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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

26/30 (eu isto e o João aquilo)

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Costumo dizer muitas vezes, em tom puramente caricatural: eu e o João falamos línguas diferentes. Depois de mais de ano e meio juntos, começamos a comunicar cada vez melhor, e a arranjar um entendimento partilhado que nos permite uma tradução razoável. Mas isso é o mínimo, a ponta de um iceberg. A simplificação não é sempre o caminho.

 

É difícil conhecerem duas pessoas mais diferentes entre si do que nós - à primeira vista. Quando nos viu juntos e falou connosco pela primeira vez, o nosso vizinho comentou logo o facto de eu ser a parte que fala e o João a parte que ouve. Foi mais ou menos assim que nos descreveu, e eu achei engraçado haver esta dicotomia obrigatória. Uma é isto e o outro é aquilo.

 

Vejamos...

Eu sou criativa, o João é lógico. Eu sou extrovertida, o João é introvertido. Eu sou espontânea, o João é comedido. Eu sou complexa, o João é pragmático. Eu sou batata de sofá, o João fez um ginásio em casa. Eu sou ansiosa, o João é calmo. Eu sou das Letras, o João é das Ciências. Eu penso, o João faz. Eu sonho, o João planeia. Eu digo sim, o João diz não. Podia continuar, mas a amostra já é suficiente para se entender onde quero chegar: como é que duas pessoas tão diferentes se podem fazer tão felizes?

 

Correndo o risco de abusar do cliché, parece-me inevitável invocar o conceito de equipa. O que falha no elemento X abunda no elemento Y. E vice-versa.

 

E, depois, há aspectos que são tão mais importantes para uma relação funcionar: a vontade de estar na relação (óbvia, mas desvalorizada), os desejos para o futuro, os princípios éticos e morais, a visão sobre o dinheiro, o compromisso e a dedicação diária, a capacidade de partilhar os pertences, o espaço e as responsabilidades, o estilo de comunicação, as linguagens não faladas, a admiração mútua, as rotinas. Embora hoje já me faltem palavras e energia para continuar o raciocínio, hei-de voltar a escrever sobre o assunto.

12/30 (a mulher do doutor)

Passeio a Coffee e as vizinhas sentadas ou encostadas a meio da rua falam comigo. São senhoras com setenta ou oitenta e tal anos, que procuram a sombra para confraternizar aos pares, com máscara e tudo, e também uma ou outra tem cães que passeia pelos mesmos caminhos que eu. Estas são vizinhas a quem me apresento, sou a Beatriz e vivo desde Dezembro naquela casa ali (aponto), perto das esplanadas.

 

As vizinhas acham que sim, que já sabem quem sou. Sou filha daquela senhora que se mudou há pouco tempo, ou sou filha da senhora que trabalha na Câmara, ou sou filha de alguém, pronto. E insistem, sou filha daquela senhora, aquela senhora sobre a qual nem conseguem concordar entre si, sim, mesmo quando digo que não, não, não.

 

Finalmente, consigo cortar-lhes a palavra: o meu namorado é o novo médico do centro de saúde, o Dr. João, que está a trabalhar com o Dr. David. Ah, então o seu marido é o novo médico...? É, sim, confirmo. Nos últimos meses, vim a aprender que não vale a pena negar o estado civil que nos passam ainda sem copo d'água, então eu mesma começo a casar-me só com palavras, o meu marido isto, ou a retorquir sem relação, o meu João aquilo.

 

As pessoas vêem-me todo o dia, ora com as portadas da sala abertas, ora no terraço do telhado, ora a sair e a entrar. Trabalho em casa, gosto de sol e gosto de janelas escancaradas. Raramente vêem o João, que trabalha do outro lado da vila e que raramente é avistado. Não sabem quem ele é, mas sabem quem eu sou, e pedem confirmação à dona do café que existe por baixo da nossa sala. Eles têm uma menina, é aquela menina de óculos, não é? Eles serão o novo médico e uma mulher hipotética. Divertida, a D. Dália responde que a menina é a mulher do doutor, ri-se e vem-me contar sobre o engraçado que é eu parecer tão nova que confundo as vizinhas.

11/30 (as mulheres dizem)

As mulheres dizem, os homens negam.

As mulheres dizem que têm medo de andar na rua, de dia ou de noite, os homens negam.

As mulheres dizem que os piropos, assobios e comentários despropositados são atentados contra a sua integridade física e a sua segurança, os homens negam.

As mulheres dizem que são vítimas desde pequenas, os homens negam.

