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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Ainda Alain de Botton e o amor: como 'The Course of Love' também me conquistou

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Depois do livro Essays in Love (em português, Ensaios de Amor), de Alain de Botton, li o outro que tinha comprado ao mesmo tempo quando estive na Escócia, que se chama The Course of Love (ou O Curso do Amor). Parece mais do mesmo, chover no molhado, mas não. Os ensaios foram o primeiro livro escrito pelo autor - aos 21 anos. Por outro lado, o segundo título é o seu romance mais recente. 

 

Mas vamos lá ver o que mais me agradou nesta leitura, de forma breve e sucinta.

 

Não deixando totalmente de parte a minha adoração pela pirosice que o amor pode trazer quando vivido em pleno, acho que inevitavelmente me tenho tornado um bocado mais céptica e cautelosa no que toca a este tópico tão sensível. Já dizia o ditado popular que gato escaldado... Além disso, deixei de me convencer com histórias de amor medíocres, cópia a papel químico das anteriores, boy meets girl, e depois já se sabe como todo o enredo se desenvolve - após um conflito lá pelo meio, acabam felizes para sempre, mas de forma muito irreal (a sério que nem uma discussão acerca de quem vai levar o lixo...?). Assumo-me uma enorme fã, por exemplo, da reflexão da voz narrativa acerca das complexidades humanas. É principalmente isto que mais me tem fascinado nos livros de Alain de Botton.

 

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Assim sendo, este é o segundo livro escrito pelo mesmo autor, sobre a mesma questão do amor como ele é na vida real, para pessoas reais, que me conquistou - uma lufada de ar fresco. Desta vez, no lugar do amor na idade jovem, pouco maduro, que termina numa separação efusiva, The Course of Love leva-nos a conhecer quase duas décadas vividas em conjunto pelos protagonistas (Rabih e Kirsten), desde o dia em que se conhecem, até ao momento em que, ao fim de tantos-tantos-tantos anos de casados, atingem uma dita maturidade e se começam realmente a compreender e a aceitar que o amor é mais do que uma emoção forte e que pode ser, por exemplo, os mundos que construíram em conjunto, o companheirismo, a família, os pequenos pedaços de vida diária, as memórias partilhadas.

 

Mais uma vez, este é, não só um romance, não só uma história de amor "baseada na vida real", como também uma espécie de ensaio filosófico e ainda uma exposição sobre temas ligados à psicologia. Muito destaque é conferido à dimensão interior, aos pensamentos, recalques, passado traumatizante das duas personagens principais e à forma como a relação com as respectivas figuras parentais afecta o seu comportamento na sua relação adulta, enquanto namorado e namorada, marido e mulher.

 

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Finalmente, tenho alguns comentários adicionais que gostaria de partilhar convosco.

 

Em primeiro lugar, acho que vou passar a oferecer este livro a todos os noivos para cujo casamento eu seja convidada. Aliás, tenho uma amiga que se vai casar no fim do ano e que vai ser a minha cobaia (nem que seja porque ela já manifestou vontade de ler este livro, quando publiquei uma passagem no Instagram). Ficam servidos com uma belíssima história de amor real e munidos de algumas reflexões que toda a gente deve ter em mente quando decide embarcar num compromisso sério ou mesmo para a vida

 

Em segundo lugar, tenho de recomendar este livro não só aos recém ou brevemente casados, como ainda com igual urgência a qualquer pessoa que precise de reflectir no que significa apaixonarmo-nos, aproximarmo-nos e levarmos uma relação amorosa a bom porto.

 

É uma leitura leve, descontraída (não obriga a um esforço mental desmesurado), mas após a qual não sentimos ter desperdiçado o nosso tempo. Alain de Botton é tudo em um: escritor, filósofo, psicólogo, sociólogo, amigo.

A minha vida: uma espécie de HIMYM meets This is Us meets Sex and the City meets Gossip Girl meets Modern Family, mas numa produção tuga de baixo custo

Alguma vez pararam para pensar nas vossas vidas e chegaram à conclusão de que, sim senhora, arranjaram grandes argumentistas para as escrever? 

 

 

Os meus são do melhor que há. Bestiais. Do catano. Brilhantes. Magníficos. Especialistas em novelas brasileiras da Globo e dramalhões da TVI, sem deixarem de ter um toque NBC ou Fox. Não são Eças nem Saramagos, não há incesto nem cegueiras colectivas pelo meio, mas criam muito plot twist e variedade de personagens - para que toda a população esteja bem representada.

