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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

HOJE foi o dia

Frequentei o Colégio Atlântico durante nove anos - desde a pré-primária até ao final do 3º ciclo. Quando, por fim, entrei para a escola pública, pensei que nunca mais me apanhavam por lá, pelo menos durante algum tempo. Na altura, estava como que saturada do ambiente de "clausura", de protecção e de controlo a todo o santo instante (ou, pelo menos, era assim que eu via a situação), e a recém-adquirida-pseudo-liberdade trouxe-me, talvez, uma quanta arrogância (que depressa me passou, haja juízo!). Poucos meses depois, voltei para uma curta visita e, contra todas as expectativas, fiquei tão triste por já lá não andar que reafirmei, desta vez pela razão contrária, a minha pouquíssima vontade de regresso. Mas, eventualmente, continuei a visitar os meus professores, a falar com alguns no Facebook e a enviar e-mails à minha antiga directora de turma, a professora Antónia, que, no ano passado, me convidou (com a aprovação da direcção do colégio e dos outros professores, obrigada, obrigada!) para ir falar a uma turma de sexto ano sobre o meu percurso escolar, porventura pessoal, e dar-lhes alguma motivação. Aliás, até cheguei a escrever sobre isso! Fiquei especialmente sensibilizada por me colocarem nessa posição, pois demonstrava que me encontravam competências e experiência suficientes para conseguir gerir esse encontro. E, afinal, saí-me bem!

Então, este ano, o convite repetiu-se... para conversar, não com uma, mas com várias turmas, do 2º ao 3º ciclo, no pavilhão multiusos do colégio! Tanta gente!!! A minha primeira reacção foi pensar que não conseguiria cativá-los, que seria horrível e que nem me levariam a sério. Mas - ei! - não estou aqui para as curvas? Não é o meu lema explorar todas as situações que me sejam colocadas, aproveitando-as como se fossem a minha última oportunidade?
Claro que aceitei, ora essa - ou houvesse outra resposta beatrizmente possível!

Portanto, hoje, lá estive...


Colocaram-me no palco em cima do qual actuei em dezenas de festas escolares (dança, teatro, música, ...), completamente sozinha, com um foco de luz a destacar-me, um sofá para me sentar e água para ir bebendo. Não estava naaaaada à espera! Nada mesmo! Tanto cuidado e tanta atenção sobre mim fizeram-me sentir pequena, pequenina, minúscula. À minha frente, apesar de não conseguir vê-los nitidamente devido ao brilho do holofote que me encadeava (e aos óculos que não tinha na cara, ah ah ah), estavam imensos alunos e professores que esperavam que eu fosse capaz de mostrar fluência, à vontade e carisma. Desiludi-los não era, de todo, uma opção!
Abordei diversos temas: a experiência da escola privada em comparação à da escola pública, as notas, as minhas actividades extra-curriculares, o que me motiva, os meus hobbies, esta procrastinação em forma de blogue, as expectativas que tenho para o futuro... Sei que me esqueci de referir imensas coisas que planeara referir, sei que não fui a melhor oradora e que, quando entrei naquele palco "enorme", caiu sobre mim uma grande ansiedade que me impediu de me expressar como desejava. No entanto, também me contaram que quase nenhum aluno (estavam presentes o 7º, o 8º e o 9º ano) se atreveu a falar, algo raríssimo; que consegui, felizmente!, cativá-los; que me colocaram questões no final e que mostraram interesse pelo que partilhei com eles. No final, senti que tinha cumprido a minha parte e que demonstrara ser um bom exemplo, embora, ainda há pouco tempo, tenha estado na pele deles e tenha tido a idade que têm. Em suma, acho que consegui chegar aos meus espectadores e nada me poderia deixar mais satisfeita!

