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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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As famílias perfeitas não existem: Little Fires Everywhere (Celeste Ng)

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Mais importante do que ser é parecer - aposto que já ouviram esta frase várias vezes. De facto, há quem viva por esse lema e pense que está tudo bem. Mostrar que somos aquilo que idealizamos é que interessa para manter uma imagem estável, agradável e que faça os outros invejar-nos... Será?

 

A primeira vez que fui confrontada com esta (ir)realidade das aparências já aconteceu bastante tarde: devia ter 12 ou 13 anos quando uma colega me contou que os pais estavam separados... mas que era segredo! O pai até tinha outra família, ela tinha irmãos pequenos dessa união. Mas era segredo! Nada de contar no colégio! Que uma adolescente esconda estes factos, ainda por cima numa idade tão complicadinha, é aceitável. No entanto, permitir que um filho faça segredo de tal coisa... Deve ser tão triste permitir que um filho ache que é melhor varrer as imperfeições para debaixo do tapete! O que motivará alguém a fazê-lo?! E, ainda por cima, já na década de 2000... Claro que, pela vida fora, tenho ouvido e visto ainda mais casos semelhantes, famílias e indivíduos com tectos de vidro tão, tão fino...

 

O livro que vos apresento é exactamente sobre isso, sobre os idealismos de trazer por casa, que se passeiam pela rua e se adoptam em prol do dito bem comum e imagem imaculada da sociedade, perante a sociedade: Little Fires Everywhere, da autora Celeste Ng (em português, Pequenos Fogos em Todo o Lado), publicado em 2017. Não me lembro da última vez que um livro de ficção me interessou tanto, que até a andar pela cidade eu continuava a ler, sem olhar para os pés ou para o caminho. Foi tão, mas tão positivo! Tão empolgante! Tão prazeroso!

 

Vejamos... Shaker Heights, no final dos anos 90, é uma comunidade cuidadosa e especificamente criada para albergar um certo tipo de pessoas, isto é, famílias felizes, bem-sucedidas em casa, no trabalho e na escola, preferencialmente de classe média alta, gente bonita, cumpridora, pacífica, solidária, sensível e inclusiva. Assim são os Richardson, uma família de pai advogado, mãe jornalista e quatro filhos que servem de modelo de virtude para a história, contrastando com as inquilinas do seu pequeno apartamento, uma artista (mãe solteira) chamada Mia e a filha adolescente, Pearl.

 

Desde a primeira página que sabemos que estas duas unidades entrarão em contacto e algo de muito mau acontecerá: a filha mais nova dos Richardson pega fogo à casa perfeita da família, depois de Mia e Pearl finalmente abandonarem Shaker Heights. Todo o livro acaba por trazer clareza às perguntas "porquê?" e "como?", o que Celeste Ng considera ser a sua prioridade ao contar uma história. Saber como acaba uma história é fácil; perceber todo o contexto que leva a esse desfecho é que nos mantém agarrados às páginas, nem que seja pela crítica permanente, ao revelar dos pequenos fogos que consomem cada personagem...

 

Little Fires Everywhere é uma história sobre as imperfeições das famílias perfeitas, imperfeições que todos nós gostaríamos de varrer para debaixo do tapete, mas que entram em ebulição quando são evitadas e reprimidas. É um livro sobre idealismos, é a própria autora quem o diz. Eu digo que também é um livro sobre a hipocrisia. Num mundo que se quer ideal e imaculado, há tanto que fica por fazer e dizer. Há tanta podridão. Ouço dizer desde pequena que só quem vive no convento é que sabe o que lá vai dentro e Celeste Ng escreve não só sobre isso, mas também sobre os segredos e pensamentos mais privados de cada personagem.

 

É tão fácil julgar e ser julgado, mas no final todos procuramos o mesmo, que é fazer parte duma comunidade, pertencer, lançar raízes, ser-se amado e respeitado.

