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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Comprar livros em Portugal, durante e após a pandemia

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Bom fim-de-semana, com uma nova crónica minha no P3 do Público - um apelo relacionado com os efeitos da crise recente nas indústrias dos livros em Portugal, mas também sobre o amor que tenho por eles. 📚

 

Deixo-vos um trecho:

"O medo é uma emoção muito comum nestes dias. No entanto, a sugestão que deixo é a seguinte: se tiverem condições para tal, aliviem parte desse medo com livros. Escolham livros que vos consolem, que vos façam companhia, que vos inspirem, que vos informem e (ou) que vos distraiam, que vos façam felizes."

 

Boas leituras! E boas compras!

Quem é que escreveu o teu texto?

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Nos dias que correm, parecemos ser todos produtores de conteúdo instantâneos. Independentemente da faixa etária, utilizamos a Internet e aplicamos  asnossas competências digitais de forma inata, porque nascemos com cada vez mais dispositivos electrónicos à nossa volta e são-nos dadas cada vez mais comandos, telemóveis, computadores, tablets e mil engenhocas para as mãos quando somos cada vez mais novos. Por isso, a possibilidade de produzir conteúdo para um público vasto é um dado adquirido, ainda por cima num país como Portugal, onde facilmente nascemos com veia de escritor (até aqueles que pouco lêem). 

 

Tenho passado algum tempo no LinkedIn e, nesta rede social em particular, fico assoberbada pela quantidade do que por lá se escreve, a rodos. Fica a impressão de que há sempre algo para contar, toda a gente tem algo a contar, toda a gente é inspiradora e toda a gente conhece outro alguém com uma história inspiradora. Atenção: os textos que por lá se lêem nem são maus; são só "poucochinhos". A democratização das técnicas de storytelling (meras fórmulas) não traz necessariamente histórias que interessam, sem criar mais ruído. À parte a prática do amor próprio e ao próximo, que muito admiro e prezo, olho para esta entropia de histórias com pesar e cepticismo. A verdade é que quantidade não é qualidade, e muito menos novidade.

 

Felizmente, há histórias bem contadas e textos muito bons, que perfazem uma boa fatia do que tenho lido. E o que é uma história bem contada ou um texto muito bom? Claro que este meu próprio texto resulta de um exercício de altivez propositado, e que haverá critérios para todos os gostos. Assim, atrevo-me a apontar que, para mim, acima de tudo, um bom texto é um texto em que consigo ler a voz do autor. É um texto que não se parece com outros, seja pelo género, registo, tema, conteúdo, forma, respeito ou desrespeito pelas regras gramaticais... É um texto onde (sobre)vive alguém, e onde se nota um esforço de inovação e de permanência de uma tal voz autêntica, que não se copia. Quem escreveu o teu texto? Quem é que habita o teu texto? Quem é o autor assumido do teu texto? Foste tu a escrevê-lo ou poderia ter sido outra pessoa qualquer?

 

Como resposta a estas perguntas, não há mesmo fórmulas possíveis. Não há "princípio-meio-fim", título cativante ou primeira frase cheia de impulso que salve um texto. Estes são só o ponto de partida para algo que pode ser nosso, se o deixarmos acontecer, porque há mais além manuais de escrita criativa. Há pessoas.

Leitura de cabeceira: Meio intelectual, meio de esquerda (Antonio Prata)

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Três crónicas por dia, nem sabe o bem que lhe fazia... Podia ser um ditado popular, mas é só uma das muitas recomendações que por aqui vou plantando.


O livro Meio intelectual, meio de esquerda (Antonio Prata) foi a minha leitura de cabeceira das últimas semanas, depois de o ter encomendado através da promoção de Inverno da Tinta-da-China. Apesar de o ter escolhido às cegas, somente pelo prazer de comprar um livro a preço reduzido, acho que fiz muito bem.

