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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

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7/30 (conduzir é a minha meditação)

Adoro conduzir. Acho que sou uma boa condutora, excepto no que toca a estacionar, mas nem é só por isso que gosto de conduzir. Conduzir é a minha meditação, porque é naquele período de tempo em que mal posso fazer outra coisa além de olhar em frente e controlar o carro que fico mais absorta em ideias paralelas que me vão ocorrendo.

 

Por exemplo, é muito provavelmente ao conduzir que tenho mais ideias de escrita, de cenários, de desbloqueio e de esclarecimento de dúvidas criativas, de resolução de problemas prementes variados. Só tenho pena que conduzir polua e seja dispendioso, porque, por mim, eu pegaria no carro todos os dias e iria por aí fora.

 

Gosto da calma de conduzir e gosto das memórias que tenho dentro do carro. Tenho memórias de tudo e mais alguma coisa. De conversas importantes e doutras das quais nem me lembro, de relações a começarem e a acabarem comigo em frente do volante ou no lugar do pendura, de momentos de reflexão profunda, momentos de solidão e momentos de confraternização. E não me posso esquecer das viagens de carro de quando era miúda, por mais curtas que fossem, com a minha avó, mesmo que a maioria tenha sido só casa-colégio-casa.

 

Na faculdade, aprendi um conceito sobre o qual tenho a impressão de já ter escrito aqui, o conceito de "não-lugar", de Marc Augé. Eu gosto muito de lugares que não o são, como o interior de carros, autocarros e comboios, lugares que são apenas espaços de transição, mas onde a vida não deixa de acontecer.

 

Há uma certa paz dentro de um carro, a solo ou com companhia, mas conduzir, em particular conduzir sozinha até aos meus próprios destinos, é a minha meditação.

 

(Este texto corresponde foi escrito em atraso, correspondendo à contribuição de 11 de Abril. Por essa razão, hoje ainda publicarei mais um.)

Os meus amigos conduzem

Os meus amigos conduzem... carros. Viaturas de categoria B, com volante, mudanças, cinco ou sete lugares, tejadilho, porta-bagagens, motor a gasolina ou a gasóleo. Os meus amigos já não andam só de bicicleta, nem de transportes públicos, nem de triciclo. Os meus amigos, da minha idade, já têm carta de condução, mas isso é o menos. Eles conduzem, eles praticam a acção de conduzir além das aulas práticas, eles estacionam o carro à frente da minha casa e dão boleia a quem precisar. Os meus amigos perguntam-me se eu preciso que me levem a algum sítio, mesmo aqueles meus amigos que demoraram três vidas a tirar a carta até os pais lhes pagarem o resto do código e que andam a estudar sinais de trânsito desde o 11º ano.

Isto é tudo muito estranho e ainda me estou a habituar à ideia de que já tenho idade por aí a andar na estrada, como os grandes modelos adultos da minha vida, a minha avó e o meu pai. Na minha cabeça, só os "pais" é que têm carro e carta de condução, só eles podem conduzir.

Eh pá, eu que me livre de não ser a próxima a tirar a carta! Hei-de arranjar a massa para isso, hei-de conseguir, hei-de bulir até marar os miolos!