Também matei saudades de todos os professores e funcionários do colégio que me viram crescer e que, agora, se admiram por já ter passado tanto tempo desde que eu fazia intermináveis e dolorosas birras (porque a minha avó me mandava demasiada comida para o almoço), por eu já ter "este tamanho, parece que me metem adubo" e por até já aparecer com um "apêndice/borracho" (segundo apelidaram o Ricardo, que me acompanhou nesta visita); desenterrei recordações que pensei nunca mais recordar; passei em corredores que me fartei de percorrer "para trás e para a frente, para a frente e para trás" durante quase uma década... Enfim, foi uma manhã e tanto!

A minha avó sempre me disse que, um dia, me lembraria do colégio e teria vontade de lá voltar. Por muitos momentos desagradáveis que tenha vivido dentro dos seus portões, os melhores superam-nos! Dito isto: hoje foi o dia.

***

MIL OBRIGADAS a todos os que me concederam esta visita especial e que conseguiram torná-la num dos acontecimentos mais marcantes do meu 12º ano!!!
MIL DESCULPAS a um certo professor que, num certo seu aniversário, foi presenteado pela minha antiga turma com um Big Mac e uma festa surpresa cheia de doces que não pôde comer, por estar em regime de dieta, e que teve de explicar aos seus actuais alunos em que consistiu esse episódio, uma vez que me ocorreu a brilhante ideia de o trazer à memória. (Faça o obséquio de se rir, stôr Nuno! :D )

Pseudo-lamechices sobre o crescimento


Há pessoas que entram na nossa vida com o único propósito de nos ajudar a crescer. Aparecem numa determinada altura, sem nenhum pretexto específico, apenas por aparecer. Por vezes, nem elas sabem que papel desempenham no filme que se vai desenrolando e em que somos protagonistas. Depois, fazem com que nos afeiçoemos às suas melhores características e com que nos habituemos às piores. Tornam-se figuras familiares e começamos a desejar que nunca desapareçam da nossa vista. São amigos, amantes... enfim, pessoas por quem daríamos o couro e o cabelo. Já não nos imaginamos sem elas. Parece-nos sempre que o que nos dão é mais do que merecemos e que o que lhes retribuímos nunca é suficiente. Alimentam-nos o coração, em troca de um pedaço do nosso tempo e da nossa alma. Por mais prantos que causem, permanecem vivos na nossa memória até um próximo perdão, pois cada sorriso que conseguimos arrancar-lhes, cada gesto simpático, cada momento especial é um oásis para as anteriores mágoas causadas. Idolatramo-las, acima de tudo.
Porém, um dia acordamos e estamos diferentes. Crescemos. E aqueles que tão queridos nos eram vão dando indícios de já não serem quem nós julgávamos. Têm defeitos, defeitos graves, capazes de nos corromper a opinião que tivéramos sobre eles. São humanos, mas tal deixou de ser uma desculpa plausível que nos acalme a confusão gerada pelo facto de gostarmos tanto de alguém que, afinal, talvez não seja quem nos assemelhava ser. Aturdidos, ainda que confusos, ignoramos. Eles ainda têm tanto para nos mostrar...!
Continuamos a crescer. Conhecemos outras pessoas e outras realidades, atingindo um nivel de compreensão mais maduro sobre o que nos rodeia. Não permitimos que as aparências nos manipulem; discernimos autonomamente; as prioridades alteram-se. Então, por fim, conseguimos ser objectivos connosco próprios: é melhor prestar o luto do desnecessário, do que nos faz menos felizes. Agora, a perfeição, imperfeita há tempo suficiente, é um traiçoeiro ninho de ratos; o que nos transtornava é-nos indiferente; o que mais presávamos tornou-se relativo; as palavras a que nos agarrávamos, à procura de alento, vai levando-as a efemeridade.
Há pessoas que entram na nossa vida com o único objectivo de nos ajudar a crescer. São elas que nos forçam a deixar de acreditar em fantasias infantis e em crenças de gente miúda. Foram elas que, por diversas vezes, estiveram contra nós, sem nos apercebermos... sem elas se aperceberem. É sua a culpa de muitas infelicidades que escusávamos de ter enterrado, tal como também é sua a culpa de termos conhecido o mundo além dos nossos princípios. Nem tudo foi bom, mas nem tudo foi mau. Também nos trouxeram alegrias, testando os nossos limites e emoções.
Só nos iludimos porque o permitimos, tenho dito. Só nos iludimos porque todas as crianças se iludem. Felizmente, um dia, crescemos, colocando a nossa vida em perspectiva. É com as experiências, as boas e más, que aprendemos. Talvez ainda nos esperem mais lições pela frente, talvez, no fundo, continuemos a ser as mesmas crianças. A diferença é que já tivemos o gosto de conhecer o que nos era desconhecido.
A ironia é que quem nos ajudou a crescer ainda não cresceu.