 

No podcast em que ouvi uma entrevista a Celeste Ng, foi dito que o seu livro de estreia, Everything I Never Told You (2014), também se passa em Shaker Heights, onde a própria escritora cresceu. Isto deixa-me mesmo muito curiosa, porque gosto muito de autores que escrevem histórias que, não sendo completamente reais, são inspiradas por e acontecem nos locais que melhor conhecem e onde passaram as suas infâncias (em português, temos o caso de José Luís Peixoto).

 

📚 Se procuram um livro de ficção que não vos dê descanso enquanto não o acabam, Little Fires Everywhere é a resposta às vossas preces. Por exemplo, também ando a ler o livro The Science of Storytelling (de Will Storr, do qual vos falarei dentro de alguns dias), e apercebi-me de que todos os ingredientes recomendados para uma história bem contada estão lá, todos usados pela Celeste Ng.

Já agora, esta foi a minha escolha de Junho para o desafio Uma Dúzia de Livros da Rita da Nova!

E sabiam que vai haver uma série baseada nestes pequenos grandes fogos, com a jeitosa da Reese Witherspoon?!

 

📝 Que outros livros de ficção vos deixam assim, tão empolgados?

O luto e a impotência da perda: The Year of Magical Thinking (Joan Didion)

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Life changes fast. Life changes in the instant. You sit down to dinner and life as you know it ends.

 

Já perderam alguém querido de um momento para o outro? Já vos aconteceram situações inesperadas que mudaram a vossa vida para sempre?

 

É este o mote para todo o livro The Year of Magical Thinking, de Joan Didion. Deve ser o livro mais triste, mas também dos mais bonitos que li este ano. Joan Didion é conhecida por ter tido uma carreira completamente ligada à escrita, nomeadamente na Vogue, na revista The New Yorker e como guionista (como o remake de A Star is Born de 1976), mas este é um livro, digamos, de memórias.


Quem também conheceu no trabalho e a acompanhou durante mais de quarenta anos de vida foi o marido, o também escritor John Dunne. The Year of Magical Thinking não é só sobre ele, mas sobre o seu falecimento e o ano que se seguiu. Este é um livro sobre o luto, o que por si só é triste, mas que neste caso tem todo o contexto dum casamento feliz que lhe precedeu.

 

O luto de Didion consiste numa tentativa constante de reconstrução dos factos que levaram ao momento em que John se sentou para jantar e teve um ataque cardíaco, revisitando recordações desde o momento em que se casaram até à noite de 30 de Dezembro de 2003. Por isso, o sentimento de impotência prevalece, mesmo quando são contadas memórias felizes. A autora quer ter respostas que, na verdade, são óbvias. Como e de que morreu o marido? Ela poderia ter feito alguma coisa para o evitar? Como é que poderiam ter tido uma vida ainda melhor? Deveria ter lido melhor os sinais, tanto os sinais médicos quanto os esotéricos? Que entrelinhas lhe falharam?

 

Para mim, o mais importante a reter e a apreciar neste livro é o raciocínio de alguém que perdeu a sua pessoa favorita no mundo, embora não acredite que seja o melhor trabalho escrito fale Didion. O que faz deste livro tão bonito é o carinho omnipresente e a falta que faz a pessoa com quem se escolheu passar a vida.


Por outro lado, a dor. Li a maior parte de The Year of Magical Thinking antes de adormecer e tive quase sempre sonhos relacionados com a perda súbita de alguém, ou com a impotência e casualidade da maioria dos eventos na nossa vida, que não podemos controlar. A procura desse controlo é vã, mas devolve-nos algum conforto, por nos fazer parecer que estamos a tentar tanto quanto possível. No caso de Didion, nada iria mudar o facto de o marido sofrer de problemas cardíacos, com predisposição genética e detectados várias décadas antes da morte, mas mesmo assim a procura incessante de respostas mostra-se tão inevitável quanto a doença (da filha de ambos, Quintana) e a morte.


Assim, se procuram entender melhor o a relação entre os vivos e os mortos, o amor que sobrevive a qualquer um, se perderam um ente querido e precisam de consolo e catarse, se querem ler sobre casamentos e histórias de amor que só a morte separa... The Year of Magical Thinking é o que vos faz falta na estante. Não é uma leitura emocionalmente fácil, mas de certeza que nos enternece.

