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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

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4/30 (não adoptem cachorros)

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Nos últimos meses, tenho-me apercebido que mais e mais pessoas têm arranjado animais de estimação. É inevitável: passamos mais tempo em casa, por isso temos mais disponibilidade para adoptar um amigo de quatro patas.

 

É na última frase que residem os derradeiros enganos. Em primeiro lugar, há que repensar as condições que temos neste momento para adoptar um animal, mas não só as condições de agora-agorinha, como também (e principalmente) a longo prazo. Em segundo lugar, um animal não é um amigo de quatro patas; é mais um filho de quatro patas. Os amigos vão e vêm, mas um filho é (ou deveria ser) para sempre.

 

Os animais precisam de nós. Precisam da nossa atenção, do nosso amor e carinho, e também do nosso dinheiro (em quatro meses, já devemos ter gasto várias centenas de euros em vacinas e consultas). Além disso, quando adoptamos cachorros, eles precisam que brinquemos ainda mais com eles, que lhes limpemos o cocó e o chichi, que protejamos os móveis das investidas dos dentinhos, que os treinemos, que lhes ensinemos a não comer tudo o que conseguem pôr na boca, que fiquemos acordados porque choram ou porque lhes apetece brincar às três da manhã.

 

No outro dia, a Coffee aprendeu a abrir os ecopontos cá de casa e decidiu comer a embalagem do salmão fumado (é fina). Ingeriu um pouco de plástico e um pouco de alumínio, que não tardaram a, no dia seguinte, descer nas fezes. Chegou a sangrar um pouco, talvez tenha ficado com o intestino arranhado. Felizmente, acabou por ficar bem, recuperou, e nós não ganhámos para o susto.

 

E, depois da pandemia e de a vida voltar ao normal (que há-de voltar, apesar de parecer um cenário longínquo!), devemos assegurar que mantemos as mesmas condições para tratar bem os nossos bichos. Eles não vivem um ou dois anos. Podem mesmo chegar aos vinte.

 

Não arranjem animais de estimação, e muito menos bebés, a menos que consigam assegurar todos os recursos materiais e imateriais para uma vida feliz em família.

 

(Na foto: Coffee Bean, duquesa de Vila Viçosa, roedora de pantufas, comedora do ecoponto amarelo, rainha da gastroenterite.)

Todos gostamos de colo

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Adoptei o ilustre Lord Ennui quase da noite para o dia, faz em Maio quatro anos. Após alguns meses a viver sozinha em Banguecoque, senti necessidade de ter companhia. Senti necessidade de ter alguém à minha espera em casa.

 

Passando muitas horas fora, e sendo a minha casa dessa altura um estúdio com 29m2, um cão não seria opção; mas um gato, animal mais independente e que, tendo os brinquedos e acessórios necessários, não precisa de muito espaço horizontal, seria o novo companheiro ideal. Depois, informei-me sobre raças de gatos que tivessem tendência a ser mais silenciosos. Sim, eu sou céptica quanto à compra de animais, mas aos 21 anos, a viver do outro lado do mundo há quase um ano, a querer dar uma passada maior do que a perna, a precisar desesperadamente de companhia e a viver num condomínio que não permitia seres que não os humanos, eu não tinha muita margem de manobra.

 

A verdade é que manifestei, a todos quantos me quisessem ouvir, que pretendia adoptar um gato de raça. Mas eu não tinha dinheiro para essa aventura - o equivalente a 500-1000€ - pelo que teria de esperar. Foi a desafiar todas as probabilidades, expectativas e reviravoltas do destino que, cerca de dois dias depois, Lord Ennui apareceu na minha vida.

 

Sempre me pareceu um gatarrão, apesar de nas fotos e na memória da minha avó, que esteve connosco durante esse Verão, ser sempre mais pequeno do que é agora. Lord Ennui é um gato exótico de pêlo curto, apesar de ser um engano. Tem pêlo bastante longo, em comparação a outros gatos, e está sempre a largar novelos por todo o lado. Por isso, grande parte do seu tamanho é, realmente, pêlo. Adoptei-o com onze meses, supostamente resgatado de um criador que tratava mal os animais, e recebido numa clínica veterinária nos subúrbios mais subúrbios de Banguecoque, onde o fui buscar numa noite em que chovia o céu inteiro com muita força. Ao sair do táxi para a veterinária, enterrei os pés na lama e fiquei encharcada, uma das mil vezes em que isso aconteceu durante a minha estadia na Grande Manga.

