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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Escolhi ler mais mulheres para me conhecer melhor

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No ano passado, comecei a fazer um esforço para ler mais livros escritos por mulheres. Achei que, mesmo já lendo muitas por acidente, ou simplesmente sem pensar, podia vir a conhecer mais autoras. Nos últimos anos, tenho tido cada vez mais consciência de que, apesar de não ser propositado, acabamos por viver numa sociedade mais definida pelas ideias, valores, causas e palavras de homens, acabando por insistir num viés delineado pela perspectiva masculina, cisgénero, heterossexual, europeia e/ou ocidental. E, ao começarmos uma cadeia de leituras com uma certa orientação (seja ela de género, geografia, ideologia política...), é normal que continuemos em temas e autores semelhantes ou mais parecidos.

 

Por isso, mudar o rumo das nossas leituras ou escolhê-las mais criteriosa e conscientemente pode ajudar-nos a descobrir novos caminhos, inclusivamente novos interesses.

 

Podia ter escolhido literaturas ou escritores doutras paragens, podia ter procurado assuntos sobre os quais não sei muito. De certa forma, ter escolhido ler mais mulheres, começando em mulheres escritoras ou artistas da Europa Central e Ocidental, ou da América do Norte, ou mesmo brasileiras, que originalmente escrevem em língua portuguesa ou inglesa, acaba por continuar a ser a minha zona de conforto. Não inovei coisa nenhuma, só tentei saber mais sobre vidas como as que admiro profundamente, mas sobre as quais sentia que não sabia o suficiente. Ainda assim, tenho aprendido imenso.

 

Tenho aprendido a analisar e questionar o papel da mulher ao longo do último século, de que matéria e de preocupações é feita a mulher contemporânea, quais as dúvidas e os anseios que tem, o que tem conquistado e o que há para conquistar, qual o seu lugar de fala, as suas responsabilidades. E qual a sua voz no meio da multidão, e de que forma se ouve. E como é que essa voz tem sido retratada pelos outros, nomeadamente pelos homens, sendo por vezes tão diferente do que a fazem parecer. Particularmente neste Verão, li muita crónica, muita autobiografia, ouvi muito podcast - e com as mulheres como protagonistas.

 

Em geral, penso que ler mais mulheres me tem ajudado a aprender com possíveis, mesmo que surpreendentes, exemplos a seguir. Ler e ouvir outras mulheres tem-me ajudado, por um lado a escavar, e por outro a trilhar, uma genealogia de género, de pensamento, de crenças e de feitos incríveis dos quais não teria noção se só continuasse a ler os "grandes autores".

 

Aos poucos, até acabo por procurar autoras doutros lados do mundo, com histórias e uma História diferente. Acabo por espreitar áreas do conhecimento ou artes sobre as quais nunca estudei. (No último semestre, até acabei por estudar pintoras do sudeste asiático e temas do orientalismo.) Acabo por bater à porta do inesperado, do menos óbvio. O efeito borboleta das leituras lá tem a sua razão de ser.

 

Continuo a admirar os clássicos, a achar que têm um papel central, que devem ser estudados e lidos, que devem ser promovidos. Continuo a admirar escritores que são homens, pois não perderam o seu encanto, interesse ou mérito. Contudo, agora tenho uma estante mais rica por ter criado espaço para Dulce Maria Cardoso, Tati Bernardi, Maria Judite de Carvalho, Maria Teresa Horta, Rebecca Solnit, Ruth Manus, Rosa Montero, Natalia Ginzburg, bell hooks, Rachel Cusk, Virginia Woolf, Anne Patchett ou Anne Enright. Mesmo tendo só lido alguns textos ou um livro ou outro de algumas destas autoras, muitas outras obras suas e das suas contemporâneas já ganharam prioridade na lista das minhas próximas aquisições e desejos.

 

Afinal, como poderia um homem, por muito próximo que esteja e por muito empático que seja, testemunhar de forma tão real e familiar situações e experiências como a maternidade, a posição de desigualdade, a relação com o corpo, a luta por direitos, os desafios do mercado de trabalho, a criação artística e literária, o seu legado...?