As mulheres dizem que não saíram de relações física ou psicologicamente violentas antes, porque não tinham força, apoio ou sequer noção do que lhes estava a acontecer, e não por falta de desconforto, dor ou trauma, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem ameaçadas por mensagens sexuais não solicitadas que recebem na Internet, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem discriminadas no mercado de trabalho, ora porque ganham menos, ora porque não têm acesso facilitado às mesmas carreiras e oportunidades, ora porque colegas e chefes do sexo masculino as oprimem e adoptam comportamentos no mínimo condescendentes, os homens negam.

As mulheres dizem que há expectativas irrealistas sobre a sua imagem, os homens negam.

As mulheres dizem que ainda são educadas, de modo mais ou menos consciente, para serem subservientes, os homens negam.

As mulheres dizem que têm demasiadas pessoas a meter o nariz na sua vida pessoal, amorosa ou sexual, os homens negam.

As mulheres dizem que a maternidade não é um paraíso e que licença de maternidade não é o mesmo que férias, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem assoberbadas pelo trabalho doméstico e pelas responsabilidades familiares e profissionais simultâneas, os homens negam.

As mulheres dizem que não vivem tão livremente quanto deveriam, os homens negam.

As mulheres dizem que a sociedade não as entende e recusa entender, os homens negam.

As mulheres dizem que há enviesamentos, preceitos e preconceitos invisíveis e enraizados na nossa linguagem e forma de estar, os homens negam.

As mulheres dizem que, no século XXI, até na Europa, ainda vivemos num mundo de homens, e os homens... é claro que negam.

 

Agora, continuem vocês... o que têm as mulheres para dizer?

 

***

 

Ontem, os Fazedores de Letras publicaram um texto da minha autoria que termina assim: Quem sou eu, se mais ninguém estiver a olhar para mim?

 

É um ensaio que, partindo duma reflexão sobre como a mulher é retratada na arte, pretende questionar de que formas ainda é condicionada e vista na vida real. O texto integral pode ser lido AQUI e também vos deixo um excerto:

A mulher do século XXI ainda vive num mundo onde prevalece o olhar masculino, exterior e que não lhe permite olhar para o seu reflexo como se este lhe pertencesse exclusivamente. (...) Mas não interessa se somos mais famosas ou meras anónimas: os padrões, expectativas e pressão existem para todas. Padrões de beleza, de inteligência, de maternidade, de sexualidade, de conjugalidade, de envelhecimento; a pressão e as expectativas sobre a forma como desempenhamos a nossa profissão, a forma como aparecemos na vida pública, a forma como aparecemos nas redes sociais.

8/30 (uma espécie de resgate)

Quando era adolescente, tinha uma ideia sobre quem eu gostaria de me tornar enquanto adulta. Havia uma data de objectivos que eu gostaria de ver cumpridos, certos passatempos que eu imaginava ainda manter, um tipo de relações que idealizava - assim queria ser, uma década depois, por volta da idade que tenho agora.

 

Por alguns anos, acho que perdi tudo isso de vista. Andei a tentar descobrir outros caminhos, outras formas de ver e de fazer - e faz parte. Quis fazer diferente, fugir de todas as check lists que pudesse ter criado aos 14, 15 ou 16 anos.

 

No entanto, uma data de factores tem-me feito regressar a essas referências. Ultimamente, tenho sentido falta de me questionar "o que diria eu quando era adolescente, se soubesse quem sou agora?" Então, lá me forço a relembrar os sonhos que tinha e quem era nessa altura. Ainda serei essa pessoa? Porque, tantos anos depois e mesmo com tanto que fiz e experienciei desde então, tenho muita vontade de revisitar o que fui e de me tornar quem eu me queria tornar.

 

É engraçado como, por volta dos 15 anos, eu já tinha uma noção geral, e que agora considero bastante sensata, de que linhas devem orientar a minha vida aos 25. Quem era eu, antes de outras pessoas, eventos e ruídos se terem atravessado à minha frente? E ainda será possível resgatar-me?

7/30 (conduzir é a minha meditação)

Adoro conduzir. Acho que sou uma boa condutora, excepto no que toca a estacionar, mas nem é só por isso que gosto de conduzir. Conduzir é a minha meditação, porque é naquele período de tempo em que mal posso fazer outra coisa além de olhar em frente e controlar o carro que fico mais absorta em ideias paralelas que me vão ocorrendo.