 

Começa com um bebé multiracial  (não se nota, mas é sempre engraçado referir) numa família monoparental. Desde o início, há drama e suspense, sempre ali à beirinha do corriqueiro, novela barata por encomenda. Há pais que abandonam os filhos, pouca sorte no amor que se herda pelo sangue e se contagia pelo ar que respiramos. Há sempre pelo menos uma personagem que dá uma facadinha pelas costas. Há várias caras-metade que mudam de ideias a cada episódio. Tratam-se temas relevantes do panorama actual, como a homossexualidade, saúde mental e depressões, a intolerância à lactose, a inflação no mercado imobiliário em Lisboa, avós que criam os netos, o emprego e desemprego de jovens hiper-qualificados, a emigração e os encontros proporcionados pelas redes sociais. Há gravidezes e bebés, há casamentos finos, há quem não consiga sair de casa dos pais e quem viva em caves. Há sempre alguma personagem que, de repente, se muda para o outro lado do mundo. Ou do país. Há coscuvilheiras de serviço. Há personagens que surgem do nada e que deixam o espectador abismado e desconfiado, há personagens secundárias que são repescadas de temporadas anteriores e se tornam principais, há personagens que já lá estão há tanto tempo que já fazem parte da família e outras que desaparecem sem aviso (diz que é dos cortes no orçamento).

 

Obviamente, este texto seria ainda mais engraçado e explícito se eu usasse o meu blogue para lavar roupa suja, deixando-me de rodeios, ao melhor estilo de Taylor Swift/meter a boca no trombone, por isso partilho apenas o comentário vago "e vocês nem sabem da missa a metade!".

 

De qualquer forma, os grandes críticos (que, simultaneamente, são personagens recorrentes no enredo) estão fartos de aclamar esta produção. Dizem eles, por exemplo:
- Não consigo acompanhar a tua vida, há alterações a cada meia hora.
- Espera que vou buscar pipocas.
- Perdi-me na história, podes voltar atrás?

 

Adoro esta novela. Talvez investisse numas duas ou três temporadas mais secazinha, calminhas, mas não a trocaria por nenhuma outra. Mal posso esperar pelos próximos desenvolvimentos!

 

Contem-me as vossas, vamos lá trocar cromos.

Acabei de ler "Call Me By Your Name": sobre o amor, migalhas de pão e basílicas

Atenção: possíveis spoilers de importância secundária são partilhados no texto que se segue.

 

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Tenho andado a ler alguns livros alegadamente lamechas, com histórias de amor dentro. Por exemplo, acabei de ler Call Me By Your Name, do autor André Aciman. Já tinha visto o filme há cerca de meio ano e desde então que me andava a perguntar quando teria estômago para aguentar o livro - porque, a ser como o filme, deixar-me-ia emocionalmente de rastos. Um filme vê-se em duas horas; um livro lê-se durante muitos dias.

Não me enganei. Esta história, com mais ou menos detalhes, contada por que meio for, exige alguma preparação mental. Ainda bem que só o li agora, principalmente depois de já me ter aventurado pelo aquecimento que foi Essays in Love. Não aconselho histórias destas a quem se ande a sentir mais em baixo, que esteja a passar por alguma fase pessoal menos positiva. Histórias como a das personagens Elio e Oliver fazem chorar até as pedras da calçada. Metem-nos uma nuvem cheia de chuva por cima (e não adianta pensar que é só uma história; quem realmente consegue entrar nos enredos acaba por se envolver e ser engolido pela narrativa).

 

No entanto, não sendo uma história de amor particularmente feliz, é uma história de amor que nos traz alguma satisfação. É uma história de amor entre dois rapazes, mas acho que todos os que já estiveram apaixonados se conseguem rever no que foi escrito por Aciman. Uma vez que a história é contada do ponto de vista de Elio, são partilhados pensamentos únicos e bastante exactos (digo eu, pela minha experiência nesse domínio) acerca do que significa apaixonarmo-nos por alguém sem saber se essa atracção é recíproca. A incerteza, os olhares desencontrados, os mal-entendidos... Está tudo neste livro.

 

Há uma metáfora que me tocou particularmente cá no fundinho. Foi a metáfora das migalhas de pão. Quando nos apaixonamos, esquecemo-nos muitas vezes de lançar migalhas de pão pelo caminho, como fizeram Hansel e Gretel, como gostaria Elio de ter feito, para sabermos como voltar atrás e qual o caminho anteriormente tomado, quando se torna necessário retroceder após o fim de um grande amor. (Além da metáfora do autor, eu até diria que nem interessa tentar marcar o caminho com migalhas de pão, já que há sempre pássaros que as comem mal viramos costas.) Gostaria ainda de deixar uma nota especial acerca doutra metáfora: tal como a Basílica de São Clemente (em Roma), também o subconsciente, o amor, as memórias, o tempo e as pessoas são construídas camada por cima de camadas, todas anacrónicas, mas que nos permitem ou obrigam a escavar para descobrir a sua história. Metáforas tão simples, mas que nos enchem a alma. Senti que, assim o autor consegue exprimir o que eu nem sempre consegui.

 

Mudando de ambiente, este não é um livro para cépticos no amor, mas também não é um livro para púdicos. Apesar de as cenas de sexo não serem explicitamente descritas, muitos dos pensamentos da personagem Elio contêm ideias... mais engraçadas, carnais. Quem ler irá perceber - já para não falar da existência óbvia duma relação homossexual, quase platónica, mas muito física, tanto quanto emocional.

 

Por outro lado, depois de muito reflectir, decidi que este não é o melhor livro de sempre, porque senti que encheu chouriços quase nas últimas páginas. Custou-me bastante lê-las, demorei imenso tempo. Eram difíceis de perceber, confusas, mas não essenciais para um desfecho brilhante. As últimas páginas, sobre o reencontro dos protagonistas, também poderia não ter acontecido, como no filme. Nisso, acho que o filme foi concebido de forma mais eficiente e até bonita.