 

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🤯E agora que já terminei este livro fininho, mas pesadote... O que recomendam de mais leve e para a boa disposição das pré-férias, com dias tão bonitos?

Violência doméstica na literatura portuguesa: Preciosa (Nelson Nunes)

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Há livros que são mais difíceis de ler do que outros. Normalmente, são mais difíceis porque têm frases longas, ideias complexas que somos incapazes de seguir. Ou, então, porque não concordamos com o autor, não o entendemos, não conseguimos encontrar nada em comum e que nos estimule a ler mais. (Que outras razões vos atrasam a leitura?)


Depois, há livros que são difíceis de ler porque há coisas que doem só de imaginar, quanto mais saber que muito do que o autor escreveu também lhe aconteceu, tal como a pessoas muito próximas de nós. Felizmente, nem a violência doméstica nem sequer as relações tóxicas fazem parte da história da minha família. Aliás, terão de facto existido, mas antes de eu ter sido gente. No entanto, já assisti a muita coisa nas famílias dos outros e já conheci as consequências em primeira mão do que é viver e ter crescido numa casa em que a violência física e psicológica são um dado adquirido por várias décadas. Pode não me ter acontecido a mim, mas já aconteceu à minha frente e já ouvi vários relatos na primeira pessoa.


Dito isto, foi muito difícil ler o livro Preciosa, do Nelson Nunes (autor que devem conhecer mais à conta da não-ficção), lançado na semana passada. Corri a comprá-lo no dia em que saiu, não só por conhecer o Nelson há alguns anos e adorar as crónicas dele, mas também por curiosidade sobre este livro, cujo tema ainda não faz explicitamente parte da literatura portuguesa. Finalmente, a violência doméstica é retratada na ficção, ou na ficção quase autobiográfica. Acabei por lê-lo em três dias, embora seja um livro curto, porque não conseguia ler muito mais do que 20 páginas de seguida.

 

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Depois de o Preciosa ter sido recomendado por Marcelo Rebelo de Sousa e Cristina Ferreira, há pouco que eu possa acrescentar à opinião pública. Resta-me admirar e agradecer a coragem do Nelson Nunes, que reabriu portas do seu passado para partilhar connosco algo tão perturbador e definidor numa vida quanto a existência dum pai que o inspirou à criação da personagem Isaac. Voltar a expor a ferida para escrever sobre o que nos atormenta para que a história possa ser partilhada como elogio à sobrevivência possível e para a consciencialização pode ser libertador, mas de fácil deve ter muito pouco. Ao mesmo tempo, a homenagem prestada a uma mãe igual a Esmeralda é a parte mais bonita. A acção desta mulher forte deve-nos servir de lição para conseguirmos mais ou menos tudo na nossa vida - se ela foi capaz de se refazer duma fase tão negra e devolver segurança e uma vida boa a um filho, qualquer um fica a sentir que também conseguirá seja o que for.

 

Apesar das falhas na sociedade, do silenciamento das vítimas, da desresponsabilização dos agressores, da desvalorização e normalização da violência nas relações, é-nos deixada uma mensagem de esperança - e de alerta - sobre a possibilidade de pedir ajuda e de a vida poder continuar. Espero que livros como este possam trazer o tema da violência doméstica para cima da mesa colectiva, de modo a quebrar-se o silêncio e a tentar chegar a coragem a quem mais precisa de se fazer ouvir.


