Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Aniversários, bolachas, e abraços (suprimidos)

IMG_20200501_190537.jpg

 

Três dos meus amigos já fizeram anos durante a pandemia. Um. Dois. Três. E eu também. Quatro pessoas. A quinta faz daqui a nove dias.

 

São cinco encontros sem abraços, beijos, apertos, festinhas, nem sequer a liberdade de não nos preocuparmos com o possível desleixo de uma palmadinha. É só uma palmadinha, mas a distância de segurança obriga à eliminação de todo e qualquer ensaio de contacto físico. Até o contacto visual se torna doloroso, como prova última do afastamento coagido.

 

A pandemia trouxe bolachas caseiras ao domicílio a cada um dos meus amigos nos seus aniversários (apesar de hoje ser o dia do terceiro contemplado, ainda se admirou muito que eu lá tivesse aparecido à porta), mas também o desconforto das despedidas sem algo que as marque. Se outros povos vivem bem sem o quente do xi-coração, parabéns a eles. Pelo menos na minha vida, ninguém do meu círculo mais próximo costumava livrar-se de ser esganado pelo pescoço com um "gosto tanto de ti!".

 

O risco de contágio até pode ser irrelevante nalgumas situações: todos nós, à partida, tão isolados quanto possível. No entanto, se todos violássemos esse cuidado, acabávamos a multiplicar exponencialmente a quantidade de interacções. Enfim, é difícil viver estes tempos quando somos pessoas que dependem tanto do contacto de pele com pele, bochecha com bochecha. Hoje, estive duas horas a falar com o amigo aniversariante, primeiro só a caminhar lado a lado, depois sentados num banco de jardim, e a alegria de o ver pela primeira vez em seis meses misturou-se facilmente com a angústia de não me poder aproximar.

 

No meu lanche de aniversário, uma amiga acabou por desafiar a sorte: atirou-se para cima de mim mal me viu. Perdida por um abraço, perdida pelos restantes. Acabei por me render e por deixar que o dia passasse com todo o toque possível. Soube tão bem. Foi, provavelmente, o melhor dia desde meados de Março, porque pude fingir, durante algumas horas, que estava tudo normal, pelo menos em relação a uma pessoa. A minha amiga acabou por beijar e abraçar outros membros da minha família, e fingimos que não fazia mal (não fez, felizmente), que poderia ter sido um dia normal de Junho doutro ano qualquer.

 

Cada vez que vejo amigos, tenho tanta vontade de os abraçar, de violar a distância de segurança, de não fazer nada do que é recomendado. Apetece-me apertá-los tanto, que pareça que lhes vão sair os olhinhos pelas pálpebras. Em vez disso, faço bolachas de côco ou gengibre e aceno-lhes um adeus desenxabido.

 

Esta pandemia está a dar cabo de mim.

 

***

 

Na fotografia, uma das primeiras fornadas de ensaio nas primeiras semanas de quarentena.

Para que serviu esta quarentena?

IMG_20200503_123801.jpg

 

Dum ponto de vista apreciativo, devemos concentrar-nos no que corre bem, ao invés de analisarmos o que corre mal. Mesmo antes de estudar psicologia positiva, já me obrigava a valorizar forças, oportunidades e potencial, tanto as minhas quanto as das pessoas com quem convivo e trabalho, as dos meus alunos e as das situações diárias. Talvez por mania, talvez por ter sido criada por uma optimista incurável, talvez porque é uma das formas que me obriguei a adoptar na esperança de me safar de disposições e estados psicológicos mais adversos nos últimos anos.

 

Um ponto de vista apreciativo não nega o que correu mal. É, em vez disso, um exercício indutor de crescimento, construção e transformação positiva sempre que possível. E este é um texto escrito de barriga cheia, não me esquecendo do que tem acontecido de negativo no país e no mundo, não me esquecendo da gratidão por me encontrar sã e salva, assim como os meus, ainda que com algumas ressalvas a nível profissional/financeiro, não desvalorizando nada disso.

 

Assim sendo, proponho a seguinte reflexão: na vossa opinião, a partir da experiência pessoal de cada um, para que serviu esta quarentena?

 

Começo eu, pode ser...?

 

Desde o primeiro dia que passei em casa por causa da quarentena profilática, tentei ver o lado bom da situação. Ninguém da minha família ou amigos doente; a possibilidade de trabalhar a partir de casa; a actividade profissional que não se esgotou e que, em parte, de multiplicou; muitos livros por ler e encomendar.

 

No entanto, passei várias semanas num estado de confusão permanente. Em casa, como a maior parte dos portugueses, privada da confraternização diária com alunos e amigos, longe do meu namorado, preocupada com ele e com outras pessoas à minha volta que tiveram de continuar a sair para trabalhar. Vi-me presa às redes sociais, insaciável por pistas sobre o futuro, pistas essas que nunca conseguia encontrar; sem ideias para escrever fora do diário pessoal, sem concentração para ler, com frio e um medo disfarçado de mera ansiedade crónica agravada pela meteorologia adversa, enrodilhada em mantas para disfarçar o desconforto. Vivo numa zona ventosa, húmida e onde choveu ou não fez sol durante muitos dos primeiros dias da Primavera. Mas, ao menos, vivo no campo e pude fazer caminhadas quando a melhoria do tempo o permitia.

