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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

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Andamos cronicamente ansiosos: O mundo à beira de um ataque de nervos (Matt Haig)

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Ao olhar para a lista de livros que já li este ano, apercebi-me de que tenho andado a ler muita não-ficção, como não me lembro de alguma vez ter lido. Continuei por esse caminho com O mundo à beira de um ataque de nervos (em inglês, com o título original Notes on a Nervous Planet, que faz muito mais sentido), de Matt Haig. Este também é o autor de Razões Para Viver, sobre como ele próprio sobreviveu aos seus problemas de ansiedade, à depressão e aos pensamentos suicidas aos vinte e poucos anos. Por isso, O nundo à beira de um ataque de nervos poderia quase ser a continuação dessa reflexão, agora menos pessoal e mais dirigida a todos nós, parte duma humanidade cronicamente ansiosa e nervosa.


Quando vi este livro pela primeira vez na Fnac, agarrei-o e devorei 30 páginas em quinze minutos. É um livro fácil, tem a letra gordinha e espaçada, a edição em português está bem concebida e por isso e mais alguma coisa dá prazer lê-lo.


Para mim, essa mais alguma coisa é o tema e o facto de não só concordar como também me rever no que está escrito. Segundo Matt Haig, estamos sobrecarregados de informação e estímulos, facilitados pelos constantes avanços tecnológicos e pelo uso da Internet.


Tantos textos que já escrevi sobre isto e, de repente, encontro outra pessoa, a milhares de quilómetros de mim, com um perfil tão distante, a dissertar sobre a mesma coisa, da forma como eu gostaria de também ter escrito, o que eu gostaria de ter escrito. Ao longo desta semana e meia, fui deixando algumas das minhas partes favoritas no Instagram.

 

 
 
 
 
 
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Ao mesmo tempo, repensei o meu uso das redes sociais e das expectativas que criamos ao ver os corpos perfeitos, os planos perfeitos, as relações perfeitas, as refeições mais saborosas, os sorrisos mais contagiantes, as férias mais relaxantes, que na verdade são apenas uma parte da vida das outras pessoas. Afinal, tendenciosamente, publicamos o que de melhor nos acontece, conteúdo que sujeitamos a um processo de curadoria digital, raramente o contrário, pelo que a medida de comparação deve também ser o nosso melhor, não a nossa figura descabelada em pijama no momento em que consome essa (des)informação. E queremos tudo para ontem! Em suma, repensar é o primeiro passo para encontrar soluções e entrar em acção. Além da crítica e autocrítica à utilização das redes sociais, são partilhadas ideias para sermos mais felizes tanto ao usá-las quanto longe delas, e como podemos dosear o consumo de notícias para nos mantermos informados, sem ficarmos assoberbados.


Li as primeiras duzentas páginas em poucos dias, mas a segunda metade do livro custou-me um pouco mais, porque as reflexões começaram a ser repetitivas e acessórias. A ideia principal é sempre: estar consciente dos problemas é como a solução para esses mesmos problemas, para recuperarmos o controlo sobre como nos comportamos enquanto utilizadores dos meios de comunicação e redes sociais. Sobre a tradução, acho que precisa de alguma revisão, mas eu nem costumo gostar de ler traduções portuguesas do inglês e esta não me pareceu terrível.


No entanto, não deixo de recomendar este livro. Matt Haig conseguiu muito bem incitar-me a pensar no que me provoca ansiedade, no meu consumo de informação que não contribui em nada para ser mais feliz e em como nos estamos a tornar, humanos, em estatísticas para o sistema capitalista do marketing digital. Por um lado, acho o marketing uma área extremamente interessante, tal como as ferramentas que utiliza e as estratégias criadas, mas também assustadoramente perigosa quando não utilizada para o bem dos indivíduos (sobre tal assunto, recomendo este livro). A democracia enfrenta novos desafios na era digital, tal como o bem-estar físico e mental dos cidadãos, por isso, à medida que as transformações ocorrem, a sociedade deve encontrar estratégias igualmente funcionais para se proteger dos perigos eminentes.


🧾 E ler, seja não-ficção ou ficção, pode ser uma dessas estratégias! O que andam a ler ultimamente que vos tenha feito abrir os olhos sobre algum tema específico? 📚

Violência doméstica na literatura portuguesa: Preciosa (Nelson Nunes)

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Há livros que são mais difíceis de ler do que outros. Normalmente, são mais difíceis porque têm frases longas, ideias complexas que somos incapazes de seguir. Ou, então, porque não concordamos com o autor, não o entendemos, não conseguimos encontrar nada em comum e que nos estimule a ler mais. (Que outras razões vos atrasam a leitura?)


