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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

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15/30 (a lição que a Coffee me ensinou)

Ver um cachorrinho crescer é uma lição. Provavelmente, há-de ser parecido a ver um bebé crescer, mas ainda não tive essa experiência. Por agora, escrevo sobre aquela que conheço.

 

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Ver um cachorrinho crescer é uma lição, escrevia eu. Neste caso, ter acompanhado o desenvolvimento praticamente ao segundo da minha Coffee Bean, desde que tinha seis semanas, ensinou-me mais do que eu estava à espera.

 

A Coffee fez seis meses no dia 17. Têm sido meses muito interessantes, porque não é todos os dias que temos a oportunidade de estar praticamente 24 sobre 24 horas com os nossos animais de estimação pequeninos.

 

Fazendo justiça ao nome que lhe demos, a Coffee tem muita energia. Além disso, é teimosa, ardilosa e sabe fingir que não percebe montes de coisas (como ordens ou regras), porque não lhe apetece.

 

Esta personalidade vincada também me tem oferecido muito entretenimento, principalmente quando ela era bebé. Vocês já assistiram a uma criança, humana ou não humana, a aprender algo novo? Um ser indefeso, sem conhecimento do mundo ou do seu funcionamento, é capaz de ficar horas e horas a repetir a mesma façanha. Pensei muito nesta repetição e agitação natural ao ensinar a Coffee a descer de camas e sofás, ou a subir e descer escadas. Ela demorou quatro meses a desfazer um par de pantufas, mas chegou inevitavelmente ao resultado pretendido.

 

É daí que surge a lição que a Coffee me tem ensinado: a da perseverança. Não sabes, aprendes. Não consegues, mas hás-de conseguir. Degrau a degrau. Patada a patada. Uma tentativa de cada vez, a partir da ignorância e da incompetência totais, em direcção à perfeição ou mestria. Enquanto aprendemos ou descobrimos o desconhecido, não devemos pensar demasiado ou ficar a lamentar-nos sobre a infelicidade das nossas circunstâncias. Ou talvez devamos ser, simplesmente, mais compreensivos com o processo.

 

Logo eu, que sou tão perfeccionista, que fico tão facilmente frustrada quando tenho de enfrentar a inexperiência para alcançar a experiência, tenho passado quase todos os minutos dos meus últimos meses a observar um novo ser a descobrir o mundo. Cheia de paciência e muita curiosidade, a Coffee já consegue fazer o que lhe apetece. O que ela não souber, vai ficar a saber.

 

E eu também. Basta que me lembre disto.

4/30 (não adoptem cachorros)

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Nos últimos meses, tenho-me apercebido que mais e mais pessoas têm arranjado animais de estimação. É inevitável: passamos mais tempo em casa, por isso temos mais disponibilidade para adoptar um amigo de quatro patas.

 

É na última frase que residem os derradeiros enganos. Em primeiro lugar, há que repensar as condições que temos neste momento para adoptar um animal, mas não só as condições de agora-agorinha, como também (e principalmente) a longo prazo. Em segundo lugar, um animal não é um amigo de quatro patas; é mais um filho de quatro patas. Os amigos vão e vêm, mas um filho é (ou deveria ser) para sempre.

 

Os animais precisam de nós. Precisam da nossa atenção, do nosso amor e carinho, e também do nosso dinheiro (em quatro meses, já devemos ter gasto várias centenas de euros em vacinas e consultas). Além disso, quando adoptamos cachorros, eles precisam que brinquemos ainda mais com eles, que lhes limpemos o cocó e o chichi, que protejamos os móveis das investidas dos dentinhos, que os treinemos, que lhes ensinemos a não comer tudo o que conseguem pôr na boca, que fiquemos acordados porque choram ou porque lhes apetece brincar às três da manhã.

 

No outro dia, a Coffee aprendeu a abrir os ecopontos cá de casa e decidiu comer a embalagem do salmão fumado (é fina). Ingeriu um pouco de plástico e um pouco de alumínio, que não tardaram a, no dia seguinte, descer nas fezes. Chegou a sangrar um pouco, talvez tenha ficado com o intestino arranhado. Felizmente, acabou por ficar bem, recuperou, e nós não ganhámos para o susto.

 

E, depois da pandemia e de a vida voltar ao normal (que há-de voltar, apesar de parecer um cenário longínquo!), devemos assegurar que mantemos as mesmas condições para tratar bem os nossos bichos. Eles não vivem um ou dois anos. Podem mesmo chegar aos vinte.

 

Não arranjem animais de estimação, e muito menos bebés, a menos que consigam assegurar todos os recursos materiais e imateriais para uma vida feliz em família.

 

(Na foto: Coffee Bean, duquesa de Vila Viçosa, roedora de pantufas, comedora do ecoponto amarelo, rainha da gastroenterite.)