TWILIGHT - porque eu também já guinchei pelos abdominais do Taylor Lautner

Não me considero a maior apreciadora da saga, mas também nunca desgostei dela, muito pelo contrário.

Tinha catorze anos quando surgiu o primeiro filme, que foi um sucesso enorme na altura, apesar de, em Portugal, nenhum dos livros da Stephenie Meyer ainda ser muito conhecido. Fui ver o “Crepúsculo” no aniversário de um amigo e lembro-me de todos os que lá estavam comigo, na mesma sala de cinema, terem vibrado imenso. No entanto, eu não me lembro de ter vibrado grande coisa. Sim, achei que era uma história de amor engraçada, o enredo não era mau, mas, se não tivesse lido os livros posteriormente, não me teria interessado como cheguei a interessar.

Nos meses que se seguiram, devorei todos os livros que já estavam publicados, emprestados por duas colegas, e, perto do meu aniversário seguinte, calhou ser publicada a tradução portuguesa do “Amanhecer”. Quase exigi que fosse uma das minhas prendas e até consegui um bom preço de lançamento – quinze euros e pouco, enquanto noutras lojas o vendiam a dezoito. Antes do dia em que era suposto recebê-lo, se tivesse seguido as regras dos aniversários, já acabara de o ler. Na verdade, devorei-o em menos de quarenta e oito horas.

Julgo que poucos foram os livros que tiveram o mesmo efeito em mim que os quatro romances “base” da saga escrita pela Stephenie Meyer, apesar de não ter lido mais nenhum da mesma autora. Recomendaram-me imenso o “Nómada”, mas não o cheguei a ler. Na altura, tive pena; agora, já não.

Porque, se formos a ver, tudo isto foi grandemente influenciado pela idade que tinha e pelo que me estava a acontecer na época em que me interessei por vampiros, lobisomens e amores impossíveis: estava infeliz, sentia-me incompreendida, um bicho feio, vivia na ignorância do que era uma relação amorosa, não fazia a mínima ideia do que fazer com a minha vida, sabendo apenas que adorava ler e escrever, e a ficção ajudava-me a manter a minha auto-estima em níveis decentes. Tinha catorze anos, já não era uma criança, mas ainda pecava em falta de maturidade. Actualmente, já não revelo tanto entusiasmo quando me falam no Edward Cullen, na Bella Swan ou no Jacob Black porque, resumidamente, arranjei uma vida. E não o digo de uma maneira negativa face à ficção! Fui muito feliz na companhia de tais personagens! Acontece que cresci, conheci outro tipo de histórias e deixaram de ser, do meu ponto de vista, o suprassumo que outrora foram.

Portanto, se me perguntarem se me sinto empolgada por já ter estreado o “Amanhecer, parte II”, o último filme da sua espécie, dir-vos-ei que estou curiosa, mas que poderei esperar até à próxima semana para o ver e que até sobreviveria se não o visse, de todo. A minha curiosidade advém mais do facto de ter seguido atentamente toda a saga, ter lido todos os livros, ter visto todos os filmes e, como é normal, querer saber se a adaptação cinematográfica faz jus ao que li. Raramente pego num dos romances, mas o novo filme parece-me um bom pretexto para ir ao cinema.

