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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Há sempre dez coisas sobre as duas pessoas (uma lista absolutamente aleatória, mas verídica)

1. Há sempre uma pessoa que dorme 6 horas (por exemplo, entre a uma e as sete da manhã) e fica fresca, pronta para conquistar o mundo logo de manhã. Infelizmente, eu sou a outra pessoa, a que precisa de dormir um mínimo de sete e que, ainda por cima, tem o sono leve.

 

2. Há sempre uma pessoa que acaba por ficar com a responsabilidade de limpar a areia do gato, e depois há a outra, que não sou eu. Sim, era eu quem limpava chichis e cocós do gato e da cadela, mas, enquanto escrevia este texto, acabei por assistir com alegria a uma mudança na distribuição da tarefa, a chegar aos 50/50. Reivindiquei os meus direitos, e fui compreendida. 💙

 

3. Há sempre uma pessoa que tem cuidado com tudo. Atenta aos pormenores, atenta à duração de todos os objectos a longo prazo, e depois há a outra. Juro que estou a aprender a melhorar o meu lado mais laissez-faire e a zelar pelos meus pertences. No entanto, lamento, mas o frigorífico vai ter uma lista magnética para as compras e tarefas. Com certeza não será por isso que a superfície vai ficar riscada!

 

4. Há sempre uma pessoa que presta atenção à decoração, que gosta de viver num espaço agradável e confortável e que compra flores, pauzinhos de ambientador e molduras para fotos. A outra desfruta e surpreende-se quando, ao fim de uma semana, descobre que tem um pátio com estética millennial repleto de suculentas, ou armações de vasos a pender dos varandins.

 

5. Há sempre uma pessoa que mantém tudo anotado em ficheiros Excel. Ainda bem, porque a outra é mais dos post-its e das listas no frigorífico. Pode ser um trabalho de organização em equipa!

 

6. Há sempre uma pessoa que gosta de estar em casa, no seu cantinho, a ouvir a sua música, sem se ralar com o resto do mundo. Isto exaspera a outra pessoa, que lá vai perguntando "tens falado com os teus amigos?", ou "vamos um bocadinho à esplanada arejar as ideias?", ou ainda "quando vamos ver um filme/visitar sítio X/apanhar ar?".

 

7. Há sempre uma pessoa sonhadora, criativa, orgulhosa do seu pensamento divergente, e outra com os pés bem assentes na terra, pragmática, matemática. Em certos momentos, estas diferenças podem desestabilizar o entendimento, mas normalmente criam um equilíbrio saudável a manter, porque nem tanto ao mar nem tanto à terra, nem tanto às nuvens nem tanto ao solo.

 

8. Há sempre uma pessoa que se encontra mais desanimada e ansiosa do que a outra, que precisa de validação e consolo, que pede atenção seja em carinho ou em actos práticos. E essa pessoa pode ser uma ou outra, consoante as necessidades pessoais, profissionais, sociais... Há sempre pessoas, tal como há sempre fases.

 

9. Há sempre uma pessoa que não descarta o seu chocolatinho, que gosta demasiado de batatas fritas, que não passa uma semana inteira sem pão e seria capaz de comer dois bolos por dia sem ganhar uma grama, tendo sido abençoado por um metabolismo eficiente como na adolescência (obrigada, universo, por esta lotaria genética). Há sempre a outra pessoa, que lá vai convencendo a primeira dos benefícios de comer mais verduras, menos gorduras e encontrar a doçura além do açúcar.

 

10. Há sempre uma pessoa que repara nas semelhanças e nas diferenças, que lhes acha piada, que as vai anotando. E a outra, que provavelmente nunca vai ler isto, mesmo sabendo que talvez exista uma lista do género, algures num caderno, algures num blog.

12/30 (a mulher do doutor)

Passeio a Coffee e as vizinhas sentadas ou encostadas a meio da rua falam comigo. São senhoras com setenta ou oitenta e tal anos, que procuram a sombra para confraternizar aos pares, com máscara e tudo, e também uma ou outra tem cães que passeia pelos mesmos caminhos que eu. Estas são vizinhas a quem me apresento, sou a Beatriz e vivo desde Dezembro naquela casa ali (aponto), perto das esplanadas.

 

As vizinhas acham que sim, que já sabem quem sou. Sou filha daquela senhora que se mudou há pouco tempo, ou sou filha da senhora que trabalha na Câmara, ou sou filha de alguém, pronto. E insistem, sou filha daquela senhora, aquela senhora sobre a qual nem conseguem concordar entre si, sim, mesmo quando digo que não, não, não.