 

Por exemplo, é muito provavelmente ao conduzir que tenho mais ideias de escrita, de cenários, de desbloqueio e de esclarecimento de dúvidas criativas, de resolução de problemas prementes variados. Só tenho pena que conduzir polua e seja dispendioso, porque, por mim, eu pegaria no carro todos os dias e iria por aí fora.

 

Gosto da calma de conduzir e gosto das memórias que tenho dentro do carro. Tenho memórias de tudo e mais alguma coisa. De conversas importantes e doutras das quais nem me lembro, de relações a começarem e a acabarem comigo em frente do volante ou no lugar do pendura, de momentos de reflexão profunda, momentos de solidão e momentos de confraternização. E não me posso esquecer das viagens de carro de quando era miúda, por mais curtas que fossem, com a minha avó, mesmo que a maioria tenha sido só casa-colégio-casa.

 

Na faculdade, aprendi um conceito sobre o qual tenho a impressão de já ter escrito aqui, o conceito de "não-lugar", de Marc Augé. Eu gosto muito de lugares que não o são, como o interior de carros, autocarros e comboios, lugares que são apenas espaços de transição, mas onde a vida não deixa de acontecer.

 

Há uma certa paz dentro de um carro, a solo ou com companhia, mas conduzir, em particular conduzir sozinha até aos meus próprios destinos, é a minha meditação.

 

(Este texto corresponde foi escrito em atraso, correspondendo à contribuição de 11 de Abril. Por essa razão, hoje ainda publicarei mais um.)

5/30 (ser feliz dá trabalho)

Parece uma contradição, mas ser feliz dá muito trabalho. Se houve lição que retirei destes últimos anos (na prática) e ainda mais após uma pós-graduação em Psicologia Positiva Aplicada (teoricamente), é que ser feliz não é possível se vivermos em modo automático.

 

Ser feliz implica exercitar músculos que nem sabíamos que tínhamos. São músculos psicológicos, mentais, relacionais. Não é uma coisa atingível por "dá cá aquela palha", é necessário investir muito esforço para querermos sair do modus operandi por defeito, porque nem sempre a nossa intuição está certa. Não devemos reagir, mas sim agir consoante a avaliação das circunstâncias e da paz a mais longo prazo.

 

Quando era mais nova, pensava que iria ser muito fácil para mim ser uma adulta feliz. Era só querer, e eu queria muito, mesmo muito. Até tinha um plano! Ainda não sendo adulta há muito tempo, já tenho a certeza de que vim ao engano - não vimos todos, cheios de vontade de ser crescidos?

 

É importante garantirmos que somos feliz, ou que nos aproximamos das expectativas que tenho quanto ao que significa a felicidade, o que envolve escolhas, passos atrás e mudanças e adaptações constantes. Envolve exercício, planeamento e estratégia. E também envolve esquecermo-nos deles, de vez em quando, mas não sempre.

4/30 (não adoptem cachorros)

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Nos últimos meses, tenho-me apercebido que mais e mais pessoas têm arranjado animais de estimação. É inevitável: passamos mais tempo em casa, por isso temos mais disponibilidade para adoptar um amigo de quatro patas.

 

É na última frase que residem os derradeiros enganos. Em primeiro lugar, há que repensar as condições que temos neste momento para adoptar um animal, mas não só as condições de agora-agorinha, como também (e principalmente) a longo prazo. Em segundo lugar, um animal não é um amigo de quatro patas; é mais um filho de quatro patas. Os amigos vão e vêm, mas um filho é (ou deveria ser) para sempre.

 

Os animais precisam de nós. Precisam da nossa atenção, do nosso amor e carinho, e também do nosso dinheiro (em quatro meses, já devemos ter gasto várias centenas de euros em vacinas e consultas). Além disso, quando adoptamos cachorros, eles precisam que brinquemos ainda mais com eles, que lhes limpemos o cocó e o chichi, que protejamos os móveis das investidas dos dentinhos, que os treinemos, que lhes ensinemos a não comer tudo o que conseguem pôr na boca, que fiquemos acordados porque choram ou porque lhes apetece brincar às três da manhã.

 

No outro dia, a Coffee aprendeu a abrir os ecopontos cá de casa e decidiu comer a embalagem do salmão fumado (é fina). Ingeriu um pouco de plástico e um pouco de alumínio, que não tardaram a, no dia seguinte, descer nas fezes. Chegou a sangrar um pouco, talvez tenha ficado com o intestino arranhado. Felizmente, acabou por ficar bem, recuperou, e nós não ganhámos para o susto.

