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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Da universalidade

 

Não sou nenhuma entendida em música e não almejo mais do que um dia me tornar realmente entendida em literatura. Por isso, nem costumo partilhar por aqui aquilo que ouço (isto é, além dos podcasts, que esses sim, são outra predilecção minha). Afinal, as minhas listas do Spotify são meros repositórios de pop dos anos 90 e 2000, algum folk ou acústico por influência de amigos, alguma música clássica ou solos de piano, alguma pop portuguesa que poderia passar em qualquer estação do rádio do país...

 

No entanto, quando gosto, gosto mesmo. E partilho. Só porque sabe bem. Neste caso, sabe bem o conforto duma toada fácil, mas emocionante. Sabe bem a cadência catártica de uma letra que poderia ser cliché, mas que parece muito bem arrumada, sentindo o que toda a gente provavelmente já sentiu: "Foi contigo que aprendi / O que é amar alguém a sós", "Nada nos une / Só nos mantém". Podemos nunca ter sentido precisamente aquilo, daquela forma, mas a imaginação e a empatia dão um empurrão.

 

Há muito conforto neste sofrimento contido que se cinge a quatro inofensivos minutos de evocação do que se passou, e que por isso se vai buscar facilmente ao baú de memórias. Mesmo nos nossos momentos mais felizes, conseguimos lembrarmo-nos de como é sentir o oposto - e vice-versa. Também é isso a arte, seja a música, a pintura, o cinema, a literatura... Sentir pelos outros, e sentir por nós, mesmo que lá atrás, noutra vida.

 

Esta universalidade presente na nossa relação com o que ouvimos, lemos ou vemos quase funciona, diria eu, como um abraço colectivo. Por essa razão é que gostava de ter a oportunidade de, no futuro, estudar com maior detalhe a relação entre as artes e o bem-estar, como é que a a arteterapia funciona, em que moldes, com que resultados, especialmente no que diz respeito à escrita e à leitura (o que já fiz, de modo superficial, na pós-graduação em Psicologia Positiva Aplicada).

 

Até escrevo isto mais como nota futura para mim mesma - será que consigo arranjar maneira de enfiar este tema na minha vida académica? Enfim, entre tantos temas que me apetece estudar...

A felicidade da escrita

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Pega na caneta. Pega no caderno. Escreve. Talvez prefiras o computador ou o telemóvel. Talvez gostes de guardar o texto para ti ou de o partilhar com os teus amigos, talvez na Internet. O que interessa é que escrever te faz feliz, não é? Por que será? Que magia tem a palavra materializada no papel?

 

A verdade é que escrever não é coisa de adolescentes, nem de artistas, nem de gente sentimental. Escrever é das terapias mais baratas de sempre, é gratuita. Escrever faz realmente bem à saúde. Ainda por cima, podemos fazê-lo em qualquer lado, a qualquer hora, sozinhos ou acompanhados, na cama antes de dormir, à hora de almoço no meio da cantina, no nosso diário predilecto ou no verso duma folha de rascunho.

 

Tal como a confissão oral, pela conversa ou pelo desabafo, também a confissão escrita tem benefícios para o nosso bem-estar e, mais do que isso, efeitos surpreendentes na condição física humana. Somos mais saudáveis quando nos expressamos, mesmo se o fizermos exclusivamente na nossa própria companhia. Pode ficar tudo só para nós, e mesmo assim sentimos todos esses efeitos.

 

Há mais de 30 anos que se estuda a escrita expressiva: o acto de escrever sobre emoções, pensamentos, eventos, quiçá traumas, ajuda-nos a reorganizar a narrativa pessoal, diminui a sua intensidade emocional (aquele fulgor, aquela obsessão que nos assombra ou que tentamos reprimir) e permite-nos conhecer melhor a nós mesmos. Enquanto pensamos nas melhores palavras, racionalizamos, revisitamos e ordenamos ideias. Escrever é como uma conversa privada em que nos exploramos. Quem somos? O que sentimos? Como o sentimos?

 

James Pennebaker foi o primeiro a descobrir que estes exercícios de escrita diminuem o stress, aliviam a ansiedade, reforçam o sistema imunitário e, por isso, previnem o aparecimento, progressão ou reincidência de certas patologias - por exemplo, tensão alta, cancro, artrite ou ataques cardíacos. Outros investigadores seguiram as suas pisadas (como Laura King e Megan C. Hayes), e agora temos a certeza de que escrevermos sobre emoções, pensamentos e eventos - negativos e também positivos - nos traz um boost ao bem-estar, à semelhança dum bom sumo vitaminado ao pequeno-almoço.

 

Expressar e fazer sentido do que nos vai na mente é o melhor remédio para pararmos de ruminar, resolvermos problemas, dilemas ou simplesmente para apreciar e relembrar os melhores momentos da nossa vida. Afinal, as emoções positivas e a diminuição do stress potenciam a aprendizagem, a atenção, a criatividade e a resiliência.

 

Depois de lerem este texto, convido-vos ao seguinte: peguem na caneta, peguem no caderno, ou liguem o computador ou o telemóvel. Escolham uma (ou várias) propostas que vos deixo aqui: mas escrevam. Escrevam sobre a vossa recordação favorita ou sobre a maior lição de vida que já aprenderam. Escrevam sobre o amor que sentem por alguém. Escrevam sobre o que mais vos inspira. Escrevam sobre a serenidade, a esperança, o orgulho ou a gratidão. E, se não acreditarem que escrever tem este poder incrível, sempre podem pensar que "mal não faz". Vamos a isso?

 

***

 

Para o próximo dia 10 de Outubro (Sábado), eu e a Andreia Esteves estamos a preparar um workshop de Biblioterapia e Diário Positivo. Se estiverem interessados, encontrem toda a informação aqui e inscrevam-se aqui. Também temos um evento no Facebook e no Meetup.

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