Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Nem a falar nos entendemos: Conversations with Friends (Sally Rooney)

LRM_EXPORT_48273600174701_20190902_103828381.jpeg

 

Declaro-me rendida: depois de Normal People, não descansei enquanto não pus as mãos em Conversations With Friends, o primeiro romance publicado da autora irlandesa Sally Rooney.

 

Conversations with Friends não desiludiu, juntando-se à minha lista de favoritos de 2019. De certa forma, é um romance ainda mais completo do que o segundo. Há mais personagens em destaque, e todas elas com uma vida emocional complexa e bem construída, não descrita, mas sim percebida através de diálogos intensos e até da falta de palavras ocasional (show, don't tell, não é esta a regra que os bons escritores devem seguir...?).

 

O que é ser uma mulher jovem, millennial, na actualidade? Quais os limites da amizade e do amor? O que é uma relação? O que é uma conversa? O que é o amor e como o mostramos? O que liga pais e filhos? Que poder temos uns sobre os outros, entre pares, marido e mulher, amigos, entre admiradores e admirados, mais velhos e mais novos? Pertencemos a lugares ou a pessoas? Onde termina a juventude e começa a idade adulta? E qual o efeito do dinheiro em todos os assuntos mencionados? Estas são algumas das questões que gravitam sobre a intriga a quatro: Frances, Bobbi, Nick e Melissa.

 

IMG_20190902_105003.jpg

 

Ainda tendo em mente os desentendimentos entre amigos e amantes, tal como em Normal People, neste primeiro romance Sally Rooney joga com as personagens para revelar a imperfeição que nos rodeia, mas perante a qual tantas vezes somos cegos. Os casais-de-capa-de-revista não são sempre felizes, os melhores amigos também escondem segredos uns dos outros e, em geral, não existe um modelo one size fits all para qualquer tipo de relação. O corpo feminino continua a ser uma peça central nas relações hetero e homossexuais, à semelhança da sua ligação com a mente, com o sexo e com a linguagem do que fica por dizer, questionando-nos sobre o seu valor atribuído pelos outros e como a própria dona do corpo o entende.

 

Se bem que o enredo não é o mais criativo possível, a riqueza das interacções entre personagens faz destas conversas com amigos de Sally Rooney uma experiência que me levou a repensar na forma como as minhas próprias relações são vividas (e descritas, e discutidas, por palavras). Por ter uma idade aproximada à das protagonistas, houve muitas partes do livro em que me senti representada, não pelas circunstâncias, mas pelas reacções, pensamentos e valores defendidos. Será que existe mesmo uma mentalidade "millennial", que transgrida fronteiras e afecte toda uma geração ocidental?

 

IMG_20190902_104926.jpg

 

No fim, cheguei à conclusão: nem a falar nos entendemos, porque fica sempre alguma coisa por dizer ou alguma coisa que gostaríamos que o outro dissesse e não diz. Seja por mensagens de texto, e-mails, conversas cara-a-cara, conversas sem palavras, discussões acesas... Fica a lição de que, muitas vezes, é impossível comunicarmos de forma perfeita, mesmo que o tentemos com os nossos melhores amigos, os nossos pais ou parceiros.

 

IMG_20190902_105044.jpg

 

📚 Claro que à segunda só pode ser paixão, e não me importo que à terceira, quarta, quinta e por aí adiante seja amor para sempre. Já encomendei um conto da Sally Rooney (Mr Salaryque também parece estar online, mas gosto mais de ler em papel) e vou consumir tudo o que houver pela Internet escrito pela rapariga. Se esgotar os recursos, ela que me mande as listas de compras ou tarefas, que também devem ser mais interessantes do que metade dos livros que por aí andam.

 

📚 E porque ando sintonizada em ondas melancólicas, discussões de identidade e relações complexas com o próprio e os outros, não hesitem em deixar-me recomendações desse género. 

O meu dentista, amor e uma cabana (e um aparelho)

Contextualização: o meu dentista é um senhor muito simpático, falador e culto, que me pergunta o que ando a ler todas as vezes (todos os meses) em que lá vou. Inclusivamente, falamos sobre temas diversos, género coisas da vida e trivialidades (vá, eu tento, com as mãos dele enfiadas na minha boca, belhac). Já agora, uso aparelho há 2 anos e 5 meses e já ouço há quase um ano que "daqui a 6 meses o tiro".

 

Conversa de hoje...

- Quando é que me livro disto?

- Lá para 2017.

- Yey, mesmo a tempo de me casar! [nota: sarcasmo]

- Não, lá para Setembro [tradução: lá para o Natal]. Mas espera lá, vais-te casar em 2017?

 

NÃO. EU ESTAVA A GOZAR. PRIMEIRO QUERO LIVRAR-ME DE ORTODONTISTAS VÁRIOS E DEIXAR DE TER ESTE AR DE PITA DE 14 ANOS, PARA AS CRIANÇAS/PRÉ-ADOLESCENTES ME LEVAREM A SÉRIO E EU PODER SER PROFESSORA DELES. SÓ ASSIM ARRANJAREI UM EMPREGO, SÓ ASSIM TEREI DINHEIRO E SÓ ASSIM ME PODEREI CASAR COM O MEU FOFINHO, QUERIDINHO RICARDINHO. AMOR E UMA CABANA O TANAS.

