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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

30/30 (recomendar livros)

Nunca pedi a um livreiro que me recomendasse um livro. Revelar desejos e expectativas a um desconhecido, cuja única ligação a mim é, em abstracto, o livro, parece-se demasiado com a confissão católica, numa versão mais intelectualizada.

(Valeria Luiselli, em Deserto Sonoro, p. 104, edição da Bazarov)

 

É difícil descrever os livros de que precisamos, tanto mais se o tivermos de dizer a um desconhecido. Para recomendações, procura-as junto dos meus amigos. Só uma vez pedi ajuda a uma livreira (na Bookshop Bivar, em Lisboa), por me ter sentido acolhida, o que, regra geral, é difícil em livrarias massificadas e de compra impessoal, despachada. Para as leituras futuras sobre as quais tenho a certeza, compro nessas últimas. Para quando não sei realmente o que quero, prefiro as livrarias pequenas, com gente, apesar de me sentir invariavelmente acanhada, apesar de até ter o hábito de trocar meia dúzia de palavras com os livreiros, apesar de desperdiçar quase sempre a simples pergunta:

Tem algum livro que isto e aquilo?

 

Ou ainda:

Que livro mais tocou a Senhora Livreira ou o Senhor Livreiro?

 

Ora, poderão os livreiros ser uma espécie de confessores dos crentes na religião das palavras?

 

Não sendo eu livreira e ainda não tendo o tal à-vontade para abordar os livreiros, vejo nas trocas informais na Internet um lugar de partilha que pode ecoar pelo mundo fora, às vezes seguindo esse eco sem encontrar parede onde bata, outras tropeçando nesta e naquela. Tenho pouca fé no bookstagram e noutros canais já viciados pelos números, pelas parcerias e pelos egos, mas vou tirando proveito do Goodreads, de alguns blogs e das opiniões de pessoas específicas nas quais confio. Por isso, continuo a escrever sobre livros, textos e escritores. Faço-o desinteressada, troca por troca, prazer por prazer. Porque valorizo a generosidade e a disponibilidade que temos uns para os outros, entre pessoas que nem se conhecem, ou umas que, mesmo assim, conhecem outras um bocadinho melhor. Porque é tão bom partilhar impressões espontâneas sobre aquilo que nos alegra, estimula, faz viver, dá alento. Acredito em recomendações extremamente personalizadas que são feitas por acaso, mesmo que nunca cheguemos a saber que as fizemos.

 

Dito isto, aqui vos deixo as minhas últimas leituras preferidas, com a nota de que ando muitíssimo interessada no processo criativo, e até logístico, dos escritores, principalmente de escritoras mulheres, assim como das suas circunstâncias familiares e sociais:

 

A propósito, cumprindo-se os primeiros seis meses de 2021, esta é a minha lista completa de leituras terminadas neste período:

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***

 

Com este texto, termino o desafio mil vezes interrompido de escrever 30 dias seguidos, que de seguidos pouco tiveram,  tal qual uma relação imberbe, a primeira doutras seguramente mais comprometidas. Além de ter sido um desafio interessante, por me ter obrigado a escrever e a treinar a desenvoltura na escrita, e por me ter obrigado a esmiuçar o que só a mim me atormenta ou alimenta os dias, também o acabo com a sensação de que servirá de retrato instantâneo, como uma fotografia de polaroid, dos meus interesses e pensamentos actuais.

 

Doravante, encontrarão todos os textos sob a etiqueta 30 em 2021. Quem sabe... poderei repeti-lo em anos futuros!

22/30 (quando as palavras se esgotam)

Tenho tentado cumprir o desafio do texto diário, mas tem sido complicado. Entre enxaquecas, sinusite e alergias que me impedem de me concentrar, outros textos aos quais me ando a dedicar de forma mais urgente, fazer as tarefas que me competem em casa, e o trabalho e o mestrado que têm de ser as minhas actividades principais, poucas palavras restam para espremer.