Depois, há livros que são difíceis de ler porque há coisas que doem só de imaginar, quanto mais saber que muito do que o autor escreveu também lhe aconteceu, tal como a pessoas muito próximas de nós. Felizmente, nem a violência doméstica nem sequer as relações tóxicas fazem parte da história da minha família. Aliás, terão de facto existido, mas antes de eu ter sido gente. No entanto, já assisti a muita coisa nas famílias dos outros e já conheci as consequências em primeira mão do que é viver e ter crescido numa casa em que a violência física e psicológica são um dado adquirido por várias décadas. Pode não me ter acontecido a mim, mas já aconteceu à minha frente e já ouvi vários relatos na primeira pessoa.


Dito isto, foi muito difícil ler o livro Preciosa, do Nelson Nunes (autor que devem conhecer mais à conta da não-ficção), lançado na semana passada. Corri a comprá-lo no dia em que saiu, não só por conhecer o Nelson há alguns anos e adorar as crónicas dele, mas também por curiosidade sobre este livro, cujo tema ainda não faz explicitamente parte da literatura portuguesa. Finalmente, a violência doméstica é retratada na ficção, ou na ficção quase autobiográfica. Acabei por lê-lo em três dias, embora seja um livro curto, porque não conseguia ler muito mais do que 20 páginas de seguida.

 

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Depois de o Preciosa ter sido recomendado por Marcelo Rebelo de Sousa e Cristina Ferreira, há pouco que eu possa acrescentar à opinião pública. Resta-me admirar e agradecer a coragem do Nelson Nunes, que reabriu portas do seu passado para partilhar connosco algo tão perturbador e definidor numa vida quanto a existência dum pai que o inspirou à criação da personagem Isaac. Voltar a expor a ferida para escrever sobre o que nos atormenta para que a história possa ser partilhada como elogio à sobrevivência possível e para a consciencialização pode ser libertador, mas de fácil deve ter muito pouco. Ao mesmo tempo, a homenagem prestada a uma mãe igual a Esmeralda é a parte mais bonita. A acção desta mulher forte deve-nos servir de lição para conseguirmos mais ou menos tudo na nossa vida - se ela foi capaz de se refazer duma fase tão negra e devolver segurança e uma vida boa a um filho, qualquer um fica a sentir que também conseguirá seja o que for.

 

Apesar das falhas na sociedade, do silenciamento das vítimas, da desresponsabilização dos agressores, da desvalorização e normalização da violência nas relações, é-nos deixada uma mensagem de esperança - e de alerta - sobre a possibilidade de pedir ajuda e de a vida poder continuar. Espero que livros como este possam trazer o tema da violência doméstica para cima da mesa colectiva, de modo a quebrar-se o silêncio e a tentar chegar a coragem a quem mais precisa de se fazer ouvir.


Na minha opinião, este Preciosa é também uma chamada de atenção para as tais consequências, na forma de mazelas que, se não físicas, são psicológicas e afectam a forma como quem já viveu num lar a desfazer-se por estes motivos encara a relação consigo mesmo e com os outros pela vida fora, principalmente quando muito jovens. Na minha geração, vejo e conheço exemplos de dois caminhos possíveis na idealização do amor: a concretização do ciclo de relações violentas, que se repete, porque foi assim que se viu fazer, estando enraizado e normalizado; ou exactamente o contrário, a dúvida e a preocupação constante com o bem-estar do outro, o medo de desapontar e de poder magoar, a consciência constante dos precedentes e a sua evitação a qualquer custo, combinados com baixa auto-estima, sentimentos muito bem retratados pelo Nelson Nunes. Penso que ainda existe a sensação de que "temos é de ser fortes", e que o passado fica no passado, e que as coisas passam (mas não passam) e que estas gerações mais novas só se sabem queixar, enquanto deviam era aprender "que é assim a vida, difícil, temos de aguentar". Aguentar coisa nenhuma! Há sempre algo mais que pode ser feito. Não, não nos devemos conformar com esta miséria de espírito e as vítimas devem ser ouvidas e apoiadas, nomeadamente a nível da sua saúde mental. Não há justificação para se bater ou maltratar seja quem for, muito menos alguém de quem se "gosta".