 

Sem stress, lá para 2050, estarei despachada!

Os primeiros amores

Dois dos meninos do projecto em que trabalho como monitora, com onze ou doze anos, começaram a namorar depois de andarem a enviar recadinhos por mim, isto tudo entre a semana passada e a presente. São os dois estupidamente fofos, gorduchinhos e simpáticos, sempre com um sorriso pateta no rosto e um abraço para partilhar, mesmo não sendo eu a monitora do grupo deles. Ele até diz que vai oferecer uma toalha de praia com um tigre à sua nova namoradinha (e que não se pode esquecer de pedir 10€ à mãe!).

 

Hoje, o menino não foi e a menina ficou triste. Tentei consolá-la.

 

- Hoje ele não veio, mas foi só um dia. Se calhar está doente ou algo do género.

- Se calhar...

- Sabes, eu também não vejo o meu namorado desde segunda-feira, mas não deixo de gostar dele. Simplesmente não calhou estarmos juntos.

 

Nesse momento, a menina arregala-me os olhos e olha-me com aquele ar de "epá, esta tipa é louca, como é que ela fica três dias sem ver o namorado? como é que essa cena funciona?".

 

Enfim, os primeiros amores comovem-me.

Um pequeno passo para uma relação, um grande passo para a labreguice

Ontem, dia 7 de Junho de 2014, um ano, sete meses e algumas semanas depois do início da nossa inesquecível história de amor, o Ricardo achou que o costumeiro "esta gaja", a que já me habituei como sendo uma referência simpática à minha pessoa em contextos familiares, deixara de ser suficiente para expressar o quanto gosta de mim. Ontem, dia 7 de Junho de 2014, eu ascendi à categoria de "aqui a patroa".

"Vá tomar merda!"

Eu não costumo escrever palavrões aqui no blogue, eu sei. É certo que os digo com mais frequência do que os escrevo, mas, desta vez, não, não fui eu que disse "vá tomar merda!" a ninguém. Disseram-mo antes a mim - um cliente - logo pelas dez da manhã desta luminosa terça-feira. A conversa foi mais ou menos assim:

- Muito bom dia, o meu nome é Beatriz Mendes e estou a ligar da Empresa Tal. Seria possível falar com a Sr. Dona Fulana X?

- Pode sim, pode falar com ela. Sabe o que ela lhe vai dizer...??? (E depois  introduziu a tal expressão muito simpática que eu me recuso a repetir. Já ele não se importou de a utilizar mais uma ou duas vezes durante o seu terrível monólogo, que eu só interrompi para pedir desculpa e para deixar bem claro que não era preciso ser mal-criado - fazendo-o gritar ainda mais alto, como se fosse possível.)

 

Contudo, sou obrigada a concluir que este não foi um insulto qualquer. Este foi um insulto de primeira categoria! Há qualquer coisa de muito súbtil e poético, quase erudito, na palavra "tomar", em combinação com o palavrão "merda" (pronto, não havia maneira de continuar a evitar escrevê-lo). Em vez de se dizer "vá tomar chá!", diz-se "vá tomar merda!"... Numa chávena de porcelana chinesa, finíssima, como as que o Gato da Alice no País das Maravilhas tinha, foi o que imaginei. Uma colega chegou a sugerir que eu tomasse a minha merda matinal em forma de granizado, com muito gelo à mistura, para disfarçar o sabor.

 

Quanto ao cliente, agradeço-lhe a sugestão de pequeno-almoço, mas para me mandarem comer já me chega a minha avó. Não preciso que mais ninguém se preocupe comigo, ok?! Já chega! Eu sei que entre merda e Nestum, o pessoal deve preferir, evidentemente, a primeira opção, só que eu sou do contra - o que é que se há-de fazer? Estes jovens de hoje em dia...

PODERIAM FALAR MAIS ALTO, POR FAVOR?! FICARIA ETERNAMENTE AGRADECIDA!

As pessoas que falam baixinho irritam-me. Não é nada pessoal, mas, mal por mal, gosto mais delas quando estão caladas. Assim, não dão cabo da paciência a pessoas como eu, que fazem figura de urso porque ficam sem saber o que quer dizer o seu interlocutor, ou que, na melhor das hipóteses, têm de se esforçar estupidamente para ouvir suas excelências. Eu não sei ler lábios, tenho o grave (gravíssimo!) problema de ter uma audição selectiva, ouvindo só o que me interessa - e o que não me interessa é relacionar-me com gente que precisa que lhe apliquem um botão de volume, de modo a que se torne audível no mundo dos vivos. Falem alto, projectem a voz...! Gritem! Arranjem um microfone! Façam-se ouvir ou calem-se para sempre!

Muito obrigada.