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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Considerações sobre o fio da navalha (ou as dificuldades invisíveis dos trabalhadores independentes)

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Sob o pretexto de estarmos à beira duma crise económica, ou de estarmos a atravessar tempos difíceis, há quem se queixe de que os profissionais independentes (como é o caso de professores e formadores, ou seja, o meu caso) estão a cobrar demasiado dinheiro pelos seus serviços. Não podemos cobrar X valores, temos de cobrar Y, porque X é muito para esta época. Temos de baixar os preços, dizem essas pessoas. Temos de ser solidários.

 

Assim, sob um pretexto de falsas boas intenções e hipocrisia, este desprezo dedicado aos trabalhadores independentes, vulgo freelancers, uma classe tão vulnerável quanto qualquer outra, deixa-me bastante desapontada. Não sabe quem reclama dos preços praticados que, com crise ou não, as obrigações fiscais, legais e contributivas continuam a ser as mesmas? Não sabem essas pessoas que o facto de estarmos em teletrabalho não invalida o facto de estarmos a negociar o nosso tempo e a nossa sanidade mental? Não sabem essas pessoas que os trabalhadores por conta própria também vivem no fio da navalha? Não sabem que também estamos expostos à recessão que se adivinha?

 

O meu tempo tem um preço. Os serviços que presto têm um preço. É o meu preço justo e não o aumentei nem diminuí nas últimas semanas. Aliás, continuo a trabalhar com um estoicismo e em tentativa de normalidade que me surpreendem na mesma medida que me deixam ainda mais exausta ao final dum dia à frente do computador, mais do que seria, lá está, normal.

 

Tenho muita sorte, porque acertei numa actividade profissional que vinga, apesar de tudo, no meio da pandemia, e que neste momento até tem algum potencial de desenvolvimento. Contudo, tal como tenho sorte, não me falta engenho. O que me pagam não se justifica apenas pelo meu tempo a trabalhar; uma hora de trabalho não é uma hora. Na minha opinião, o que me pagam deve ser proporcional à formação contínua e ao desenvolvimento de competências e conhecimento nos quais invisto de forma constante. No ano passado, completei quase dez cursos de formação em áreas relacionadas com a minha actividade, além da formação universitária que continuo a frequentar em paralelo. Por esse e tantos outros motivos, não me peçam borlas.

 

Além disso, o que adoptei como vocação e profissão não é um bem ou serviço de primeira necessidade. É, se quisermos, um luxo. Há alternativas, algumas - muitas - delas gratuitas. Os mesmos queixosos que defendem que os professores/formadores por conta própria deveriam cobrar preços mais baixos, porque se pode aprender essas mesmas coisas na Internet, através de apps, sites e programas chapa 0, são os mesmos sujeitos que não utilizam essas ferramentas e que quase exigem ter um criado que sabe coisas ao seu dispor.

 

Correndo já o risco inevitável de enveredar pela personalização da minha mensagem, remato com um apelo: não questionem cegamente quanto custa recorrer ao trabalho de um profissional independente (sim, aquela pessoa dos recibos verdes, que pode ser um canalizador, um professor, um técnico de manutenção, um empregado de limpeza, um consultor, um médico privado ...). Comparem, informem-se, tenham noção, mas não ditem o que outra pessoa deve ganhar sem pensar em tudo isto. Num mundo onde o low cost e a precariedade são banais, apelo a que valorizem a qualidade pelo seu custo justo. Desta forma, se não concordarem com a primeira proposta que receberem, o melhor a fazer é procurar quem vos possa apresentar uma melhor, ou uma mais adequada às vossas necessidades e possibilidades.

 

Quem quer fazer omeletes sem ovos deveria resignar-se ao facto de que tal fenómeno, por norma, não existe. Ainda estou para conhecer um produto ou um profissional de notória qualidade e eficiência que não tenha valido todos os meus cêntimos. É assim que quero que os meus clientes/alunos se sintam: que eu não sou uma profissional low cost, mas que o retorno faz valer a pena - seja em tempos prósperos ou de escassez.

 

E, se o leitor também for trabalhador independente, não se deixe enganar, reduzindo o valor do que faz. Uma coisa é negociar, outra coisa é ser desvalorizado.

Encomendar livros durante o estado de emergência: um dilema

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Hoje encomendei imensos livros dum site nacional, porque têm um dia de descontos e eu quis aproveitar para conseguir alguns livros que tenho vontade de ler/ter há muito tempo.


