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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Um elogio à Internet (já agora, este blog completou ontem 9 anos)

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Terminada uma relação, a primeira começada numa idade adulta, reconheci em mim a necessidade de voltar a sentir-me vista. Apreciada. Amada. Desejada. Queria sentir que alguém poderia olhar para mim e pensar "que maravilhoso exemplar feminino da espécie humana", "quanta inteligência e formosura numa só jovem" ou mesmo "comia" (este era o meu grau de exigência, infelizmente, mas melhores dias vieram).

 

Como qualquer millennial dedicada ao seu trabalho, trabalho esse mais solitário, uma millennial que odeia festas e encontros com mais de cinco pessoas, e que já tinha a piscina de "oportunidades imediatas" esgotada, virei-me para o fiel online dating. Cenário familiar do ano anterior, em que, perante o fim duma relação muito mais longa e com um fim três mil vezes mais doloroso do que a presente, as redes sociais para conhecer pessoas com fins de interesse mais ou menos exclusivo já não eram território estrangeiro. No entanto, desta vez descarreguei e experimentei todas as aplicações relacionadas, qual estudo de mercado, o que não me impediu de acabar a usar apenas a do costume, a favorita, aquela que eu recomendo até às pedras da rua: OkCupid.

 

Acredito ferozmente que a Internet e as ferramentas que nos oferece têm o poder de mudar a nossa vida para melhor. Muito melhor. Basta saber seleccionar o que interessa e fazer valer o que nos é oferecido. Ficarei eternamente agradecida a quem teve a brilhante ideia de criar redes sociais, as de matchmaking também. 

 

Se não tivesse sido pela Internet, eu não conheceria pelo menos três amigas a quem cheguei por algum evento que, apesar de ocorrer offline, se divulgou online; e não conheceria o meu ex-namorado, de quem fiquei amiga, e cuja convivência me tem enriquecido emocional e intelectualmente; e não conheceria o meu actual namorado, sobre quem tenho escrito imenso, que me inspira todos os dias e que tem todo o potencial para ser, também, o meu último namorado de sempre ou, pelo menos, por muito tempo.

 

Fico maravilhada ao enfrentar os factos: qual a probabilidade de conhecer estas pessoas que são, hoje, praticamente indissociáveis da identidade que projecto para mim própria? Qual a probabilidade de acordar ao lado dum sujeito chamado João, com quem partilho muito poucos interesses, que cresceu a cinquenta quilómetros de mim? Qual a probabilidade de o João e eu nos termos cruzado, porque estudámos a menos de quinhentos metros durante três anos, mas nada nos ligava à partida, excepto o nome da universidade que ambos apresentamos no currículo?

 

Qual a probabilidade de termos começado a conversar, não fosse eu ter terminado uma relação umas semanas antes dele achar que se deveria concentrar para o grande exame, quase a tornar-se médico e a mudar-se para outra cidade? E se o João não tivesse esperado mais umas semanas, como os pais lhe andavam a recomendar? E se eu tivesse continuado a insistir na minha relação anterior, mesmo que por apenas mais uma quinzena?  E se eu não tivesse ressuscitado a minha conta do OkCupid? E se eu não tivesse publicado uma fotografia com o meu gato que o João veio a comentar, e se o João não tivesse tido uma segunda chance de tentar chegar à fala comigo, apesar de rezar a lenda que eu já ignorara uma mensagem dele antes de apagar a minha primeira conta?

 

A abrangência da Internet e a probabilidade dum grande amor, ou de grandes amizades, convergem aleatoriamente em narrativas que poderiam ter acontecido doutra forma qualquer. Doutra forma qualquer. Mas não assim. É com este pensamento que me permito invadir por uma gratidão infinita pelo efeito borboleta que me trouxe até ao momento presente. Talvez até me sentisse agradecida por outros resultados, se fosse o caso, mas permitam-me questionar: como é que é possível melhorar? Não existe melhor, pois não? Gosto tanto desta realidade como a conheço.