 

No entanto, eu sei que é importante escrever um pouco todos os dias. Obrigar-me a escrever, ou adormecer a tentá-lo (o que já aconteceu) tem-me ajudado a levar a cabo o lema de que a persistência é o melhor caminho. Não há talento que subsista sem dedicação, atenção, tempo e pelo menos a promoção d oportunidade para criar. É importante sentarmo-nos para podermos dar prioridade ao que mais tencionamos valorizar. Afinal, sempre se disse que de boas intenções está o inferno cheio. Escritores que admiro repetem essa ideia: o que diferencia um escritor promissor no seu início de carreira, mas que acabou por não escrever grandes obras, de um escritor que conseguiu ao fim de um certo tempo estabelecer-se no meio pode ser, só e apenas, o segundo ter continuado a insistir até conseguir produzir o trabalho desejado, depois de se frustrar, de se sentir um impostor, de trabalhar noutras áreas e de ter investido tempo a praticar e a experimentar. Claro que há outras variantes a considerar (a sorte, a liberdade financeira e intelectual, as circunstâncias da vida em geral), mas é fácil concluir que escrever não é só chegar lá e já está.

 

Por isso, insistirei até chegar aos 30 textos diários, mesmo que não sejam consecutivos. Quando as palavras se esgotam, continuamos a escrever, nem que seja a última palavra conseguida. Pelo menos, foi isso que aprendi sobre a estratégia da escrita por fluxo de consciência. É continuar lá, marcar o ponto, até que a água da inspiração (e, acima de tudo, da perspiração) volte a jorrar.

21/30 (mentores e autobiografias)

Hoje, escrevo em continuação ao que escrevi anteontem antes de adormecer (e sim, sei bem que falhei um dia do desafio, mas aqui continuo, em direcção às trinta publicações prometidas).

 

Como rematei, não encontro mentores no mundo imediato ao meu, ou com quem possa ou me sinta à vontade para falar, mas encontro palavras: autobiografias, artigos, crónicas, ensaios, testemunhos. Ultimamente, sinto que me vão guiando, que me vão enchendo as medidas do necessário.

 

Os blogs funcionam mais ou menos assim, já agora. São espaços simultaneamente egocêntricos e de partilha, um espaço criado porque o "eu" tinha algo para dizer, mas com a condição de que haja alguém para ler. Procuramos a experiência de pessoas com quem temos, ou talvez com quem queiramos ter, algo em comum. Ou através das quais possamos viver por contágio escrito-lido.

 

E não, não precisamos de ter precisamente a mesma vida dos autores dos textos que lemos. Talvez procuremos apenas consolo, manuais de instruções para existências múltiplas e alheias, soluções imaginadas para um mundo de possibilidades imaginadas, formas de ser, estar e sentir que poderiam ser as nossas e que só não o são por acaso.

 

E se...? E caso..., será que...? O que diz o outro sobre si, que lá no fundo também poderia ser sobre mim?

19/30 (blogs, livros e a liberdade de expressão)

Demoramos cinco minutos a criar um blog, talvez mais dez a escrever a primeira publicação. Podemos opinar, deitar cá para fora as nossas postas de pescada, bastando clicar no botão azul que permite que o nosso texto vá para o ar. Nas redes sociais, idem; aliás, nelas é ainda mais rápido e intuitivo escrever e dizer o que quisermos, mesmo quando ainda não pensámos muito no assunto, ou mesmo quando o que escrevemos ou dizemos não faz sentido, ou atenta contra alguém, ou quando não era bem aquilo que queríamos comunicar.

 

Assim é a liberdade de expressão em 2021, em Portugal. Qualquer pessoa dispõe de recursos, ferramentas e conhecimentos para, em curtos minutos, contar ao mundo o que lhe vai na mente. Desde o acesso universal à educação, até ao poder de nos fazermos ouvir quando, onde e como queremos, passando pela generalização do uso das tecnologias da informação, a liberdade é um dado adquirido.