Sei que muitas pessoas têm o emprego em risco, empresas que não sabem o dia de amanhã, e sinto o assunto de forma aguda porque o meu pai trabalha na Sá da Costa (Lisboa) e tiveram de fechar ao público. As perdas vão ser mais que muitas. Na Sá da Costa, continuam a trabalhar em armazém, dizem que têm trabalho para dois meses, mas e depois...? Tenho medo que os serviços e indústrias ligados aos livros, que me são tão queridos, sejam irreversivelmente afectados e que, mesmo a meio gás, seja uma parte da economia a sucumbir (ainda por cima, sendo Portugal um mercado muito pequeno). Assim, ao fazer a encomenda, pensei "é uma empresa portuguesa, mandei vir livros da autores e editoras nacionais, vou dar-lhes um empurrão." Infelizmente, a realidade é espinhosa e fui alertada para o seguinte: há pessoas a trabalhar na distribuição, que estão na rua, enquanto eu estou resguardada em casa. Nem todos temos trabalho durante esta pandemia, e muito menos são aqueles que o podem fazer a partir do seu lar.


E, agora, devemos parar tudo? Ou devemos continuar a tentar estimular o que ainda sobrevive nestes tempos estranhos, principalmente pequenas empresas do país? Afinal, sabe-se lá até quando é que poderemos, sequer, fazer encomendas...

 

Fica por aqui o dilema.

Faz parte

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Faz parte a ansiedade. Faz parte o silêncio. Faz parte ter dias bons. Faz parte ter dias maus. Andamos todos nesta roleta russa de emoções, horas vagas e ocupadas, novidades e notícias, opiniões e impressões. Faz parte não saber muito, nem saber nada.

 

Também me sinto assim, mas estou a tentar interiorizar: faz parte. Não sei muito bem como me sinto, na verdade, só sei que é assim. Há momentos em que acho mesmo que estou contente e bem-disposta, mesmo que na hora seguinte dê comigo a ruminar de peito apertado. Aliás, escrevo este texto porque preciso de esvaziar tudo. Faz parte desabafar, mais do que nunca, e talvez a vulnerabilidade se torne mais popular daqui para a frente. Faz parte ser-se vulnerável, ter dúvidas e dores.

 

As pessoas à minha volta também estão assim. Agora, estamos em todo o lado, sem estarmos em lado algum. Tenho falado diariamente com amigos, continuo a dar aulas por videoconferência e a trabalhar pela Internet e no computador. Não me canso nos transportes, tenho mais tempo para dormir; só que não tenho sono, tal como não tenho concentração, e ando presa num ciclo de escassez. (O tempo encolheu, ou faz parte?)

 

Não é copo meio cheio, nem meio vazio – é só ter um copo e não saber o que se verte lá para dentro. Mas faz parte não ter respostas às perguntas que nos ocorrem agora, não é?

 

Faz parte ter saudades, sem data de regresso. Faz parte ter quebras de rede a meio duma conversa e ter de renovar votos pelo Skype. Faz parte mudar para o Zoom, porque o Skype está em baixo.

 

Faz parte olhar com preocupação, e ao mesmo tempo curiosidade, para as mudanças que se prevêem na economia. As estruturas económicas e sociais vão mudando, ainda que temporariamente, ainda temporariamente, e o desconhecido, a ameaça e a instabilidade fazem parte. Isto faz tudo parte duma receita que nunca experimentámos.

 

Faz parte não discernir o espaço de trabalho e de lazer, faz parte sentir a revolta de quem vê o seu emprego em risco, faz parte sentir um luto colectivo pelas vítimas. Faz parte acharmo-nos todos um bocadinho vítimas. Faz parte viver um dia de cada vez, porque não somos imunes ao que acontece aos outros. Enfim, faz parte pensarmos que isto está a correr muito mal, mas que por outros motivos tem seriamente de correr bem – para guardarmos a nossa sanidade mental, a dos que nos são próximos, a dos que estão longe, a de toda a gente. E ter esperança, faz parte? Espero que sim.

 

Faz parte juntar pânico e optimismo, chorar e rir no mesmo dia, sentirmo-nos sós e tão bem acompanhados. Faz parte ter partes e viver por partes.

Ainda a despenalização da eutanásia

No outro dia, a minha avó disse-me uma das coisas mais dolorosas de sempre. A minha avó disse-me que, no dia em que se vir sem liberdade de movimentos, sem conseguir garantir a sua independência e autonomia, com dores físicas (e principalmente uma grande dor interior), vai pensar em suicidar-se.


No que toca a esta discussão sobre a despenalização da eutanásia em Portugal, confesso que me poderão faltar argumentos técnicos, médicos ou legais. No entanto, o que não me falta é a sensibilidade de alguém que ama e pretende proteger os seus entes queridos de qualquer dor, até ao fim dos seus dias, não importa quando ou porquê. Quero que vivam por gosto, não por obrigação. Mas não é fácil chegar a consenso nestes assuntos, pois não?