 

E, depois da pandemia e de a vida voltar ao normal (que há-de voltar, apesar de parecer um cenário longínquo!), devemos assegurar que mantemos as mesmas condições para tratar bem os nossos bichos. Eles não vivem um ou dois anos. Podem mesmo chegar aos vinte.

 

Não arranjem animais de estimação, e muito menos bebés, a menos que consigam assegurar todos os recursos materiais e imateriais para uma vida feliz em família.

 

(Na foto: Coffee Bean, duquesa de Vila Viçosa, roedora de pantufas, comedora do ecoponto amarelo, rainha da gastroenterite.)

Todos gostamos de colo

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Adoptei o ilustre Lord Ennui quase da noite para o dia, faz em Maio quatro anos. Após alguns meses a viver sozinha em Banguecoque, senti necessidade de ter companhia. Senti necessidade de ter alguém à minha espera em casa.

 

Passando muitas horas fora, e sendo a minha casa dessa altura um estúdio com 29m2, um cão não seria opção; mas um gato, animal mais independente e que, tendo os brinquedos e acessórios necessários, não precisa de muito espaço horizontal, seria o novo companheiro ideal. Depois, informei-me sobre raças de gatos que tivessem tendência a ser mais silenciosos. Sim, eu sou céptica quanto à compra de animais, mas aos 21 anos, a viver do outro lado do mundo há quase um ano, a querer dar uma passada maior do que a perna, a precisar desesperadamente de companhia e a viver num condomínio que não permitia seres que não os humanos, eu não tinha muita margem de manobra.

 

A verdade é que manifestei, a todos quantos me quisessem ouvir, que pretendia adoptar um gato de raça. Mas eu não tinha dinheiro para essa aventura - o equivalente a 500-1000€ - pelo que teria de esperar. Foi a desafiar todas as probabilidades, expectativas e reviravoltas do destino que, cerca de dois dias depois, Lord Ennui apareceu na minha vida.

 

Sempre me pareceu um gatarrão, apesar de nas fotos e na memória da minha avó, que esteve connosco durante esse Verão, ser sempre mais pequeno do que é agora. Lord Ennui é um gato exótico de pêlo curto, apesar de ser um engano. Tem pêlo bastante longo, em comparação a outros gatos, e está sempre a largar novelos por todo o lado. Por isso, grande parte do seu tamanho é, realmente, pêlo. Adoptei-o com onze meses, supostamente resgatado de um criador que tratava mal os animais, e recebido numa clínica veterinária nos subúrbios mais subúrbios de Banguecoque, onde o fui buscar numa noite em que chovia o céu inteiro com muita força. Ao sair do táxi para a veterinária, enterrei os pés na lama e fiquei encharcada, uma das mil vezes em que isso aconteceu durante a minha estadia na Grande Manga.

 

Lord Ennui sempre foi um gato bom companheiro. Quando era mais novo, gostava de brincar à apanhada com os meus pés, que fugiam debaixo do edredom, e ele ficava por cima a saltitar e a espetar as unhas fininhas até alcançar a presa. Sempre gostou de se sentar perto de mim, de ficar onde me conseguisse ver, de mirar o movimento e as pessoas da casa. Mesmo quando nos mudámos para Portugal, eu regressada e ele cá pela primeira vez, as suas preferências continuaram a ser as mesmas. Nunca quis colo, nunca se mostrou muito carente por maior proximidade do que a sua simples presença na mesma divisão que os donos. Nunca se deixou abraçar por mais de um ou dois minutos. Nunca se deitou nas minhas pernas, nem sequer chegadinho ao meu lado, apesar de ter apetite sexual e gostar de o mostrar com frequência em relação aos meus braços. A maior prova de proximidade física talvez tenha sido dormir costas com costas comigo, nos primeiros tempos a seguir à adopção.

 

No entanto, o meu pai contou-me há alguns meses que Lord Ennui se punha no colo dele. Suspeitei, mas era verdade. Algumas semanas depois de vir morar com o João, o Lord Ennui e a Coffee Bean para Vila Viçosa, o gato também se deixou ficar algum tempo nas pernas do João, por iniciativa própria. Uns dias depois, foi a minha vez de saborear essa vitória, mas foi sol de pouca dura. Não ficou muito tempo.