 

Lord Ennui sempre foi um gato bom companheiro. Quando era mais novo, gostava de brincar à apanhada com os meus pés, que fugiam debaixo do edredom, e ele ficava por cima a saltitar e a espetar as unhas fininhas até alcançar a presa. Sempre gostou de se sentar perto de mim, de ficar onde me conseguisse ver, de mirar o movimento e as pessoas da casa. Mesmo quando nos mudámos para Portugal, eu regressada e ele cá pela primeira vez, as suas preferências continuaram a ser as mesmas. Nunca quis colo, nunca se mostrou muito carente por maior proximidade do que a sua simples presença na mesma divisão que os donos. Nunca se deixou abraçar por mais de um ou dois minutos. Nunca se deitou nas minhas pernas, nem sequer chegadinho ao meu lado, apesar de ter apetite sexual e gostar de o mostrar com frequência em relação aos meus braços. A maior prova de proximidade física talvez tenha sido dormir costas com costas comigo, nos primeiros tempos a seguir à adopção.

 

No entanto, o meu pai contou-me há alguns meses que Lord Ennui se punha no colo dele. Suspeitei, mas era verdade. Algumas semanas depois de vir morar com o João, o Lord Ennui e a Coffee Bean para Vila Viçosa, o gato também se deixou ficar algum tempo nas pernas do João, por iniciativa própria. Uns dias depois, foi a minha vez de saborear essa vitória, mas foi sol de pouca dura. Não ficou muito tempo.

 

Finalmente, este fim-de-semana, Lord Ennui não só se enroscou na manta por cima do meu colo, como lá passou pelas brasas e a ronronar. Foram cerca de vinte minutos em que temi mexer-me um único milímetro, não fosse incomodar e espantar sua excelência. Acabou por se levantar para se ir esticar na carpete, mas ninguém me tira o gozo de finalmente ter sido mais ou menos escolhida pelo meu próprio gato para servir de cama humana. Como diz a Rita, foi um occupy, um belo de um occupy.

 

Lord Ennui demorou quase quatro anos a gostar do meu colo. Talvez ainda nem goste dele, mas, no final de contas, pode ser que ele já perceba que o meu colo é um lugar seguro, onde pode vir ronronar sempre que lhe apetecer. Afinal, todos gostamos de colo.

Os problemas em adoptar um gato "em segunda mão"

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Como sabem, adoptei o excelentíssimo Lord Ennui há quase dois meses. Ele tem cerca dum ano, parece ser feliz comigo, come bem mas sem ser uma grande despesa, é saudável, não é exigente nos brinquedos (basta enrolar um bocado de papel higiénico ou arranjar uma caixa de plástico que faça barulho) e está cada vez mais a habituar-se a ser um "gato de companhia".

 

 

No entanto, Lord Ennui não tem só qualidades. O primeiro defeito que tem é... não foi bem tratado pelo antigo dono. E agora vocês dizem "mas isso não é defeito". Bem, para muitos poderia ser. Para mim, é um desafio.
Para muitos, poderia ser, porque um gato - ou qualquer outro ser vivo - negligenciado no passado é um gato com falta de confiança nos humanos.
Lord Ennui adaptou-se instantaneamente à vida num apartamento. Massajou o tapete e roeu-me os dedos dos pés de imediato, encontrou a caixa de areia, demonstrou interesse no chuveiro e não foi esquisito com a comida.

 

No entanto, desde o primeiro dia que notei que não estava habituado a ser o que eu chamo um "gato de companhia". Não sabia saltar para o sofá, não gostava de colo, escondia-se frequentemente debaixo do mobiliário, não se deixava apanhar.

 

A única coisa que sei sobre o passado deste gato é que pertencia a um criador sem escrúpulos. Foi exactamente isso que me disseram. Mais não sei. Uma veterinária recolheu-o e foi à clínica dela que o fui buscar.

Portanto, adoptei um gato desconfiado. Um gato "bicho do mato". Um gato em segunda mão.
Felizmente, está a ficar cada vez mais confortável na rotina da vida caseira.

 

Agora, um mês e meio depois, pede muitos mimos. Aprendeu a comunicar. Vai à janela. Começa a perceber quando está a ser chamado. Sobe para o sofá e para a cama. Pede sempre um pedaço da nossa comida. Corre pela casa em acessos de alegria súbita. Brinca sem fim, incluindo à apanhada connosco.

 

Mas, antes de todo este processo, foi preciso muita calma. Eu queria muito um gato de colo, que gostasse de estar comigo. No entanto, não é possível esperar tal coisa de Lord Ennui. É um gato traumatizado, cujos traumas eu não conheço. Muito prático, não é?
Não é prático, mas é uma missão.

Há que ser paciente. Já diz o ditado: "gato escaldado...". A seu tempo, um gato desconfiado aprende a ser um gato relaxado.

 

Seja como for, não me arrependo um único minuto de adoptar Lord Ennui, indomável, terrível, trapezista, atleta, arisco, mas um gato que, sendo amado como é, só pode ser feliz. Só espero que pare de atirar tudo para o chão, de esconder canetas, de rasgar a cortina do chuveiro e de dormir em cima da minha cara durante a noite.

É Natal!