A minha avó é a minha heroína. Quando me faltou uma mãe, foi ela que se chegou à frente para ocupar essa função. É a pessoa mais generosa, abnegada e também senhora do seu nariz e da sua liberdade que conheço. A minha avó tem 78 anos, mas pega no carro e nas suas pernas e lá vai ela a todo o lado, principalmente pelos outros. Claro que a idade pesa e não vai para trás, por isso também sente que a agilidade e a rapidez do corpo de outrora já não são as mesmas. As pessoas não são eternas, o corpo humano é falível.


A minha avó é a pessoa mais importante da minha vida e eu não quero que a pessoa mais importante da minha vida vá dormir a pensar que, se sofrer um envelhecimento incapacitante, a única solução para terminar os seus dias com a dignidade que acha necessária (o que inclui a sua individualidade, a sua liberdade, a sua saúde e conforto) passará por morrer sozinha e de sabe-se lá que forma, em segredo, por desespero.


E, assim como no toca à minha avó, não quero que nenhum português tenha de ouvir da boca dos seus familiares ou amigos que, um dia que percam as condições necessárias para viver com a dignidade que consideram necessária, por motivos de falta de saúde, pretendam suicidar-se, ou que sequer pensem nisto.
Infelizmente, há outro lado. Eu também não quero que a alternativa a esse fim aconteça sem lei, sem garantias de suporte psicológico, sem consenso entre médicos, sem condições hospitalares, sem fundamentação, sem garantias, sem mecanismos que possam proteger as famílias que assim escolhem. Tomar uma decisão colectiva seria só o primeiro passo: e o resto?


No fundo, o que me preocupa é que a sociedade e o horizonte político do país ainda não estejam preparados para um passo tão significativo como a legalização da eutanásia. Nem a lei, nem as pessoas me parecem ter os recursos e o entendimento necessário para levar esta decisão e respectivas consequências avante. Se eu gostava que estivéssemos protegidos e pudéssemos confiar nas autoridades médicas e legais, caso alguém que amamos já não tenha assegurada a condição humana intacta? Caso esteja em tamanha dor física e/ou psicológica que mantê-lo vivo seria pura crueldade? Gostava muito.


Mas será possível confiar que erros de julgamento e diagnóstico, buracos na legislação e na discussão filosófica e societal não vão ocorrer, mesmo que por acidente? Disso já não tenho a certeza. Por isso, sobra-me pensar que a discussão sobre a legalização da eutanásia nos deveria fazer dar as mãos e unir esforços, em vez de nos colocar nos extremos da bancada. Este não é um assunto de esquerda, de centro ou de direita. É um assunto de humanidade, que pede tolerância, cautela e muita cooperação na procura de respostas. Afinal, não se brinca com a vida (e a morte) humana. Sim, eu sou a favor da possibilidade de eutanásia, mas talvez não num país como o Portugal de hoje. A minha avó merece melhor.

 

***

Entretanto, depois de eu ter escrito este texto, o parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida foi divulgado: aqui.

Ler as notícias

Nos últimos meses, andei a sentir, mais do que nunca, a redundância das redes sociais e da comunicação social. No ano passado, o excesso de informação chegou mesmo a contribuir para os meus ataques de pânico e para o estado de pânico em que vivia em geral, mas continuei a consumi-la, ou a tentar consumi-la até ao início deste ano.

 

O excesso de informação fez-me sentir insuficiente. Eu queria ler as notícias, queria ler tudo, estar a par de tudo o que me interessava. Nunca achei que fosse FOMO (fear of missing out), porque eu não tinha medo, só tinha pena, antes considerando esta vontade de não estar alheia a nada como uma sede aparentemente saudável de saber mais. Afinal, se eu soubesse mais, também teria mais chances de ter tudo sob controlo.

 

Obviamente, isto não correu bem a longo prazo. A ansiedade constante é o preço a pagar, mas felizmente comecei a olhar em volta. Olhei para duas pessoas como exemplos especiais: o meu namorado só vê o telejornal ou vai ouvindo os canais de informação enquanto come, prepara a comida ou limpa a cozinha; uma amiga que é jornalista assegurou-me que nem ela está a par de tudo, apesar de trabalhar em notícias europeias para o nosso canal público. Nenhum deles é fã acérrimo de redes sociais, nem essa minha amiga, cujo trabalho também passa pela gestão de notícias no Twitter, Facebook, Instagram e por aí fora. Ambos consomem informação de forma equilibrada. Há momentos específicos para o fazer.