 

Desta forma, concluo que, para mim, o tema central deste livro é o amor e a paixão, que primeiro correm o risco de não ser correspondidos, depois são consumados, mas nunca de forma plena, sendo finalmente interrompidos pelas circunstâncias da vida.

 

Para ler:
... enquanto se ouve Ludovico Einaudi ou Andrea Bocelli.
... quando se sente que há leveza de espírito para recuperar da carga emocional desta narrativa.
... se se acreditar no amor - e em histórias de amor épicas, marcantes.
... antes ou depois de ver o filme, que é das primeiras adaptações ao cinema que acho que valem por si, independentemente do livro em que se baseia. Tanto faz.

 

Deixo-vos agora a oportunidade de partilharem os vossos pensamentos nos comentários. Já metade da comunidade do Goodreads leu este livro, mas digam lá de vossa justiça neste blogue, digam-me que impressão vos causou esta história.

 

A Carolina leu Call Me By Your Name ao mesmo tempo que eu e já deixou a opinião dela também. Apesar de por vezes lermos géneros diferentes, hão-de reparar que até mencionamos e destacamos aspectos semelhantes acerca deste. Leiam também o que ela acabou de publicar! 

O meu novo livro preferido: Essays in Love, de Alain de Botton

Alguma vez se depararam com um livro que tenha surgido no momento certo, mas por mero acaso? Fazia-vos falta um livro assim, vocês pensavam que seria impossível alguém contar uma história que vos fizesse sentir menos desamparados ou sozinhos no vosso mundo, na vossa causa, e esse mesmo livre caiu de pára-quedas nos vossos dias?

 

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Eu sei o que isso é. Passei tantos meses à procura dum livro que tivesse tudo na medida certa - introspecção, filosofia, reflexão, carisma, mas que viesse justificar e validar as minhas ideias, sem deixar de ter uma dose de lamechice, sem ser só teoria, acrescentando um enredo que servisse de exemplo às minhas inquietações actuais - e, depois de muitas visitas, a muitas livrarias, em Portugal e na Escócia, encontrei este, um exemplar único, sem destaque, enfiado numa estante a abarrotar duma Waterstones em Glasgow: Essays in Love, do autor multifacetado Alain de Botton.

 

O meu maior problema com os livros sobre a temática "amor" é que considero quase todos um desperdício de tempo, sou incapaz de ler tamanha treta, nunca os levo a sério, têm sempre imenso mel, ou drama, ou futilidade em doses que sou incapaz de digerir. A vida é pirosa, mas não tanto. A vida não é um romance de cordel, mesmo com a sua inevitável banalidade e aleatoriedade.

 

Então, ao encontrar este livro, senti que o autor conseguiu incluir quase todas as posições sobre o amor e relações em que acredito, ou pelas quais já passei. O início da história de amor dos dois protagonistas é um pouco irracional, mas o resto da narrativa faz todo o sentido.

 

Além disso, este livro não é só um romance. Não é só um livro de histórias. Como escreveu o autor, em 2015, num posfácio incluído na edição que tenho, o seu objectivo era ficar a meio, entre um romance e um ensaio sobre o que é o amor entre duas pessoas, como ele surge, acontece e - eventualmente - termina. E recomeça, acreditem ou não.

 

Senti, pela primeira vez na vida, que este é o livro que eu gostaria de ter escrito ou de vir a escrever. Sem tirar nem pôr. Não é "um livro deste género", é "precisamente este livro". Nele, o amor não é idealizado. É narrado um amor, num contexto próximo ao meu (protagonistas jovens em início de carreira, classe média, numa cidade europeia). Consigo identificar-me e encontrar aspectos em comum. É também para isto que serve a arte, para nos representar, e eu fiquei a sentir-me representada. A cada página, eu só pensava "mas isto já me aconteceu!" ou "isto poderia ter-me acontecido!".

 

Sim, este livro conta uma história de amor e desamor, mas fá-lo duma forma pensada, que nos obriga a usar o cérebro. Não é o típico "boy meets girl" dos best-sellers de supermercado. Senti que o Essays in Love me desafiou enquanto leitora, pôs-me a reflectir nas minhas experiências, conferiu ao assunto mais batido, piroso e repetitivo do mundo uma aura de intelectualidade, de assunto académico, didático, de relevância. Deixou de parte a superficialidade das relações, das borboletas na barriga e do vazio a que nos entregamos quando acabam. Fez com que tudo isso se tornasse um assunto de adultos, respeitável. 

 

E sabem da melhor? O autor, Alain de Botton, escreveu este livro no verão dos seus vinte e um anos. 21. Como é possível que tanta sabedoria, ou tacto, tenha saído da cabeça e das mãos dum indivíduo tão jovem? O que é que a maioria de todos nós já tinha feito aos 21 anos? Olhem, eu tinha-me licenciado, tinha ido estagiar para Banguecoque e pouco mais, mas não, não tinha escrito o livro que inauguraria uma carreira brilhante e demonstraria todo o potencial da minha mente. Fica prometido que irei, com toda a certeza, ler mais livros do Alain De Botton, nem que seja o que comprei em simultâneo ao Essays in Love, que se chama The Course of Love (mais lamechice pseudo-intelectual, previsivelmente).

