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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Faz parte

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Faz parte a ansiedade. Faz parte o silêncio. Faz parte ter dias bons. Faz parte ter dias maus. Andamos todos nesta roleta russa de emoções, horas vagas e ocupadas, novidades e notícias, opiniões e impressões. Faz parte não saber muito, nem saber nada.

 

Também me sinto assim, mas estou a tentar interiorizar: faz parte. Não sei muito bem como me sinto, na verdade, só sei que é assim. Há momentos em que acho mesmo que estou contente e bem-disposta, mesmo que na hora seguinte dê comigo a ruminar de peito apertado. Aliás, escrevo este texto porque preciso de esvaziar tudo. Faz parte desabafar, mais do que nunca, e talvez a vulnerabilidade se torne mais popular daqui para a frente. Faz parte ser-se vulnerável, ter dúvidas e dores.

 

As pessoas à minha volta também estão assim. Agora, estamos em todo o lado, sem estarmos em lado algum. Tenho falado diariamente com amigos, continuo a dar aulas por videoconferência e a trabalhar pela Internet e no computador. Não me canso nos transportes, tenho mais tempo para dormir; só que não tenho sono, tal como não tenho concentração, e ando presa num ciclo de escassez. (O tempo encolheu, ou faz parte?)

 

Não é copo meio cheio, nem meio vazio – é só ter um copo e não saber o que se verte lá para dentro. Mas faz parte não ter respostas às perguntas que nos ocorrem agora, não é?

 

Faz parte ter saudades, sem data de regresso. Faz parte ter quebras de rede a meio duma conversa e ter de renovar votos pelo Skype. Faz parte mudar para o Zoom, porque o Skype está em baixo.

 

Faz parte olhar com preocupação, e ao mesmo tempo curiosidade, para as mudanças que se prevêem na economia. As estruturas económicas e sociais vão mudando, ainda que temporariamente, ainda temporariamente, e o desconhecido, a ameaça e a instabilidade fazem parte. Isto faz tudo parte duma receita que nunca experimentámos.

 

Faz parte não discernir o espaço de trabalho e de lazer, faz parte sentir a revolta de quem vê o seu emprego em risco, faz parte sentir um luto colectivo pelas vítimas. Faz parte acharmo-nos todos um bocadinho vítimas. Faz parte viver um dia de cada vez, porque não somos imunes ao que acontece aos outros. Enfim, faz parte pensarmos que isto está a correr muito mal, mas que por outros motivos tem seriamente de correr bem – para guardarmos a nossa sanidade mental, a dos que nos são próximos, a dos que estão longe, a de toda a gente. E ter esperança, faz parte? Espero que sim.

 

Faz parte juntar pânico e optimismo, chorar e rir no mesmo dia, sentirmo-nos sós e tão bem acompanhados. Faz parte ter partes e viver por partes.

Era uma vez, um diário positivo

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Esta é uma publicação um pouco diferente das que são o costume por aqui, mas com um convite que gostaria de partilhar convosco, pessoas que adoram escrever, ou que gostariam de escrever mais, de preferência se isso vos trouxer algo de positivo, tão necessário nestes tempos conturbados que estamos a viver. É engraçado pensar que este workshop foi o meu projecto pessoal, profissional e da pós-graduação nos últimos meses, nunca prevendo que no início de Abril estaríamos... assim, neste espaço psicológico, resguardados em casa. Eu própria me sinto muito feliz por ter andado a estudar o tema, que agora se revela tão útil. Mas adiante.

Se estiverem interessados, ou se conhecerem alguém que esteja, não hesitem em mostrar-lhe este evento.

 

***

 

Comecei a escrever muito miúda (ainda mais do que agora). Escrever era o meu trabalho favorito da escola e fazia de propósito para o meu P.I.T. (quem se lembra do Plano Individual de Trabalho?) calhar sempre com produção escrita. Confesso que fiz muita batota à conta disso. Escrever sempre me fez sentir bem, sempre me fez sentir capaz e mais organizada nas ideias. Aliás, desta necessidade surgiu o blog.
 