 

Aos poucos, apercebi-me da quantidade de tempo que passava com o nariz enfiado no telemóvel. Primeiro, instalei uma app para vigiar a utilização diária. Apesar de parte desse tempo ser gasto a trabalhar ou estudar (marcar aulas, tomar notas, falar com futuros clientes e parceiros, escrever, ler), a verdade é que cheguei marcar recordes inacreditáveis: entre cinco a sete horas por dia.

 

Desculpei-me a médio prazo com o facto de também passar muito tempo a falar com amigos e com o meu namorado por mensagens, e por nem sequer utilizar o computador. Por fim, descobri uma série nova de que gosto muito e concluí que aquelas três horas diárias a devorar episódios provavelmente correspondiam a três horas que eu passava a procrastinar na Internet noutros dias. Ora... Se tinha arranjado três horas para ver uma série, poderia continuar a arranjá-las sistematicamente para tantas outras actividades, certo?

 

Assim foi. Pelo meio, li o livro As Notícias, do meu autor favorito do momento, Alain de Botton. Neste livro confirmam-se as minhas suspeitas. Por exemplo, muitas das notícias que consumimos diariamente não são tão importantes quanto a urgência dos media faz parecer (e quem diz notícias diz conteúdos vários que nos passam pelos olhos avulso). Há uma tendência para a catástrofe, para o voyeurismo e para o que confirma a nossa suspeita de que o ser humano não presta. É normal, porque o nosso cérebro ainda não está formatado para a recepção constante de informação do século XXI, ainda não sabe seleccionar intuitivamente.

 

Enquanto consumidora, acho importante escolher conteúdos úteis e notícias que também sejam positivas, que não mostrem só a face negra da condição humana. Ser humano é saber o que vai mal no mundo, para assim sobrevivermos e sabermos o que há para melhorar, que batalhas lutar. Por outro lado, ser-se humano também é olhar para as conquistas, para feitos alheios e personalidades que admiremos, procurar respostas para o que podemos emular para nos desenvolvermos e crescermos; é regozijarmo-nos pela generosidade e talento alheios, é reconhecermos o valor acrescentado. É lermos e vermos informação graças à qual podemos tomar acção.

 

Em suma: nem sempre é imprescindível ler as fofocas sobre a celulite daquela cantora, nem conhecer os pormenores sórdidos do homem que assassinou a família com um machado, nem destrinçar a falência duma empresa do Japão ou o mais recente escândalo sexual ou político. Tal como no trânsito, podemos questionar-nos: que bem fará eu olhar? Que bem fará eu ler as notícias? 

 

Enquanto andamos distraídos a olhar para o lado - isto é, para as manchetes, alertas de última hora, títulos infindáveis sobre a nova crise da época, últimas descobertas científicas sobre propriedades antioxidantes do abacate colhido em lua cheia - podemos estar a perder algo realmente importante, bonito ou útil.

Quem é que escreveu o teu texto?

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Nos dias que correm, parecemos ser todos produtores de conteúdo instantâneos. Independentemente da faixa etária, utilizamos a Internet e aplicamos  asnossas competências digitais de forma inata, porque nascemos com cada vez mais dispositivos electrónicos à nossa volta e são-nos dadas cada vez mais comandos, telemóveis, computadores, tablets e mil engenhocas para as mãos quando somos cada vez mais novos. Por isso, a possibilidade de produzir conteúdo para um público vasto é um dado adquirido, ainda por cima num país como Portugal, onde facilmente nascemos com veia de escritor (até aqueles que pouco lêem). 

 

Tenho passado algum tempo no LinkedIn e, nesta rede social em particular, fico assoberbada pela quantidade do que por lá se escreve, a rodos. Fica a impressão de que há sempre algo para contar, toda a gente tem algo a contar, toda a gente é inspiradora e toda a gente conhece outro alguém com uma história inspiradora. Atenção: os textos que por lá se lêem nem são maus; são só "poucochinhos". A democratização das técnicas de storytelling (meras fórmulas) não traz necessariamente histórias que interessam, sem criar mais ruído. À parte a prática do amor próprio e ao próximo, que muito admiro e prezo, olho para esta entropia de histórias com pesar e cepticismo. A verdade é que quantidade não é qualidade, e muito menos novidade.

 

Felizmente, há histórias bem contadas e textos muito bons, que perfazem uma boa fatia do que tenho lido. E o que é uma história bem contada ou um texto muito bom? Claro que este meu próprio texto resulta de um exercício de altivez propositado, e que haverá critérios para todos os gostos. Assim, atrevo-me a apontar que, para mim, acima de tudo, um bom texto é um texto em que consigo ler a voz do autor. É um texto que não se parece com outros, seja pelo género, registo, tema, conteúdo, forma, respeito ou desrespeito pelas regras gramaticais... É um texto onde (sobre)vive alguém, e onde se nota um esforço de inovação e de permanência de uma tal voz autêntica, que não se copia. Quem escreveu o teu texto? Quem é que habita o teu texto? Quem é o autor assumido do teu texto? Foste tu a escrevê-lo ou poderia ter sido outra pessoa qualquer?