 

A Internet contém uma vida de possibilidades. Tivesse eu nascido uns anos antes, não me identificaria como nativa, não navegaria tão bem os mares da tecnologia que me trouxeram o João e outras pessoas de quem gosto tanto. Sem preconceitos ou amarras, uso ferramentas apenas visíveis através de um ecrã de seis polegadas para construir o mundo como ele é para mim, agora. Porque sei que tenho, de facto, um mundo nas minhas mãos. Um mundo abstracto que se materializa num mundo palpável. Um mundo onde podemos conhecer o amor da nossa vida, onde podemos conhecer amigos que nos trazem tanta bonança, onde podemos encontrar o emprego dos nossos sonhos, onde podemos partilhar as nossas obras, onde podemos aprender e partilhar conhecimento ao qual não teríamos acesso há duas décadas.

 

Estamos a meio de 2020, no meio dum pandemia. Estamos a meio duma vivência crescentemente digital, fugindo do mundo físico e dos encontros cara-a-cara, alimentando uma existência por mensagens escritas e conferências em vídeo. E que existência poderosa pode ser, se aprendermos a retirar o melhor que a Internet tem para nos sugerir! Afinal, considero que o melhor do mundo online é ter o condão de enriquecer o mundo offline, se soubermos orquestrar a transição e a complementaridade. Esta é uma época instrumental para testarmos mais modos de ser e estar num contexto único.

 

Quando abraço o João, lembro-me frequentemente do quão frágil esta realidade - esta, assim - será sempre. Oh, os pequenos acasos que nos fizeram finalmente cruzar - se não na Cidade Universitária, pelo menos num "não-lugar" chamado OkCupid. Um pequeno "se", nada deste abraço. Nada de ter conhecido o João. Nada de tudo o que surgiu. Nem, na verdade, este dia 1 de Julho de 2020 em que me sinto tão satisfeita com o que a Internet me tem dado - incluindo este blog e toda a partilha e procrastinação proporcionadas em - fez ontem - 9 anos.

 

No topo, fotografia tirada ontem, 30 de Junho de 2020, às 21h50 (em jeito de celebração de mais um marco na existência do Procrastinar Também é Viver). A minha janela e o pôr-do-sol estival, tardio, claro. Quase parece anunciar o bem que há-de chegar.

Best of Procrastinar 2018-2020

Ora, bom dia! [Deve ser a primeira vez que inicio um texto desta forma; há uma primeira vez para tudo...]

 

Reconheço que não tenho sido uma companhia muito assídua, mas estes dias são uma amálgama de semanas, então tenho perdido a noção do tempo, assim como uma certa inspiração para escrever. Porém, acompanhando o fim do estado de emergência, conto recomeçar o hábito de publicar qualquer coisa uma vez por semana, seja sobre livros, filmes, séries, eventos ou aleatoriedades.

 

Entretanto, uma vez que as procrastinações estão quase a celebrar os seus 9 anos (em Junho), decidi organizar uma lista de "Best of Procrastinar" dos últimos 2, isto é, entre Março de 2018 e Abril de 2019. Assim, aqui fica o registo ou repositório das minhas 40 publicações preferidas, ordenadas da mais recente à mais antiga. Não vos convido a ler todas, que 40 textos são muita palavra, mas acredito que haja uma ou outra que tenham gostado de ler pela primeira vez e à qual vos apeteça voltar, ou que encontrem algum título desconhecido que vos interesse e assim conheçam um pouco mais do que existe lá para trás, no passado do blog. 

Sem mais demoras...

 

BEST OF PROCRASTINAR 2018-2020

 