 

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E por aí, alguma sugestão de bons livros que me queiram deixar? Não tem de ser sobre este assunto, claramente, por isso estejam à vontade! Agora, ando também a ler Sapiens, De Animais a Deuses, e estou a gostar bastante. Encontrem-me no Goodreads e vamos falando. 

O resto dos primeiros dias

Já aqui escrevi que há sempre um primeiro dia em tudo, nomeadamente no que toca ao fim duma era, ao fim duma relação, ao fim dum amor. Por acaso, eu lembro-me mais ou menos desse dia que decidi tornar o meu primeiro, mas apenas porque conduziu a uma série de eventos que é possível localizar no tempo com precisão.

 

No entanto, cada vez mais me apercebo de que essa série de eventos constitui, sim, essa série de primeiros dias que tenho experimentado. Há um primeiro dia para quase tudo.

 

Estou a acabar de ler um livro (sobre o qual vos irei escrever, com toda a certeza) que me tem feito pensar no percurso que um amor calca, desde que deitamos os olhos em alguém interessante pela primeira vez, passando por uma relação épica, até que, por algum motivo, pela combinação duma infinidade de circunstâncias, cada um segue o seu caminho. Nesse livro, também se fala dos tais "primeiros dias", o que me tocou bastante.

 

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Essays in Love, Alain de Botton

 

Tocou-me, porque, pela primeira vez, li nas palavras de alguém, tão longe geográfica e temporalmente (o autor é suíço, residente em Londres, e o livro foi escrito antes de eu nascer) o que eu já defendia e que sinto que as pessoas que me rodeiam não compreendem: os primeiros dias são feitos do esforço para criar novas memórias e hábitos. Como numa cassete, gravam-se novas cenas por cima das antigas. Aquele restaurante onde só íamos com X? Há que voltar lá com outras pessoas, talvez os nossos amigos mais queridos, que deixarão uma marca eficiente nas nossas novas memórias. O sofá lá de casa, onde tantas vezes nos aninhávamos? É passar lá mais tempo a realizar um projecto pessoal significante, como ler o nosso novo livro favorito ou mesmo a escrever um - senão, convidar outra vez os amigos para lanchar e para maratonas de filmes. O local A, B, C? Fazer o mesmo, escrever memórias por cima, partilhar esses espaços com outras pessoas e em contextos renovados. O objectivo? Deixar de associar tudo o que possamos encontrar na nossa vida diária, necessariamente, à mesma pessoa, ao mesmo conjunto de emoções.

 

É assim, então, que encaro a criação de primeiros dias. São passos pequenos, quiçá minúsculos, em direcção a alguma paz, para que o coração não entre em sobressaltos constantes. Mal comparado, é como aquele dito popular, "a sarna dum cão cura-se com a sarna doutro". Não digo que precisemos dum "rebound" na forma doutra pessoa como alvo romântico, mas cada vez entendo com maior clareza que o "rebound" pode ter origem em várias pessoas, vários locais, várias razões, várias actividades. O dito "rebound" é multilateral. Não é a sarna dum só cão, é a sarna de vários cães, gatos, periquitos, lebres, roedores, até de tartarugas e peixinhos de aquário. É a minha avó sentada na minha cama até eu conseguir adormecer quando mais me custava, são os meus amigos a dizer-me para eu ter vergonha na cara cada vez que ameaço lamentos por mais de cinco minutos, é uma ou outra nova amizade ou as que se aprofundam, é a viagem à Escócia, é o meu trabalho, são os livros novos que compro e leio, novas músicas, séries e filmes, é a minha festa de aniversário, é a tarde de ontem sozinha na praia, são os almoços-surpresa com o meu pai, as conversas com a minha tia, é a minha sobrinha pequenina que me vê tão poucas vezes mas que parece já ter consciência de quem sou, é este blogue, é o ginásio, são os cursos livres que tirei, o mestrado que aí vem...

 

E, assim, vou coleccionando não só primeiros, como também segundos, terceiros e quartos dias. E por aí fora.

O choque, o drama, o horror: apaguei o Tinder

 

Venho por este meio terminar, oficialmente, a saga tinderesca levada a cabo por esta vossa cara amiga nas últimas semanas. Acabou, apaguei o Tinder ao fim de mês e meio. Já deu para procrastinar imenso, deu para conhecer outras facetas da raça humana, o estudo foi profícuo e agora já chega. Acabou a brincadeira. Muitos de vós previram este marco na minha vida, o fim da minha paciência nesta nobilíssima rede social, e eis que estavam todos certos (dah, óbvio que estavam).