 

Esta edição portuguesa de Meio intelectual, meio de esquerda reúne crónicas do autor e guionista brasileiro desde 2003 até 2016, por isso deu-me sempre a impressão de que, desde a primeira até à última, estava a acompanhar um amigo que ia crescendo, amadurecendo e evoluindo na sua vida pessoal e profissional - e escrevendo sobre isso. Ao contrário do que o título possa indicar, raras são as crónicas de cariz político, preteridas ao futebol (do qual eu percebo muito), amor, filhos e reflexões várias, mais ou menos disparatadas.


Se pensarmos que, em 2003, Antonio Prata tinha vinte e poucos anos, alguém que os tenha ao ler estas crónicas poder-se-á deparar com uma máquina do tempo, em que o futuro se apresenta com a sucessão de eventos (viajar juntos pela primeira vez vs. o casamento; o início duma carreira vs. a sua consolidação), problemas (como usar a palavra "tomate" vs. mãozadas de cocó de bebé) e preocupações (bares ruins vs. recibos e contabilistas) de quem vai registando pequenos apontamentos da sua vida durante mais duma década. Talvez, um dia, também nós sejamos mais ou menos assim. Talvez eu seja mais ou menos assim.


À semelhança do que acontece com a maioria das colectâneas de crónicas, prefiro ir lendo poucas de cada vez, daí ter nomeado Meio intelectual, meio de esquerda como leitura de cabeceira. Antes de dormir, para acalmar a cabeça dos ecrãs, da rotina e do entusiasmo do dia, bastam alguns minutos e páginas. Crónicas de duas ou três são ideais, por não serem demasiado exigentes, nem desinteressantes, enquanto a variedade de temas nos entretém e embala para um sono mais descansado (idealmente!).


Em suma, Meio intelectual, meio de esquerda não é o melhor livro de crónicas de sempre, não é o mais perspicaz ou criativo, mas presta-se a um óptimo trabalho de entretenimento!


[Acabado este, está na altura de passar para Silêncio na Era do Ruído (Erling Kagge).]

Estar Vivo Aleija, mas dói menos por causa de Ricardo Araújo Pereira

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Não vos quero aborrecer com um texto muito longo. No entanto, sei que este é um dos livros mais esperados da rentrée: Estar Vivo Aleija, do humorista que dispensa apresentações, Ricardo Araújo Pereira. E eu digo: provavelmente acabei de o ler primeiro que vocês! Estava desejosa que chegasse o dia de ontem, o primeiro em que o livro esteve à venda sem ser através do site da editora Tinta da China. Por isso, cá vão os meus três tostões acerca desta leitura muito agradável - sem surpresa nenhuma.

 

Desta vez, o meu entusiasmo deve-se à curiosidade trazida por este tipo de crónicas escritas pelo RAP. Depois de ler a entrevista que deu ao Observador, percebi que Estar Vivo Aleija seria uma colectânea de textos sobre temas mais pessoais e descontraídos, e menos políticos (como as crónicas da série Boca do Inferno), num registo mais auto-biográfico e ao mesmo tempo universal, escolhido para agradar os leitores brasileiros da Folha de São Paulo, onde foram originalmente publicadas. São feitas várias referências terurentas à avó que o criou, às filhas e à mulher, sem retirar destaque às peças de teatro de Sófocles e Shakespeare, às singularidades da língua portuguesa, às moscas, ao amor, às batatas e ao chulé. É uma miscelânea de temas!

 

Mais ou menos político, o humor, perspicácia e inteligência permanecem como os conhecemos. Acho que as suas observações sobre as coisas mais banais da existência humana se podem comparar ao olhar sempre admirado e inquisitivo duma criança que está na idade de apontar para tudo e estabelecer ligações inesperadas entre elementos diferentes.

 

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Assim sendo, demorei menos de duas horas a devorar o livro. Li-o duma assentada. Cada crónica ocupa cerca de página e meia, o livro tem cerca de cento e cinquenta páginas... Foi um óptimo entretenimento para a minha hora de almoço! Esta é a leitura indicada para quem quer passar um bom bocadinho, mas também para quem quer ter o livro lá em casa e abri-lo de vez em quando para soltar uma gargalhada ou, pelo menos, arrancar-se um sorriso. Outra coisa não se esperava de RAP. Estar Vivo Aleija, mas dói menos por causa de autores como ele.