Que a literatura nacional continue a inspirar a mudança nos pseudo-costumes nefastos e nas mentalidades pequenas do nosso país! Que uma voz seja dada a quem a perdeu! Que possamos abrir os olhos para o que se passa à nossa volta e não contribuir para ciclos de violência, para a desvalorização do mais "insignificante" acto de violência e a falta de atenção dada às vítimas pelas autoridades mas também por quem as rodeia, que decide não fazer nada, para não se intrometer. Não podemos ser cúmplices. Como devem saber, as estatísticas da violência doméstica em Portugal nos primeiros meses de 2019 provam o quanto ainda está por conquistar.


(Se puderem, leiam este livro, que não há-de tomar-vos muito tempo, mas que vos poderá relembrar desse tanto que a sociedade tem por conquistar, ou ofereçam-no a quem possa beneficiar desta história e da sua mensagem.)

 

Obrigada, Nelson, por teres escrito (mais) um livro que pode vir a fazer a diferença! 👏

A leitura na era digital: Reader, Come Home (Maryanne Wolf)

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Comecei a ler Reader, Come Home - The Reading Brain in a Digital World (da investigadora Maryanne Wolf) no âmbito das minhas incursões recentes à literatura sobre cognição e a forma como o cérebro lê - ou seja, como nós, seres humanos, lemos. Eis a minha opinião e o resumo das ideias sobre este livro que me encheu as medidas.

 

Mais uma vez, o cérebro. A literacia digital e em papel. O conceito empatia, que tem alcançado algum destaque ultimamente, na academia e fora dela. A leitura (uma invenção cultural e para a qual o cérebro dos homens nem sequer nasce preparado) como meio de tornar as crianças de hoje em dia e dos próximos anos em cidadãos responsáveis, informados e críticos.


Maryanne Wolf tem dedicado a sua carreira académica a estudar o cérebro e a influência da leitura a nível neurológico, em termos interiores e exteriores. Afinal, mudanças causadas pelo exterior ao interior também provocam consequências exteriores. E por aí fora. A criação de hábitos de leitura sólidos desde cedo promove o desenvolvimento da inteligência, da memória, da atenção e do sentido crítico.


No entanto, este seu livro mais recente, Reader, Come Home, é mais um "sinal dos tempos", concentrando-se na passagem da leitura em papel, mais paciente e prolongada, para a leitura digital, facilmente interrompida pelas distrações doutras fontes ou mesmo que estão presentes em recursos do próprio texto (como os e-books para crianças ou até notícias online com hiperligações e pop-ups).

 

Nesta era digital, a própria autora deu por si a debater-se contra a sua incapacidade de apreciar os livros da sua infância e juventude, clássicos da literatura que moldaram a sua vida, mas que agora se apresentavam como obstáculos intransponíveis. Maryanne Wolf tinha perdido a capacidade de se concentrar em leituras mais desafiantes, que lhe pediam paciência e perseverança. Então, tanto a própria autora, quanto o "leitor" que ela interpela, são convidados a regressar à "casa" ou ao "lar" que é a leitura prazerosa, imersiva e prolongada que nos retira deste mundo. Certamente que todos nós que gostamos de ler desde pequenos nos lembramos de ser engolidos por um livro e, provavelmente, ainda hoje guardamos saudades dessas memórias.


Por estas razões, a investigadora da Tufts University, nos EUA, decidiu estudar a alteração nos seus hábitos de leitura e, consequentemente, nos hábitos de toda a gente, em particular de crianças, e o que fazer quando chega a altura de as expor a livros e/ou dispositivos electrónicos. 


Apesar de Reader, Come Home deixar mais hipóteses, preocupações e questões do que respostas empíricas, acho que me fez pensar sobre o que poderá ser feito no futuro para nos asseguramos de que criaremos cidadãos com literacia dupla, bilingues no que toca à leitura em papel e leitura digital, capazes de retirar de cada uma delas os melhores proveitos, atributos e capacidades cognitivas, não desprezando nem uns nem outros meios, mas sim navegando facilmente entre ambos os tipos.


Na minha opinião, Reader, Come Home é um livro para todos aqueles que se interessam pelo futuro dos livros e da leitura. Ler não é um processo cognitivo a que nos expomos "só porque sim". Ler mais deve, idealmente, aguçar a nossa reflexão e empatia, através do conhecimento e compreensão doutras vidas, assuntos que antes ignorávamos, articulação cuidada de pensamentos doutras pessoas. Ler bem, em geral, é uma necessidade e obrigação dos cidadãos que vivem numa democracia.

 

E vocês, ainda sabem o caminho de volta "a casa"?