 
Seja ficção ou não-ficção, nunca deixei de querer brincar com as palavras, com as observações do mundo e com o mundo interior das personagens. Por isso, quando comecei a estudar Psicologia, encontrei a peça que faltava no meu puzzle: poder partilhar com outras pessoas todos os benefícios para a saúde mental - e, por consequência, física - de escrever regularmente.
 
 
Dito isto, preparei um dia cheio de actividades de Diário Positivo para daqui a uma semana: a data é 4 de Abril (Sábado), e o workshop vai ser completamente online.
 
Descrição:
"Acha que escrever um diário é como uma terapia para acalmar a alma, organizar as ideias e perceber as suas emoções? A escrita é parte de si e escreve para se sentir melhor?
 
O Workshop de Diário Positivo será um dia de aprendizagem sobre como utilizar um diário em prol do bem-estar e duma melhor saúde mental, através de pequenas intervenções e exercícios escritos que podem ser realizados autonomamente.
 
Como o nome do workshop indica, daremos uma importância reforçada às emoções positivas, mas sem nos esquecermos da escrita expressiva e do papel da literacia sobre todos os tipos de emoções e pensamentos numa vida feliz e equilibrada."

 

***

 

O resto das informações está:
 
 
Obrigada, e espero ver-vos em breve!
 
 

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Um elogio ao "Quotidiano Instável" (Maria Teresa Horta)

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"Nunca cheguei a saber o que me atraía nele: os olhos? As mãos compridas e magras? O ar fechado e triste? A hostilidade quase terna, toda ela aparente? (...) E todavia há uma dormência feliz que não compreendo, ou que talvez não queira compreender, como também nunca consegui entender até onde ia a sua timidez, a sua severidade, ou a sua indiferença por mim."

 

Quotidiano Instável era o nome da coluna d'A Capital e, agora, é o nome duma coletânea com algumas dessas crónicas escritas, há 50 anos (1968-1972), pela jornalista e escritora Maria Teresa Horta. Acima de tudo, mais do que crónicas, estes textos não são só palavras - são formas de estar, pensar e sentir. Acredito que só quem já amou, com paixão, dor, alegria, provação e ternura consiga entender, mesmo que superficialmente, o que se passa nestas páginas. São muitas as palavras que MTH escreve sobre quem mais a inspirou desde sempre, o seu marido Luís, uma autêntica musa no masculino.

 

Se o olhar desgastasse o papel, este livro estaria feito em fiapos. As crónicas são curtas, como mini-contos, mas bastante complexas, rebentando de significado, metáforas, um vai-e-vem entre o sujeito "eu" e uma terceira pessoa. São textos que desafiam as barreiras entre o real e o imaginário, através da narração da paixão, da sensualidade, da sexualidade, da família e das relações em geral numa voz que eleva o amor à condição de mito real, pela sacralização das imagens e raciocínios invocados. Tive de ler cada crónica várias vezes, para recolher tanta informação quanto possível, informação essa que alimenta os sentidos de variadas formas, imagens ricas. Mesmo assim, sei que, cada vez que releio alguma, consigo retirar mais um pouco do que antes... Porque é prosa, mas poderia ser poesia, o que MTH escreve é um fio de consciência que nos cabe destrinçar, que não se sabe bem como ou onde começa.

 

(Senti-me quase sempre a ler cada texto como um sonho...)

 

Paralelamente, aconselho esta entrevista a Maria Teresa Horta no podcast "A Beleza das Pequenas Coisas" (também disponível no Spotify), que complementa a informação disponibilizada no prefácio de Quotidiano Instável por Ana Raquel Fernandes. As crónicas fazem ainda mais sentido à luz da experiência de vida de Maria Teresa Horta - política, jornalística, pessoal... (Não nos podemos esquecer que o erótico feminino, a liberdade implícita, a expressão do desejo, a emancipação, o protagonismo dado à mulher - tudo isto é lindo, um dado adquirido na contemporaneidade, mas não durante a ditadura de Salazar e de Marcelo Caetano.)
Além disso, ouvir MTH é uma delícia. Tem tantas lições para nos ensinar...! Então, aqui fica outra sugestão: Maria Teresa Horta em entrevista no podcast "Biblioteca de Bolso".