A minha avó descobriu o supermercado cheio logo às nove da manhã, com filas para as caixas que chegavam à peixaria; o meu namorado foi atropelado na passadeira; uma das minhas gatas bebés, a Nonô, apareceu inexplicavelmente doente, com o corpo mole e sem apetite; já passa das 11 horas da manhã de dia 25 e a minha família ainda não abriu prendas porque adormecemos todos ontem a ver um filme e só despertamos para ir mesmo para a cama.

Mas ainda há milagres de Natal. A minha avó despachou-se no supermercado através das caixas de self-service; o meu namorado saiu ileso de um atropelamento que lhe podia ter magoado as pernas e os pés; a minha gata foi levada ao veterinário , de urgência, antes do jantar, e depois de uma dose de anti-inflamatório os efeitos da febre abrandaram e ela finalmente comeu alguma coisa; bem, e as prendas... podem esperar, desde que o Pai Natal não se lembre de as levar de volta.

Feliz Natal, hô, hô, hô, hô!

 

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Amor de bicho - antes e depois

Andam por aí a circular uns artigos com fotos de tipo "Antes e Depois" de animais de estimação com os seus respectivos donos (ou deverei dizer irmãos?) e eu derreto-me sempre que as vejo, principalmente aquelas que têm um intervalo de muito tempo. Também eu tenho dois cães, dois gatos e uma tartaruga, já tive mais cães que, infelizmente, já não ladram por cá, e por isso também sei o que é crescer com eles e reflectir acerca do que já passámos juntos, do nosso crescimento, porque o engraçado é assistir à evolução dos dois lados. Assim, aqui vos deixo as minhas fotografias favoritas da Internet!

 

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(10 anos depois)

 

 

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(17 anos depois)

 

 

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(14 anos depois)

 

 

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(12 anos depois)

 

 

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(10 anos depois)

 

 

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(15 anos depois)

 

 

*RETIRADAS DAQUI*

Só em Portugal, a selva humana de edição limitada

O Governo (de Portugal, what else?) quer limitar o número de animais domésticos por apartamento para, no máximo, três cães ou quatro gatos. A boa notícia é que eu vivo numa moradia e, de momento, tenho "apenas" dois cães, dois gatos e uma tartaruga, não sendo, de qualquer modo, vítima directa dessa infeliz ideia que os nossos caríssimos políticos querem implementar.

Aliás, será que eles têm alguma coisa contra as tartarugas? Ou contra os próprios cães ou gatos, já agora. Que mal é que eles fizeram às pessoas, afinal? Se alguém tiver um apartamento grande, ou com uma varanda, ou uma vida que lhe permita passear os bicharocos as vezes suficientes de modo a dar-lhes um bom lar e boas condições de vida, não entendo por que haveriam de o proibir de os ter. Pessoalmente, acho muito mais problemático ter uma aranha, seja num apartamento ou numa mansão. Ainda mais problemático que qualquer aranha, ou réptil exótico (tipo anacondas e cenas malucas do género, que isto existe de tudo), é haver animais abandonados aos montes ou a serem treinados para... actividades menos agradáveis. Desde que a presença de vários animais por apartamento não incomode vizinhos, esta nova proposta de lei é uma farsa, um desvio de atenção para assuntos prementemente mais importantes. Não é verdade? 

 

Senhores ministros, senhores deputados, senhores-sejam-lá-quem-forem, sempre tive animais de estimação e penso que só tenho retirado benefícios dessa convivência permanente com eles. E não é só de mim: já foram feitas investigações científicas que provaram que o contacto com animais (domesticados, não como uns certos sujeitos engravatados) reduz o stress e combate eventuais depressões, trazendo-nos sensações positivas de conforto, calma e altruísmo. Como é óbvio, quem aprovou esta proposta decerto nunca terá conhecido tais relações como as que se estabelecem entre um ser humano e um companheiro de quatro patas.

 

Infelizmente, há indivíduos que, de humanos, só têm o polegar oponível e a posição anatómica erecta.

Contudo, felizmente, também há bichos que, de animais, só têm o nome.

Gosto #3

Gosto de dias inesperadamente luminosos no Inverno e de sentir o sol fraco na cara. Gosto da brisa tépida que me descongela do meio-gás em que permaneço até aos primeiros sinais da Primavera.

Gosto de dormir com o meu cão aos pés da cama, porque ele me aquece os meus, enquanto o mero facto de o ter perto de mim me aconchega, simplesmente pelo que representa o calor de outro corpo.

Gosto de abraços, porque aquecem, não só o físico, como também o coração, enquanto transmitem uma ternura que só quem nos é querido consegue transmitir. Pela mesma razão, gosto igualmente de dar as mãos (e as minhas estão sempre geladas!).

Gosto de beijos que incendeiam o ego e arredores, sejam breves, longos, ocasionais, repenicados, imprevistos, imprevisíveis, pedidos ou roubados. Aliás – toda a gente gosta.

Enfim, gosto da luz, do calor e do fogo.

 

(Já começa a estar frio.)