Quanto vale uma educação: Educated (Tara Westover)

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Quanto valor pode ter uma educação? Quase todos nós tomamos tantas vezes a nossa instrução como garantida. Nos meios onde cresci e estudei, entre o fim do século XX e início do século XXI, nunca conheci ninguém que não tivesse nascido sem ter a certeza de que iria à escola, o que não é o caso da protagonista deste livro: Educated, o livro de memórias de Tara Westover (traduzido em português como Uma Educação, pela Bertrand Editora).

 

Nota: este vai ser um texto longo. Desde que comecei a ler o livro até o terminar dificilmente o larguei. Foi assim que Educated me fez sentir: eu tinha de saber como acabava o relato desta rapariga, nem uma década mais velha que eu, mas com uma vida tão complexa e cheia de feitos tão memoráveis.


Educated descreve os primeiros vinte e tal anos de vida da autora americana; perguntarão vocês como é que alguém tão novo terá tanto (quase 400 páginas!) para contar. Ao contrário do que é esperado duma criança num país desenvolvido, Tara não foi à escola até ter entrado na universidade, aos 17 anos. A família, mórmon, crente no Fim dos Dias e em teorias da conspiração sobre a doutrinação do Governo através da escola e do serviço de saúde, manteve-a longe do resto do mundo até Tara ter seguido os passos dum irmão mais velho rebelde e se ter autoproposto e inscrito na Brigham Young University.


Não vos quero contar muito mais do que as outras sinopses da Internet já contêm, mas deixo-vos uma nota de precaução: este não é um livro fácil, emocionalmente. Tara Westover escreve mesmo muito, muito bem, como se já tivesse uma carreira literária longa, por isso conseguiu prender-me a cada novo parágrafo, mas o que lá está escrito não é bonito. Na infância, adolescência e primeiros anos de idade adulta dela houve muita violência, frustração, mentiras, obstáculos físicos e morais, incompreensão, solidão... É uma daquelas leituras que nos encanta e assombra em simultâneo. A certo ponto, o que mais surpreende deixa de ser o facto de Tara ter chegado a frequentar a universidade, mas sim, contra a vontade de toda a gente que a rodeava, ter alcançado um percurso de sucesso de zero a Harvard em menos de dez anos.


No fim, concluí: a curiosidade pelo mundo recém-descoberto, a cada nova disciplina ou pessoa que conhecia, desempenhou um papel muito importante na vida de Tara. Poder aprender numa sala de aula e usufruir duma educação universitária nalgumas das melhores instituições do mundo não foram experiências que pudesse fazer intuitivamente, ao contrário dos seus colegas. Só quase aos trinta anos é que deixou de se sentir isolada e diferente. No entanto, permaneceu a vontade de saber e conhecer mais. Para nós, os leitores, serve-nos de lição ou para refrescar a memória para valorizarmos a nossa escolarização, socialização e oportunidades de fazer mais e melhor. Relembra-nos que ir à escola ou à universidade não é só ouvir um tipo qualquer falar durante hora e meia. Mesmo a informação mais insignificante que nos possam oferecer deve ser tida em conta, porque, tal como Tara, acabamos por aprender algo novo sobre o que é ser humano, algo sobre o mundo, nem que seja um pretexto para procurarmos mais nos livros, na Internet ou para perguntarmos a quem percebe do assunto. Lutar por uma educação é imprescindível. Uma educação não é escolher o curso com mais empregabilidade; é, acima de tudo e simplesmente, poder aprender.

 

The decisions I made after that moment were not the ones she  would have made. They were the choices of a changed person, a new self. 
You could call this selfhood many things. Transformation. Metamorphosis. Falsity. Betrayal. 
I call it an education.


Enfim. É impressionante como uma miúda cheia de medo e um passado doloroso pôde transformar a sua vida por completo, reinventá-la e reinventar-se. Não quero dizer que não teve momentos de fraqueza, mas na minha opinião é preciso ser-se realmente forte para se ser o protagonista duma vida como esta.


Li em muitos outros textos de opinião que Educated é um livro para todos os gostos e confirmo. Não costumo ler muitos relatos autobiográficos, mas este valeu a pena. É muito difícil deixar a meio um livro assim.


Vejam ainda os textos e vídeos que deixei em hiperligações pelo meio do texto.


Boas leituras! 📚

 

(Este é também o livro que li para o mês de Fevereiro a propósito do desafio Uma Dúzia de Livros, da Rita da Nova).

Viver na ditadura da popularidade, criatividade, identidade única e algoritmos

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A Internet também me traz ansiedade. A volatilidade da informação e da forma como circula assusta-me: a rapidez vertiginosa com que as regras são alteradas, o tipo de discurso, as mil e uma artimanhas que surgem todos os dias para se ter o blog ou site mais lido ou o produto mais popular.