 

Quem gosta de crónicas e/ou contos vai adorar este livro, Quotidiano Instável. Quem gosta de poesia vai adorar este livro. Quem gosta da máxima "quantidade não é qualidade" vai adorar este livro curto e tão concentrado.

 

Dadas as nossas circunstâncias actuais, não vos aconselharia particularmente a fazer encomendas, e muito menos a sair de casa para adquirir bens não essenciais; no entanto, se já tiverem este maravilhoso livro na vossa estante, aconselho-vos a darem-lhe uma oportunidade, ou a fazê-lo assim que possível depois deste susto na saúde colectiva. Mesmo que gostem mais dumas crónicas do que doutras, tenho a convicção de que não se vão arrepender.

O amor e a loiça

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O João gosta de lavar loiça. Mal acabamos de comer, lá vão os pratos todos para a pia, os talheres retinem no fundo, o lixo é separado. O João recicla. O João não deixa entupir os canos. O João guarda o plástico e o vidro num caixote especial que se leva ao ecoponto mais tarde, mais o lixo comum.

 

Depois, se o abraço e lhe agradeço, o João diz que me ama. Eu aceito sem reservas, e só espero poder compensá-lo para o resto da nossa vida a dois, por tudo e mais alguma coisa - e em particular pela quantidade de loiça que ele há-de lavar, opondo-se convictamente à compra duma máquina, e insistindo que um electrodoméstico não o faria tão bem quanto as mãos dum homem, uma esponja e água quente.


Eu e o João conhecemo-nos numa app de engate. Escrevo “app de engate" porque "app para encontrar o amor" parece demasiado redutor. Ele poderia ter só encontrado alguém que gosta de falar de psicologia positiva, eu poderia ter só encontrado alguém que gosta de falar de realismo imaginário. Trocaríamos impressões sobre estes interesses vagos e aquele chocolate quente nas Picoas teria sido um intervalo bem-vindo durante o meu primeiro dia de trabalho a seguir das férias. A seguir, eu contar-lhe-ia a desculpa do costume: que ele era muito bom rapaz, mas que afinal eu concluíra que ainda estava a recuperar do meu último desgosto, recente; não sentia que fosse justo continuarmos a conversar, não fosse eu, e o meu caos, magoá-lo. Blá blá blá.

 

(Quando lhe disse isto, o João abanou a cabeça e disse “És tão engraçada, e a tua vida parece saída dum filme.” Fiz dele o protagonista, só para aprender a lição.)

 

Ainda bem que o João não quer saber das minhas desculpas.


Nesta vida, tive três namorados e todos eles são donos de casa invejáveis. Há quem atraia malucos. Há quem atraia sacanas. Há quem atraia meninos da mamã. Há quem atraia ricos. Ou pobres. Ou forretas. Há quem atraia homens mais velhos. Eu atraio homens que não suportam uma cozinha por arrumar. Aliás, até vou ao ponto de dizer que adoram fazê-lo.


Eu digo que é sorte ou coincidência; o João diz que é porque eu sou aquele tipo de mulher que atrai esse tipo de homem, um padrão, ponto final. Ora, esta crença dele obriga-me a esforçar-me por merecer o padrão. Tenho de me esforçar por merecer o João, a pessoa que me diz que eu mereço que me lavem a loiça. (Aposto que nunca ouviram uma coisa tão romântica, nem no dia dos Namorados, pois não?)

 

O João é trabalhador. É esforçado e focado. É poupado. É gentil com toda a gente. É expressivo, interessado e bom conversador. O João lê o que eu escrevo e e ainda envia aos pais.

- Tudo isto, e mais a loiça! 