Não sou contra o aborto

Não sou contra o aborto.

Sei que há vidas que não podem ou que não devem vir ao mundo, sei que há potenciais pais sem condições económicas e/ou psicológicas para apoiar uma criança, sei que há violações, sei que permitir que nasça um bebé doente ou incapacitado não é uma alternativa. Sei que há acidentes todos os dias e que qualquer comum dos mortais os pode ter - nunca dizer nunca. Sei que os centros de saúde e as farmácias nem sempre conseguem garantir os contraceptivos (em três anos a tomar a pílula, a minha já esgotou três vezes no centro de saúde durante várias semanas, e nunca a encontrei nas farmácias senão em caixas mensais). Sei que há mesmo quem não esteja devidamente informado acerca dos contraceptivos disponíveis no mercado e sobre como os utilizar (infelizmente, nem sempre a culpa é dessas pessoas).

Não sou contra o aborto, sou muito a favor do aborto! Mas não em demasia. Também há quem abuse e escolha o aborto como quem toma a pílula do dia seguinte e isso está errado. Estas mulheres sim, a partir de um determinado número de interrupções voluntárias de gravidez registadas, é que deviam ser submetidas a médicos objectores de consciência, e a longas entrevistas, e à mais alta taxa moderadora possível - não aquelas a quem aconteceu um imprevisto, e que, por muito que tenham em mente a sua responsabilidade sobre o apagar de uma existência em formação, devem ter sempre nas suas mãos o pleno direito de veto sobre a sua vida, sobre o seu futuro e sobre o seu corpo. É macabro que as queiram sujeitar a mais dor e a mais dilemas e a mais sentimentos de culpa impostos, calcados na sua mente. Nojentos! 

 

Já agora: ah e tal, a abstinência é o melhor contraceptivo? Mas quem são os outros para ditar como uma mulher conduz as suas relações íntimas? Quem são eles para decidir se a mulher se pode (quer!) abster de uma vida sexual saudável, importante para garantir o seu bem-estar mental e, por consequência, físico? A mulher (e o homem com quem ela escolher praticar o acto) é um ser humano, caramba!

 

No ano de 2015, após um século de evolução social e de luta pelos direitos da mulher, é inacreditável que este ainda seja um tema de discussão ferverosa, que ainda haja por aí pseudo-conservadores, defensores dos pseudo-bons costumes, que se opõem ao aborto. Já nem a religião serve de bode expiatório, get over it!

Filhos de emigrantes, vocês falem-me e leiam-me em português, fáxavor!

Contextualização: ainda não vos tinha contado no blogue que estou a trabalhar na Bilioteca de Jardim da minha zona. Só está aberta em Julho e Agosto, assim como as Bibliotecas de Praia, e temos livros, revistas, jogos e actividades para crianças e adultos (mas, principalmente, para as últimas). Pertenço à equipa de Julho, por isso só me resta mais uma semana de trabalho! Estou a gostar muito, já agora.

 

E agora passemos ao motivo que me leva a vir fazer queixinhas ao antro de procrastinação...

Uma vez que nos encontramos de momento na época do Verão, é mais frequente os emigrantes regressarem a Portugal para ter férias por volta desta altura. Além deles, vêm os filhos, muitos deles até nascidos em Portugal, no caso dos emigrantes de gerações mais novas.

 

Na Biblioteca, tenho trabalhado com algumas crianças destas e digo-vos já que estou cho-ca-da. Não, não estou chocada com a existência delas, mas sim por algumas características suas.

Dê-se o caso de um menino de quatro anos, que foi viver para Espanha com os pais aos dois ou uma idade parecida. Não é que o miúdo não fala português??? Mas, afinal, o que é que se falará em casa? Não me digam que só falam espanhol (vá, castelhano), que até me cai o maxilar aos pés! Compreender-se-ia que o menino estivesse confuso, ainda por cima com duas línguas tão parecidas a dominarem-lhe a cabecinha tão jovem. Mas nunca na vida eu anularia a um filho meu a possibilidade de ser bilingue! Teria vergonha se ele viesse passar férias com os avós e não soubesse contar até dez em português, na língua materna dos pais!