Na minha opinião, este Preciosa é também uma chamada de atenção para as tais consequências, na forma de mazelas que, se não físicas, são psicológicas e afectam a forma como quem já viveu num lar a desfazer-se por estes motivos encara a relação consigo mesmo e com os outros pela vida fora, principalmente quando muito jovens. Na minha geração, vejo e conheço exemplos de dois caminhos possíveis na idealização do amor: a concretização do ciclo de relações violentas, que se repete, porque foi assim que se viu fazer, estando enraizado e normalizado; ou exactamente o contrário, a dúvida e a preocupação constante com o bem-estar do outro, o medo de desapontar e de poder magoar, a consciência constante dos precedentes e a sua evitação a qualquer custo, combinados com baixa auto-estima, sentimentos muito bem retratados pelo Nelson Nunes. Penso que ainda existe a sensação de que "temos é de ser fortes", e que o passado fica no passado, e que as coisas passam (mas não passam) e que estas gerações mais novas só se sabem queixar, enquanto deviam era aprender "que é assim a vida, difícil, temos de aguentar". Aguentar coisa nenhuma! Há sempre algo mais que pode ser feito. Não, não nos devemos conformar com esta miséria de espírito e as vítimas devem ser ouvidas e apoiadas, nomeadamente a nível da sua saúde mental. Não há justificação para se bater ou maltratar seja quem for, muito menos alguém de quem se "gosta".


Que a literatura nacional continue a inspirar a mudança nos pseudo-costumes nefastos e nas mentalidades pequenas do nosso país! Que uma voz seja dada a quem a perdeu! Que possamos abrir os olhos para o que se passa à nossa volta e não contribuir para ciclos de violência, para a desvalorização do mais "insignificante" acto de violência e a falta de atenção dada às vítimas pelas autoridades mas também por quem as rodeia, que decide não fazer nada, para não se intrometer. Não podemos ser cúmplices. Como devem saber, as estatísticas da violência doméstica em Portugal nos primeiros meses de 2019 provam o quanto ainda está por conquistar.


(Se puderem, leiam este livro, que não há-de tomar-vos muito tempo, mas que vos poderá relembrar desse tanto que a sociedade tem por conquistar, ou ofereçam-no a quem possa beneficiar desta história e da sua mensagem.)

 

Obrigada, Nelson, por teres escrito (mais) um livro que pode vir a fazer a diferença! 👏

Releitura: The Course of Love (Alain de Botton)

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Reler Alain de Botton foi como regressar a um sítio muito confortável, acolhedor, sem julgamentos, onde as falhas humanas não ditam o carácter, onde o leitor voyeur não pede licença, mas onde vai entrando pé ante pé, para aprender pela experiência dos outros - dos protagonistas. Tudo o que é escrito pelo Alain de Botton tem cariz didático. Não há maus-da-fita, apenas gente normal a habitar a narrativa de The Course of Love. Reler este romance foi como entrar numa casa onde já tinha vivido, com tudo o que há de positivo e negativo nisso. É como rever um sítio querido, e mesmo assim descobrir-lhe novas nuances. Sem surpresa, Alain de Botton continuou incisivo, narrando os traumas de infância que levam Rabih e Kirsten a unirem-se numa relação que se espera para sempre, mas que não é interrompida pelos créditos finais no momento dos votos de casamento nem se revela inequivocamente feliz. Antes pelo contrário, lá fui eu numa visita guiada repetida aos seus primeiros dezassete anos de vida partilhada. Não, um casamento não é fácil. Não é bonito. Não é o "viveram felizes para sempre". Ainda assim, nas páginas finais, fica a promessa dum melhor entendimento.


No entanto, as releituras têm custos. Pode haver desencanto, desilusão, ou apenas mais tendência para um olhar mais atento ao que nos tenha escapado antes. Quase um ano depois, com outras experiências pessoais acumuladas e talvez um olhar mais cínico e menos romântico quanto às relações, tenho a dizer que achei esta união dos protagonistas muito apressada, e que o Sr. Botton cria ali uns cenários pouco credíveis. Se calhar, o Rabih e a Kirsten eram só parvos, ou desinformados, mas aos vinte e tal ou trinta anos não me parece que haja espaço para tanto romanticismo e idealismo. Não é qualquer pessoa que se atira em mergulho para um casamento ao fim duns meses de namoro. Fiquei pasmada quando me apercebi de que as personagens reconhecem só começar a ter uma noção mais completa um do outro após uma quantidade significativa de sessões de terapia de casal e década e meia a viver debaixo do mesmo tecto. É obra...


