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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Ler e ser lido; escrever sobre quem escreveu

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É muito mais fácil escrever sobre livros cujos autores dificilmente conseguirão ler as nossas críticas ou interpretações. Se escrever sobre um livro dum autor americano, francês, chinês, com uma tiragem considerável e/ou uma língua diferente, a minha opinião será uma em muitas, terá palavras irreconhecíveis ao olho estrangeiro e distante.


Tenho sempre um certo receio de escrever algo que não faz sentido ou que não vai ao encontro das intenções originais do autor. Esta sensação é um prolongamento da minha mania de imaginar o que os outros acharão do que eu digo, que costuma ser uma sensação útil e produtiva, só que nem sempre conveniente à reflexão livre e pública. Ultimamente tenho reconhecido - eu gosto de agradar. No fundo, todos gostamos, em graus distintos, ou não?


Isto aplica-se particularmente a autores portugueses ou lusófonos que, ao procurarem (se procurarem!) textos sobre as suas obras, se deparem com o que os seus leitores escreveram. Sei que pode acontecer, porque já me aconteceu (do ponto de vista de quem escreve sobre o que se escreveu). O país é pequeno, a língua atravessa fronteiras, a Internet liga-nos. Felizmente, este blog vai crescendo e aparecendo, o que é uma alegria com alguma responsabilidade (pelo menos, na minha cabeça), mas igual ingenuidade. Às vezes, penso "sou nova, vão-me dar o desconto se escrever algum disparate", mas os anos também passam por mim, não vou ficar nos vinte-e-poucos para sempre é há pessoas de todas as idades e meios a visitarem o blog (mais uma vez, uma honra que implica juízo, criação cuidadosa de conteúdo, o meu hobbie idóneo, o meu exercício intelectual que se estende ao Outro que eu não sei quem é).


No entanto, enquanto escrevo este texto, relembro pela enésima vez: os livros (e os blogs) são o que cada um tiver escrito ou lido. Ou que quiser escrever, ou que quiser ler. Para mim, isto. Para ti, aquilo. Não deve haver muitas formas de contornar a variedade de olhares. Talvez o autor não tenha esperado certos modos de ler a história que criou. Talvez o leitor veja cortinas onde só existiam janelas e paredes. Talvez os dois devam, exactamente, dialogar.


Finda esta voltinha inesperada pelo meu constrangimento e pudor, aviso que só vinha aqui escrever sobre um livro do qual gostei muito, acabado de ler há menos duma hora, mas com tanta tagarelice esse texto vai ter de ficar para o próximo post. Retomemos depois deste curto atalho.

Ler mais autores portugueses e lusófonos tem sido o meu objectivo literário para 2018

Há muitas pessoas que não conseguem viver sem filmes, outras que não passam sem séries, ou que sentem necessidade de ir ao ginásio todos os dias. Eu preciso de ler, se não todos os dias, muito regularmente. Por isso, tenho tentado ler em maior quantidade e qualidade, porque sei que me faz sentir melhor e mais feliz. Neste caso, decidi investir em ler mais autores portugueses e lusófonos como objectivo literário para 2018.

 

 

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 (O meu desafio anual no Goodreads até agora.)

 

Ler mais autores portugueses e lusófonos tem sido o meu objectivo literário para 2018 por várias razões.

 

Em primeiro lugar, acho que apoiar o que é nacional é uma mais-valia. Não entrando em sentimentos nacionalistas nem "o que é nacional é que é bom", acredito que nos fica bem valorizar o que é feito por portugueses e em língua portuguesa, porque é muito fácil entusiasmarmo-nos mais com o que vem do estrangeiro e tendemos a esquecer-nos das nossas origens e um pouco da nossa identidade. Consumimos imensa cultura inglesa e americana, por exemplo, nem que seja por serem tão "vendidas" pelos meios de comunicação. É-lhes dada imensa visibilidade, o que nem sempre acontece em semelhante proporção quando se trata de criações ou produtos portugueses.

 

Este é o meu caso. Estudei literatura inglesa e americana, tive professores ingleses e americanos, cresci a ver séries da Fox e do AXN (e reality shows do TLC), a ver os Simpsons e comédias românticas de Hollywood, a ler Harry Potter e Crónicas de Nárnia, falo inglês todo o dia, todos os dias, há mais de dois anos, por causa do meu trabalho, refugio-me nessa língua que já considero um pouco minha... por isso sei o quão fácil (e cómodo) é pegar num paperback em inglês (que, ainda por cima, é mais barato) em vez de investir num autor português publicado em capa dura. A certa altura, até os temas são mais familiares. 

 

Por outro lado, eu quero lembrar-me e estar em contacto com todas as minhas tais "identidades" ou "origens". Quero saber tanto quanto possível sobre um povo e sobre o outro (e outro, e outro, e outro). Esse é outro motivo pelo qual quero ler mais autores portugueses. Quando os leio, também me sinto em casa, a beber da nossa língua, pessoas, culturas e mentalidades. É a língua portuguesa que me fascina, até mais do que a inglesa, ou a francesa e a espanhola. Para mim, é um desafio, ainda por cima por achar que os nossos escritores adoptam frequentemente um tom muito nostálgico, triste e insatisfeito através da sua escrita (sei que pode ser cultural, mas...). Assim, tenho tentado encontrar autores que contrariem ou equilibrem essa tendência. Também quero ler sobre gente feliz.

 

Finalmente, leio imenso porque quero aprender a escrever com quem percebe do assunto. Só grandes leitores podem dar, no mínimo, escritores medíocres. Respeito quem o faz bem e sei que têm muito a ensinar-me. O que escreveram os clássicos? O que escreveram autores X e Y? O que andam a escrever os contemporâneos? O que os torna não interessantes? O que os faz ganhar prémios? O que os faz serem tão aclamados pela crítica e pelo próprio público?

 

Até agora, em 2018 ainda só li cerca de oito livros escritos em língua portuguesa. No entanto, tenho feito um esforço por comprar mais e interessar-me pela literatura nacional e lusófona recente e das últimas décadas, tentanto intercalar um livro em português a cada leitura noutra língua (inglês, quase sempre). O mais difícil é explorar novos temas, a que a literatura estrangeira não me habituou. Mas, cada passo a seu tempo, há que começar por algum lado.

 

Também aceito dicas e sugestões de quem esteja a tentar fazer o mesmo que eu, dando uma oportunidade aos autores de língua portuguesa! O que andam a ler? Ou quem? E como são os vossos hábitos de leitura?

a vingança do coxo

Espero sinceramente que, mesmo depois de eu morrer, existam milhares e milhares de alunos portugueses a estudar as minhas obras literárias de fio a pavio. Sou uma jovem sedenta de vingança. Blame it on Eça. O senhor tinha muito talento e admiro-o imenso, pelo seu contributo para nossa língua, mas digamos que A Cidade e as Serras é absolutamente aborrecida, ao contrário d' Os Maias. Também já me estou a preparar para, a partir do ano que vem, deixar de gostar de Fernando Pessoa. Devia ser proibido transformar em estudo obrigatório aquilo que nos poderia dar prazer.