido de volta.

Disciplina, porque muitos desafios e novas rotinas extremamente desejadas estão para chegar.

Estabilidade, em vez de ansiedade no exterior da zona de conforto; voltar lá se for necessário.

Lar, onde todas as palavras restantes fazem sentido e são possíveis (muito bem sugerida pela minha amiga Daniela, obrigada).

 

Esta é a minha curta lista de palavras para 2018, e a vossa, qual é?

O que eu não mudaria em 2017

Que ano turbulento. Costuma-se dizer que, quanto maior é a subida, maior é a queda, mas 2017 foi uma série de escadarias, e rampas, e trampolins, para cima e para baixo.

Felizmente, há muita coisa que eu não mudaria.

 

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Não mudaria ter ido viver para outro condomínio. Poupei imenso dinheiro nesta renda duma unidade mais pequena e nos subúrbios, onde consegui encontrar silêncio, risos de criança no jardim, espaço verde e de lazer com fartura. O condomínio no centro de Banguecoque era glamoroso, tinha uma vista de tirar o fôlego a qualquer um, mas as baratas e o barulho estavam a tirar-me do sério. Além disso, era demasiado grande para uma pessoa só.

 

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Não mudaria o quanto trabalhei este ano - tanto enquanto professora, como também enquanto estudante. Custou, mas teve frutos, deu-me experiência, fiquei com calo, testei-me, recebi palavras de reconhecimento e respeito dos meus alunos, dos meus colegas, da minha chefe, fiquei com uma média quase perfeita no mestrado (apesar de incompleto). Os meus alunos escreveram-me mensagens de carinho, ajudaram-me a melhorar, pediram-me para ficar nas minhas turmas até ao momento em que lhes disse que este foi o meu último semestre. Os meus colegas cumprimentam-me efusivamente nos corredores, raramente sinto más energias na minha direcção, fiz amigos (mais ou menos, vá). A minha chefe reconhece o que faço, incluiu-me até num projecto de extrema importância desde 2016 e que culminará em 2018, quando poderia ter pedido a outra pessoa qualquer com mais experiência para a ajudar. Tudo isto é gratificante.

 

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Não mudaria o que trabalhei em quantidade e intensidade, tendo em vista ganhar mais do que o meu salário base. Consegui rendimentos decentes no final de cada mês, que me permitiram proporcionar férias inesquecíveis à minha família, cada vez que me visitaram, principalmente a minha avó, que esteve cá quase dois meses - as primeiras férias em dezoito anos, desde que eu fui lá para casa para ela me criar! Também pude dar-me a pequenos luxos, como adoptar um gato e comer em bons restaurantes.

 

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Não mudaria nada do que tentei dar à minha família. Ao ajudá-los a ter estas experiências, senti que consegui arranjar uma bela desculpa para os arrancar do ciclo de muitos anos negativos e cheios de sacrifício. Sei que estas visitas à Tailândia, mesmo quando curtas, tiveram resultados muito positivos e lhes trouxeram uma forma renovada de ver a vida. Além disso, o orgulho que sentem por mim irradiou ainda mais quando me visitaram.

 

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Não mudaria o quanto protegi o meu namoro de energias negativas, o quão firmes fomos os dois com esta dinâmica de relação a longa distância, o facto de termos feito tudo encaixar e funcionar até este momento, depois de oito meses sem nos vermos e mais dum ano sem realmente convivermos no mesmo espaço sem interferências do jet lag ou agendas familiares apertadas. Não mudaria o facto de ter investido nesta relação como sendo a única aposta viável para uma vida feliz e como a imagino, e de ter insistido que teria de ser mesmo assim.

 

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Em suma, não mudaria o esforço que investi em continuar a ser optimista. Ser feliz nem sempre é fácil e facilmente nos esquecemos de como estar satisfeitos com o que temos. Estou feliz por ter tido a oportunidade de viver no estrangeiro, estou feliz por me ter desenrascado como pude e quase sempre com sentido de humor e uma certa alegria! Esforcei-me muito para acabar este ano com saldo positivo, estou mesmo feliz por estar a acabar, para que novos desafios possam aparecer.

 

Fica um agradecimento eterno no ar a todos os meus amigos, família, namorado, professores, conhecidos e toda, toda a gente que me trouxe sorrisos e com quem partilhei neuras nestes doze meses.

 

Sob sugestão duma ideia da Cláudia (já não me lembro em que post), penso que a minha palavra para 2017 tenha sido "trabalho", sem me ter apercebido. Para 2018, que palavra escolherei?