 

Eu não fui talhada para o engate, sou uma moça - relativamente - séria. Não me deixo convencer facilmente. Sou um público difícil. Não me impressiono, sou picuinhas, não gosto de loiros, não gosto de chungas, não gosto de artistas, não gosto de quem escreve com erros ortográficos, não me vejo a sair com estrangeiros, não tenho queda para meninos; ainda por cima, também tenho uma certa mania de que sou esperta q.b. e mais ou menos fofinha, então... Ok, so you're Brad Pitt, como diz a Shania Twain. That don't impress me much. 

 

À semelhança do que já referi por aqui, quase, quase nenhuma das minhas histórias fizeram História. Não me irei alongar muito mais sobre o assunto, mas vou já tratar de vos apresentar sucintamente algumas das minhas conclusões.

 

Cá vai disto. A curto prazo, é quase impossível encontrar grandes matches. É preciso ter-se a aplicação activa e ir-se fazendo swipes durante algum tempo, senão deixa de haver perfis disponíveis à nossa volta. Eu devo ter tido sorte de principiante quando instalei a aplicação, mas quando a voltei a usar, umas semanas depois, já se tinha tornado mais difícil fazer match, ou mesmo encontrar perfis que me convencessem minimamente a dar um like. Por isso, tentem usar o Tinder duma forma desportiva, experimental, e logo se vê. 

 

Quanto às expectativas que possam ter... Há de tudo no Tinder. Falo do que me compete, volto a sublinhar - rapazes/homens dos 22 aos 29, à volta de Lisboa - por isso deixo as restantes faixas etárias, orientações sexuais e localizações para quem conseguir escrever sobre o assunto. Assim sendo, não me parece que toda esta gente no Tinder esteja à procura dum amigo da cama, não me parece que só exista esse tipo de engate, mas - surpresa! - não se admirem se não encontrarem o amor duma vida ao virar da foto. Em geral, parece-me que a maioria deve estar lá para o mesmo que eu estive: para ver, experimentar, não morrer ignorante e dar uma oportunidade a uma forma menos tradicional de travar novos conhecimentos, quando a vida profissional/académica não nos permite sair dos mesmos círculos sociais. Pelo menos, serve para dinamizarmos a nossa vida social. Ficar parados é que não!

 

Contudo, não digo que não haja surpresas, porque as há. Eu tive uma certa quota de surpresa e, graças a isso, já posso dizer que saio desta aventura com saldo positivo, que é tudo o que me interessava e interessa. Uma vitória!!! FESTA! Já ouvi muitas histórias negativas contadas por algumas amigas e posso considerar-me uma sortuda. 

 

Em geral, gostaria de vos deixar uma última nota: talvez seja mesmo necessário gostar-se de conversa fiada para se ser bem sucedido no Tinder. Eu não tenho paciência para longas conversas de engate, mensagens que chegam por pombo-correio, tal é o tempo que esperamos por elas... Prefiro conhecer as pessoas como deve ser, quiçá pessoalmente, se começar a sentir que são boas conversadoras e interessantes, em vez de andar em círculos. Claro que a conversa de engate entretém, mantém uma chama acesa, mas a partir de certo ponto já não me apetece ser o velho esquentador cá de casa - ou se apaga, ou se deixa o lume ir por aí fora. Se gostarem de conversa fiada infinita, sou a primeira a confirmar que se vão divertir imenso. Se forem mais como eu, uma secazinha, acho que se devem dedicar aos jogos de tabuleiro (que, por acaso, já juntaram uma amiga minha ao namorado, por isso é capaz de ser boa ideia).

 

Então, ficamos assim. Estamos conversados? Ainda não?

Em poucas palavras: não há nada como tentar. Encarem o Tinder ou qualquer outra aplicação do género como uma experiência sociológica. Se tiverem um blogue, até podem escrever sobre ela. Se não tiverem, também podem entreter os vossos amigos com as vossas aventuras... ou desventuras (os meus acharam um piadão, vá-se lá saber porquê). Mas não levem o Tinder demasiado a sério. Vão em paz, para saírem em paz. 

 

E o Tinder pode ser o que vocês fizerem dele! Se forem para o regabofe, encontram-no. Se forem para o conto de fadas... não garanto que encontrem o príncipe encantado, mas com alguma sorte ainda sacam uma companhia para o lanche, e toda a gente gosta de comida. 

Alguma vez estamos preparados para o próximo passo?

Passamos a vida a convencer-nos de que estamos preparados para o próximo passo.

 

Somos bebés, e já tentamos chegar onde não chegamos, caminhar sem ajuda, pôr um pé à frente do outro, mesmo que acabemos por cair.
Somos crianças e já achamos que conseguimos ir para a escola sozinhos. Perdemo-nos a meio do percurso, apanhamos o autocarro errado e vamos sair a 5km do destino.
Somos adultos e queremos aquele emprego, aquele carro, aquela relação, aquele núcleo forte de amigos, e nunca deixamos de tropeçar, de bater com a cabeça e de nos esfolar quando os tentamos alcançar.

Conheço quem passe a vida a ser atropelado pelas circunstâncias em mais do que um desses domínios e que continua a investir contra as probabilidades. Não é fantástico, admirável, nobre?