 

A história destas mulheres é, também, a nossa. O vocabulário é aquele que procuramos e que nos situa no mundo, os seus verbos contam-nos mais sobre as nossas próprias acções. Consequentemente, a nossa história é apenas uma continuação das suas histórias. Estaremos cá paraas contar e recontar, construir e ir reconstruindo.

 

Escolhi ler mais mulheres para as conhecer melhor, mas também para me conhecer melhor.

Um elogio ao "Quotidiano Instável" (Maria Teresa Horta)

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"Nunca cheguei a saber o que me atraía nele: os olhos? As mãos compridas e magras? O ar fechado e triste? A hostilidade quase terna, toda ela aparente? (...) E todavia há uma dormência feliz que não compreendo, ou que talvez não queira compreender, como também nunca consegui entender até onde ia a sua timidez, a sua severidade, ou a sua indiferença por mim."

 

Quotidiano Instável era o nome da coluna d'A Capital e, agora, é o nome duma coletânea com algumas dessas crónicas escritas, há 50 anos (1968-1972), pela jornalista e escritora Maria Teresa Horta. Acima de tudo, mais do que crónicas, estes textos não são só palavras - são formas de estar, pensar e sentir. Acredito que só quem já amou, com paixão, dor, alegria, provação e ternura consiga entender, mesmo que superficialmente, o que se passa nestas páginas. São muitas as palavras que MTH escreve sobre quem mais a inspirou desde sempre, o seu marido Luís, uma autêntica musa no masculino.

 

Se o olhar desgastasse o papel, este livro estaria feito em fiapos. As crónicas são curtas, como mini-contos, mas bastante complexas, rebentando de significado, metáforas, um vai-e-vem entre o sujeito "eu" e uma terceira pessoa. São textos que desafiam as barreiras entre o real e o imaginário, através da narração da paixão, da sensualidade, da sexualidade, da família e das relações em geral numa voz que eleva o amor à condição de mito real, pela sacralização das imagens e raciocínios invocados. Tive de ler cada crónica várias vezes, para recolher tanta informação quanto possível, informação essa que alimenta os sentidos de variadas formas, imagens ricas. Mesmo assim, sei que, cada vez que releio alguma, consigo retirar mais um pouco do que antes... Porque é prosa, mas poderia ser poesia, o que MTH escreve é um fio de consciência que nos cabe destrinçar, que não se sabe bem como ou onde começa.

 

(Senti-me quase sempre a ler cada texto como um sonho...)

 

Paralelamente, aconselho esta entrevista a Maria Teresa Horta no podcast "A Beleza das Pequenas Coisas" (também disponível no Spotify), que complementa a informação disponibilizada no prefácio de Quotidiano Instável por Ana Raquel Fernandes. As crónicas fazem ainda mais sentido à luz da experiência de vida de Maria Teresa Horta - política, jornalística, pessoal... (Não nos podemos esquecer que o erótico feminino, a liberdade implícita, a expressão do desejo, a emancipação, o protagonismo dado à mulher - tudo isto é lindo, um dado adquirido na contemporaneidade, mas não durante a ditadura de Salazar e de Marcelo Caetano.)
Além disso, ouvir MTH é uma delícia. Tem tantas lições para nos ensinar...! Então, aqui fica outra sugestão: Maria Teresa Horta em entrevista no podcast "Biblioteca de Bolso".

 

Quem gosta de crónicas e/ou contos vai adorar este livro, Quotidiano Instável. Quem gosta de poesia vai adorar este livro. Quem gosta da máxima "quantidade não é qualidade" vai adorar este livro curto e tão concentrado.

 

Dadas as nossas circunstâncias actuais, não vos aconselharia particularmente a fazer encomendas, e muito menos a sair de casa para adquirir bens não essenciais; no entanto, se já tiverem este maravilhoso livro na vossa estante, aconselho-vos a darem-lhe uma oportunidade, ou a fazê-lo assim que possível depois deste susto na saúde colectiva. Mesmo que gostem mais dumas crónicas do que doutras, tenho a convicção de que não se vão arrepender.