 

Outro caso: uma menina com (para aí) dez anos, em Inglaterra desde os três, sabe falar português como se cá tivesse vivido a vida toda, mas... que não sabe ler nesta língua, só em inglês. Olhem, eu passo-me com estas coisas. Será que não há um pai ou uma mãe que ensine esta rapariga a ler português? E quem diz o pai ou a mãe também diz o resto da família que cá a recebe. Ou a própria da menina, que já tem idade para ter iniciativa (o problema é a falta de interesse por parte de quem a rodeia, por isso até se entendem as consequências). Ainda tentei convencê-la de que é o máximo poder-se ler em várias línguas, ser-se fluente, e que só há benefícios em aprender a ler numa língua que ela já fala, mas os meus esforços foram em vão.

 

Pergunto-me se os pais destas crianças pertencem àquele tipo de emigrantes que não se importam de perder o contacto das suas raízes, por mero ressentimento ou sentimento de descredibilidade em relação ao país que tiveram de abandonar. Acharão eles que a língua portuguesa é assim tão insignificante que nem merece ser falada? Acharão eles que vale a pena privarem os filhos da possibilidade de serem bilingues e de se tornarem, desse modo, indivíduos mais ricos? Depois admiram-se que as Nellies Furtado e que as Katies Perry deste mundo tenham pais portugueses, mas que não falem nada senão inglês.

 

Enquanto escrevo isto, lembrei-me de que eu mesma sou uma dessas crianças. Não costumo pensar nisso, mas é verdade: a minha mãe é filipina e não foi por causa disso que não deixámos de falar SEMPRE em português (até deixarmos de falar de todo, vá), apesar de não ser a língua materna dela. Onde estão o tagalog/filipino e o inglês na minha vida? O último, aprendi-o na escola, como qualquer outra criança portuguesa; sou (digamos) fluente em inglês porque calha, porque sempre gostei dele, porque leio imenso e vejo muitas séries e filmes sem legendas, porque o estudo. E o primeiro gostava eu de o entender, e sinto que perdi uma oportunidade maravilhosa de conhecer uma língua que nem todos podem ou querem aprender, assim como a cultura que emana, que se lhe encontra subjacente.

 

Uma língua não tem de apresentar uma justificação para ser aprendida. Saber ler e falar outras línguas ajuda-nos a compreender melhor o mundo, a maneira como os seus falantes comunicam e se comportam, como interagem. Ser-se bilingue ou trilingue ou, pelo menos, fluente em línguas estrangeiras até melhora as capacidades e potencialidades do nosso cérebro, ajuda-nos a manter determinadas ligações nervosas activas. Como é que alguém pode ser capaz de negar uma língua praticamente dada a um filho?

 

Tenho uma amiga ucraniana-portuguesa (como gosto de pensar nela), a Solomiya, que veio para Portugal com dez anos, para se juntar aos pais que já cá estavam há cinco. Escreve e fala estas duas línguas, ucraniano e português, como se sempre o tivesse feito, como se tivesse nascido e sido criada cá. O irmão mais novo dela é mais português-ucraniano - ele sim, nasceu cá. A Solly costuma dizer que fala português com sotaque ucraniano e que o irmão fala ucraniano com sotaque português, e em casa falam todos ucraniano entre si, não deixando de ser fluentes em português, até os pais. Falam melhor português que muitos portugueses, mas não deixam que os filhos esqueçam o ucraniano. É a própria Solly que ensina o irmão a lê-lo e a escrevê-lo. E, se os amigos dela quiserem, também já disse que nos ensina a língua. Acho este exemplo maravilhoso.

 

Se eu pudesse, se tivesse disponibilidade, aprenderia todas as línguas criadas na Babel mitológica e respectivas ramificações! Por agora, enriqueço o meu português, faço um esforço por elevar o meu inglês a nível nativo e continuo a aprender francês e espanhol. Já disse que o próximo a entrar na lista será o neerlandês?