 

Finalmente, consigo cortar-lhes a palavra: o meu namorado é o novo médico do centro de saúde, o Dr. João, que está a trabalhar com o Dr. David. Ah, então o seu marido é o novo médico...? É, sim, confirmo. Nos últimos meses, vim a aprender que não vale a pena negar o estado civil que nos passam ainda sem copo d'água, então eu mesma começo a casar-me só com palavras, o meu marido isto, ou a retorquir sem relação, o meu João aquilo.

 

As pessoas vêem-me todo o dia, ora com as portadas da sala abertas, ora no terraço do telhado, ora a sair e a entrar. Trabalho em casa, gosto de sol e gosto de janelas escancaradas. Raramente vêem o João, que trabalha do outro lado da vila e que raramente é avistado. Não sabem quem ele é, mas sabem quem eu sou, e pedem confirmação à dona do café que existe por baixo da nossa sala. Eles têm uma menina, é aquela menina de óculos, não é? Eles serão o novo médico e uma mulher hipotética. Divertida, a D. Dália responde que a menina é a mulher do doutor, ri-se e vem-me contar sobre o engraçado que é eu parecer tão nova que confundo as vizinhas.

4/30 (não adoptem cachorros)

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Nos últimos meses, tenho-me apercebido que mais e mais pessoas têm arranjado animais de estimação. É inevitável: passamos mais tempo em casa, por isso temos mais disponibilidade para adoptar um amigo de quatro patas.

 

É na última frase que residem os derradeiros enganos. Em primeiro lugar, há que repensar as condições que temos neste momento para adoptar um animal, mas não só as condições de agora-agorinha, como também (e principalmente) a longo prazo. Em segundo lugar, um animal não é um amigo de quatro patas; é mais um filho de quatro patas. Os amigos vão e vêm, mas um filho é (ou deveria ser) para sempre.

 

Os animais precisam de nós. Precisam da nossa atenção, do nosso amor e carinho, e também do nosso dinheiro (em quatro meses, já devemos ter gasto várias centenas de euros em vacinas e consultas). Além disso, quando adoptamos cachorros, eles precisam que brinquemos ainda mais com eles, que lhes limpemos o cocó e o chichi, que protejamos os móveis das investidas dos dentinhos, que os treinemos, que lhes ensinemos a não comer tudo o que conseguem pôr na boca, que fiquemos acordados porque choram ou porque lhes apetece brincar às três da manhã.

 

No outro dia, a Coffee aprendeu a abrir os ecopontos cá de casa e decidiu comer a embalagem do salmão fumado (é fina). Ingeriu um pouco de plástico e um pouco de alumínio, que não tardaram a, no dia seguinte, descer nas fezes. Chegou a sangrar um pouco, talvez tenha ficado com o intestino arranhado. Felizmente, acabou por ficar bem, recuperou, e nós não ganhámos para o susto.

 

E, depois da pandemia e de a vida voltar ao normal (que há-de voltar, apesar de parecer um cenário longínquo!), devemos assegurar que mantemos as mesmas condições para tratar bem os nossos bichos. Eles não vivem um ou dois anos. Podem mesmo chegar aos vinte.

 

Não arranjem animais de estimação, e muito menos bebés, a menos que consigam assegurar todos os recursos materiais e imateriais para uma vida feliz em família.

 

(Na foto: Coffee Bean, duquesa de Vila Viçosa, roedora de pantufas, comedora do ecoponto amarelo, rainha da gastroenterite.)

Mudei-me para o Alentejo

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"No virar do ano, troquei um subúrbio saturado de Lisboa por uma vila alentejana perto da fronteira com Espanha. Uma quantidade de factores contribuiu para a minha mudança, entre os quais se contam poder ficar em teletrabalho, pagar uma renda muito mais baixa por uma casa muito maior, viver longe do stress da cidade, e lançar raízes numa geografia mais amiga de quem quer começar um projecto de vida."

 

Assim começa o meu primeiro texto de opinião na rubrica Mundo Novo, do Sapo24. Faz amanhã um mês que me mudei para Vila Viçosa e esta é a reflexão a fazer sobre a experiência das últimas semanas. Podem clicar no excerto ou aqui.

 

(Spoiler alert: estou a adorar viver nestes lados!)