Acredito que haja coisas bem piores na vida, a partir do momento em que confirmo: por trás da atrapalhação partilhada durante a exposição dos sujeitos como que numa montra do talho (idade, check, profissão, check, sem suspeitas psicopatas, check, à procura de relação séria, check, cheira bem, check...), existe de facto uma pessoa que espera um dia partilhar connosco a sua cama, os seus dias, a sua loiça lavada e a sua ADSE.

 

Isto é amor, ou lá o que é, João, não é?

 

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Texto escrito originalmente paraO Primeiro Capítulo de Fevereiro. No dia anterior ao encontro, decidi escrever outro, por ainda não estar contente com este.

Ser mulher e artista: Dear Girls (Ali Wong)

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Quando vi os dois especiais da comediante Ali Wong na Netflix, fiquei logo fã. Ela é duma perversidade e duma inocência contraditoriamente claras, e foi ao ler esta autobiografia que as percebi realmente e passei a admirá-las ainda mais. Dear Girls é para as filhas de Ali Wong, mas - quiçá - também se dirige a todas as mulheres.

 

Queria saber de onde vem esta mulher. Queria saber como se complementam os seus legados culturais. E por que é que as piadas dela têm uma linguagem tão conspurcada pela sexualidade exuberante dos seus primeiros anos enquanto adulta, e como é que a família e as restantes pessoas que a rodeiam convivem com esse lado perverso e cru. Como é que o marido lida e as filhas podem vir a lidar com a fama alcançada de tantas das suas histórias privadas? E como é que se constrói uma carreira em stand-up comedy, e que público foi a Ali tendo longo dos anos, partindo do facto de ser mulher e uma minoria étnica nos Estados Unidos, e de os textos que escreve assumirem marcadamente esses pontos de vista?

 

Tantas, mas tantas perguntas; tantas, mas tantas respostas. Ali Wong é frontal e a sua verdade é enternecedora. Acho-a destemida e hilariante.

 

O livro Dear Girls divide-se em capítulos que são cartas às duas filhas, Nikki e Mari, a quem se dirigem as lições, conselhos e histórias de vida contadas pela mãe, mas que são também reconhecidas logo no início como "desculpa" para que o livro exista e tenha sido escrito. Ali Wong acaba por se dirigir, sem pudor, a um público de leitores bem maior. Do que depender de mim, direi: ainda bem!


Ler este livro é um risco, porque nem todos teremos interesse em ler sobre a vida duma mulher aleatória a viver do outro lado do oceano, uma mulher com raízes tão diferentes das nossas, com um trabalho como poucos têm, com uma visibilidade enquanto figura pública que só uma percentagem dos seres humanos tem (felizmente!).


No entanto, as preocupações e detalhes do dia-a-dia da Ali Wong são também os nossos, tão reconhecíveis. À parte a comediante e actriz, ela é mãe, filha, irmã, mulher, amiga, cidadã e parte das suas comunidades. Tanto nos separa como liga, tanto nos afasta como aproxima.

 

Finalmente, a maior prova de humanidade da estrela, que afinal terá sempre o seu alter ego histriónico e público, reside na última carta: um posfácio escrito pelo marido, Justin Hakuta. Justin poderia ser um anónimo, só que é a grande musa da maioria das histórias contadas nos espectáculos da mulher e também neste livro. Por outro lado, é ele quem mantém a família firme e que assegura a estabilidade necessária à sua cara-metade caótica, criativa e sempre na estrada. É ele que, apesar de ter estudado em Harvard, se orgulha em vender merchandise das tours nas bancas dos espectáculos. É ele quem assume tarefas que ainda são vistas como trabalho feminino no lar. É ele quem escreve uma carta de amor e dedicação total ao bem-estar dos seus nesta carta muito especial. A carta dele é a cola que junta todos os pedaços de vida que lemos até este último capítulo.

 

Se gostam de autobiografias e comédia, e se se interessam pela riqueza dos EUA, esta pode ser uma leitura à vossa medida.