 

Como resposta a estas perguntas, não há mesmo fórmulas possíveis. Não há "princípio-meio-fim", título cativante ou primeira frase cheia de impulso que salve um texto. Estes são só o ponto de partida para algo que pode ser nosso, se o deixarmos acontecer, porque há mais além manuais de escrita criativa. Há pessoas.

Andamos cronicamente ansiosos: O mundo à beira de um ataque de nervos (Matt Haig)

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Ao olhar para a lista de livros que já li este ano, apercebi-me de que tenho andado a ler muita não-ficção, como não me lembro de alguma vez ter lido. Continuei por esse caminho com O mundo à beira de um ataque de nervos (em inglês, com o título original Notes on a Nervous Planet, que faz muito mais sentido), de Matt Haig. Este também é o autor de Razões Para Viver, sobre como ele próprio sobreviveu aos seus problemas de ansiedade, à depressão e aos pensamentos suicidas aos vinte e poucos anos. Por isso, O nundo à beira de um ataque de nervos poderia quase ser a continuação dessa reflexão, agora menos pessoal e mais dirigida a todos nós, parte duma humanidade cronicamente ansiosa e nervosa.


Quando vi este livro pela primeira vez na Fnac, agarrei-o e devorei 30 páginas em quinze minutos. É um livro fácil, tem a letra gordinha e espaçada, a edição em português está bem concebida e por isso e mais alguma coisa dá prazer lê-lo.


Para mim, essa mais alguma coisa é o tema e o facto de não só concordar como também me rever no que está escrito. Segundo Matt Haig, estamos sobrecarregados de informação e estímulos, facilitados pelos constantes avanços tecnológicos e pelo uso da Internet.


Tantos textos que já escrevi sobre isto e, de repente, encontro outra pessoa, a milhares de quilómetros de mim, com um perfil tão distante, a dissertar sobre a mesma coisa, da forma como eu gostaria de também ter escrito, o que eu gostaria de ter escrito. Ao longo desta semana e meia, fui deixando algumas das minhas partes favoritas no Instagram.

 

 
 
 
 
 
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Ao mesmo tempo, repensei o meu uso das redes sociais e das expectativas que criamos ao ver os corpos perfeitos, os planos perfeitos, as relações perfeitas, as refeições mais saborosas, os sorrisos mais contagiantes, as férias mais relaxantes, que na verdade são apenas uma parte da vida das outras pessoas. Afinal, tendenciosamente, publicamos o que de melhor nos acontece, conteúdo que sujeitamos a um processo de curadoria digital, raramente o contrário, pelo que a medida de comparação deve também ser o nosso melhor, não a nossa figura descabelada em pijama no momento em que consome essa (des)informação. E queremos tudo para ontem! Em suma, repensar é o primeiro passo para encontrar soluções e entrar em acção. Além da crítica e autocrítica à utilização das redes sociais, são partilhadas ideias para sermos mais felizes tanto ao usá-las quanto longe delas, e como podemos dosear o consumo de notícias para nos mantermos informados, sem ficarmos assoberbados.


Li as primeiras duzentas páginas em poucos dias, mas a segunda metade do livro custou-me um pouco mais, porque as reflexões começaram a ser repetitivas e acessórias. A ideia principal é sempre: estar consciente dos problemas é como a solução para esses mesmos problemas, para recuperarmos o controlo sobre como nos comportamos enquanto utilizadores dos meios de comunicação e redes sociais. Sobre a tradução, acho que precisa de alguma revisão, mas eu nem costumo gostar de ler traduções portuguesas do inglês e esta não me pareceu terrível.


No entanto, não deixo de recomendar este livro. Matt Haig conseguiu muito bem incitar-me a pensar no que me provoca ansiedade, no meu consumo de informação que não contribui em nada para ser mais feliz e em como nos estamos a tornar, humanos, em estatísticas para o sistema capitalista do marketing digital. Por um lado, acho o marketing uma área extremamente interessante, tal como as ferramentas que utiliza e as estratégias criadas, mas também assustadoramente perigosa quando não utilizada para o bem dos indivíduos (sobre tal assunto, recomendo este livro). A democracia enfrenta novos desafios na era digital, tal como o bem-estar físico e mental dos cidadãos, por isso, à medida que as transformações ocorrem, a sociedade deve encontrar estratégias igualmente funcionais para se proteger dos perigos eminentes.