 

Finalmente, este fim-de-semana, Lord Ennui não só se enroscou na manta por cima do meu colo, como lá passou pelas brasas e a ronronar. Foram cerca de vinte minutos em que temi mexer-me um único milímetro, não fosse incomodar e espantar sua excelência. Acabou por se levantar para se ir esticar na carpete, mas ninguém me tira o gozo de finalmente ter sido mais ou menos escolhida pelo meu próprio gato para servir de cama humana. Como diz a Rita, foi um occupy, um belo de um occupy.

 

Lord Ennui demorou quase quatro anos a gostar do meu colo. Talvez ainda nem goste dele, mas, no final de contas, pode ser que ele já perceba que o meu colo é um lugar seguro, onde pode vir ronronar sempre que lhe apetecer. Afinal, todos gostamos de colo.

Fazer uma pausa

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Alguma vez pensaram em fazer uma pausa dos blogs?

 

Em quase dez anos, penso que raramente terei tomado essa decisão, pelo menos de forma consciente. Mas foi o que aconteceu desta vez.

 

Primeiro, fi-lo sem querer, porque estive ocupada com outros projectos e ideias de escrita, ou porque simplesmente dava por mim sem nada para partilhar, o que já ia sentindo nos meses precedentes. No entanto, ao fim de algumas semanas também me apercebi de que deveria tornar esta decisão mais clara para mim, para que não me sentisse pressionada a voltar a publicar no blog.

 

Assim, dois meses depois do último texto que aqui deixei, tive vontade de escrever. Muito se passou desde então, por isso é óbvio que este é o momento natural para retornar às actividades blogosféricas.

 

Noutras palavras...

 

A árvore que é a vida duma pessoa abandona o vaso onde tinha sido semente, para vir a encontrar novo solo onde deixa crescer raízes. Estranhas espécies de pássaros podem aparecer, o vento sopra em desabrigo e desentendimento com as estações. A árvore tenta agarrar-se, puxada para um lado e para outro, até que finalmente se apercebe: quaisquer que sejam as intempéries, sente que este é o sítio onde sempre quis estar.

 

Tenho estado como essa árvore.

 

Toda a transplantação é difícil, por muito desejada que tenha sido, e a minha precisou duma paragem nas actividades que normalmente me dão prazer, como escrever e ler. Novas prioridades falaram (gritaram) mais alto. Não só me obriguei a aprender o funcionamento dum novo mundo (não aprendemos todos?), como ao mesmo tempo me encontro numa nova geografia, numa nova casa, num novo lar.

 

Aos poucos, lançadas as tais novas raízes, reciclo ritmos anteriores e fabrico novos. Hei-de demorar a acertar neles, o contexto exterior não tem tudo de propício para o investimento no interior, mas já vai fazendo sentido começar por algum lado.

 

É com tal ensejo que esta pausa acaba de ser interrompida. Cá voltaremos a ter um blog, mais ou menos, mas sempre, presente.

 

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E, já agora, com uma nova mascote.

Um elogio à Internet (já agora, este blog completou ontem 9 anos)

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Terminada uma relação, a primeira começada numa idade adulta, reconheci em mim a necessidade de voltar a sentir-me vista. Apreciada. Amada. Desejada. Queria sentir que alguém poderia olhar para mim e pensar "que maravilhoso exemplar feminino da espécie humana", "quanta inteligência e formosura numa só jovem" ou mesmo "comia" (este era o meu grau de exigência, infelizmente, mas melhores dias vieram).

 

Como qualquer millennial dedicada ao seu trabalho, trabalho esse mais solitário, uma millennial que odeia festas e encontros com mais de cinco pessoas, e que já tinha a piscina de "oportunidades imediatas" esgotada, virei-me para o fiel online dating. Cenário familiar do ano anterior, em que, perante o fim duma relação muito mais longa e com um fim três mil vezes mais doloroso do que a presente, as redes sociais para conhecer pessoas com fins de interesse mais ou menos exclusivo já não eram território estrangeiro. No entanto, desta vez descarreguei e experimentei todas as aplicações relacionadas, qual estudo de mercado, o que não me impediu de acabar a usar apenas a do costume, a favorita, aquela que eu recomendo até às pedras da rua: OkCupid.

 

Acredito ferozmente que a Internet e as ferramentas que nos oferece têm o poder de mudar a nossa vida para melhor. Muito melhor. Basta saber seleccionar o que interessa e fazer valer o que nos é oferecido. Ficarei eternamente agradecida a quem teve a brilhante ideia de criar redes sociais, as de matchmaking também. 