20 para 2020: acima de tudo, amor, conhecimento e livros

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Já estamos no quarto dia do ano e eu não escrevo no blog há vinte e sete. Regressei, mas não sem uma certa culpa de abandonar a prática da escrita, e do reconhecimento de quem gosta de ler o que se publica por aqui.

Recomecemos.

 

No ano passado, escrevi e disseminei por aí a lista "19 para 2019", ideia que pedi emprestada à Gretchen Rubin. Antes de 2019 terminar, cedi à curiosidade de a revisitar. Foi assim que concluí: excedi-me de formas que nunca imaginei. Claro que a maioria dos pontos relacionados com livros jamais teriam condições para ser concretizados, em doze meses tão ocupados e repletos de reviravoltas. Tive tantas decisões para tomar; doze meses que pensei que não teria energia nem engenho para transformar, mas afinal doze meses em que aconteceu o suficiente para valerem por trinta e seis. Jamais teria tempo para levar a cabo tanta leitura, porque jamais imaginei metade do que acabou por fazer parte de 2019.

 

Dito isto, 2019 foi o ano em que tive como nunca - e em que deixei de me preocupar com - impostor syndrome, porque fui eu que fiz acontecer tudo o que aconteceu e quem fez um esforço por conhecer as pessoas que conheci, por isso vamos lá deixar-nos de tretas! (Momento reservado para uma pequena dança da vitória desta que vos escreve.) Se me tivessem dito em Janeiro que iria abandonar o segundo mestrado, começar um terceiro, ter o meu local de trabalho, ir ao ginásio religiosamente todas as quartas-feiras, tirar quase dez formações, viajar com a minha cara-metade e fazer não só novas amizades, como também liderar um grupo de escrita... eu diria que era mentira, porque não é possível fazer isso tudo em 365 dias.

 

Além disso, destaco esta ideia: foram as pessoas as grandes culpadas do balanço positivo, apesar da minha narrativa pessoal se basear na crença de que sou um bocado bicho. Pela positiva, destaco duas pessoas (sem prejuízo para todas as outras, como a minha família e a família do João, a Inês, a Daniela, o Carlos, a Joana e o Rui). No início do ano, conheci a Elisa. A Elisa (que migrou ontem para os Blogs do Sapo) também se surpreende bastante quando os planos dela lhe correm bem, ou quando algo inesperado surge. Desde que a conheci, no encontro de Março das CreativeMornings Lisboa, sinto que os nossos caminhos se tinham mesmo de cruzar e que fazemos realmente a diferença na vida uma da outra. A Elisa é a parceira ideal e tem preocupações e objectivos que tocam nos meus. Esquece-se facilmente das suas próprias capacidades, mas vai fazendo e acumulando conquistas sem se dar conta. Além dela, destaco o João, que aparentemente nem sequer tinha muito a ver comigo (ele calmo e pragmático, estável; eu caótica e sempre a ruminar, sempre a mudar de ideias), excepto o facto de termos descoberto que fazemos um do outro pessoas muito melhores e mais felizes, e que partilhamos o mais importante, que são os valores e os desejos para o futuro, além da sensação discutivelmente pirosa de já nos conhecermos há muito mais tempo. Ora, estas duas pessoas marcaram 2019, por me fazerem acreditar que tudo é possível, se tivermos a companhia certa.

 

Este ano, ainda estou a fazer a minha lista "20 para 2020". No entanto, não poderei divulgá-la por completo no blog, uma vez que algumas das linhas contemplam planos surpresa com e para outras pessoas que lêem o meu blog. Mas... não poderia deixar de partilhar algumas partes.

Quero começar a aprender Latim ou Alemão.

Quero fazer duas viagens, uma delas à Tailândia.

Quero criar dois cursos presenciais e um online.

Quero terminar o mestrado executivo em Psicologia Positiva Aplicada.

Quero fazer um MBA em Gestão e Coordenação Pedagógica da Formação.

Quero passar a ir ao ginásio duas vezes por semana.

Quero comprar um computador novo.