🧾 E ler, seja não-ficção ou ficção, pode ser uma dessas estratégias! O que andam a ler ultimamente que vos tenha feito abrir os olhos sobre algum tema específico? 📚

Violência doméstica na literatura portuguesa: Preciosa (Nelson Nunes)

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Há livros que são mais difíceis de ler do que outros. Normalmente, são mais difíceis porque têm frases longas, ideias complexas que somos incapazes de seguir. Ou, então, porque não concordamos com o autor, não o entendemos, não conseguimos encontrar nada em comum e que nos estimule a ler mais. (Que outras razões vos atrasam a leitura?)


Depois, há livros que são difíceis de ler porque há coisas que doem só de imaginar, quanto mais saber que muito do que o autor escreveu também lhe aconteceu, tal como a pessoas muito próximas de nós. Felizmente, nem a violência doméstica nem sequer as relações tóxicas fazem parte da história da minha família. Aliás, terão de facto existido, mas antes de eu ter sido gente. No entanto, já assisti a muita coisa nas famílias dos outros e já conheci as consequências em primeira mão do que é viver e ter crescido numa casa em que a violência física e psicológica são um dado adquirido por várias décadas. Pode não me ter acontecido a mim, mas já aconteceu à minha frente e já ouvi vários relatos na primeira pessoa.


Dito isto, foi muito difícil ler o livro Preciosa, do Nelson Nunes (autor que devem conhecer mais à conta da não-ficção), lançado na semana passada. Corri a comprá-lo no dia em que saiu, não só por conhecer o Nelson há alguns anos e adorar as crónicas dele, mas também por curiosidade sobre este livro, cujo tema ainda não faz explicitamente parte da literatura portuguesa. Finalmente, a violência doméstica é retratada na ficção, ou na ficção quase autobiográfica. Acabei por lê-lo em três dias, embora seja um livro curto, porque não conseguia ler muito mais do que 20 páginas de seguida.

 

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Depois de o Preciosa ter sido recomendado por Marcelo Rebelo de Sousa e Cristina Ferreira, há pouco que eu possa acrescentar à opinião pública. Resta-me admirar e agradecer a coragem do Nelson Nunes, que reabriu portas do seu passado para partilhar connosco algo tão perturbador e definidor numa vida quanto a existência dum pai que o inspirou à criação da personagem Isaac. Voltar a expor a ferida para escrever sobre o que nos atormenta para que a história possa ser partilhada como elogio à sobrevivência possível e para a consciencialização pode ser libertador, mas de fácil deve ter muito pouco. Ao mesmo tempo, a homenagem prestada a uma mãe igual a Esmeralda é a parte mais bonita. A acção desta mulher forte deve-nos servir de lição para conseguirmos mais ou menos tudo na nossa vida - se ela foi capaz de se refazer duma fase tão negra e devolver segurança e uma vida boa a um filho, qualquer um fica a sentir que também conseguirá seja o que for.

 

Apesar das falhas na sociedade, do silenciamento das vítimas, da desresponsabilização dos agressores, da desvalorização e normalização da violência nas relações, é-nos deixada uma mensagem de esperança - e de alerta - sobre a possibilidade de pedir ajuda e de a vida poder continuar. Espero que livros como este possam trazer o tema da violência doméstica para cima da mesa colectiva, de modo a quebrar-se o silêncio e a tentar chegar a coragem a quem mais precisa de se fazer ouvir.


Na minha opinião, este Preciosa é também uma chamada de atenção para as tais consequências, na forma de mazelas que, se não físicas, são psicológicas e afectam a forma como quem já viveu num lar a desfazer-se por estes motivos encara a relação consigo mesmo e com os outros pela vida fora, principalmente quando muito jovens. Na minha geração, vejo e conheço exemplos de dois caminhos possíveis na idealização do amor: a concretização do ciclo de relações violentas, que se repete, porque foi assim que se viu fazer, estando enraizado e normalizado; ou exactamente o contrário, a dúvida e a preocupação constante com o bem-estar do outro, o medo de desapontar e de poder magoar, a consciência constante dos precedentes e a sua evitação a qualquer custo, combinados com baixa auto-estima, sentimentos muito bem retratados pelo Nelson Nunes. Penso que ainda existe a sensação de que "temos é de ser fortes", e que o passado fica no passado, e que as coisas passam (mas não passam) e que estas gerações mais novas só se sabem queixar, enquanto deviam era aprender "que é assim a vida, difícil, temos de aguentar". Aguentar coisa nenhuma! Há sempre algo mais que pode ser feito. Não, não nos devemos conformar com esta miséria de espírito e as vítimas devem ser ouvidas e apoiadas, nomeadamente a nível da sua saúde mental. Não há justificação para se bater ou maltratar seja quem for, muito menos alguém de quem se "gosta".