 

Se não tivesse sido pela Internet, eu não conheceria pelo menos três amigas a quem cheguei por algum evento que, apesar de ocorrer offline, se divulgou online; e não conheceria o meu ex-namorado, de quem fiquei amiga, e cuja convivência me tem enriquecido emocional e intelectualmente; e não conheceria o meu actual namorado, sobre quem tenho escrito imenso, que me inspira todos os dias e que tem todo o potencial para ser, também, o meu último namorado de sempre ou, pelo menos, por muito tempo.

 

Fico maravilhada ao enfrentar os factos: qual a probabilidade de conhecer estas pessoas que são, hoje, praticamente indissociáveis da identidade que projecto para mim própria? Qual a probabilidade de acordar ao lado dum sujeito chamado João, com quem partilho muito poucos interesses, que cresceu a cinquenta quilómetros de mim? Qual a probabilidade de o João e eu nos termos cruzado, porque estudámos a menos de quinhentos metros durante três anos, mas nada nos ligava à partida, excepto o nome da universidade que ambos apresentamos no currículo?

 

Qual a probabilidade de termos começado a conversar, não fosse eu ter terminado uma relação umas semanas antes dele achar que se deveria concentrar para o grande exame, quase a tornar-se médico e a mudar-se para outra cidade? E se o João não tivesse esperado mais umas semanas, como os pais lhe andavam a recomendar? E se eu tivesse continuado a insistir na minha relação anterior, mesmo que por apenas mais uma quinzena?  E se eu não tivesse ressuscitado a minha conta do OkCupid? E se eu não tivesse publicado uma fotografia com o meu gato que o João veio a comentar, e se o João não tivesse tido uma segunda chance de tentar chegar à fala comigo, apesar de rezar a lenda que eu já ignorara uma mensagem dele antes de apagar a minha primeira conta?

 

A abrangência da Internet e a probabilidade dum grande amor, ou de grandes amizades, convergem aleatoriamente em narrativas que poderiam ter acontecido doutra forma qualquer. Doutra forma qualquer. Mas não assim. É com este pensamento que me permito invadir por uma gratidão infinita pelo efeito borboleta que me trouxe até ao momento presente. Talvez até me sentisse agradecida por outros resultados, se fosse o caso, mas permitam-me questionar: como é que é possível melhorar? Não existe melhor, pois não? Gosto tanto desta realidade como a conheço.

 

A Internet contém uma vida de possibilidades. Tivesse eu nascido uns anos antes, não me identificaria como nativa, não navegaria tão bem os mares da tecnologia que me trouxeram o João e outras pessoas de quem gosto tanto. Sem preconceitos ou amarras, uso ferramentas apenas visíveis através de um ecrã de seis polegadas para construir o mundo como ele é para mim, agora. Porque sei que tenho, de facto, um mundo nas minhas mãos. Um mundo abstracto que se materializa num mundo palpável. Um mundo onde podemos conhecer o amor da nossa vida, onde podemos conhecer amigos que nos trazem tanta bonança, onde podemos encontrar o emprego dos nossos sonhos, onde podemos partilhar as nossas obras, onde podemos aprender e partilhar conhecimento ao qual não teríamos acesso há duas décadas.

 

Estamos a meio de 2020, no meio dum pandemia. Estamos a meio duma vivência crescentemente digital, fugindo do mundo físico e dos encontros cara-a-cara, alimentando uma existência por mensagens escritas e conferências em vídeo. E que existência poderosa pode ser, se aprendermos a retirar o melhor que a Internet tem para nos sugerir! Afinal, considero que o melhor do mundo online é ter o condão de enriquecer o mundo offline, se soubermos orquestrar a transição e a complementaridade. Esta é uma época instrumental para testarmos mais modos de ser e estar num contexto único.

 

Quando abraço o João, lembro-me frequentemente do quão frágil esta realidade - esta, assim - será sempre. Oh, os pequenos acasos que nos fizeram finalmente cruzar - se não na Cidade Universitária, pelo menos num "não-lugar" chamado OkCupid. Um pequeno "se", nada deste abraço. Nada de ter conhecido o João. Nada de tudo o que surgiu. Nem, na verdade, este dia 1 de Julho de 2020 em que me sinto tão satisfeita com o que a Internet me tem dado - incluindo este blog e toda a partilha e procrastinação proporcionadas em - fez ontem - 9 anos.

 

No topo, fotografia tirada ontem, 30 de Junho de 2020, às 21h50 (em jeito de celebração de mais um marco na existência do Procrastinar Também é Viver). A minha janela e o pôr-do-sol estival, tardio, claro. Quase parece anunciar o bem que há-de chegar.