 

Sabiam que, na Tailândia, o livro 1984 é proibido? Na altura em que vivi em Banguecoque, fui ver uma peça de teatro baseada na obra, e todos naquela sala, numa das melhores universidades do país, sabiam que faziam parte de um acto colectivo de rebelião contra as amarras da ditadura militar e da monarquia absoluta, inquestionável. Antes de entrarmos, apontava-se e murmurava-se para um jovem. "Ele já foi preso por ter ido ler passagens do 1984 para a porta da Embaixada dos Estados Unidos".

 

A certa altura, não sei se antes ou depois de ir ver essa peça encenada por alunos da Universidade Chulalongkorn, comprei o 1984 para o ler pela primeira vez, encontrado na minha livraria de eleição, de livros usados em inglês, a Dasa Books, na avenida Sukhumvit. Eu sabia que, sendo estrangeira, esse estatuto poderia beneficiar-me ou, infelizmente, colocar-me em maior perigo se fosse apanhada com o livro nas mãos. Decidi não arriscar, e envolvi a capa em papel branco.

 

Em Portugal, antes do 25 de Abril de 1974, seria impossível ter um blog livre, que não fosse detalhadamente escrutinado (se os houvesse, é claro), tal como seria impossível ler qualquer livro que se quisesse (se se soubesse ler e escrever), ou obtê-lo ou trazê-lo para Portugal, tal como na Tailândia, em 2017. A minha avó conta-me que o meu avô ia à Livraria Barata comprar livros proibidos, por exemplo. Já se imaginaram a viver num mundo em que há leituras e obras proibidas e censuradas? Eu não.

 

Quando alguém recusa ou desvaloriza a importância de vivermos em democracia em Portugal, é impossível não sentir a profunda injustiça dessa sua tomada de posição. Eu, mulher, que nasci num país em paz, que não dependo do poder patriarcal para sobreviver e tomar as decisões da minha vida, que jamais vi o que escrevo, digo ou crio censurado, que nunca me senti perseguida por ter opiniões (sejam elas mais ou menos acertadas, mais ou menos reflectidas), sinto-me privilegiada. Escrevo e estudo sobre o que quero e me apetece, vivo com um homem com quem não estou casada, beijo em público, dou a mão em público, sinto-me livre e os meus actos, se não lesarem ou magoarem ninguém, podem mesmo nem sequer ter quaisquer consequências. O mesmo não puderam dizer mulheres como as Três Marias, e mesmo a minha avó ou a minha bisavó.

 

Quem viveu a ditadura e o 25 de Abril está a envelhecer. A cada nova celebração do Dia da Liberdade, temos cada vez menos testemunhos na primeira pessoa prontos a refrescarem-nos a memória. Dentro de duas gerações, os pais e os avós dos filhos da madrugada (pegando na canção de Zeca Afonso ou no título do programa de Anabela Mota Ribeiro) não estarão cá para contar que Portugal era esse. Pode tornar-se cada vez mais difícil recordar como era viver no nosso país antes de 1974, ou acreditar que vivemos realmente num país melhor. A memória pode atraiçoar, o enviesamento é inevitável. Resta-nos cuidar do legado e preservar o que for possível da memória de grande parte do século XX, ainda tão recente, mas mais distante a cada dia que passa.

 

Não, a democracia como a conhecemos hoje não é perfeita, longe disso. Muitas desigualdades continuam a existir, tal como corrupção, pobreza, desemprego, desespero, falta de oportunidades. Mesmo assim, não tenhamos ilusões: a vida é melhor agora do que há 47 anos. Tratemos de acrescentar qualquer coisa, dentro das nossas possibilidades, a essa liberdade que outras gerações não tiveram.

1/30 (cá de cima)

Decidi escrever pelo menos 200 palavras por dia no blog, durante um mês. Inspirada numas modas que vi passarem pelo Twitter, proponho-me a exercitar o músculo da observação, do comentário e da palavra inteira. Outro objectivo é apenas escrever e habituar-me ao uso do "melhor feito que perfeito". Assim dito, assim escrito, assim começo! Sem edição ou revisão.