De resto, claro que as releituras devem ser inevitavelmente mais críticas. Por um lado, há o conforto do que já é esperado a cada página; por outro, essa familiaridade permite estarmos disponíveis para encontrar e juntar peças nas quais não tínhamos tropeçado o suficiente.


Seja como for, o meu livro preferido do Alain de Botton é o Essays in Love, que espero readquirir em breve, depois de um empréstimo falhado - ou seja, duma doação muito bem sucedida - e com toda a legitimidade e carinho do mundo. Essa é a releitura que mais me preocupa, na medida em que posso quebrar a expectativa criada depois da primeira vez que o li. Seria uma pena eu deixar de o colocar no pedestal da literatura de paperback. 

 

E desse lado, o que andam vocês a reler? Há algum livro ao qual gostem de regressar de tempos a tempos? Digam lá quais são os riscos a que se sujeitam em prol de segundas, terceiras e centésimas leituras... 📚

Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és!

Nos últimos meses, tenho sentido e dado cada vez mais valor a esta expressão tão popular: diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és! Apesar de ser inútil querermos ser iguaizinhos a alguém, quer física, quer psicologicamente, acredito que as pessoas com quem nos relacionamos - e de quem, idealmente, escolhemos rodear-nos - tem muita influência na forma como pensamos e agimos.


Acho que, em primeiro lugar, é indispensável encontrarmos quem nos sirva de exemplo a seguir. Estar com quem me mostre "como se faz" é meio caminho para me sentir mais motivada a ser e a fazer melhor. Não tenho de procurar sempre alguém para admirar fora do meu alcance imediato, por contar com modelos próximos e que, não sendo os mais ricos, reconhecidos ou irrepreensíveis, me permitem vê-los a uma escala mais humana e real. Em suma, vejo nos meus amigos uma fonte de inspiração e também de apoio - o que me leva ao segundo ponto.


Partilhar interesses, áreas de estudo, ambições, estilos de vida e/ou visões sobre a vida em geral com quem me rodeia é um consolo por poder sentir que não estou sozinha, mesmo à distância. Claro que devemos constituir uma dose saudável de desafio uns para os outros - não é só acenarmos sempre que sim e concordarmos -, mas, no meio de tanta confusão, ansiedade e receio do desconhecido que enfrentamos no dia-a-dia, é indispensável poder contar com alguns focos de apoio e conforto.


Além disto tudo, a positividade que as relações interpessoais me trazem é a garantia de que podemos juntar todos os nossos dias negativos e torná-los suportáveis, quiçá dar-lhes sentido. Sinto que os meus amigos são, neste momento, a família que eu vou escolhendo. No entanto, também a minha família nuclear se insere neste contexto. São pessoas generosas, preocupadas e doces, mas também são, cada um à sua maneira, pessoas lutadoras, a quem a vida nem sempre é facilitada, mas que insistem em fazer e ser melhores sempre que possível.


Escrevo este texto porque tanto eu quanto todas estas pessoas à minha volta estão a passar por fases pessoais, académicas e profissionais particularmente turbulentas. Há quem esteja a começar a carreira, há quem a esteja a tentar consolidar ou a apostar numa nova. Há quem esteja a criar e há quem esteja a refazer a sua vida, há quem precise de qualquer coisa mais. Cada um de nós em áreas diferentes, acabamos por partilhar o facto de andarmos a saltar obstáculos relativamente novos.


Escrevi no início do texto "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és". No entanto, não sei se sou igual às pessoas com quem ando, mas posso tentar olhar para cima e tentar lá chegar. Não desfazendo nas minhas próprias qualidades, admiro-os bastante. Consigo ver-lhes os defeitos, mas também tantas qualidades que também espero ter e poder oferecer-lhes.


No meio disto tudo, fica a gratidão por saber que estamos a navegar em barcos tão distintos e tão iguais e, ainda assim, nos vejo disponíveis para os outros. Às vezes são almoços ou lanches de meia hora, jantares tardios encaixados em fins de dia caóticos ou uma mensagem desirmanada. Enfim, continuamos por aqui.