 

E é com isto que concluo que, mesmo quando não estamos preparados, o melhor é ir em frente e logo se vê. Mais cedo ou mais tarde, havemos de tirar proveito desse espírito. Os bebés não deixam de trepar ao sofá e pontapear o chão, as crianças lá percebem onde se apanha o autocarro e os adultos vão igualmente tacteando o desconhecido, em direcção ao seu desenvolvimento, a dias melhores. Enquanto adultos, continuamos a trabalhar de modo a progredir e a ultrapassar os nossos obstáculos individuais e a testar os nossos limites - cada um com os seus. Alguma vez estaremos preparados? Dificilmente. Mais vale seguirmos em frente, fazermos figas e lançarmo-nos. Em tudo. Meia dose de inconsciência (deliberada, até), outra meia de coragem. Por isso é que tenho tentado tomar decisões sem pensar demasiado, ou deixar-me levar pelo que vem à rede. O passo pode ser maior do que a perna, mas só o poderemos confirmar quando o dermos. 

 

Serendipity (diria uma amiga minha, a quem dou razão). Mas misturo sempre uma pitada de estupidez natural.

 

De resto... Só ainda não conseguimos fazer por melhorar este tempo de Dezembro em Junho. O resto, vai-se tentando.

As maiores falhas dos jovens portugueses no engate do Tinder

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Cá estou eu de volta para mais desenvolvimentos na minha investigação estritamente académica sobre o assunto "Tinder"! Contudo, temo que este seja um dos últimos capítulos, por isso aproveitem enquanto dura.

 

Eu não sei o que é que anda na cabeça de certas pessoas, mas alguns dos jovens portugueses presentes no engate do Tinder devem ter lá dentro... cocó. Só pode. Bem, não digo cocó, mas por vezes é difícil acreditar que será um cérebro o conteúdo em destaque. Lembram-se do que eu escrevi aqui, sobre os "As 16 piores opções para engate no Tinder"? Este é o capítulo seguinte.

Vejamos... Aqui seguem os erros mais comuns dos jovens portugueses (homens) no Tinder, mais ou menos entre os 22 e os 30 anos.

 

1. Põem uma foto. Uma. 

Caríssimas meninas, alguma vez sonharam encontrar o príncipe encantado recorrendo à estratégia do "amor à primeira vista"? Neste caso, apresento-vos a estratégia "amor à primeira (e única) foto". Sem mais nada. Com sorte, o nome e a idade. E, ainda por cima, vão ter de decidir se vale a pena apostar no João, 25, julgando apenas uma cara igual a todas as outras por trás duns óculos escuros do chinês.

 

2. Não escrevem nada na descrição

Palavras para quê? O João, 25, que até é bem giro de óculos escuros e tem bons dentes, decidiu que aquela segunda foto ao lado duma prancha de surf diria tudo o que é necessário para que o mulherio se passasse da cabeça e o contemplasse com uns swipes gostosos. Para boa entendedora, duas fotos pixelizadas bastam. 

Aliás, este é um excelente indicador do esforço que o moço poderá vir a empreender num futuro conhecimento pessoal.

 

3. Escrevem apenas a altura na descrição

"1,83m 😉" Parece piada, mas não. O João, 25, além de ficar bem de óculos escuros, ter bons dentes e ter feito uma aula trial de surf na Costa da Caparica, é assim a atirar para o alto. Dá jeito saber, caso nos apeteça comprar-lhe uma pecinha de roupa a tempo do primeiro encontro.

Como é óbvio, estou ciente de que o Tinder é uma plataforma de engate de todos os tipos e que nem toda a gente anda à procura do próximo Mr. Husband. No entanto, a ter de ir para a cama com alguém, não magoava saber se prefere sushi ou pizza. A altura pode ser um indicador eficiente para outras medidas (se a regra da proporcionalidade existir, if you know what I mean), mas... calma.

 

4. Açacinam a língua portuguesa 

Mas nem tudo está perdido, porque, pelo menos, ficamos a saber que o João, 25, é impilhador de caixas no Continente da Quinta do Conde, e que gosta de sair para comer fêberas.

 

5. Falta de criatividade

Bem, bem, felizmente ainda temos o Manuel, 26, para nos consolar. Tem quatro fotos (duas de corpo inteiro e duas com o palminho de cara visível), diz que quer conhecer pessoas novas, gosta de festivais de música e até aguenta serões de comédias românticas.
Então, o Manuel decide encetar conversa connosco.
"Olá, td bem? 😋"
É isto.

(Esta publicação foi escrita de manhã; à tarde, já tinha recebido um "Olá" - sim, ainda há quem consiga mostrar menos criatividade, entusiasmo, interese...)

 

6. Morrem para a conversa

Mas nós damos uma chance ao Manuel, porque ele não foi mau de todo e disse olá. Trocamos umas linhas de conversa promissora, uns "ahaha" e uns emoji pelo meio, nós pensamos que não deve estar a correr muito mal e, do nada, o Manuel deixa de responder. Puft, gone with the wind, mas sem fazer unmatch.