Como dizia Bauman, é tudo tão líquido. Quando sinto que estou, finalmente, a habituar-me a um tipo de linguagem e objectivos na Internet, eis que o jogo dá outra vez a volta. Também não sentem que, muitas vezes, vivemos submissos ao poder dos algoritmos e da manipulação da mente dos outros? Temos de ter as fotos de Instagram mais XPTO, definir uma paleta de cores pessoal, as palavras-chave certas, os títulos que causam mais sensação... E onde ficam a honestidade, simplicidade e autenticidade nisto tudo?


Já não nos representamos a nós mesmos. Representamos uma marca - agora, somos uma marca. Temos de investir em branding, porque, dizem, há que mostrar aquilo que nos distingue de todos os outros, mas, atenção, sempre seguindo regras estéticas, e de marketing, e de linguagem, e de não sei o quê que tem de ser feito, senão nunca sairemos da cepa-torta da produção caseira e amadora.


Como se houvesse mal nisso!


Para mim, alguns blogs e perfis continuam a ser um reduto do que eu esperava que toda a Internet continuasse a ser. Felizmente, nem toda a gente foi contaminada pelo jargão empresarial que retira a alegria de criar um projecto pessoal desinteressado.


A gestão de redes sociais fascina-me e, ao mesmo tempo, faz-me sentir pequenina. Fascina-me enquanto negócio, fascina-me que as empresas tentem acompanhar o ritmo dos dias e que tenham de se reinventar para sobreviver no mercado. Mas, então... e as pessoas? As pessoas também têm de se vender como se fossem empresas? Eu sei que há quem, realmente, seja uma empresa (o seu ganha-pão assim o determina), mas, então... e os outros?


Há dez anos que crio blogs só porque sim, porque gosto de escrever, de partilhar, de desabafar. Este foi criado há sete anos e meio e por aqui fiquei, e pode ter mudado muita coisa deste lado, mas o que não mudou foi a intenção de escrever mais e melhor enquanto desafio pessoal e de superação, sem olhar demasiado a números. Embora os números me digam quantas pessoas andam por aqui (o que é gratificante) continuo sempre a manter este espaço por gosto e não por quaisquer expectativas ou contrapartidas mercantilistas.


Um dia, pode ser que engula estas palavras e me renda a parcerias, estatísticas, dividendos. Quem sabe...? A verdade é que até o meu trabalho e ambições profissionais futuras dependem um pouco da Internet. No entanto, hoje não é esse dia. Por enquanto, o meu blog, Instagram e Facebook são meros passatempos, nos quais invisto sem ter em vista mais do que a diversão que me permitem ter e, quiçá, oferecer. São o meu laboratório de experiências, ocupam o tempo que não gasto a olhar para as paredes ou a consumir-me em aborrecimentos vários. Há quem faça miniaturas, há quem coleccione moedas, há quem catalogue passarinhos. Eu ando por aqui a debitar sobre coisas aleatórias que me interessam.


Os meus blogs e perfis preferidos continuam a ser aqueles que têm "gente dentro", e que não se vendem por tuta e meia. Não julgo quem se vende, mas sim o facto de que, hoje em dia, sinto que estão todos a vender-se e que é tudo mais do mesmo.


No outro dia, dizia um professor meu que "as tendências estão a mudar, ser-se criativo começa a ser exactamente não ter criatividade". E eu não digo que tenhamos de deixar de ser totalmente criativos, mas neste momento já me é muito difícil acompanhar tanta "criatividade". Fico cansada, desgastada pela produção constante, pela urgência das mensagens, pelo conceito de storytelling a ser usado para tudo e mais alguma coisa, em nome da popularidade e da tal "identidade única" que procuramos. Na esperança de estabelecermos um monopólio sobre a nossa auto-imagem, gritamos que somos diferentes de todos os outros, mas depois fazemos quase o mesmo, andamos pelas modas.


Estes são alguns motivos pelos quais me tenho tentado afastar das redes sociais. O desfile de histórias inspiradoras que vendem e que se vendem, do networking, da luta pelo primeiro lugar num mural de rede social alheio pedem de mim energia que não tenho. Até duma perspectiva empresarial e profissional, por mais quanto tempo aguentaremos tamanhas avalanches? Ainda será possível viver e ser-se relevante offline?


Serve este texto como desabafo e reflexão da própria.