E que, depois da tempestade, venha a bonança. Ou, pelo menos, o descanso merecido e a recompensa justa.

Leitura de cabeceira: Meio intelectual, meio de esquerda (Antonio Prata)

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Três crónicas por dia, nem sabe o bem que lhe fazia... Podia ser um ditado popular, mas é só uma das muitas recomendações que por aqui vou plantando.


O livro Meio intelectual, meio de esquerda (Antonio Prata) foi a minha leitura de cabeceira das últimas semanas, depois de o ter encomendado através da promoção de Inverno da Tinta-da-China. Apesar de o ter escolhido às cegas, somente pelo prazer de comprar um livro a preço reduzido, acho que fiz muito bem.

 

Esta edição portuguesa de Meio intelectual, meio de esquerda reúne crónicas do autor e guionista brasileiro desde 2003 até 2016, por isso deu-me sempre a impressão de que, desde a primeira até à última, estava a acompanhar um amigo que ia crescendo, amadurecendo e evoluindo na sua vida pessoal e profissional - e escrevendo sobre isso. Ao contrário do que o título possa indicar, raras são as crónicas de cariz político, preteridas ao futebol (do qual eu percebo muito), amor, filhos e reflexões várias, mais ou menos disparatadas.


Se pensarmos que, em 2003, Antonio Prata tinha vinte e poucos anos, alguém que os tenha ao ler estas crónicas poder-se-á deparar com uma máquina do tempo, em que o futuro se apresenta com a sucessão de eventos (viajar juntos pela primeira vez vs. o casamento; o início duma carreira vs. a sua consolidação), problemas (como usar a palavra "tomate" vs. mãozadas de cocó de bebé) e preocupações (bares ruins vs. recibos e contabilistas) de quem vai registando pequenos apontamentos da sua vida durante mais duma década. Talvez, um dia, também nós sejamos mais ou menos assim. Talvez eu seja mais ou menos assim.


À semelhança do que acontece com a maioria das colectâneas de crónicas, prefiro ir lendo poucas de cada vez, daí ter nomeado Meio intelectual, meio de esquerda como leitura de cabeceira. Antes de dormir, para acalmar a cabeça dos ecrãs, da rotina e do entusiasmo do dia, bastam alguns minutos e páginas. Crónicas de duas ou três são ideais, por não serem demasiado exigentes, nem desinteressantes, enquanto a variedade de temas nos entretém e embala para um sono mais descansado (idealmente!).


Em suma, Meio intelectual, meio de esquerda não é o melhor livro de crónicas de sempre, não é o mais perspicaz ou criativo, mas presta-se a um óptimo trabalho de entretenimento!


[Acabado este, está na altura de passar para Silêncio na Era do Ruído (Erling Kagge).]

Há um ano em Portugal

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Fez ontem um ano que estou em Portugal e muito do que eu esperava não se concretizou nestes primeiros doze meses a seguir ao regresso. Parte da rede de apoio desmoronou-se, o mestrado com o qual eu tinha andado a sonhar não me entusiasma tanto quanto eu previa, a alegria de voltar para o pé da família e dos amigos reveza-se com contas interiores por ajustar.


No entanto, fecham-se portas e abrem-se janelas. Já não dou aulas numa universidade, mas gosto bastante do que faço e vou gostando do que estudo. A viagem à Escócia, onde prometi voltar a cada novo dia no meio duma cidade de betão, realizou-se. Continuei a escrever, tive tempo e disposição para ler e para fazer planos que me entusiasmam. Conheci quem me inspire e faça bem, nunca me faltaram abraços.


O que eu quero dizer é que a vida aconteceria inevitavelmente lá ou cá, assim ou assado. Não é um sentimento de impotência, mas sim de controlo: a vida não parou, porque me tenho esforçado para que não pare e para que vá seguindo um rumo agradável à navegação. A iniciativa própria tem peso nos eventos; não controlamos tudo, mas aquele bocadinho que aterra nas nossas mãos é um óptimo começo.