Ainda não percebi o que têm contra os high school sweethearts

Estava aqui a ler os comentários a esta publicação recente d'A Pipoca Mais Doce, quando me deparo com uns quantos que só começaram a atirar abaixo aqueles que já namoram desde a juventudezinha dos 14, 15, 16 anos e que casaram, têm filhos, são muito felizes... e nem se importam com barriguinhas de conforto que tenham surgido entretanto! Diz até um comentário, que me vejo obrigada a citar (desculpem lá qualquer coisinha):

Quando os anónimos de cima chegarem aos 30,40,50, e começarem a ter curiosidade sobre como será sexo com outras pessoas (ou quando o/a parceiro/a lhes indicar que tem curiosidade, isto, SE os parceiros tiverem dito alguma coisa antes de mijarem fora do penico...), talvez finalmente percebam alguma coisa. Isso do "Não há amor como o primeiro", é conversa para boi dormir, e tanga para evitar que mulheres ganhem experiência "a mais", seja lá o que isso for...

 

Pronto, e só mais um:

É tudo muito lindo até traírem ou serem traídas.. quem só teve uma pessoa acaba por o fazer um dia..

 

Estes são apenas dois dos muuuuitos exemplos de comentários estúpidos, ressabiados, infelizes, frustrados - ou será impressão minha? É que, sinceramente, eu compreendo as pessoas que não querem casar, que não estão para relações e que preferem ter o seu espaço (até uma certa medida, que dá sempre jeito ter alguém para fazer conchinha e para nos aquecer os pés, nem que seja só num enrolanço). Mas não consigo compreender esta gentinha que acha buéda cool andar a saltar de cama em cama, de coração em coração, e depois ainda clama aos céus que dá jeito ter experiência, que é tudo muito melhor do que só ter tido uma pessoa e uma cama na vida, que esses são todos sonsinhos e não sabem o que perdem.

Para que conste, eu só tive uma experiência antes desta que estou a ter agora, e essa foi uma experiência que nem a pessoa nem a cama chegou, que foi assim uma coisa mesmo fraquinha, e sinceramente teria vivido muito bem sem ela (não teria aprendido muitas manhas que conheço hoje em dia, é claro, porque o que não nos mata, engorda-nos). É que há gaijos e gaijas mesmo esturricados da cabeça, não há? Assim mesmo tostadinhos e crocantes (e praticamente a saberem e a cheirarem a queimado).

Namoro desde os 17 anos com o mesmo amor de pessoa, já lá vão quase 3 e - chamem-me ingénua - quero é que continuemos a ser tão felizes quanto somos agora. Sim, é muito cedo para fazer previsões, o futuro não pertence a ninguém e nunca se deve dizer "nunca" nem "para sempre". Obviamente, de vez em quando entramos em choque, temos personalidades antagónicas, não concordamos. No entanto, penso que ambos continuamos a acreditar que, quando as duas partes envolvidas gostam mesmo uma da outra, quando há vontade de manter a coisa num bom caminho, é possível haver uma parceria (sim, as relações são parcerias, só naquela) que se aguente, dure desde os 15 ou desde os 55 anos.

Pelo menos, que essa gentinha parva deixe os outros viver em paz, numa ilusão ou não, mas bem mais satisfeitos do que eles. Até porque não há nada como viver na consciência de que, no final do dia, haverá alguém à nossa espera, nem que seja na cabeça, no coração ou noutros sítios quaisquer - ehehehe.

E não me venham com estatísticas, porque eu também as tenho e os exemplos que me rodeiam diariamente tanto comprovam que o primeiro amor é o melhor, quanto que se for à segunda e à terceira e à quarta há tanta probabilidade de correr bem como se tivesse sido a primeira. (Infelizmente, a maioria dos exemplos que tenho para dar correram mal, em qualquer vez que tenham ocorrido, salvem-se os que correram bem, que eu quero contrariar as tendências.)

Ser desleixada ou não, eis a questão!

No outro dia, maquilhei-me "mais a sério": uma camada de base finíssima, risco e sombra nos olhos, batom q.b.. De facto, não sou menina de me encher de pós e correctores, de primers e de iluminadores. No que toca à roupa, também não ia malzinho de todo, mas pronto, não consigo trocar a minha mochila por mala feminina alguma deste mundo.