 

Eu sei que vocês gostam, deixem-se lá de tretas! :)

TWILIGHT - porque eu também já guinchei pelos abdominais do Taylor Lautner

Não me considero a maior apreciadora da saga, mas também nunca desgostei dela, muito pelo contrário.


Tinha catorze anos quando surgiu o primeiro filme, que foi um sucesso enorme na altura, apesar de, em Portugal, nenhum dos livros da Stephenie Meyer ainda ser muito conhecido. Fui ver o “Crepúsculo” no aniversário de um amigo e lembro-me de todos os que lá estavam comigo, na mesma sala de cinema, terem vibrado imenso. No entanto, eu não me lembro de ter vibrado grande coisa. Sim, achei que era uma história de amor engraçada, o enredo não era mau, mas, se não tivesse lido os livros posteriormente, não me teria interessado como cheguei a interessar.


Nos meses que se seguiram, devorei todos os livros que já estavam publicados, emprestados por duas colegas, e, perto do meu aniversário seguinte, calhou ser publicada a tradução portuguesa do “Amanhecer”. Quase exigi que fosse uma das minhas prendas e até consegui um bom preço de lançamento – quinze euros e pouco, enquanto noutras lojas o vendiam a dezoito. Antes do dia em que era suposto recebê-lo, se tivesse seguido as regras dos aniversários, já acabara de o ler. Na verdade, devorei-o em menos de quarenta e oito horas.


Julgo que poucos foram os livros que tiveram o mesmo efeito em mim que os quatro romances “base” da saga escrita pela Stephenie Meyer, apesar de não ter lido mais nenhum da mesma autora. Recomendaram-me imenso o “Nómada”, mas não o cheguei a ler. Na altura, tive pena; agora, já não.


Porque, se formos a ver, tudo isto foi grandemente influenciado pela idade que tinha e pelo que me estava a acontecer na época em que me interessei por vampiros, lobisomens e amores impossíveis: estava infeliz, sentia-me incompreendida, um bicho feio, vivia na ignorância do que era uma relação amorosa, não fazia a mínima ideia do que fazer com a minha vida, sabendo apenas que adorava ler e escrever, e a ficção ajudava-me a manter a minha auto-estima em níveis decentes. Tinha catorze anos, já não era uma criança, mas ainda pecava em falta de maturidade. Actualmente, já não revelo tanto entusiasmo quando me falam no Edward Cullen, na Bella Swan ou no Jacob Black porque, resumidamente, arranjei uma vida. E não o digo de uma maneira negativa face à ficção! Fui muito feliz na companhia de tais personagens! Acontece que cresci, conheci outro tipo de histórias e deixaram de ser, do meu ponto de vista, o suprassumo que outrora foram.


Portanto, se me perguntarem se me sinto empolgada por já ter estreado o “Amanhecer, parte II”, o último filme da sua espécie, dir-vos-ei que estou curiosa, mas que poderei esperar até à próxima semana para o ver e que até sobreviveria se não o visse, de todo. A minha curiosidade advém mais do facto de ter seguido atentamente toda a saga, ter lido todos os livros, ter visto todos os filmes e, como é normal, querer saber se a adaptação cinematográfica faz jus ao que li. Raramente pego num dos romances, mas o novo filme parece-me um bom pretexto para ir ao cinema.


 



Eu sei que vocês gostam, deixem-se lá de tretas! :)

gosto #2

   Gosto do Inverno. Gosto de estar perto do aquecedor e aí permanecer, sem um objectivo em vista, e gosto de não ter as mãos geladas, como sempre acontece seis meses por ano. Gosto de ficar na cama a ler ou a escrever ou, quem sabe, até sem fazer nada. Gosto de estar, somente.