Além disso, tem sido um ano de reaprendizagem. Reaprendi a depender um pouco dos outros, reaprendi a estar acompanhada, reaprendi a confiar nas minhas decisões e reaprendi a não me preocupar demasiado por antecipação, mas sim a esforçar-me apenas dando o meu melhor, de acordo com as circunstâncias, não almejando a feitos heróicos e, certamente, irreais. Neste caso, aprendi mesmo, pela primeira vez, que não sou de ferro. Foi um ligeiro passo atrás para poder continuar em frente.


Ao chegar ao aeroporto de Lisboa, após 30h de viagem, deparei-me com esta frase de José Luís Peixoto (que, por coincidência, eu conhecera algumas semanas antes em Banguecoque):

 

Quando chegares, não te esqueças de onde partiste.

 

(Frase esta que eu lera, também algumas semanas antes, no livro O Caminho Imperfeito, que JLP escreveu sobre algumas das suas experiências na Tailândia e sobre viagens.)

 

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De facto, não nos podemos esquecer de onde vamos partindo, seja territorial, mas também profissional ou emocionalmente. É difícil prever o próximo destino, mas costuma-se dizer que devemos, em vez disso, apreciar a viagem. Talvez os clichés tenham razão.

 

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O melhor de 2018 foi a superação

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Ponderei muito se deveria escrever este texto. Ponderei mais um tanto até realmente o escrever - e procrastinei-o. 2018 tem sido um ano que eu não teria vontade de repetir. Houve anos em que cheguei ao fim e pensei "muito bem, este foi dos bons". 2018 não. Passou-se e, se eu tivesse um comando para controlar a visualização dos episódios, repetiria um par de situações e ficaria feliz. Talvez por isso não saiba sequer o que partilhar sobre os últimos meses que não tenha já sido escrito por este blogue fora.

 

Vejamos... Despedi-me do emprego que eu mais queria na vida, deixei um mestrado a meio, regressei de quase dois anos a viver em Banguecoque, renovei amizades e listas de contactos, recomecei, reaprendi a viver em família, defini novos objectivos profissionais, procurei uma nova auto-imagem, não só saí como saltei de pára-quedas da minha zona de conforto, descobri novos interesses, inscrevi-me no mestrado dos meus sonhos (e não fiquei impressionada) e - o mais importante - tive de reconhecer a minha fragilidade face a circunstâncias que não consigo controlar, paralelamente àquilo que me cabe a mim decidir. Já diz o livro, quem mexeu no meu queijo? A certa altura, senti que toda a gente me metia as mãos no meu prato excepto eu, mas no final ficou a lição de que, se nos comem o queijo, temos de ir à procura do fiambre.

 

A sabedoria popular também diz que "o que não arde cura e o que aperta segura". Feitas as contas, podia ser outro lema para o meu último ano. Sei que foi dos melhores anos em lições várias, novidades, descoberta permanente. Estou feliz por isso. No entanto, em 2019 quero menos reboliço.

 

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No lado bom - óptimo! - destaco a minha viagem solo à Escócia, que gostaria imenso de repetir mal seja possível, no mínimo à minha cidade favorita, Edimburgo. Subir o Arthur's seat foi das experiências mais satisfatórias do último par de anos, tanto pela vista panorâmica sobre Edimburgo, como ainda pela superação simbólica de medos e obstáculos. 

 

Destaco as pessoas que conheci. Por vezes sofro de memória selectiva, mas não me lembro de nenhuma pessoa que tenha conhecido sem que a viesse a admirar. Os amigos e a família também não tiveram um papel fácil e o carinho que me dedicaram não tem comparação em palavras.

 

Destaco o blogue. Consegui escrever mais do que no ano passado, o Sapo também o destacou várias vezes, chegaram novos leitores, fui encontrando motivação para cá voltar. Gosto de saber que vos tenho por aqui e que os meus exercícios de escrita e reflexão não ficam apenas para mim.