Uma terra para gente mesmo muito rica

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Tenho andado a evitar politiquices aqui pelo blogue, mas há um tema actual que me mexe com os nervos e que eu também sinto necessidade de partilhar convosco, para que mais vozes se possam juntar e mais cabeças possam pensar. Vamos falar sobre o preço das rendas em Lisboa e arredores, vamos falar da impossibilidade de viver em Lisboa ou num raio de 50km, vamos falar sobre a eminência daquela voz que nos diz - a nós, gente miúda quase graúda que quer sair de casa dos papás - que nunca iremos passar da cepa torta, porque tudo aponta para que nunca tenhamos dinheiro para ir viver sozinhos, ou mesmo com as caras metades, ou amigos, ou sequer constituir família.

 

Porque isso, viver em Lisboa, em 2018, é só para ricos. Mas gente mesmo muito rica. 

 

Neste momento, é cada vez mais difícil para qualquer pessoa encontrar uma casa para arrendar em Lisboa e arredores. O preço das rendas (e dos imóveis para venda) é superior aos salários e reformas dos cidadãos, há até quem se veja despejado da casa onde morou toda a vida por causa da actualização do contrato (sempre com valores a apontar para cima) ou porque o proprietário quer vender. Poder ter um tecto em Lisboa é um luxo. 

 

Para alguém da minha geração, é impossível entrar no mercado imobiliário; para as restantes gerações, é impossível ficar. Mesmo com rendimentos superiores ao salário mínimo, com 1000€ ou 2000€...

 

Como é que alguém com um salário líquido de 1000€ consegue pagar um T0 a 500€ em Lisboa? Ou um T2 a 1300€? Ou um T3 a 2000€? Até no concelho onde eu resido, a 30km de Lisboa, um apartamento T2 custa 400€ e os preços têm estado a subir constantemente nos últimos dois anos, porque muitas famílias se têm mudado ainda mais para Sul desta Margem. Soma-se o passe combinado de transportes públicos, 100€, três horas na deslocação diária, e aí está a Matemática feita.

 

Por causa destas rendas ridículas - e rendimentos ainda mais incompatíveis com todo o cenário nacional - pessoas como eu e até as restantes pessoas que vivem comigo não conseguem deixar de viver todas num agregado familiar gigante e, apesar de unido, cheio de incompatibilidades que vão surgindo por causa dessa condição. Em alternativa, estamos condenados a ter roommates para sempre. 

 

E eu... 

Como todas as pessoas, quero ter um espaço só meu, sobre o qual se possa dizer que fui eu que conquistei. Pode não ser agora. Contudo, um dia, talvez daqui a um par de anos, cinco, aos trinta, aos trinta e cinco...

 

Se arrumei, arrumei; se desarrumei, desarrumado estará. Se cheguei tarde, seja. Cedo, ainda bem. Convidar alguém sem pedir licença, entrar e sair porque sim, gerir o que é mesmo meu.

 

Todos têm direito a ter um tecto sobre as suas cabeças, a formarem família, a tornarem-se independentes, a deixarem os pais gozar a sua própria independência depois duma vida a criarem-nos.

 

Nem sei porque me estou a justificar.

 

No outro dia, pensei "nunca vou conseguir sair daqui [da casa da minha família]". É triste, mas uma verdade que se aproxima a passos largos da minha vida. 

 

Quando é que esta bolha vai abrandar? Ou rebentar? 

 

E há quem ache mal a minha geração gostar de lanchar nos cafés da moda... é das únicas coisas que [ainda] nos resta! 

Destralhar

Aproveitando duas ocasiões muito propícias para o aumento de motivação para dar um arranjo na casa (digo, o meu estúdio de 29m2), isto é, um novo ano a estrear e a partida de Banguecoque, decidi destralhar à grande.

 

Podem achar que o facto de viver num estúdio há apenas onze meses deveria ser condição suficiente para a inexistência de tralha, mas decerto estarão a subestimar-me. Além de já ter trazido tralha nas três vezes em que fui a Portugal neste ano e meio (livros, na sua maioria) e tralha do outro condomínio onde vivi antes, também sou uma coleccionadora ávida de fotocópias para os meus alunos (teoricamente, não é? Elas acabam por ficar pelas minhas bandas), fotocópias do meu mestrado, talões, recibos, contas que nunca cheguei a organizar como deve ser, contratos de trabalho e da casa e da Internet (e, se tivesse comprado Lord Ennui, também teria os recibos dele, ah ah ah), brochuras de hotéis e monumentos onde já fui, bilhetes de avião, bilhetes de museus e do cinema... you name it! A papelada e a tralha acumulam-se em meu redor como pragas.