 

Mudei-me há três meses e uma semana para uma vila no interior, como já aqui contei. Não obstante as circunstâncias actuais, o contexto, as condicionantes, acho que nunca gostei tanto de viver num sítio como gosto de viver aqui. Para quem já morou no centro de uma metrópole com dez milhões de habitantes, morar no centro de uma vila histórica com sete mil, mesmo que numa avenida principal e vizinha de não uma, não duas, mas três esplanadas é um descanso. Também já morei perto doutra avenida principal, num subúrbio, e também já morei num bairro à beira de um pinhal. Mas aqui é que eu gosto de estar.

 

Escrevo este texto sentada no sótão, que é como quem diz, no terraço acima do sótão. A brincar, chamo-lhe um rooftop, como se ensaiasse o conceito que me apaixonou do cimo de prédios com 45, 50, 55, 60 andares em Banguecoque. Pois ensaio, e ensaio bem. Daqui de cima, vejo as pessoas a passar, a passear e a conversar nas três esplanadas da que eu considero ser a melhor esquina de Portugal.

 

Cá de cima, também vejo telhados, telhados e mais telhados. E o castelo. E a torre da igreja do castelo. E os ramos de uma árvore centenária que cresce em direcção ao infinito, ramos densos, verdes e ricos onde se escondem os ninhos da passarada que me empresta banda sonora o dia inteiro e espectáculos aéreos nestes fins de tarde primaveris.

 

Cá de cima, escrevo. Como é óbvio. E leio, e procrastino o jantar, como hoje, como agora.

 

Mas já comia. Amanhã continuo. Este mês continuo.

Fazer uma pausa

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Alguma vez pensaram em fazer uma pausa dos blogs?

 

Em quase dez anos, penso que raramente terei tomado essa decisão, pelo menos de forma consciente. Mas foi o que aconteceu desta vez.

 

Primeiro, fi-lo sem querer, porque estive ocupada com outros projectos e ideias de escrita, ou porque simplesmente dava por mim sem nada para partilhar, o que já ia sentindo nos meses precedentes. No entanto, ao fim de algumas semanas também me apercebi de que deveria tornar esta decisão mais clara para mim, para que não me sentisse pressionada a voltar a publicar no blog.

 

Assim, dois meses depois do último texto que aqui deixei, tive vontade de escrever. Muito se passou desde então, por isso é óbvio que este é o momento natural para retornar às actividades blogosféricas.

 

Noutras palavras...

 

A árvore que é a vida duma pessoa abandona o vaso onde tinha sido semente, para vir a encontrar novo solo onde deixa crescer raízes. Estranhas espécies de pássaros podem aparecer, o vento sopra em desabrigo e desentendimento com as estações. A árvore tenta agarrar-se, puxada para um lado e para outro, até que finalmente se apercebe: quaisquer que sejam as intempéries, sente que este é o sítio onde sempre quis estar.

 

Tenho estado como essa árvore.

 

Toda a transplantação é difícil, por muito desejada que tenha sido, e a minha precisou duma paragem nas actividades que normalmente me dão prazer, como escrever e ler. Novas prioridades falaram (gritaram) mais alto. Não só me obriguei a aprender o funcionamento dum novo mundo (não aprendemos todos?), como ao mesmo tempo me encontro numa nova geografia, numa nova casa, num novo lar.

 

Aos poucos, lançadas as tais novas raízes, reciclo ritmos anteriores e fabrico novos. Hei-de demorar a acertar neles, o contexto exterior não tem tudo de propício para o investimento no interior, mas já vai fazendo sentido começar por algum lado.

 

É com tal ensejo que esta pausa acaba de ser interrompida. Cá voltaremos a ter um blog, mais ou menos, mas sempre, presente.

 

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E, já agora, com uma nova mascote.

Se ainda agora chegaram...