Estar Vivo Aleija, mas dói menos por causa de Ricardo Araújo Pereira

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Não vos quero aborrecer com um texto muito longo. No entanto, sei que este é um dos livros mais esperados da rentrée: Estar Vivo Aleija, do humorista que dispensa apresentações, Ricardo Araújo Pereira. E eu digo: provavelmente acabei de o ler primeiro que vocês! Estava desejosa que chegasse o dia de ontem, o primeiro em que o livro esteve à venda sem ser através do site da editora Tinta da China. Por isso, cá vão os meus três tostões acerca desta leitura muito agradável - sem surpresa nenhuma.

 

Desta vez, o meu entusiasmo deve-se à curiosidade trazida por este tipo de crónicas escritas pelo RAP. Depois de ler a entrevista que deu ao Observador, percebi que Estar Vivo Aleija seria uma colectânea de textos sobre temas mais pessoais e descontraídos, e menos políticos (como as crónicas da série Boca do Inferno), num registo mais auto-biográfico e ao mesmo tempo universal, escolhido para agradar os leitores brasileiros da Folha de São Paulo, onde foram originalmente publicadas. São feitas várias referências terurentas à avó que o criou, às filhas e à mulher, sem retirar destaque às peças de teatro de Sófocles e Shakespeare, às singularidades da língua portuguesa, às moscas, ao amor, às batatas e ao chulé. É uma miscelânea de temas!

 

Mais ou menos político, o humor, perspicácia e inteligência permanecem como os conhecemos. Acho que as suas observações sobre as coisas mais banais da existência humana se podem comparar ao olhar sempre admirado e inquisitivo duma criança que está na idade de apontar para tudo e estabelecer ligações inesperadas entre elementos diferentes.

 

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Assim sendo, demorei menos de duas horas a devorar o livro. Li-o duma assentada. Cada crónica ocupa cerca de página e meia, o livro tem cerca de cento e cinquenta páginas... Foi um óptimo entretenimento para a minha hora de almoço! Esta é a leitura indicada para quem quer passar um bom bocadinho, mas também para quem quer ter o livro lá em casa e abri-lo de vez em quando para soltar uma gargalhada ou, pelo menos, arrancar-se um sorriso. Outra coisa não se esperava de RAP. Estar Vivo Aleija, mas dói menos por causa de autores como ele.

Emigrar = desistir de Portugal?

Quando me propuseram ficar definitivamente a trabalhar em Bangkok, tive muitos momentos de dúvida que, obviamente, continuam a aparecer-me de vez em quando. O contexto: ao regressar a Portugal em Setembro, teria a possibilidade de frequentar um dos melhores mestrados da Europa, numa universidade de referência, possivelmente conseguiria até assegurar alguma bolsa de mérito, continuaria a dar explicações ou arranjaria trabalho (até já tinha tido uma proposta no fim do segundo ano de licenciatura, mas na altura não conseguiria conjugar estudos e actividade profissional e a relação salário-esforço não era relevante o suficiente), teria a minha base familiar sólida, o meu namorado e os amigos que guardo há largos anos, uma das minhas amigas vai ter um bebé e eu iria com certeza acompanhar a gravidez dela de perto, continuaria a viver na minha zona de conforto, debaixo da asa da avó, no meu quarto cor-de-rosa e cheio de tralha, numa casa de dois andares com quintal, onde continuaria a brincar com os meus cães e gatos sempre que me apetecesse.

No que toca às oportunidades que Portugal me proporcionou, tenho a dizer que poucas foram. Pessoalmente, recebi a bolsa de estudo da DGES por dois anos. A minha bolsa de mérito foi-me sempre atribuída durante os três anos de licenciatura por uma associação privada. A bolsa de mérito da DGES nunca chegou e ainda estou à espera dos três anos que me devem. Idém, para a bolsa de melhor finalista atribuída pela Caixa Geral de Depósitos. Tenho apenas a sublinhar que, não fossem os professores excelentes que tive e que representam Portugal e a função pública, ainda menos aspectos positivos teria para enumerar. Não me sinto amargurada por ter tido sempre que trabalhar ao longo dos últimos anos para pagar a faculdade, mas a verdade é que o sentimento com que me identifico é que fui eu que trilhei o meu caminho sem grande ajuda dessa grande entidade chamada "Portugal".

Portanto, quando me falaram pela primeira vez a trabalhar em Bangkok, logo na minha primeira semana na Tailândia, eu fiquei confusa. Obviamente que adoro Portugal, o sol de Lisboa, a minha casa fora dos centros urbanos, as pessoas que me rodeiam, ouvir a minha língua todos os dias. Mas, caramba, quando surgiu a oferta de trabalho concreta em Bangkok, fiquei sem desculpas para não aceitar. Apenas 12 horas de trabalho lectivo obrigatório, fora horas extraordinárias pagas devidamente, um salário irrecusável para alguém da minha idade numa cidade tão acessível quanto Bangkok, a possibilidade de continuar os meus estudos em simultâneo, montes de pessoas a apoiarem a minha candidatura e com quem estabeleci uma relação extremamente carinhosa desde o primeiro dia (incluindo a melhor chefe de sempre) e... o meu trabalho de sonho e que eu não pensava conseguir nos próximos cinco a dez anos - ser professora numa universidade.