Pronto, caiu o Carmo e a Trindade! Cheguei à faculdade e logo duas ou três pessoas me perguntaram, automaticamente, se eu iria encontrar-me com o meu namorado, que estava toda composta, maquilhada, arranjada, blá blá blá. Um ex-colega do Ricardo, ao saber que não, eu nem estaria com ele nesse dia, chegou mesmo a dizer que iria fazer-lhe queixinhas do meu aspecto, como se eu fosse uma criminosa e não tivesse o direito de ter mais cuidado com o meu aspecto num determinado dia. Sei que foram comentários meio a brincar, mas deixaram-me estupefacta com o tipo de mentalidade que ainda se mantém na cabecinha das pessoas.

Então eu só posso estar bonita para agradar ao meu namorado? Só posso arranjar-me se for ter com ele? No resto dos dias, posso (devo!!!) ser a pior Maria Rapaz de sempre, posso andar toda oleosa, maltrapilha e desmazelada, sem respeito por mim própria e pela minha imagem? Ah!, mas se calhar ando a dar umas facadinhas à relação, embonecando-me para outro, que isto nunca se sabe.

Que lindo...

 

Não, eu digo não!

Há dias em que me sinto mais feminina, há outros em que não. Há dias em que acordo cheia de pica para me encher de perfumes, maquilhagens, desodorizantes, cremes e loções várias, e depois visto o meu melhor casaco, com a minha melhor camisa, com as minhas melhores calças. Há outros em que me contento com o creme hidratante na cara, com uma camisola de malha, as calças que encontrar primeiro e ala, que se faz tarde! Tenho direito à minha própria maneira de expressão individual e social, tenho direito a parecer ranhosa ou maravilhosa, consoante me sinta de corpo e espírito para isto ou aquilo.

Quando andava no secundário, arranjava-me mais do que me tenho arranjado no último ano de faculdade, mas agora estou a tentar mudar o péssimo hábito de me desleixar. Sim, ando cansada, não me sobra tempo nem para espremer borbulhas. No entanto, a maneira como cuido de mim também transmite aos outros o meu potencial, por isso escolho sacrificar alguns minutos de sono para construir uma imagem de mim própria que deixe uma boa impressão nos outros e que me faça sentir confortável, reflectindo o que sou por dentro: esforçada, dedicada, animada e confiante.

No século XXI, já não deveria ser normal pensar-se que as mulheres só se arranjam para satisfazer os homens. Nós, o nosso corpo e - veja-se - o nosso cérebro valemos por nós. Não me considero uma feminista de grande monta, mas defendo que há certas ideias do suposto senso comum que devem ser, inevitavelmente, combatidas.

 

Mas isso sou eu, que sou uma badalhoca!

A propina de 1000€ (fora o resto)

Vocês perdoem-me a teimosia em falar de universidade, universidade, universidade e só universidade nos últimos dias, mas prometo que esta há-de ser a minha última intervenção acerca do assunto durante os próximos tempos. E prometo ser breve.

 

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(em http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=764210) 

 

Não sei qual é a vossa situação, não sei se andam na faculdade, se têm bolsas, se andam a trabalhar para pagar os estudos. Provavelmente, se andam, têm alguma bolsa E trabalham. Porquê? Porque as bolsas da DGES, mesmo aquelas que cobrem a totalidade do custo da propina anual no ensino superior público (entre os 1000 e os 1400€, pelo que sei), não são suficientes. O que são 1400€ de bolsa dos Serviços de Acção Social (SAS), quando há, não só as propinas, mas também o transporte e os materiais de estudo (livros, fotocópias, material técnico) para pagar? Ou o que são 2000€ quando, além desses gastos, ainda nos encontramos deslocados de casa, a viver numa residência para estudantes - ou num quarto, porque não há residências suficientes para tanta procura?