Que a literatura nacional continue a inspirar a mudança nos pseudo-costumes nefastos e nas mentalidades pequenas do nosso país! Que uma voz seja dada a quem a perdeu! Que possamos abrir os olhos para o que se passa à nossa volta e não contribuir para ciclos de violência, para a desvalorização do mais "insignificante" acto de violência e a falta de atenção dada às vítimas pelas autoridades mas também por quem as rodeia, que decide não fazer nada, para não se intrometer. Não podemos ser cúmplices. Como devem saber, as estatísticas da violência doméstica em Portugal nos primeiros meses de 2019 provam o quanto ainda está por conquistar.


(Se puderem, leiam este livro, que não há-de tomar-vos muito tempo, mas que vos poderá relembrar desse tanto que a sociedade tem por conquistar, ou ofereçam-no a quem possa beneficiar desta história e da sua mensagem.)

 

Obrigada, Nelson, por teres escrito (mais) um livro que pode vir a fazer a diferença! 👏

A leitura na era digital: Reader, Come Home (Maryanne Wolf)

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Comecei a ler Reader, Come Home - The Reading Brain in a Digital World (da investigadora Maryanne Wolf) no âmbito das minhas incursões recentes à literatura sobre cognição e a forma como o cérebro lê - ou seja, como nós, seres humanos, lemos. Eis a minha opinião e o resumo das ideias sobre este livro que me encheu as medidas.

 

Mais uma vez, o cérebro. A literacia digital e em papel. O conceito empatia, que tem alcançado algum destaque ultimamente, na academia e fora dela. A leitura (uma invenção cultural e para a qual o cérebro dos homens nem sequer nasce preparado) como meio de tornar as crianças de hoje em dia e dos próximos anos em cidadãos responsáveis, informados e críticos.


Maryanne Wolf tem dedicado a sua carreira académica a estudar o cérebro e a influência da leitura a nível neurológico, em termos interiores e exteriores. Afinal, mudanças causadas pelo exterior ao interior também provocam consequências exteriores. E por aí fora. A criação de hábitos de leitura sólidos desde cedo promove o desenvolvimento da inteligência, da memória, da atenção e do sentido crítico.


No entanto, este seu livro mais recente, Reader, Come Home, é mais um "sinal dos tempos", concentrando-se na passagem da leitura em papel, mais paciente e prolongada, para a leitura digital, facilmente interrompida pelas distrações doutras fontes ou mesmo que estão presentes em recursos do próprio texto (como os e-books para crianças ou até notícias online com hiperligações e pop-ups).

 

Nesta era digital, a própria autora deu por si a debater-se contra a sua incapacidade de apreciar os livros da sua infância e juventude, clássicos da literatura que moldaram a sua vida, mas que agora se apresentavam como obstáculos intransponíveis. Maryanne Wolf tinha perdido a capacidade de se concentrar em leituras mais desafiantes, que lhe pediam paciência e perseverança. Então, tanto a própria autora, quanto o "leitor" que ela interpela, são convidados a regressar à "casa" ou ao "lar" que é a leitura prazerosa, imersiva e prolongada que nos retira deste mundo. Certamente que todos nós que gostamos de ler desde pequenos nos lembramos de ser engolidos por um livro e, provavelmente, ainda hoje guardamos saudades dessas memórias.


Por estas razões, a investigadora da Tufts University, nos EUA, decidiu estudar a alteração nos seus hábitos de leitura e, consequentemente, nos hábitos de toda a gente, em particular de crianças, e o que fazer quando chega a altura de as expor a livros e/ou dispositivos electrónicos. 


Apesar de Reader, Come Home deixar mais hipóteses, preocupações e questões do que respostas empíricas, acho que me fez pensar sobre o que poderá ser feito no futuro para nos asseguramos de que criaremos cidadãos com literacia dupla, bilingues no que toca à leitura em papel e leitura digital, capazes de retirar de cada uma delas os melhores proveitos, atributos e capacidades cognitivas, não desprezando nem uns nem outros meios, mas sim navegando facilmente entre ambos os tipos.


Na minha opinião, Reader, Come Home é um livro para todos aqueles que se interessam pelo futuro dos livros e da leitura. Ler não é um processo cognitivo a que nos expomos "só porque sim". Ler mais deve, idealmente, aguçar a nossa reflexão e empatia, através do conhecimento e compreensão doutras vidas, assuntos que antes ignorávamos, articulação cuidada de pensamentos doutras pessoas. Ler bem, em geral, é uma necessidade e obrigação dos cidadãos que vivem numa democracia.