Quero ver 30 filmes.

Quero conhecer três séries do início ao fim.

Quero ser contida e não comprar mais de 20 livros.

Quero continuar a escrever para o P3, pelo menos uma vez por mês. E para o blog todas as quinzenas.

(E quero ter tempo e dinheiro para concretizar tudo isto.)

 

Esta é uma das épocas do ano em que mais escrevemos sobre balanços e esperanças. É verdade que não funciona para toda a gente da mesma maneira, que há quem prefira ver os anos como uma linha contínua, mas cabe a cada um de nós adoptar os hábitos que mais lhe fazem sentido. Para mim, é este: há quem ache celebrar um novo ano lamechas; eu acho bonito e bem intencionado. Ter e partilhar objectivos é saudável, inaugurar ciclos permite-nos ganhar fôlego e expectativas renovadas. Assim sendo, também vos desejo um novo ciclo cheio de mais e melhor, com um rácio de positividade de 3 por 1, para que possam florescer (diz a Barbara Fredrickson e os outros entendidos da Psicologia Positiva). E prometo voltar a procrastinar mais, escrevendo com regularidade. Sobre livros. Possivelmente sobre livros.

 

Até breve.

Dá vontade de dizer "forever and ever"

Quando comecei a namorar à séria, o meu pai garantiu-me que não havia amor como o primeiro. Na altura, eu já tinha tido um pseudo namorado, mas contei sempre essa pseudo relação como um fling adolescente, passageiro, muito sofrido e quase platónico. Dito isto, passei sete anos com essa deixa na cabeça, de que o primeiro amor é que é, principalmente para justificar por que a minha segunda relação foi boa, mas morna, sempre a faltar qualquer coisa sem saber bem o quê. Afinal, o primeiro amor é que tinha sido o melhor e provavelmente nada nem ninguém o iria superar. Conformei-me e acreditei que era este o fado duma relação adulta e desencantada, assente no real e na experiência palpável, sem os unicórnios e arco-íris de algo que começa quando somos tão novos e tudo também é novo e fresco. Se a minha primeira relação começada na idade adulta não tinha fogo-de-artifício nem confettis, era porque nem sequer era suposto. Afinal, duas pessoas que já viveram grandes e pequenas relações já vêm marcadas, têm as suas manias e hábitos estabelecidos, e têm vícios e expectativas goradas - perdão, devidamente alinhadas.

 

No entanto, parece que o meu pai não tinha razão (não é a primeira vez, claro). Talvez haja quem nos traga os confettis, o fogo-de-artifício, os unicórnios e os arco-íris como se fosse a primeira vez que os vemos, quem nos devolva a expectativa dum segundo ou terceiro amor como se fosse o primeiro, porque - aliás - é o primeiro do seu género, entre estas duas pessoas, nestas circunstâncias específicas. E eu olho para ele e acho que é bom demais para existir; e a pessimista que há em mim tentou alertá-lo para o quão desarranjada sou, mas num ápice ele fez-me ver que afinal eu só não tinha conhecido alguém que me fizesse relembrar o quão inteira posso ser; e aquilo que eu imagino que um homem (e um parceiro na vida) deve ser ele é sem lhe ter sido recomendada a lição; e ficamos bem nas fotografias, mesmo quando ficamos muito mal; e ele faz a minha família rir imenso, tanto quanto sinto que a família dele me faz rir; e ele está sempre a guardar as minhas mãos nas dele; e somos tão diferentes e tão iguais (a concordar quase sempre sem grande esforço, sendo eu tão caótica e ele tão comedido) que preenchemos todos os pré-requisitos para nos ser permitido usar clichés quando nos descrevemos forever and ever.

 

Além disso, ontem houve almoço de família e ele trouxe três tipos de pão artesanal, acrescentado ao facto de comer tudo o que a minha avó lhe põe à frente, alinhar na piada e confusão de ter o mesmo nome que o meu pai, e não fazer soar nenhum alarme à minha tia, por isso só pode ser uma excelente pessoa, a adição perfeita à malta lá de casa.