 

Portanto, na semana passada pus mãos à obra logo de manhã e comecei por uma caixa. Ao longo da semana, fui pegando noutra e noutra caixa para onde tenho andado a atirar papelada no último ano, recalcando a sua existência.

 

Também já investi na cozinha. Tinha algumas coisas fora da validade, outros pacotes de comida instantânea que, realisticamente, nunca irei consumir (muito má!), fiz um inventário mental do que tenho que possa servir para cozinhar antes de me ir embora, a ver se não desperdiço alimentos nem dinheiro que posso poupar.

 

Antes de regressar a Portugal, destralhar também irá passar por dar ou vender alguma mobília ou objectos utilitários, livros, presentes que, apesar de simpáticos, não vieram acrescentar nada à minha vida.

 

Destralhar deve ser feito regularmente, não como eu o faço - apenas de ano a ano ou por ocasião dum grande evento ou recomeço. Desde que comecei a destralhar e até a seleccionar roupas, livros e electrodomésticos pequenos dos quais já não me vou servir nas próximas três semanas, tenho-me sentido cada vez mais leve.

 

Ainda há um longo caminho a percorrer neste negócio mental de destralhar (deixo este, este não, por que haveria de ficar com este, e não aquele), mas não há nada que não se faça às prestações. Faz bem à alma, faz bem ao ar que se respira em casa, reduz a confusão e o ruído visual. Destralhar é uma prática da qual eu não me deveria esquecer.

Estar em casa, vir a casa

Para o bem e para o mal, dói-me o coração quando venho a casa.


Casa é casa, é Portugal, Lisboa, a Margem Sul, a minha rua, outros sítios no país. São as fachadas dos prédios de 1500 na Baixa, são os buracos na estrada na minha vila, é o sol e o vento fresquinho, é o ar puro que me causa alergias quando me ponho à janela do meu quarto. Caramba, mal chego ao primeiro aeroporto na Europa para fazer uma escala, já me sinto em casa!
Por isso, quando estou em casa - que é tanto um rol de locais, quanto um estado de espírito -, dói-me o coração, porque sei que, se me pus aqui em 27 horas, em 23 me ponho do outro lado dentro de menos duma semana. Por outro lado, também me dói o coração de tanta alegria, por ver tanta gente de quem eu gosto, por saber que amo tanto quanto sou amada, por saber que há uma "casa", por saber que há quem me espere, por saber que há sol em Lisboa, e há calorzinho e praias, e a minha vila é linda, e até as pessoas com quem já não me relaciono fazem da paisagem um pouquinho mais agradável e, para mil, razão de nostalgia.
É por ter sido sempre tão feliz aqui, onde e como me sinto em casa, que me custa tanto ir embora outra vez. Acabo de chegar, e já estou a pensar na partida. Eu sei que tenho de apreciar o pouco tempo que tenho e ausentar-me de pensamentos outros que me fazem temer mais um adeus temporário.
Viver noutro espaço que não a minha casa (o tal rol de espaços e estados de espírito) tem-me ensinado muita coisa, tipo que a loiça para lavar é um problema sem fim ou que ir ao supermercado tem de deixar de ser impulsivo e passar a ser estratégico... mas também me tem, essencialmente, ensinado que não há nada como estar num sítio com que nos identifiquemos.
Quem nunca viveu fora de casa (alargadamente), por longos e indefinidos períodos de tempo, não sabe o quanto dói o coração quando se compram os bilhetes de avião e as datas são tão próximas. É um feliz facto que essas pessoas não saibam o que é também já termos sido ignorantes quanto a este misto de alegria e extrema tristeza e agora sabermos que isto é tudo uma porcaria. Não há palavras poéticas e bem falantes que consigam exprimir o mesmo. Porcaria é porcaria, serve para o efeito.


E dizem vocês, então volta. Pois volto. A aventura é engraçada, mas tenho a sensação de que estiquei o elástico de tal maneira que ele agora me vai projectar de volta a casa o mais depressa possível e da maneira mais súbita. Desta vez, eu sei que ambicionei mais do que poderia aguentar, por isso resta-me dar graças pelo que a vida me escolheu de presente, pelo que pude experienciar, pelas pessoas que tenho conhecido, pelas tantas e tantas oportunidades, mas sempre sabendo que, ao fundo do túnel, uma pessoa cumpre aquilo a que se propôs e pega nos tarecos, embrulha-os e lá se põe em casa de novo.
Ai, e o quanto eu quero pegar nos tarecos!