Infelizmente, nem toda a gente pensa assim. Um exemplo desses sujeitos menos iluminados é o reitor da Universidade de Lisboa (onde eu estudo), António Cruz Serra, que acha que usufruímos todos de um excelente SAS, sendo-nos permitido estudar sem nos preocuparmos com mais nada. A entrevista para que vos remeto no início da publicação é apenas o reflexo de uma profunda hipocrisia e autismo quanto à realidade do nosso país, de tantas famílias de Norte a Sul.

O maior problema para as famílias é não ter o rendimento do trabalho de uma pessoa que, em vez de trabalhar, foi estudar, diz ele. Mas eu discordo. Antes de entrarmos para a faculdade, por norma também não trabalhávamos. Já marcávamos presença na equação do orçamento familiar. Seja como for, mesmo quando trabalhamos, os nossos pais não ficam à espera que entreguemos todo o nosso salário, religiosamente. Já que trabalhamos, talvez possamos ajudar numa despesa ou outra, mas, se pudéssemos sequer trabalhar, se encontrássemos um emprego estável e bem pago, mais facilmente sairíamos de casa dos papás e pronto. Por isso, não, o maior problema dos alunos do ensino superior não é não serem economicamente produtivos para as suas famílias.

(...) daí resulta um valor de 1.060 e poucos euros por ano, que não afasta ninguém do Ensino Superior (...), continua. Lembram-se de eu referir que certos professores universitários vivem dentro de uma bolha, onde não são atingidos pelas causalidades do resto do mundo? É isso mesmo que se passa com este reitor, António Cruz Serra. E que sorte que ele teve, pois terminou a licenciatura em 1978 - numa altura em que não se pagava propinas no ensino superior em Portugal! Claro que a mencionada figurinha representa o culminar de toda a estupidez possível, graças a esta saída muito infeliz, e que nem todos os professores, até considerando os mauzinhos, são assim. But still...

Encontramo-nos num país onde há pessoas a passarem fome e frio, onde há pessoas que nem para pagarem a renda ou a comida têm dinheiro. É um insulto um gajo - sim, um gajo! - vir dizer ao pessoal que está tudo bem, obrigada, e que 1000€ (fora o resto) no orçamento familiar anual não representa that big of a deal, que é peanuts! Nem 100€, quanto mais 1000€! Há certos indivíduos nesta sociedade que ainda não perceberam que, numa casa onde se passam dificuldades, onde há desemprego, ou aperto, ou doença, ou cortes nos salários, ou "apenas" aumento de impostos, até 1€ que exceda o orçamento já faz mossa.

Falo por experiência própria: também tive de trabalhar para poder estudar, também tive de procurar bolsas extra-DGES que me ajudassem a colmatar o resto das despesas e para, de vez em quando, poder ajudar a minha família! Agora, em princípio, já estou mais orientada (porque, lá está, trabalhei e estudei para manter a bolsa de mérito), mas não deixo de me sentir solidária para com aqueles que, ao contrário do que o fofuxo do António Cruz Serra diz, são realmente obrigados a deixar de estudar por causa da mísera propina de 1000€ (que, no final de contas, nem nos garante certas condições materiais para o decorrer pacífico do nosso dia-a-dia de estudantes, sendo recorrente os edifícios estarem degradados, o corpo docente envelhecido e em número insuficiente, e por aí fora).

O ensino superior é um dos meios pelos quais se atinge o progresso numa comunidade, numa sociedade, num país. Se os alunos de outros tipos de ensino alternativos não pagam propinas, por que haveríamos nós de ter de as pagar? Temos caras de elite ou quê? Somos menos do que os outros? (E não, não estou a sugerir que os outros as deviam pagar, é apenas e exactamente o contrário.)

Universidade #7 - "quais são as saídas profissionais deste curso?"

Se há coisa que me irrita, de certeza que é a converseta acerca das saídas profissionais dos cursos do ensino superior e profissional e técnico e o raio que o valha. No entanto, ontem estive a representar o meu curso e a minha faculdade na Futurália, no sector da Universidade de Lisboa, e tive de ouvir bastantes vezes a sagrada questão "quais são as saídas profissionais deste curso?". AAAAAAARGH!!!!