Como pode uma pessoa lembrar-se dessa miragem linda e maravilhosa, solarenga, quente, emocionalmente segura que é Portugal, quando lhe oferecem estas condições todas?

Não, nem eu desisti de Portugal nem Portugal desistiu de mim. A Tailândia foi simplesmente mais rápida, pelo menos por agora. Sou um caso que provavelmente seria bem sucedido em Lisboa ou Bangkok, mas que pendeu mais para um lado do que para outro. É como terem a possibilidade de comprarem uma casa no local dos vossos sonhos mas que demora imenso tempo a fazer, ou uma casa que vai ter de ficar noutro terreno, mas que já está pronta e até traz um sistema de fornecimento de energia solar.

Emigrar, ou ir estudar para outro país, pode não ser apenas sobre desistir do nosso. Hoje em dia, acho que a nova geração se considera cidadã do mundo e que pertence, ou pode vir a pertencer, a muitos sítios diferentes. Infelizmente, a ideia principal a que eu quero chegar com todas estas linhas de texto é Portugal não está a ser rápido do suficiente para a mão-de-obra qualificada que educa e forma. Mais rapidamente esta mão-de-obra é arrebatada para outros sítios. Nem sequer falo de mim neste exemplo específico (eu nem tive tempo de estar em Portugal à espera, por isso nem posso imaginar o que um jovem formado e frustrado deve sentir), mas ouve-se falar de cada vez mais jovens formados que acabam por emigrar, porque mais fácil e rapidamente são valorizados do lado de fora.

Não chega os Velhos do Restelo andarem para aí a apregoar que nós desistimos do país sem mais nem menos, que somos uns cobardes, desistimos rapidamente... Amigos, tentem romper assim com a vossa vida como os emigrantes fazem para ver o que é bom para a tosse.

Os tempos do elevado patriotismo já lá vão. Esta é mais a era chamada "o patriotismo não paga contas nem nos providencia a realização de objectivos e sonhos pessoais ou profissionais". Se gosto do meu país? Claro que sim, adoro Portugal. Se gosto mais da Tailândia? Não necessariamente. Estou cheia de saudades do céu sem nuvens ou poluição, dos enchidos, dos pastéis de bacalhau, dos rissóis e das pizzas do supermercado a 1,50€, mas a Tailândia concretizou-me uma data de objectivos a todos os níveis duma assentada, as pessoas são doces e genuínas aqui, o trânsito é caótico mas estranhamente seguro, a rede de transportes públicos é eficiente, tenho o meu próprio apartamento com uma vista esplêndida para o centro da cidade, a roupa é muito mais barata, as ruas estão cheias de gente de noite e de dia, há vida a passar-se. Se me mandassem para cá a minha família, o meu namorado e os meus amigos e me assegurassem que poderia realmente ficar na Tailândia para o resto da minha vida como professora e a ser aumentada todos os anos (o que acontece com os professores efectivos da função pública), teria muita dificuldade em recusar.

 

Para mim, emigrar ou ir viver para outro país não significa desistir de Portugal. Antes significa não desistir de mim e dos meus projectos.

A discriminação positiva não deixa de ser discriminação

Ando um (grande) bocado desiludida com a discriminação positiva. Ele é os refugiados que têm os direitos cívicos garantidos até antes de serem inseridos no mercado de trabalho, ele é a bolsa que permite a jovens ciganos estudar, viver, comer e manter uma vida confortável a nível universitário sem ajuda dos pais, ele é os alunos que estão em colégios e institutos de ensino superior privados e que continuam a usufruir de ajuda económica do Estado. Percebo que o nosso instinto seja sempre tentar ajudar as pessoas, o mais possível, com o coração, principalmente quando se tratam de minorias étnicas e culturais ou indivíduos com dificuldades económicas. 