 

Destaco os livros que li. Embora ache que ainda tenho de aprender a ler melhor, já fiquei satisfeita com a quantidade (desafio do Goodreads superado!), porque também tive de ir lendo outros materiais para a faculdade no último trimestre. Ainda vou publicar o meu balanço livrólico detalhado antes de o ano acabar (antes disso, só tenho de terminar um ou dois livros).

 

De qualquer forma, acabei o ano a fazer aquilo de que gosto, em boa companhia, sem nenhum desejo por concretizar, com planos para novos projectos e talvez uma viagem ou outra. Saldo positivo!

 

2018 superado, que 2019 sirva para continuar a melhorar! (E já nem digo que sirva para escrever um livro, mas começar a tese já não seria mau.)

 

Imagens: Edinburgh Central Library e Calton Hill, Edimburgo, Maio de 2018

A Carolina Deslandes, "Adeus Amor Adeus" e aquele nozinho no coração

A Carolina Deslandes teve uma espécie de condão para lançar o último disco numa altura em que, por acaso, eu precisei de uma nova banda sonora. Nessa mesma altura, também precisei de - e felizmente consegui - novos livros, viagens a novos sítios, novos ombros amigos, novos desafios e, na verdade, tudo novo. (Quem nunca se sentiu assim, a precisar de uma fase de renovação, não é verdade?) Então, de certa forma, a Casa da Carolina também foi um pouco minha, onde tentei arrumar e reorganizar o que me faltava.

 

Bem sei que nem todas as pessoas serão as suas maiores fãs, mas eu, também não sendo das maiores, admiro-a. Acho que, apesar de não concordar pessoalmente com tanta exposição, consigo reconhecer que o público entra em contacto com uma mulher jovem que parece trabalhadora, focada, que consegue equilibrar a vida pessoal e profissional e que provavelmente tem atingido muitos dos seus objetivos pessoais nos últimos tempos. É bonito e até gratificante na terceira pessoa.

 

 

Entretanto, a vida continua. A Primavera acabou, o Verão passou e até estamos quase no Inverno. Parece poético e talvez o seja. Este ano e as estações que se sucederam poderiam encaixar simbolicamente na minha história. Poderiam fazer parte do storytelling. E, como que encerrando um período catártico, a Carolina também diz "adeus" num vídeo que, depois de nos amassar a bagagem e prender em nostalgias, pontadas agudas e agitações invisíveis, nos liberta. Nem tudo pode ser para a vida toda, mas mais estará para vir quando tiver de ser.

 

A miúda gostou e gosta.

 

10 factos aleatórios sobre mim e os meus livros

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1. Neste momento, o meu romance favorito é O Curso do Amor (Alain de Botton);

 

2. Um dos meus livros preferidos e que, surpreendentemente, já li mais duma vez é O Complexo de Portnoy (Philip Roth);

 

3. O livro que eu sinto que mais marcou a minha adolescência e que me fez pensar pela primeira vez "é isto, eu gostaria de fazer isto" é Abraço (José Luís Peixoto);

 

4. A maior "culpa" de eu gostar tanto de ler e escrever é da minha avó e da minha professora de Português do ensino básico;

 

5. Gostaria que houvesse mais cafés acolhedores em Lisboa onde pudesse ler e escrever - se não o fizerem ao meu gosto, ainda me meto eu em trabalhos;

 

6. Se eu pudesse ressuscitar algum escritor falecido, para que ele continuasse a escrever, seria Eça de Queirós;

 

7. O meu namoradinho literário platónico deve ser o Dexter (Um Dia, David Nicholls);

 

8. As Crónicas de Nárnia são os livros para crianças que eu só percebi realmente na idade adulta;

 

9. Embirro com a leitura de traduções, se os livros tiverem sido originalmente escritos em inglês e, por vezes, em francês; 

 

10. O último livro que acabei de ler é Stoner (John Williams), mas costumo estar a ler, quase sempre, mais de três livros em simultâneo, saltando dum para o outro consoante a disposição e conveniência do momento.

 

*Shelfie desta leitora no Verão de 2015. Entretanto, já houve bastantes alterações em ambas, no self e na shelf.