São só fotografias

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Uma das maiores pequenas alegrias que posso ter é entrar numa casa alheia cheia de fotos tiradas ao longo dos anos. É o meu guilty pleasure, derreto-me e amoleço com isto. Sou uma voyeuse de paredes, estantes e de tampos de móveis, gosto de imaginar as histórias por trás das imagens e de reconstruir narrativas familiares através do meu entendimento de visitante. Essas fotografias são a exibição da própria felicidade, das memórias que se querem preservar. Porque estão dentro de casa e não num mural de rede social, não são para os outros, são para quem lá vive - isto é, consistem numa selecção de lembranças preferidas, mesmo que não tenham sido curadas para os olhos dos outros, uma representação do que os habitantes da casa consideram ser o mais importante acerca de si mesmos e que gostam de rever diariamente.

 

E uma família feliz não tem só fotografias das crianças ou dos grandes eventos com pose pensada, tem fotos de tudo e mais alguma coisa: das férias de Verão, retratos da escola, aniversários, casamentos, Natais, momentos de convívio e olhares que saíram fotogénicos. O repertório não se cinge a uma só categoria ou a um grupo de pessoas, não é necessariamente o mesmo que se descarregaria no Facebook, e mais haverá nos álbuns que se imaginam através desta amostra.

 

Não são só fotografias, afinal.

A última romântica

Para o João, que de repente me pôs a pensar nestas coisas

 

Entristece-me que as pessoas se revelem cada vez mais cépticas quanto à existência dum "amor para sempre". Antes dos casamentos, prevêem já os divórcios. Começam relações com a boca pequenina, passinho a passinho. Não se deixam arrebatar. É tudo morno, não é? 

 

Infelizmente, também eu me sinto vítima deste contexto cuidadosamente contido, muito quadrado. Tento contrariá-lo, mas prevalece um receio constante de prematuridade, que ao não partir de mim há-de partir doutros lados. Não estou a declarar quem afinal terá razão nesta equação que nos melindra, mas sim que nos anexamos à partida a crenças de amor e dedicação forreta, com medo de merecer essa atenção, e com medo de magoar quem nos quer tanto bem. Às vezes, até parece que só não temos medo de quem nos quer um pouco menos, pela familiaridade da potencial rejeição. Desculpamo-nos com antecedência, não se dê isto e aquilo... Desconfiamos até de quem oferece largueza, porque simplesmente não estamos habituados.

 

E contagiamos quem nos rodeia, uns aos outros. Incubamos atitudes defensivas. Cultivamos mais medo do desconhecido, observando à distância os românticos, com uma curiosidade de antropólogo-comentador-de-bancada.

 

Mas eu quero ser romântica - não necessariamente a última, apenas uma em muitos. Quero apreciar a aproximação das pessoas que fazem por isso, quero acreditar que há quem conheçamos hoje para o resto da vida, que veremos envelhecer. Talvez nos faltem modelos, vivos e de pensamento, para nos assegurarem da exequibilidade do amor [e da amizade] que se descobre, constrói, insiste, desconstrói e sobrevive.

 

Onde vamos beber desse conhecimento de causa? Às artes? Aos media? Aos autores contemporâneos ou aos clássicos? Muitos de nós vimos de famílias desmanchadas e remontadas, aprendemos o que é um casamento mas não aquele em que nos pretendemos envolvidos, vivemos na sociedade líquida que só acredita no "até mais ver" e no "por agora é isto". Mas nós queremos fé, onde antes só havia condicionamento, convenção e comodismo. Nós, esta geração que agora procura uma ressignificação do que é o amor para sempre, queremos não só mais, mas melhor.