 

7. Não correspondem, falta-lhes uma dose de bom senso

Vamos a ver, ainda temos o Filipe, 28, com quem conseguimos trocar mais de seis frases. Ele até demonstra que leu a nossa descrição, estudou o caso. Contudo, sem aviso prévio, o Filipe pergunta "então, e o que é fazes mais, sem ser ligar a essas coisas chatas dos livros?" Perante este cenário, uma pessoa dá a entender que não vai dar. Ele desculpa-se, que é um rapaz mais prático, das engenharias, estão a ver?

 

Vade retro.

 

8. Fazem match e não comunicam

Na última semana e meia, fiz match com mais ou menos 14 itens (ahahaha, itens): um deles o amor anterior (eu avisei que isto poderia acontecer, o pessoal bate mal da mioleira e depois anda a picar-se), com dois comecei eu a conversa, outros quatro começaram eles, e os restantes... Zero. Fizemos match e agora está tudo às moscas. Assim não vamos a lado nenhum, amigos! Nem um olá, como disse o outro? A probabilidade não deveria ser que, no mínimo, 50% da iniciativa devesse partir do outro lado?

 

Desta forma, dou por encerrada este lavar de roupa suja tinderesca... por hoje. Provavelmente, para sempre, porque estou a um saltinho de eliminar esta pouca vergonha - não pelos princípios da rede social, mas sim por causa de quem lá encontramos... ou não encontramos, nem que seja porque, quem vale a pena conhecer, já não deve precisar de andar em redes sociais deste género.

 

Nota: tudo o que deixei aqui registado aconteceu-me mesmo, verdade-verdadinha, mas as personagens são compósitas e os meus comentários, frequentemente, ácidos.


Além disso, calma, garanto que já houve uma estatística positiva. Uma, que não foi infeliz, por isso continuo a acreditar que vale a pena tentar por um bocadinho (mas não por demasiado tempo, depois concluímos que o mercado está saturado, ponto final). Quem não arrisca não petisca, não se perde nada, gente solteira que está a pousar os olhinhos nestas palavras! Toca a andar, tudo a instalar o Tinder para proceder a estudos académicos da mais elevada seriedade! 

Não consigo parar de ouvir a música "A Miúda Gosta" (Carolina Deslandes)

Tenho um problema musical em mãos (neste caso, em ouvidos): não consigo deixar de ouvir a música "A Miúda Gosta".

 

 

Claro que, por essas blogosfera e redes sociais fora, o álbum Casa, da Carolina Deslandes, tem-se revelado uma espécie de livro de hinos ao que é lindo, maravilhoso, romântico, sentido, catártico, representativo do que é mais puro e inocente nos nossos corações empedernidos, que se vão tornando moles a cada nova música.

 

Quanto a mim, costumo dizer que embirro com modas, só consigo ver as séries e os filmes, ouvir os artistas, ler os livros quando eles deixam de ser o centro das atenções das massas, mas tive de abrir uma excepção para este álbum Casa, nem que seja porque fui uma das milhares de pessoas que se derreteu com A Vida Toda há mais dum ano e que ganhou uma curiosidade miudinha acerca do que sairia da mesma origem.

 

É neste contexto que, primeiro, me apaixonei pela música "Agora", a qual encaixou que nem uma luva em circunstâncias que já vão passando, e também por esta, "A Miúda Gosta". Digo que tenho um problema, porque passo a vida a ouvi-la, de vez em quando farto-me, mas horas depois já estou com saudades de voltar ao mesmo. Nem sequer penso que seja uma música a ser transformada em hit, passa despercebida. Então, porquê esta insistência em encher a cabeça sempre com a mesma toada?

 

Eu não percebo nada de música (ter tido uma banda por seis meses e ter feito covers ranhosos para o YouTube não conta, pois não?). Mas acho que percebo uma coisa ou outra de palavras. Ou simplesmente de intuição e lamechice. Assim sendo, decidi vir aqui partilhar convosco que a miúda gosta d' "A Miúda Gosta", e fica bem disposta...

 

Gosto que esta música trate o amor como uma coisinha tontinha, porque é, "pura insensatez". O pessoal fica mesmo apanhado, não fica? É mesmo uma droga, não é? Ficamos a flutuar, como inspira a batida da canção, a delicadeza dos instrumentos. Não é?

 

Além disso, acho que aquilo de que eu mais sou fã é que esta canção também venha relembrar-nos de que não é realmente verdade quando dizemos que não podemos mudar os outros. Parece-me que sim, não necessariamente a sua identidade ou os traços que mais os caracterizam, mas talvez os seus hábitos ou opiniões sobre alguns assuntos: "eu nem gosto de cartas nem postais, mas a miúda adora, diz que até cora"; "eu nem gosto de falar de sentimentos, mas a miúda pede, ri sozinha e pede, então lá vou eu"; "sabe que eu não danço, mas eu não descanso sem a ver feliz". Apanha-se um sentimentozinho e troca-se as voltas à malta. 

 

E, depois, toda esta "miudez" dos sentimentos, todo este aparvalhamento, tontice... Ela é a miúda, ela quer, e o adulto sério faz "o que ela quiser, pura insensatez", "e ela, sem medo, dá-[lhe] um abraço", uma parvoeira. Não faz sentido, mas é mesmo assim, pelo que me lembro. 