No entanto, a discriminação positiva não deixa de ser descriminação. Para cada caso de descriminação positiva, forma-se um caso de discriminação negativa, do qual praticamente nos esquecemos, mas que não deixa de existir. Vejamos: por cada bolsa de estudos atribuída a um jovem porque ele é cigano, quer estudar e a família não o apoia, um jovem que não é cigano, quer estudar e cuja família não o apoia fica a olhar para as moscas. Por cada refugiado que Portugal acolhe e sustenta através de fundos da Europa ou da própria Segurança Social, um desempregado português em risco de perder as condições mínimas de sobrevivência fica sem qualquer ajuda, porque chegou ao fim dos três anos de subsídio de desemprego e, daí em diante, fica sem tecto e comida na mesa e/ou, na melhor das hipóteses, dependente de subsídios miseráveis de "inserção". Por cada aluno inscrito numa instituição de ensino privada, mas que usufrui de subsídios para financiar os seus estudos fora de instituições públicas, porque os pais declaram parcos rendimentos, um aluno que até para frequentar uma escola pública apresenta os mesmos ou piores obstáculos é remetido para segundo plano. 

Contudo, ainda mais importante do que qualquer consequência que se possa enumerar, estes indivíduos contra quem a dita discriminação positiva actua involuntariamente passam a sentir-se colocados de parte pelo sistema. Por um lado, compreendo que o objectivo da descriminação positiva seja compensar certos desequilíbrios na sociedade ou promover a ajuda a grupos desfavorecidos, só que, por outro lado, não me sinto completamente fã da discriminação negativa que é passível de produzir. Para se ajudar uns, deixamos de ajudar outros. Muitas vezes, nem é que essas pessoas não mereçam, mas não merecemos todos, não devemos ser todos avaliados a partir de lupas semelhantes? 

Correndo o risco de ser mal interpretada, sublinho que estas são apenas ideias soltas e em desenvolvimento, porventura algo generalizadas, mas certamente muito sinceras. Como sempre, reservo-me o direito de estar errada, de mais tarde descobrir incoerências na minha opinião ou de, não estando realmente errada, poder vir a alterar o meu ponto de vista.

O discurso de Marcelo

Hoje, antes de actuar no concerto comemorativo de tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa, Paulo de Carvalho dizia que só esperava que o nosso novo Presidente da República tomasse para si a função de moralizar o país.
 
De facto, Marcelo começou bem. Deu uma lição de retórica, de História, de Geografia e de Literatura a Portugal, logo que chegou. Falou sobre a sociedade, a cultura e a economia. Citou escritores que nos são próximos. Deixou uma mensagem de encorajamento e esperança para quem mais precisa dela. Foi educado, correcto no discurso e nos modos. Pareceu-me transparente, coerente e genuíno nas palavras e nas emoções. 
Da minha parte, resta-me ficar na expectativa de que faça justiça ao seu primeiro discurso enquanto PR durante os próximos anos e de que não se torne em mais um bibelot na cena política portuguesa.
 

 
 

Hubert Zafke

Hubert Zafke, um antigo SS do regime de Hitler, começará a ser julgado no fim de Fevereiro. Todos nós, enquanto cidadãos europeus minimamente informados sobre a História contemporânea, conseguimos perceber a gravidade dos campos de extermínio, do que por lá se praticava e das ideias que Hitler plantou na Alemanha no seu tempo, pelo que este julgamento de um antigo simpatizante do regime não teria nada de surpreendente - não fosse o senhor Zafke ter 95 anos e os prisioneiros dos campos de concentração já terem sido libertados há 70.


Enquanto cidadã, estudante de cultura e, em geral, enquanto curiosa, pergunto-me quais os limites da memória. Até que ponto a punição por um crime - digamos - perpetrado à escala civilizacional e já discutido e repensado por décadas e gerações a fio não deveria ser esquecida, deixada cair (como diriam os franceses)? O tempo não apaga a História. Mas será que em 2016 retiraremos algum proveito, alguma satisfação ou consolo por um homem de 95 anos ser finalmente julgado por crimes que cometeu há sete décadas? Será que punir esse homem ao fim do período de uma vida ajudará a sarar as feridas e a encerrar as inquietações das vítimas do Holocausto?


Ou será este julgamento uma farsa? Será uma forma de reavivar a História para as gerações mais novas? Isto aconteceu. Não se esqueçam. Não se podem esquecer.
E, por fim, uma última questão: se fazem tanta questão de punir Hubert Zafke, por que razão não o fizeram mais cedo? Por que não o encontraram mais cedo e por que é que não se fez justiça de imediato?

 

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Recorte da E, revista do Expresso, 13 de Fevereiro de 2016 (hoje)

 

De que se alimenta a memória e a dor da lembrança? Qual é o prazo de um crime contra a humanidade aos olhos da lei e do bom senso?

 

Desculpem tantas perguntas.