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Se ainda agora chegaram... Olá, eu sou a Beatriz e não nego que tenho muito para dizer sobre mim mesma. Aqui vão umas linhas.

 

Estou quase sempre a escrever; quando não estou a escrever, estou a pensar sobre o que vou escrever; quando nem pensar sobre o que escrever consigo, estou a culpar-me porque a vida é curta, e deveria estar a fazê-lo, e não estou. A pior composição que já escrevi na vida deve ter sido a do Tinder/OkCupid (felizmente, temas como "gatos" e "livros" são infalíveis). E, agora, esta.

 

Para ser honesta, decidi que, se não estou a escrever, deveria estar a ensinar. Já dei aulas na casa dos outros, na minha casa, no escritório dos outros, no meu escritório, na Tailândia, em Portugal, para o Vietname, em pijama, em cuecas, em vestido curto, de fato, presencialmente, pela Internet, numa universidade top 10, em cafés, em duas escolas privadas, em empresas, até no carro.

 

Tenho um gato exótico chamado Lord Ennui ("aborrecimento" em francês, com aspiração a ser fino). Tenho outras três gatas sem pedigree, tenho dois cães, tenho uma família que devia estar numa novela escrita por estagiários, tenho uma avó-mãe e tenho um namorado fit e médico que equilibra o meu karma de batata de sofá. Tenho um blog. Tenho um clube de escrita. Tenho dois mestrados pela metade. Tenho sinusite.

 

Gosto de abraços e de mimo. Gosto de ler, de escrever e de comprar livros. Gosto (demasiado) de procrastinar. Gosto de ser professora. Gosto de trabalhar por conta própria. Gosto de estar sempre a estudar. Gosto de ser sempre (que possível) do contra. Gosto de ser bicho, e gosto de ser doce. Gosto de pessoas, por muito que o negue. Gosto que me deixem falar por horas seguidas, tanto quanto gosto que me deixem em paz com regularidade. Gosto dos mil-folhas duma certa padaria portuguesa. Gosto de bandas sonoras e de podcasts.

 

Ufa. Acho que é isso. E por aí?

Quem é que escreveu o teu texto?

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Nos dias que correm, parecemos ser todos produtores de conteúdo instantâneos. Independentemente da faixa etária, utilizamos a Internet e aplicamos  asnossas competências digitais de forma inata, porque nascemos com cada vez mais dispositivos electrónicos à nossa volta e são-nos dadas cada vez mais comandos, telemóveis, computadores, tablets e mil engenhocas para as mãos quando somos cada vez mais novos. Por isso, a possibilidade de produzir conteúdo para um público vasto é um dado adquirido, ainda por cima num país como Portugal, onde facilmente nascemos com veia de escritor (até aqueles que pouco lêem). 

 

Tenho passado algum tempo no LinkedIn e, nesta rede social em particular, fico assoberbada pela quantidade do que por lá se escreve, a rodos. Fica a impressão de que há sempre algo para contar, toda a gente tem algo a contar, toda a gente é inspiradora e toda a gente conhece outro alguém com uma história inspiradora. Atenção: os textos que por lá se lêem nem são maus; são só "poucochinhos". A democratização das técnicas de storytelling (meras fórmulas) não traz necessariamente histórias que interessam, sem criar mais ruído. À parte a prática do amor próprio e ao próximo, que muito admiro e prezo, olho para esta entropia de histórias com pesar e cepticismo. A verdade é que quantidade não é qualidade, e muito menos novidade.

 

Felizmente, há histórias bem contadas e textos muito bons, que perfazem uma boa fatia do que tenho lido. E o que é uma história bem contada ou um texto muito bom? Claro que este meu próprio texto resulta de um exercício de altivez propositado, e que haverá critérios para todos os gostos. Assim, atrevo-me a apontar que, para mim, acima de tudo, um bom texto é um texto em que consigo ler a voz do autor. É um texto que não se parece com outros, seja pelo género, registo, tema, conteúdo, forma, respeito ou desrespeito pelas regras gramaticais... É um texto onde (sobre)vive alguém, e onde se nota um esforço de inovação e de permanência de uma tal voz autêntica, que não se copia. Quem escreveu o teu texto? Quem é que habita o teu texto? Quem é o autor assumido do teu texto? Foste tu a escrevê-lo ou poderia ter sido outra pessoa qualquer?