 

Não procedendo a grandes psicanálises, conclui-se, então, que esta miúda gosta e fica bem disposta ao lembrar-se de como esta tolice pegada é engraçada, bem foleira, mesmo que não lhe ande a tocar a ela. Já tocou, pelo menos, e já foi bem bom. Já não morro ignorante! 😂

O primeiro dia

Não eras o meu amor, eras o meu amigo. Não me davas só flores, davas-me abrigo. Agora, não sei quem és, já não sei com quem vivo. És só alguém que se parece contigo.

("Agora", Carolina Deslandes)

 

Acho que escrevo isto para quem está desse lado e que poderá estar a passar pelo mesmo. Ou que terá passado por alguma situação semelhante. Ou que poderá vir a passar. São só meia dúzia de pensamentos, umas quantas conclusões sobre quase nada.

 

Costuma a sabedoria popular avisar que ninguém é de ninguém, que não devemos tomar pessoa nenhuma como garantida, mas isso são tudo frases bonitas, que na realidade não se aplicam com tamanho grau ético. Se não descansássemos o coração, se não pensássemos que tudo há-de correr bem, que há estabilidade e que poderemos contar às cegas com os outros, o que seria feito de nós? Passaríamos a vida inteira com o coração nas mãos; morreríamos, novos e exaustos, de ansiedade.

 

Portanto, quando surgem falhas, ou quando somos apanhados pela imprevisibilidade do que vai na cabeça - na vida - da outra parte, corremos o risco inevitável de levar um banho de água gelada, de nos sentirmos engolidos, incapacitados, consumidos e amputados duma parte do corpo que nem sabíamos que existia. O pior é começar de novo. Encharcados. A patinhar o chão. A salpicar todos por quem passamos. 

 

Metáforas à parte, o pior é começar de novo. Acordar num dia aleatório dessa fase da qual nem nos recordamos bem (porque é tudo tão igual, mas tão confuso), pensar que já chega e colocar todos os mecanismos de superação em trabalho reforçado. Este é só o primeiro dia, custa horrores e se calhar nem nos lembramos de quando ou como aconteceu. É um dia sobre o qual nem reza a história.

 

Ligamos aos amigos todos, aguentamos mais uns sermões sobre como o outro lado é que terá ficado a perder (até também acreditarmos nisso de forma veemente), experimentamos todos os argumentos que apoiam uma última mensagem (só mais uma!), os amigos levam-nos a jantar a ver se o mal é da fome, deixam-nos brincar com os filhos para despistar o relógio biológico, contam-nos as histórias deles (que, por norma, tendem a ser mais conflituosas, tortuosas e conturbadas do que as nossas), planeiam arranjinhos com outros amigos solteiros, distraem-nos com mais comida... 

 

Algum tempo depois, damos por nós a pensar cada vez menos nessa pessoa, a pensar que, de facto, a coisa não correu bem, mas que nem tudo foi mau e há que lembrar isso com carinho e respeito, que a hipótese de reconciliação nem a nós nos agradaria porque o que era já não é, mas que - surpresa - se calhar até há pessoas bestiais que andam por aí e que ainda nem conhecemos. E que todos merecemos encontrar a felicidade e que não nos devemos martirizar nem aos outros por tentarem também o melhor que podem, porque não é justo deixarem-se ficar como estão e serem infelizes.

 

Além disso, começamos também a acreditar no que andávamos a repetir como um mantra: temos saúde, trabalho, amigos que nos alimentam e nos emprestam os filhos, uma família que nos desculpa passarmos as noites inteiras fechados no quarto a ouvir discursos motivacionais, que há mais peixe no mar, etc.

 

O que fica definitivamente é um sentimento irremediável de incompreensão. Como é que é possível sermos, sentirmo-nos, tão próximos de alguém e, numa questão de dias, passarmos a habitar esferas que nem se tocam? "Porquê a mim, que fiz o melhor que pude e soube?" Por que é que nem há notícias, um cuidado, uma chamada? "Nunca mais vou encontrar alguém assim!" Enchemos esse vazio de respostas, primeiro com comida (um elemento omnipresente na minha recuperação, viva os mil-folhas e o ginásio), depois com gente positiva ou que faça por nos compreender, com novos hobbies, com novas rotinas, deixamos de achar piada a músicas de The Script (I am the woman who can't be moved, I'm still alive but I'm barely breathing, you're going through six degrees of separation, lá lá lá, pronto, já chega, Beatriz) e passamos a evitá-las, experimentamos redes sociais onde nunca tínhamos imaginado entrar... tentando sempre perceber até que ponto é possível separar o antes do depois. Testamos limites, possibilidades de recuperação. 

 

Mas tudo se vai fazendo, garanto-vos que o panorama vai melhorando a pouco e pouco, praticamente sem notarmos.

 

Para mim, a chave tem sido levar um dia de cada vez, sem elevar demasiado as expectativas, tentanto aceitar que não podemos controlar tudo. Podemos querer muito que aconteça qualquer coisa que talvez nunca venha a acontecer (ou vice-versa, podemos tentar impedir que aconteça sem o conseguirmos evitar). 

 

Por isso, cada dia é um primeiro dia. 

 

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