  1. O tempo em conflito
  2. O amor e a loiça
  3. Quem é que escreveu o teu texto?
  4. Dá vontade de dizer "forever and ever"
  5. Procrastinar ainda é viver?
  6. São só fotografias
  7. A última romântica
  8. As férias
  9. Gosto tanto de viajar sozinha!
  10. Vistos, ouvidos e validados
  11. A nécessaire da pessoa com quem fui de férias
  12. As dores de um blog
  13. Emprestar livros: uma reflexão simpática
  14. Como concretizar todas as ideias que nos aterram na cabeça?
  15. Escrever, pôr tudo cá fora: Bullet Journal, journalling, to-do lists e outros estrangeirismos de caneta no papel
  16. Sobre quem conversa e quer conversar
  17. Não terminar livros
  18. Há um ano em Portugal
  19. Viver na ditadura da popularidade, criatividade, identidade única e algoritmos
  20. Ler e ser lido; escrever sobre quem escreveu
  21. Eu, Inês
  22. Sabe tão bem comprar um livro novo!
  23. Ser adulto é...
  24. Blogue, baú de memórias, caixinha de recordações
  25. Coisas boas atraem coisas boas, uma explicação científica
  26. 36 perguntas que levam ao amor - a minha experiência pessoal
  27. Vergonha alheia
  28. Modern Romance: como a Internet mudou as nossas relações e vidas amorosas
  29. Este não é um texto sobre estradas
  30. Ainda Alain de Botton e o amor: como 'The Course of Love' também me conquistou
  31. Pensamentos sobre tentar escrever um livro (outra vez), auto-censura e outras inquietações
  32. Há dias
  33. Estar, apenas
  34. O meu novo livro preferido: Essays in Love, de Alain de Botton
  35. Alguma vez estamos preparados para o próximo passo?
  36. As viagens também servem para arejar as ideias
  37. As pessoas não se sentam para beber café
  38. Sobre a felicidade dos outros
  39. Sobre flores (e copos, vá)
  40. Com o que se parece um desgosto?

 

Para mim, procurar o que escrevi nos últimos anos foi um exercício construtivo. A verdade é que serviu para reler alguns textos dos quais já não me lembrava, para perceber a evolução do que escrevo e para revisitar momentos ou pensamentos nos quais, muitas vezes, já nem me reconheço. A memória prega-nos partidas, já escrevia Julian Barnes em The Sense of an Ending, por isso escrever um blog vai atrasando o esquecimento ou, talvez, imortalizando aquilo que me pareceu relevante partilhar.

 

A quem passa por aqui, obrigada pelas procrastinações contínuas e por tornarem o acto da escrita menos solitário!

As dores de um blog

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Este texto é para quem tem um blog, para quem não tem, e para quem, não tendo, gostaria de ter - ou seja, para toda a gente. No entanto, mais especificamente, este texto é para quem não sabe se vale a pena ter um blog.

 

Como podem verificar, publiquei pela última vez há duas semanas. Costumo fazê-lo mais frequentemente, mas a vida tem acontecido, o que quer dizer que não há grande coisa sobre a qual me apeteça escrever. Não tem acontecido nada, que, para quem escreve, costuma significar "não tem acontecido nada disruptivo ou dramático, cá andamos felizes e contentes, porque da satisfação não reza a escrita". Normalmente, tenho andado a escrever sobre livros, livros e mais livros. Já escrevi sobre a adolescência (coisas miúdas e desinteressantes), e depois universidade, universidade e mais universidade, e depois sobre viver na Tailândia, viver na Tailândia e mais viver na Tailândia, e depois desgosto de amor, desgosto de amor e mais desgosto de amor, a par de síndrome do regresso, síndrome do regresso e mais síndrome do regresso.

 

Este blog tem oito anos, celebrados há poucos dias, por isso já passou por várias fases. Quando digo às pessoas que tenho um blog, perguntam-me "um blog de quê?", como se isso fosse pergunta que se faça. Tenho um blog de tudo e mais algum acontecimento de vida, interesse, descoberta, partilha e queixinhas. Não lhe encontro categoria possível, e acabo por preferir a vergonha de responder "é um blog pessoal".

 

Então, talvez lhe devesse chamar "repositório". É como aquelas caixas rijas e coloridas que compramos na loja Viva, que levamos para casa a pensar que vão servir para um propósito particular e acabam a acumular tralhas diversas, amadurecidas com pó e mosquitos mortos misteriosamente presos lá dentro.

 

As dores de um blog são as dores da pessoa que o escreve. Expondo mais ou menos a sua vida fora dos écrãs, quem escreve um blog depende dela para criar conteúdo. Mesmo quando os blogs são temáticos, acabam por captar um pouco do que se passa antes de terem surgido aqueles textos. Tal como os livros, afinal. Quem é que nunca tentou perceber o que iria pela cabeça dum escritor ao escrever aquela história, ou sobre aquele tema específico? Quem é que nunca tentou adivinhar as suas motivações e interesses, ou a relação da ficção com a vida fora das páginas? Com um blog, passa-se o mesmo: conhecemos essas pessoas, mesmo sem nunca as termos visto ou falado com elas.