 

Como resposta a estas perguntas, não há mesmo fórmulas possíveis. Não há "princípio-meio-fim", título cativante ou primeira frase cheia de impulso que salve um texto. Estes são só o ponto de partida para algo que pode ser nosso, se o deixarmos acontecer, porque há mais além manuais de escrita criativa. Há pessoas.

As dores de um blog

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Este texto é para quem tem um blog, para quem não tem, e para quem, não tendo, gostaria de ter - ou seja, para toda a gente. No entanto, mais especificamente, este texto é para quem não sabe se vale a pena ter um blog.

 

Como podem verificar, publiquei pela última vez há duas semanas. Costumo fazê-lo mais frequentemente, mas a vida tem acontecido, o que quer dizer que não há grande coisa sobre a qual me apeteça escrever. Não tem acontecido nada, que, para quem escreve, costuma significar "não tem acontecido nada disruptivo ou dramático, cá andamos felizes e contentes, porque da satisfação não reza a escrita". Normalmente, tenho andado a escrever sobre livros, livros e mais livros. Já escrevi sobre a adolescência (coisas miúdas e desinteressantes), e depois universidade, universidade e mais universidade, e depois sobre viver na Tailândia, viver na Tailândia e mais viver na Tailândia, e depois desgosto de amor, desgosto de amor e mais desgosto de amor, a par de síndrome do regresso, síndrome do regresso e mais síndrome do regresso.

 

Este blog tem oito anos, celebrados há poucos dias, por isso já passou por várias fases. Quando digo às pessoas que tenho um blog, perguntam-me "um blog de quê?", como se isso fosse pergunta que se faça. Tenho um blog de tudo e mais algum acontecimento de vida, interesse, descoberta, partilha e queixinhas. Não lhe encontro categoria possível, e acabo por preferir a vergonha de responder "é um blog pessoal".

 

Então, talvez lhe devesse chamar "repositório". É como aquelas caixas rijas e coloridas que compramos na loja Viva, que levamos para casa a pensar que vão servir para um propósito particular e acabam a acumular tralhas diversas, amadurecidas com pó e mosquitos mortos misteriosamente presos lá dentro.

 

As dores de um blog são as dores da pessoa que o escreve. Expondo mais ou menos a sua vida fora dos écrãs, quem escreve um blog depende dela para criar conteúdo. Mesmo quando os blogs são temáticos, acabam por captar um pouco do que se passa antes de terem surgido aqueles textos. Tal como os livros, afinal. Quem é que nunca tentou perceber o que iria pela cabeça dum escritor ao escrever aquela história, ou sobre aquele tema específico? Quem é que nunca tentou adivinhar as suas motivações e interesses, ou a relação da ficção com a vida fora das páginas? Com um blog, passa-se o mesmo: conhecemos essas pessoas, mesmo sem nunca as termos visto ou falado com elas.

 

Então, o oposto também é possível: quando não se passa nada (ou, pelo menos, quando o autor pensa que não se passa nada), também não há muito para servir de matéria para a escrita. Não consigo inventar, mas posso-vos dizer que vi uma temporada de 22 episódios x 40 minutos duma série absolutamente irrelevante no Netflix em menos de sete dias, não tenho tido muita concentração para ler e tenho dado e preparado aulas até ter o cérebro dormente. Aliás, passei os últimos dias a arrastar-me, em parte porque ando a beber demasiado chocolate quente e a comer demasiadas gomas.