Amigos e amigas que querem seguir além 9º ano ou ensino secundário regular, é só isso que vos interessa num curso? É só o que depois dá para fazer? A taxa de empregabilidade e a variedade de empresas que existem onde poderão mais tarde vir a trabalhar? É só isso? Como se os cursos valessem meramente pelas "saídas"?

Então, deixem-me esclarecer-vos sobre determinados assuntos - 3 em particular.

 

1 - Queridos paizinhos obcecados pelas saídas profissionais - e que tal deixarem as vossas crias fazerem aquilo que elas realmente querem, de que elas realmente gostam? Se dependerem demasiado do que se "deve fazer", em vez daquilo que elas "pretendem fazer", vão acabar com os vossos filhos virados ao contrário convosco, potenciais frustradinhos a médio prazo, adultos infelizes e, por conseguinte, pouco propícios a serem bem-sucedidos e a lutarem pela porcaria de futuro que lhes reservaram à força. E não haverá taxa de empregabilidade que os salve! Não haverá ambição que lhes reste! Quando uma pessoa tem os seus próprios objectivos, sente outro alento e, se for necessário, vai buscar forças aos confins do mundo para conseguir o que pretende. (Crias desses paizinhos obcecados - envio toda a minha força para que consigam demovê-los das suas ambições.)

 

2 - As saídas profissionais de um curso são aquelas que o aluno conseguir criar, durante e depois do curso. Se o aluno não for competente em nada que tenha que ver com o curso, nem sequer uma das alíneas aproveitará. Lá por termos um curso do ensino superior ou profissional, não ficamos directamente habilitados a exercer uma profissão na área. Durante o curso, aprendem-se e adquirem-se outras competências menos relacionadas com a matéria leccionada. É durante o curso que se descobre aquilo em que se é bom, seja a falar em público, a escrever, a liderar grupos, a apoiar os colegas, a debitar teses académicas absolutamente brilhantes... De que me valeu dizer ao pessoal que passava por mim e me colocava a maldita questão na Futurália que as saídas profissionais são X e Y? Tudo depende da formação complementar que têm ou passarão a ter, das línguas que falam, se pensam em fazer uma Pós-Graduação, um Mestrado, um Doutoramento, se pensam ficar-se pelo 1º ciclo, depende das suas vocações pessoais, das oportunidades que surgirem, do plano de estudos que criarem em termos de cadeiras opcionais. Percebem? E aposto que isto se aplica à maioria das licenciaturas!

 

3 - O que tem agora "muita saída profissional" não será necessariamente o que terá "muita saída profissional" daqui a uns anos. As indústrias mudam. A economia altera-se. As necessidades, os serviços, os processos da sociedade estão em constante mutação. Não tem de haver um "Ciências é que é bom e Letras é mau", não tem de haver esta distinção no mercado académico, esta estúpida dicotomia. Os mercados académico e profissional são muito, muito mais do que apenas Ciências e Letras; as fronteiras entre certos domínios nem se encontram claramente divididas, empresarialmente falando. Não é tudo "pão-pão, queijo-queijo".

 

Por isso, futuros universitários, ou mesmo outros que estejam à procura da melhor instrução ou formação neste momento, não se deixem levar pela treta de conversa com que nos enchem a cabeça (pais, professores, comunicação social). Somos nós que criamos as nossas saídas profissionais, as nossas aptidões e tendências. A nossa vontade de vencer. Conheci pais de colegas que eram advogados e não era por isso que não estavam desempregados e em dificuldades, mas também sei de pessoas que terminaram cursos de Letras que conseguiram concretizar as suas ambições profissionais em pouco tempo. Também já conheço pessoas (alguns amigos meus) frustradas, por não estarem a estudar aquilo de que gostam (há até quem ainda não saiba do que gosta, mas a quem tão ainda não foi dada a oportunidade de pensar devidamente).

 

Seja como for, boa sorte e felicidades para estas pequenas grandes escolhas! Pensem muito bem antes de gastarem dinheiro e tempo de vida num projecto em que desejam investir, numa ideia que pode ter tudo para correr bem e para correr mal!

Alguma dúvida, disponham. O meu e-mail há-de aparecer algures no blogue.