 

No entanto, não se acha romântica, a geração líquida, porque se acha a meio dum processo que não entende. E eu a querer ser romântica, e por vezes a não conseguir, porque também me encho de dúvidas. Sou uma céptica a tentar curar-se. Paciência a rodos é necessária, minha e de todo o lado. E, acima de tudo, é preciso encontrar e conhecer a pessoa certa, que amoleça e amenize o impacto das paredes que vão caindo, uma a uma. Há que partir as que fui erguendo nos últimos anos. Tenho de aprender a não me sentir permanentemente ansiosa, com medo que as pessoas, amigos, futuros-tudo, não queiram realmente desmanchar a bagagem e ficar por aqui. Habituei-me ao efémero, um conformismo pelo fim que me assustou quando as minhas relações passadas (românticas e de amizade) terminaram. Fica um vazio, muitas perguntas irreplicáveis, alguma nostalgia, mas pouco mais, porque o fim eminente nunca tinha deixado de figurar nos créditos.

 

E se deixar...? Por que haveria eu de perpetuar o sentimento de perda antecipada? E se eu já tiver acordado para um "para sempre" sem o saber?

Porque, no final do dia, eu sinto que até tenho o que é necessário para ser a última romântica dos nossos tempos. Uma romântica com os olhos bem abertos, mas - ainda assim - uma romântica. E das pirosas.

O passado como o lembramos: The Sense of an Ending (Julian Barnes)

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Há livros curtos, mas que valem por três ou quatro. Gostei tanto de The Sense of an Ending (O Sentido do Fim, em português) do autor inglês Julian Barnes. De facto, o peso dum final eminente sente-se por todas as palavras. É um dos livros mais tristes que já li este ano, com pedaços tão, tão bons de ler - ou não tivesse ganho o Man Booker Prize em 2011. É daqueles livros que se lê devagar, porque cada linha se revela importante, bela e sintomática do estado de espírito oscilante do narrador, Tony Webster, porque cada frase é indispensável para a compreensão do resto do livro, da sua história e de como a relembra, e o leitor tem de prestar atenção aos detalhes.

 

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Não sei se lhe hei-de chamar exame minucioso à mente, emoção e pensamento humanos, não sei se lhe hei-de chamar thriller psicológico, nem sequer sei pôr The Sense of an Ending numa caixa. Só sei que é indiscutível a montanhas-russa, turbilhão de acontecimentos e memórias que vão desabrochando da análise ao passado em que Tony se aventura, ficando as questões: será que nós também chegaremos à sua idade relembrando o passado com tantas lacunas e erros de julgamento? Será que também nós, os leitores, iremos envelhecer com uma ideia muito mais elogiosa das nossas acções do que verdadeiramente merecemos, colocando-nos num pedestal moral bem superior aos indivíduos com quem nos vamos cruzando e convivendo?

 

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Durante 150 páginas muito ricas ficamos a matutar na nossa própria moral e ética pessoal, no modo como conduzimos as nossas relações e no peso das nossas acções, por mais insignificantes, nas vidas alheias.

 

Li algures uma opinião que dizia que este livro é extraordinário na sua normalidade. É isso mesmo. Não tem um enredo cheio de peripécias. Talvez outras pessoas o achem aborrecido. Tony evoca uma vida medíocre, igual a tantas outras, sem feitos de monta. Ele mesmo reconhece que tentou levar uma existência pacata ao longo dos anos. A vida estóica deste narrador-personagem só é interrompida pela reviravolta da trama, um documento que aparece e invoca fantasmas da sua juventude, colocando em causa a integridade do homem suburbano e rotineiro que se esforçou por ser. É só isso, mais uma vez. Pouco mais vos poderei contar, mas, se se interessam pela forma como o rebuliço interior nos pode pregar partidas e como é que um bom escritor o retrata, The Sense of an Ending é a leitura breve perfeita para passarem umas boas horas em amena agitação mental. Diria que é semelhante, no tema e na abordagem, a As Velas Ardem Até Ao Fim, de Sándor Marái. Nada como desenterrar o passado para melhor nos conhecermos e reconhecermos...

 

A seguir, vou tentar ver o filme. Confesso que tenho curiosidade em perceber como é que uma narrativa tão introspectiva pode ser adaptada para o cinema, e espero não me desiludir.