Leitura de cabeceira: Meio intelectual, meio de esquerda (Antonio Prata)

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Três crónicas por dia, nem sabe o bem que lhe fazia... Podia ser um ditado popular, mas é só uma das muitas recomendações que por aqui vou plantando.


O livro Meio intelectual, meio de esquerda (Antonio Prata) foi a minha leitura de cabeceira das últimas semanas, depois de o ter encomendado através da promoção de Inverno da Tinta-da-China. Apesar de o ter escolhido às cegas, somente pelo prazer de comprar um livro a preço reduzido, acho que fiz muito bem.

 

Esta edição portuguesa de Meio intelectual, meio de esquerda reúne crónicas do autor e guionista brasileiro desde 2003 até 2016, por isso deu-me sempre a impressão de que, desde a primeira até à última, estava a acompanhar um amigo que ia crescendo, amadurecendo e evoluindo na sua vida pessoal e profissional - e escrevendo sobre isso. Ao contrário do que o título possa indicar, raras são as crónicas de cariz político, preteridas ao futebol (do qual eu percebo muito), amor, filhos e reflexões várias, mais ou menos disparatadas.


Se pensarmos que, em 2003, Antonio Prata tinha vinte e poucos anos, alguém que os tenha ao ler estas crónicas poder-se-á deparar com uma máquina do tempo, em que o futuro se apresenta com a sucessão de eventos (viajar juntos pela primeira vez vs. o casamento; o início duma carreira vs. a sua consolidação), problemas (como usar a palavra "tomate" vs. mãozadas de cocó de bebé) e preocupações (bares ruins vs. recibos e contabilistas) de quem vai registando pequenos apontamentos da sua vida durante mais duma década. Talvez, um dia, também nós sejamos mais ou menos assim. Talvez eu seja mais ou menos assim.


À semelhança do que acontece com a maioria das colectâneas de crónicas, prefiro ir lendo poucas de cada vez, daí ter nomeado Meio intelectual, meio de esquerda como leitura de cabeceira. Antes de dormir, para acalmar a cabeça dos ecrãs, da rotina e do entusiasmo do dia, bastam alguns minutos e páginas. Crónicas de duas ou três são ideais, por não serem demasiado exigentes, nem desinteressantes, enquanto a variedade de temas nos entretém e embala para um sono mais descansado (idealmente!).


Em suma, Meio intelectual, meio de esquerda não é o melhor livro de crónicas de sempre, não é o mais perspicaz ou criativo, mas presta-se a um óptimo trabalho de entretenimento!


[Acabado este, está na altura de passar para Silêncio na Era do Ruído (Erling Kagge).]

Dos outros #28

Portugal é um país «pequenino», implacavelmente situado na região anal daquele apóstolo que traiu Jesus (...). Em primeiro lugar, Portugal tem de ser extrema e intransigentemente «snob». A atitude certa é a do velho fidalgo que, depois de se ter cansado do Império, se decidiu a regressar a casa e cuidar do seu jardim. Foi Portugal, afinal de contas, que aliciou a Europa para as grandes aventuras coloniais com as quais os grandes países europeus enriqueceram."

Miguel Esteves Cardoso, crónica "Europa", in A Causa das Coisas

Dos outros #19

" A partir de agora, porém, o Governo disponibiliza aos bancos dinheiro dos nossos impostos. [...] o que se passa é o seguinte: os contribuintes emprestam o seu dinheiro aos bancos sem cobrar nada, e depois os bancos emprestam o mesmo dinheiro aos contribuintes, mas cobrando simpáticas taxas de juro. A troco de apenas algum dinheiro, os bancos emprestam-nos o nosso próprio dinheiro para que possamos fazer com ele o que quisermos. A nobreza desta atitude dos bancos deve ser sublinhada. "

Ricardo Araújo Pereira, crónica "A banca nacionalizou o governo", Novas Crónicas da Boca do Inferno