 

E vocês, ainda sabem o caminho de volta "a casa"?

Quanto vale uma educação: Educated (Tara Westover)

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Quanto valor pode ter uma educação? Quase todos nós tomamos tantas vezes a nossa instrução como garantida. Nos meios onde cresci e estudei, entre o fim do século XX e início do século XXI, nunca conheci ninguém que não tivesse nascido sem ter a certeza de que iria à escola, o que não é o caso da protagonista deste livro: Educated, o livro de memórias de Tara Westover (traduzido em português como Uma Educação, pela Bertrand Editora).

 

Nota: este vai ser um texto longo. Desde que comecei a ler o livro até o terminar dificilmente o larguei. Foi assim que Educated me fez sentir: eu tinha de saber como acabava o relato desta rapariga, nem uma década mais velha que eu, mas com uma vida tão complexa e cheia de feitos tão memoráveis.


Educated descreve os primeiros vinte e tal anos de vida da autora americana; perguntarão vocês como é que alguém tão novo terá tanto (quase 400 páginas!) para contar. Ao contrário do que é esperado duma criança num país desenvolvido, Tara não foi à escola até ter entrado na universidade, aos 17 anos. A família, mórmon, crente no Fim dos Dias e em teorias da conspiração sobre a doutrinação do Governo através da escola e do serviço de saúde, manteve-a longe do resto do mundo até Tara ter seguido os passos dum irmão mais velho rebelde e se ter autoproposto e inscrito na Brigham Young University.


Não vos quero contar muito mais do que as outras sinopses da Internet já contêm, mas deixo-vos uma nota de precaução: este não é um livro fácil, emocionalmente. Tara Westover escreve mesmo muito, muito bem, como se já tivesse uma carreira literária longa, por isso conseguiu prender-me a cada novo parágrafo, mas o que lá está escrito não é bonito. Na infância, adolescência e primeiros anos de idade adulta dela houve muita violência, frustração, mentiras, obstáculos físicos e morais, incompreensão, solidão... É uma daquelas leituras que nos encanta e assombra em simultâneo. A certo ponto, o que mais surpreende deixa de ser o facto de Tara ter chegado a frequentar a universidade, mas sim, contra a vontade de toda a gente que a rodeava, ter alcançado um percurso de sucesso de zero a Harvard em menos de dez anos.


No fim, concluí: a curiosidade pelo mundo recém-descoberto, a cada nova disciplina ou pessoa que conhecia, desempenhou um papel muito importante na vida de Tara. Poder aprender numa sala de aula e usufruir duma educação universitária nalgumas das melhores instituições do mundo não foram experiências que pudesse fazer intuitivamente, ao contrário dos seus colegas. Só quase aos trinta anos é que deixou de se sentir isolada e diferente. No entanto, permaneceu a vontade de saber e conhecer mais. Para nós, os leitores, serve-nos de lição ou para refrescar a memória para valorizarmos a nossa escolarização, socialização e oportunidades de fazer mais e melhor. Relembra-nos que ir à escola ou à universidade não é só ouvir um tipo qualquer falar durante hora e meia. Mesmo a informação mais insignificante que nos possam oferecer deve ser tida em conta, porque, tal como Tara, acabamos por aprender algo novo sobre o que é ser humano, algo sobre o mundo, nem que seja um pretexto para procurarmos mais nos livros, na Internet ou para perguntarmos a quem percebe do assunto. Lutar por uma educação é imprescindível. Uma educação não é escolher o curso com mais empregabilidade; é, acima de tudo e simplesmente, poder aprender.

 

The decisions I made after that moment were not the ones she  would have made. They were the choices of a changed person, a new self. 
You could call this selfhood many things. Transformation. Metamorphosis. Falsity. Betrayal. 
I call it an education.


Enfim. É impressionante como uma miúda cheia de medo e um passado doloroso pôde transformar a sua vida por completo, reinventá-la e reinventar-se. Não quero dizer que não teve momentos de fraqueza, mas na minha opinião é preciso ser-se realmente forte para se ser o protagonista duma vida como esta.


Li em muitos outros textos de opinião que Educated é um livro para todos os gostos e confirmo. Não costumo ler muitos relatos autobiográficos, mas este valeu a pena. É muito difícil deixar a meio um livro assim.


Vejam ainda os textos e vídeos que deixei em hiperligações pelo meio do texto.


Boas leituras! 📚

 

(Este é também o livro que li para o mês de Fevereiro a propósito do desafio Uma Dúzia de Livros, da Rita da Nova).