 

Estranhamente, hoje acordei nesse mesmo estado, mas à medida que a manhã se ia passando, fui-me apercebendo de que esse marasmo é cíclico, que é preciso deixá-lo entrar para depois o ver sair e que não me hei-de deixar deslumbrar por séries de crime e paixão para sempre. Depois de drenado o que estava a apodrecer, deixem entrar as novidades. Treinem o cérebro: um episódio de podcast de cada vez, um capítulo dum livro de cada vez, um artista novo de cada vez, uma resolução de cada vez.

 

A ver se regresso às lides menos procrastinantes e mais edificantes ASAP.

 

Seja como for, regressando ao ponto de partida. Este texto é para quem não tem um blog e não tem a certeza se valeria a pena. Talvez não tenham a ideia cimentada - que tema?, que tom?, que ideia de mim? Assinado ou anónimo? Para partilhar com os amigos e a família ou só para desconhecidos (porque é mais fácil escrever para quem não nos conhece)? Mas, volvidos oito anos, eu continuo a apoiar a ideia de que um blog é o que nós quisermos. Ao longo do tempo, apreciamos as metamorfoses e as dores. As metamorfoses de um blog são as de quem o escreve. As dores de um blog são as de quem o escreve. Independentemente do que procuram, vale sempre a pena ter um blog. É catártico, consola e dá-nos um propósito, nem que seja durante um par de horas por semana.

 

Estão a ler este texto? As dores do meu blog são as minhas. Irrelevantes, em geral, no plano universal. Relevantes, mesmo que descartáveis, para os tantos que por aqui passam e param. Imprescindíveis para mim, que o estou a escrever como exercício meta-coiso de quem pretende reafirmar a identidade do seu blog e um pouco a sua. Esta é a minha linha de escrita actual, se é que isso exista. Ora, se já existiram tantas... mais hão-de existir! Isso de se pensar "se é para escrever, que se escreva bem" é o que temos de combater com exercícios anti-ego. Vamos escrever o que nos apetecer, não interessa se mais alguém vai querer ler o que escrevemos ou não.

 

Como imagem ilustrativa deste texto, deixo-vos com uma paisagem a partir do cimo de Óbidos, que fotografei há algumas semanas quanto lá fui. Não tem nada a ver com o resto do conteúdo, mas acho-a extremamente relaxante, devido à quantidade de verde e azul em toda a sua extensão, extensão essa que por sua vez ilustra a quantidade de procrastinação investida na elaboração deste texto. ... Viram? A qualidade literária deste parágrafo nem sequer existe, nicles, e de certeza que alguém o está a ler e a pensar que valeu mais a pena fazê-lo do que voltar ao trabalho, ver uma série de segunda categoria no Netflix ou ler um capítulo do último Prémio Nobel. Também me diverti a escrevê-lo, por isso é recíproco.

 

(Fora de brincadeiras, muito obrigada aos comentários que por aqui vão deixando. Confesso que sou uma respondedora de comentários bastante ausente e, na melhor das hipóteses, atrasada. Mas eu leio e agradeço. Pratico essa coisa da gratidão. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Prometo continuar a contribuir para a vossa procrastinação por muitos anos, provavelmente mais oito, dez ou trinta.)

Todos juntos nos #19para2019!

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Quando desafiei algumas pessoas para a lista de "19 para 2019", não pensei que realmente fossem pegar na ideia e entrassem na brincadeira.

 

Menos de nove dias depois, todos os desafiados cumpriram e... contagiaram. Parece que a equipa dos Blogs do Sapo até instituiu a tag #19para2019 e alargou a brincadeira a toda a comunidade.

 

Portanto, até agora temos estes participantes:

 

(E a lista vai aumentando um pouco todos os dias!)


Resta-me agradecer toda a partilha celebrada no início dum novo ano, por darem a conhecer os vossos objectivos e ideias e pela simpatia gerada.

 

No entanto, não se esqueçam: estas listas são apenas referenciais, não são mandamentos gravados em pedra. O que interessa é fazer por cumprir alguns, "enjoying the view", sem ressentimentos no final do ano por eventuais "falhas".

 

Obrigada e feliz continuação de #19para2019!