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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

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20/30 (necessidade de mentores)

Quem trabalha numa empresa, organização ou carreira facilmente encontra mentores. É a impressão com que fico. Eu mesma encontrei na minha antiga chefe um exemplo a seguir, caso me tivesse continuado a identificar com a carreira académica naquele momento, e naquelas circunstâncias.

 

Ultimamente, sinto cada vez mais falta de encontrar uma figura que represente um modelo a seguir, alguém mais velho, uma espécie de autoridade, cuja vida profissional me inspire e sob a qual eu possa ir construindo a minha, com quem simultaneamente partilhe interesses e visões do mundo. Sim, eu sou um caso muito específico, o meu trabalho (e qual deles?) não é o mais comum de sempre, mas é mais difícil racionalizar um momento de dúvida acerca do caminho a seguir quando não se conhece ninguém que o tenha calcorreado antes. Como reagir, o que é normal, qual o próximo passo? Serão todas as vidas profissionais criativas diferentes e provocadoras de sentimentos de insegurança relacionados com a fraca identificação ou existência de pares directos?

 

Assim, vou encontrando vários mentores, que não são bem mentores, no sentido de serem pessoas que eu conheça na vida real e com quem possa discutir ideias, mas que são personalidades cujo trabalho respeito. Actualmente, por aproximação e uma certa alucinação, destaco escritores que tenho tentado conhecer melhor (destaco Ann Patchett, Alexander Chee, Susana Moreira Marques ou Tati Bernardi), ou profissionais doutras áreas, como do ensino ou da formação, uns mais anónimos do que outros, que me apresentam, mesmo sem quererem, possíveis trilhos a experimentar na minha longa jornada e princípios que orientaram as suas acções.

 

E precisaremos todos, afinal, desses mentores? Ou será a minha necessidade de me sentir profissionalmente compreendida fruto de um momento mais inquietante, de mudança, transição e questionamento inevitável? E mais: como e onde encontrá-los?

Ser professor é fácil

Quando digo que dou explicações, acompanho alunos, dou aulas aqui, ali e online, há quem diga "eu também poderia fazer isso". Fazem parecer que ensinar é fácil, que ser-se professor é fácil e que qualquer um o pode executar como quem dá aquela palha. Pega-se num livro, nuns exercícios dumas cópias que temos lá em casa, e já está. O que é, realmente, fácil é acreditar nesta falácia.

 

Sim, de facto, qualquer um pode ser professor, ou explicador, ou dar umas aulas. O mais difícil é, na minha opinião de quem anda a tentar ser bem-sucedida no que faz há cinco anos, fazê-lo bem. Deve ser como o que se diz sobre ter-se filhos: fazê-los é simples, o complicado é criá-los. Apoio algo semelhante no que toca a ensinar: todos podem tentar, mas muito menos pessoas conseguirão fazê-lo como deve ser ou atingindo os requisitos mínimos decentes (por exemplo, não matar os alunos de aborrecimento).

 

Além disso, vejo uma certa condescendência da parte de quem pensa que ensinar é uma tarefa quase intuitiva. Desvalorizam a vocação, a inclinação, a formação, o investimento pessoal, económico e profissional de quem se esforça verdadeiramente para o fazer melhor. 

 

Tive professores no ensino secundário e nas universidades onde estudei e trabalhei que, acredito, nunca abriram um livro sobre educação, psicologia, métodos ou abordagens de ensino na vida. Ensinam como quem atira postas de pescada. Muitos pertencem à geração dos professores "porque calhou", "porque as escolas e universidades precisavam" (por exemplo, depois do 25 de Abril). Quem mais sofre com este cenário desencorajador são sempre os alunos. Não é suficiente saber-se tudo sobre relações interculturais, engenharia bioquímica, ginástica ou filosofia antiga: há que saber passar a mensagem, comunicar e suscitar reacções [positivas/construtivas] na plateia... que são os alunos, seres humanos susceptíveis a estímulos que passam por muito mais do que receber e absorver informação de forma passiva.

 

Não digo que todos os professores sem formação em educação ou pedagogia são obrigatoriamente maus profissionais. Algumas pessoas têm uma veia especial e inata para o ensino, são empáticas e flexíveis, aprendem e apreendem com a experiência (também conheci pessoas assim). Infelizmente, muitos mais são os professores nestas condições que o são sem merecerem.

 

Não pretendo, com isto, atirar areia para os olhos de ninguém, muito menos maldizer seja quem for. Pretendo apenas chamar-vos a atenção para quando lerem barbaridades como "quem sabe fazer, tem a profissão; quem não sabe fazer, só ensina" ou "dás umas explicações? Hás-de me dizer como fazes!".

 

Estou a milhas de distância de ser a professora perfeita. Sou demasiado nova, ainda tenho muito a aprender, muito conhecimento a obter que meio mestrado e um par de cursos não conseguem juntar, ainda não lidei com todos os tipos de alunos possíveis (se bem que já colecciono uma boa variedade). No entanto, esta é uma daquelas profissões que gostaria de manter pela vida fora. Receber o incentivo dos meus alunos e colegas ajuda bastante. Vejo-me a fazer outras coisas, a ganhar experiência naquilo que quero partilhar com os meus alunos, mas ensinar traz-me uma alegria imensa. 

E traz-me trabalho que nunca mais acaba. Os tais investimentos multilaterais. 

 

Por isso, deixo-vos um apelo: não desvalorizem quem ensina (no mínimo, quem ensina como deve ser). Se tiverem filhos ou crianças pequenas nas vossas famílias, façam-lhes ver o quão importante e difícil o trabalho dum professor é, mesmo o dum "tutor" ou "explicador". Se não fossem os professores competentes, apaixonados, inspiradores, trabalhadores que foram encontrando pela vida fora, que seria de toda a gente deste mundo?

revista fórum estudante


 


   Aqui está a edição deste mês, ou seja, de Abril de 2012, da revista Fórum Estudante, distribuída por escolas secundárias de todo o país. Se clicarem em cima desta imagem da capa, serão directamente enviados para a versão online da revista, mas também podem esperar por segunda-feira e procurá-la em papel na vossa escola, caso a recebam lá. O meu artigo está na página 5. Foi o primeiro trabalho jornalístico "a sério" que escrevi e até cheguei a pensar que ocuparia mais espaço na página - até porque retiraram uma parte ao original. No entanto, é melhor do que nada, para uma primeira vez!


   Espero sinceramente que esteja um bom artigo, dentro do possível... Querem dar-me a vossa opinião?