Felizmente, fui eu que escolhi ir, pelo que só me resta estar em paz com aquilo a que me propus: fazer o mestrado e trabalhar em Bangkok nos entretantos. Ter a experiência duma vida! Ensinar numa universidade aos 21! Responsabilizar-me por projectos paralelos! Conhecer realidades distintas! Lidar com pessoas que tanto têm de pares quanto de aliens!
Felizmente, não fui por necessidade; antes pelo contrário, fui por capricho. Dei-me ao luxo por me deram o luxo. Tenho a melhor família do mundo no que toca a mandarem-me para o outro lado do mundo sem duvidarem das minhas capacidades, mas amparando-me constantemente os golpes.
Ganho bem, trabalho até à exaustão e faço o que me apetece nas horas livres. Ainda assim, isso não é tudo. Há que querer mais, e eu só quero estar de volta a casa.

 

(No mínimo, ainda me faltam dois anos, mas uma pessoa tem de sonhar!)

(Disclaimer: eu estou bem, sou saudável e não estou deprimida ou infeliz, só sou portuguesa e esta portuguesice da saudade é um desafio maior do que a mulher!)

O meu primeiro apartamento

Indo eu, indo eu...não é a caminho de Viseu, mas sim a caminho doutro apartamento.

Estive quase cinco meses neste, mas está na hora duma pessoa se pôr a andar de frosques.

 

 

Últimos dias por aqui! #firstapartment #movingout

Uma foto publicada por Beatriz Canas Mendes (@beatrizcanasmendes) a

 

Este foi o apartamento onde tive de me armar em adulta à séria pela primeira vez. Onde tive de aprender a cozinhar mais do que o "suficiente" pela primeira vez. Onde chorei cheia de saudades da família pela primeira vez. Onde me ri ao perceber a sorte que tenho em viver em Bangkok. Onde me ralei imenso com os problemas do visto, do work permit e dessas burocracias todas. 

Foi muito empolgante viver no centro da cidade, mas o lixo, o trânsito, as infestações e o barulho levaram a melhor. Esta foi a minha casa de sonho em Bangkok, mas não foi suficiente. Podem tirar a pessoa dos subúrbios, mas não tiram os subúrbios da pessoa.

Descobri que viver no centro da cidade não é para todos. É preciso ter-se orçamento para se viver num bairro muito específico e o meu só me permitiu viver num condomínio novo, com piscina, ginásio, jardim e biblioteca, mas com mau isolamento e entre duas auto-estradas, num local onde começa a surgir um bairro de lata (nem é pelas pessoas, que são muito queridas, mas sim pela porcaria que deitam para o chão e a falta de condições de higiene).

Adorei viver no 21º andar, mas nunca me senti em casa, mesmo com uma vista magnífica para duas zonas nobres de Bangkok. Andei sempre a tentar arranjar desculpas para me ir embora: primeiro, era porque a agência que me alugou o apartamento é super ineficiente; depois, era porque o condomínio não permite animais de estimação; a seguir, foi ainda estar a 10 ou 15 minutos a pé dos transportes (não parece muito, mas todos os dias a atravessar, no meio do calor ou da chuva tailandeses, estradas cheias de trânsito com a tralha toda das aulas, o almoço e os lanches na mala acaba por cansar); finalmente, o cheiro e a falta de cuidado da nova administração em manter as instalações e as zonas à volta do condomínio em condições... habitáveis.

 

Portanto, aqui vou eu de volta aos subúrbios (ou, pelo menos, para fora da confusão do centro da cidade), esperando melhores dias sem companhias rastejantes a tentarem comer o meu jantar - que foi mesmo a gota de água que me fez abrir os olhinhos para a necessidade de sair daqui. 

 

(Tenho saudades de entrar em casa e só ouvir... nada! Ouvir só os passarinhos é o máximo de ruído que quero encontrar!)

de pijama é que se está bem

Estou a ficar caseira e não é pouco. Mal chego a casa, desembaraço-me logo de qualquer roupa que tenha vestida e enfio-me dentro do pijama. Tem sido assim desde o início das aulas. Até parece que tudo o que não comece por "pi" e acabe em "jama" me dói na pele. Não sei se tal situação será normal, mas, lá que me sinto confortável, sinto!