 

Então, o oposto também é possível: quando não se passa nada (ou, pelo menos, quando o autor pensa que não se passa nada), também não há muito para servir de matéria para a escrita. Não consigo inventar, mas posso-vos dizer que vi uma temporada de 22 episódios x 40 minutos duma série absolutamente irrelevante no Netflix em menos de sete dias, não tenho tido muita concentração para ler e tenho dado e preparado aulas até ter o cérebro dormente. Aliás, passei os últimos dias a arrastar-me, em parte porque ando a beber demasiado chocolate quente e a comer demasiadas gomas.

 

Estranhamente, hoje acordei nesse mesmo estado, mas à medida que a manhã se ia passando, fui-me apercebendo de que esse marasmo é cíclico, que é preciso deixá-lo entrar para depois o ver sair e que não me hei-de deixar deslumbrar por séries de crime e paixão para sempre. Depois de drenado o que estava a apodrecer, deixem entrar as novidades. Treinem o cérebro: um episódio de podcast de cada vez, um capítulo dum livro de cada vez, um artista novo de cada vez, uma resolução de cada vez.

 

A ver se regresso às lides menos procrastinantes e mais edificantes ASAP.

 

Seja como for, regressando ao ponto de partida. Este texto é para quem não tem um blog e não tem a certeza se valeria a pena. Talvez não tenham a ideia cimentada - que tema?, que tom?, que ideia de mim? Assinado ou anónimo? Para partilhar com os amigos e a família ou só para desconhecidos (porque é mais fácil escrever para quem não nos conhece)? Mas, volvidos oito anos, eu continuo a apoiar a ideia de que um blog é o que nós quisermos. Ao longo do tempo, apreciamos as metamorfoses e as dores. As metamorfoses de um blog são as de quem o escreve. As dores de um blog são as de quem o escreve. Independentemente do que procuram, vale sempre a pena ter um blog. É catártico, consola e dá-nos um propósito, nem que seja durante um par de horas por semana.

 

Estão a ler este texto? As dores do meu blog são as minhas. Irrelevantes, em geral, no plano universal. Relevantes, mesmo que descartáveis, para os tantos que por aqui passam e param. Imprescindíveis para mim, que o estou a escrever como exercício meta-coiso de quem pretende reafirmar a identidade do seu blog e um pouco a sua. Esta é a minha linha de escrita actual, se é que isso exista. Ora, se já existiram tantas... mais hão-de existir! Isso de se pensar "se é para escrever, que se escreva bem" é o que temos de combater com exercícios anti-ego. Vamos escrever o que nos apetecer, não interessa se mais alguém vai querer ler o que escrevemos ou não.

 

Como imagem ilustrativa deste texto, deixo-vos com uma paisagem a partir do cimo de Óbidos, que fotografei há algumas semanas quanto lá fui. Não tem nada a ver com o resto do conteúdo, mas acho-a extremamente relaxante, devido à quantidade de verde e azul em toda a sua extensão, extensão essa que por sua vez ilustra a quantidade de procrastinação investida na elaboração deste texto. ... Viram? A qualidade literária deste parágrafo nem sequer existe, nicles, e de certeza que alguém o está a ler e a pensar que valeu mais a pena fazê-lo do que voltar ao trabalho, ver uma série de segunda categoria no Netflix ou ler um capítulo do último Prémio Nobel. Também me diverti a escrevê-lo, por isso é recíproco.

 

(Fora de brincadeiras, muito obrigada aos comentários que por aqui vão deixando. Confesso que sou uma respondedora de comentários bastante ausente e, na melhor das hipóteses, atrasada. Mas eu leio e agradeço. Pratico essa coisa da gratidão. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Prometo continuar a contribuir para a vossa procrastinação por muitos anos, provavelmente mais oito, dez ou trinta.)