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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Mais uma autobiografia incrível: Born a Crime (Trevor Noah)

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Há algumas semanas, fiquei indecisa sobre que livro ler a seguir da minha enorme pilha em lista de espera; entre Little Fires Everywhere e Born a Crime, ganhou o último, escrito pelo comediante sul-africano Trevor Noah. Aliás, eu já tinha visto o espetáculo "Son of Patricia" no Netflix e o livro já me tinha sido recomendado imensas vezes, inclusivamente pelo meu amigo André, que mo emprestou (a quem agradeço a insistência de o trazer do Japão de propósito, porque valeu bem a pena!).


À semelhança de Educated (que adorei), este também é um relato autobiográfico de alguém que, apesar de ter sofrido uma infância violenta, trágica ou passado certas dificuldades, conseguiu virar-se contra a corrente e "fazer um nome" para si. A diferença é Born a Crime ter sido escrito num tom mais cómico, que por vezes tem ainda mais piada quando aplicado a circunstâncias bastante dramáticas. Tal como Tara Westover, Trevor Noah não perde tempo nem energia com mágoas. Adopta um ponto de vista bastante optimista sobre tudo o que aconteceu durante as suas primeiras duas décadas de vida e conta-nos como uma mãe solteira e um filho reguila podem completar-se numa dupla imprevisível e imbatível, eles contra o mundo.


Obviamente, é impossível não referir a lição de História sobre o apartheid e o passado colonial que lhe serviu de incubadora. Este livro não é só uma compilação de larachas, antes pelo contrário, dando-nos acesso privilegiado a informação e experiência descrita na primeira pessoa. Ao nascer, Trevor Noah era ele mesmo um crime vivo (um rapaz "de cor", nem preto, nem branco), do qual resulta o título do livro, Born a Crime. E ele nasceu há relativamente pouco tempo, apenas 35 anos! Ao mesmo tempo, assistimos à procura duma identidade legítima duma criança a viver entre vários mundos, pertencendo a todos sem pertencer em específico a nenhum. Destaco ainda a discussão sobre o papel tradicional da mulher na sociedade da África do Sul e entendido de formas diferentes por cada povo, que a mãe Patricia desafia constantemente; e a análise social e geográfica da cidade de Joanesburgo antes, durante e após o apartheid.


No fim, só tenho pena de não ter havido seguimento sobre a transição entre a juventude no "bairro" e o sucesso inicial enquanto entertainer e comediante do Trevor (duas realidades contadas sem ligação). Ainda assim, percebo que se queira guardar o resto da história e da História para um próximo livro a publicar no futuro, que abranja mais um pouco da vida do autor, em paralelo com os espectáculos de stand-up.


📝 Parece que, ultimamente, ando a ler mais autobiografias do que o costume e tenho gostado bastante. Há mais alguma que me queiram recomendar?

Quanto vale uma educação: Educated (Tara Westover)

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Quanto valor pode ter uma educação? Quase todos nós tomamos tantas vezes a nossa instrução como garantida. Nos meios onde cresci e estudei, entre o fim do século XX e início do século XXI, nunca conheci ninguém que não tivesse nascido sem ter a certeza de que iria à escola, o que não é o caso da protagonista deste livro: Educated, o livro de memórias de Tara Westover (traduzido em português como Uma Educação, pela Bertrand Editora).

 

Nota: este vai ser um texto longo. Desde que comecei a ler o livro até o terminar dificilmente o larguei. Foi assim que Educated me fez sentir: eu tinha de saber como acabava o relato desta rapariga, nem uma década mais velha que eu, mas com uma vida tão complexa e cheia de feitos tão memoráveis.


Educated descreve os primeiros vinte e tal anos de vida da autora americana; perguntarão vocês como é que alguém tão novo terá tanto (quase 400 páginas!) para contar. Ao contrário do que é esperado duma criança num país desenvolvido, Tara não foi à escola até ter entrado na universidade, aos 17 anos. A família, mórmon, crente no Fim dos Dias e em teorias da conspiração sobre a doutrinação do Governo através da escola e do serviço de saúde, manteve-a longe do resto do mundo até Tara ter seguido os passos dum irmão mais velho rebelde e se ter autoproposto e inscrito na Brigham Young University.


Não vos quero contar muito mais do que as outras sinopses da Internet já contêm, mas deixo-vos uma nota de precaução: este não é um livro fácil, emocionalmente. Tara Westover escreve mesmo muito, muito bem, como se já tivesse uma carreira literária longa, por isso conseguiu prender-me a cada novo parágrafo, mas o que lá está escrito não é bonito. Na infância, adolescência e primeiros anos de idade adulta dela houve muita violência, frustração, mentiras, obstáculos físicos e morais, incompreensão, solidão... É uma daquelas leituras que nos encanta e assombra em simultâneo. A certo ponto, o que mais surpreende deixa de ser o facto de Tara ter chegado a frequentar a universidade, mas sim, contra a vontade de toda a gente que a rodeava, ter alcançado um percurso de sucesso de zero a Harvard em menos de dez anos.


No fim, concluí: a curiosidade pelo mundo recém-descoberto, a cada nova disciplina ou pessoa que conhecia, desempenhou um papel muito importante na vida de Tara. Poder aprender numa sala de aula e usufruir duma educação universitária nalgumas das melhores instituições do mundo não foram experiências que pudesse fazer intuitivamente, ao contrário dos seus colegas. Só quase aos trinta anos é que deixou de se sentir isolada e diferente. No entanto, permaneceu a vontade de saber e conhecer mais. Para nós, os leitores, serve-nos de lição ou para refrescar a memória para valorizarmos a nossa escolarização, socialização e oportunidades de fazer mais e melhor. Relembra-nos que ir à escola ou à universidade não é só ouvir um tipo qualquer falar durante hora e meia. Mesmo a informação mais insignificante que nos possam oferecer deve ser tida em conta, porque, tal como Tara, acabamos por aprender algo novo sobre o que é ser humano, algo sobre o mundo, nem que seja um pretexto para procurarmos mais nos livros, na Internet ou para perguntarmos a quem percebe do assunto. Lutar por uma educação é imprescindível. Uma educação não é escolher o curso com mais empregabilidade; é, acima de tudo e simplesmente, poder aprender.

 

The decisions I made after that moment were not the ones she  would have made. They were the choices of a changed person, a new self. 
You could call this selfhood many things. Transformation. Metamorphosis. Falsity. Betrayal. 
I call it an education.


Enfim. É impressionante como uma miúda cheia de medo e um passado doloroso pôde transformar a sua vida por completo, reinventá-la e reinventar-se. Não quero dizer que não teve momentos de fraqueza, mas na minha opinião é preciso ser-se realmente forte para se ser o protagonista duma vida como esta.


Li em muitos outros textos de opinião que Educated é um livro para todos os gostos e confirmo. Não costumo ler muitos relatos autobiográficos, mas este valeu a pena. É muito difícil deixar a meio um livro assim.


Vejam ainda os textos e vídeos que deixei em hiperligações pelo meio do texto.


Boas leituras! 📚

 

(Este é também o livro que li para o mês de Fevereiro a propósito do desafio Uma Dúzia de Livros, da Rita da Nova).

Dos outros #21

" Um movimento social que se limita a mexer com as pessoas não passa de uma revolta. Um movimento que transforma as pessoas e as instituições é uma revolução."

" A desumanidade do homem para com o homem não é apenas perpetrada pelas acções virulentas dos maus. Também é perpetrada pela nefasta inacção dos bons. "

Martin Luther King, Eu Tenho Um Sonho