 

Saber um pouco da teoria do bem-estar e da felicidade não foi o suficiente, mas mal de mim se não a soubesse. Nem todos conhecemos o caminho para o bright side das nossas existências quotidianas, caminho esse especialmente ameaçado nas circunstâncias actuais, e ao menos eu tinha algumas linhas de orientação sobre como encontrar o caminho para o meu.

 

Escrever foi o primeiro passo, também por ser o mais óbvio. Tinha passado os últimos três ou quatro meses a estudar os seus benefícios na saúde mental e física, a ler todos os livros e artigos a que conseguia chegar acerca do assunto, além de ter eu mesma criado um workshop sobre diário positivo que coloquei em prática alguns dias depois do início do estado de emergência.

 

Ler, como já terei referido, não foi uma das actividades predilectas desde o início. Por muito que tentasse, faltava-me a atenção necessária à interpretação de ideias mais complexas do que um tweet, um meme ou, no máximo, um artigo de opinião. Felizmente, fui recuperando alguma em quantidades crescentes ao longo dos dias, motivada por opções de leitura cada vez mais variadas que foram chegando à minha morada.

 

Manter uma rotina de exercício físico não foi logo uma prioridade, por falha de julgamento minha, mas algumas semanas sem ele fizeram-me querê-lo de volta, por isso passei a caminhar sempre que possível e a marcar treinos semanais por chamada de vídeo, mesmo que os presenciais tenham sido suspensos por tempo indeterminado. Nem sempre cumpro com as minhas próprias expectativas, mas estou em modo "qualquer coisinha já é qualquer coisinha" (a foto que ilustra este texto foi tirada depois dum treino bem sucedido, Lord Ennui incluído).

 

Ainda enquanto consequência da falta de concentração, não fui capaz de aprender e apreender novo conhecimento como habitual, como quando tenho a cabeça no devido lugar, mas nunca ouvi tantos podcasts e explorei novos temas quanto agora. Fiz muitos "passeios com podcasts", as tais caminhadas frequentes em que só podia voltar para casa depois de ouvir um episódio com, no mínimo, 20 minutos de duração. Nas primeiras semanas do confinamento, também consegui terminar - a custo - um curso iniciado em Março, mas, encontrando-me em baixo de forma, só fui capaz de voltar a aprender facilmente nos últimos dias (muito entusiasmada com as aulas do Masterclass e o regresso das aulas da pós-graduação). Agora, estou a tentar avançar com outro curso livre, pouco a pouco.

 

Talvez ainda mais do que a parte intelectual das nossas vidas, a parte social importa muito. Claro que já estou farta de chamadas de vídeo, já que a minha actividade profissional passa por elas a 100%, mas tive de as adoptar nas horas de lazer com igual estoicismo. Continuar a organizar O Primeiro Capítulo foi imperativo, ligar a amigos várias vezes por semana, trabalhar acompanhada com alguém do outro lado da rede, e até sestas pelo Zoom já partilhei com o João. Não quero imaginar o que seria passar este período de confinamento sem a tecnologia de comunicação da qual dispomos actualmente...! 

 

Finalmente, a acompanhar o ritmo do desconfinamento e recuperando hábitos de escrita além do diário pessoal como pente que desembaraça ideias e emoções contraditórias, enviei um texto que andava a rascunhar há meses para um concurso literário, estou a preparar um novo texto para outro, voltei a escrever textos mais longos e tenho uma crónica para o P3 a aguardar publicação, assim como a candidatura a um mestrado para a qual tenho de apresentar um portfólio de escrita. Também me tenho forçado a sentar-me diariamente ao computador para ir criando qualquer coisa e a reservar tempo para o trabalho mais criativo, ao invés de esperar que as palavras caiam do céu para aterrarem na página em branco.

 

Não, não estou em forma. Longe disso. Têm sido semanas emocionalmente desafiantes e é normal falharmos, tentarmos, conseguirmos às vezes e noutras vezes não conseguirmos.

 

Contudo, se esta quarentena serviu para alguma coisa, para mim espero que tenha sido para me obrigar a parar, dar um passo atrás, fazer uma limpeza às prioridades e poder seleccionar o que é mais importante no tempo imediato, que se possa reflectir a longo prazo. Antes, eu não tinha chegado a estas conclusões, mas toda a disposição do desconfinamento neste fim de Primavera cheio de sol, da promessa optimista, mesmo que ilusória, tem-me permitido ser também eu mais optimista e apreciativa.

 

Desse lado, não se esqueçam de partilhar ou de apenas pensar, sem vergonhas ou censuras: para que serviu esta quarentena, afinal?

 

(Nem que tenha sido para procrastinar! )