 

   Gosto do céu escuro e enevoado, em tons de cinzento, como se alguém o tivesse sujado com pegadas gigantes, enquanto o observo pela janela. Talvez chova, e eu gosto da chuva que cai a menos de um metro da minha cabeça, no telhado, porque a ouço crepitar e escorrer. Gosto que o meu quarto seja no sótão.

 

   Gosto do tamanho da minha casa que, em comparação à maioria das casas que conheço, até é grande. Gosto de saber que é espaçosa e que, um dia, talvez os meus filhos brinquem onde eu escrevo estas palavras, neste preciso instante, a determinada altura da minha adolescência.

 

    Mas, por agora, gosto de ter a minha idade, os meus sonhos e os meus pseudo-problemas. Até chego a gostar dos dramas desnecessários que, por vezes, crio! Fazem parte do momento… Gosto de não ter preocupações maiores, gosto de imaginar o futuro e, simultaneamente, adorar o presente, mantendo aceso o passado.

 

   Gosto de ter o tempo de que preciso para ser feliz. Gosto de sentir que poucas são as vezes em que não estou satisfeita comigo mesma e que não tenho o que quero. Eu gosto de alcançar aquilo para que luto, eu gosto da sensação de ser recompensada pelo meu esforço e gosto de ser elogiada – afinal, quem não gosta? Gosto de ficar a olhar para um trabalho quando o acabo e de me congratular pela minha persistência, tal como gosto de perder e saber que, mesmo assim, ganhei. Gosto de dizer isso às pessoas e de as incentivar a serem positivas.

 

   Gosto de não ser pessimista, apesar de não me considerar completamente optimista. Gosto, de vez em quando, de não ser realista. Enfim, gosto do ânimo que uma fantasia me consegue trazer.

 

   Sem nenhum motivo específico, porque motivos não me faltam, gosto de me orgulhar de mim própria, da minha família e dos meus amigos. E gosto de não ser sempre orgulhosa! Mas também gosto dos meus momentos de egocentrismo, porque eles fazem bem ao ego! (E gosto da elasticidade do meu, que passa a vida a esticar e a encolher, conforme as exigências exteriores.)

 

   Gosto do meu blogue e dos comentários que me enviam. Gosto de escrever, sabendo que alguém lerá e apreciará o que faço. Ao final de um qualquer dia, mais ou menos satisfatório, gosto de verificar o meu contador de visitas e saber que X pessoas passaram um segundo da sua vida que fosse a olhar para o cabeçalho – “procrastinar também é viver”. Estariam elas próprias a procrastinar?

 

   E, como é óbvio, gosto muito de pessoas. Poderia dizer que as adoro, mas não é esse o título. Gosto de as observar, de as perscrutar e de as conhecer. Depois, gosto de saber no que pensam e o que esperam da vida. Jamais deixarei de gostar de pessoas. É delas que gosto mais, acima de tudo.

os intelectualóides

   O ciclo de marginalização do intelectualóide inicia-se exactamente no momento em que este começa a conviver regularmente com pessoas alegadamente normais. Até então, talvez ele também o tenha sido, à semelhança dos restantes, mas os sintomas de que existem diferenças nunca lhe passam despercebidos, ainda que os que o rodeiam possam não as descobrir com facilidade. O intelectualóide sente-se diferente, ora não digno de permanecer na companhia dos seus pares, ora demasiado superior para que a isso se sujeite, e, a partir desse momento de revelação, decide passar a viver num mundo paralelo.


   Ora, o intelectualóide ainda criança, muito novo e inexperiente, desenvolve-se de modo diferente das outras crianças. As suas brincadeiras baseiam-se, de preferência, em reproduções fiéis do universo dos adultos, das suas conversas e empolgantes vidas – inevitavelmente misturadas com a ingénua imaginação de alguém da sua tenra idade - pois quem é grande é que sabe, eles é que têm razão e as outras crianças são parvas, dado que só se interessam por coisas estúpidas e sem significado (nesta situação, o intelectualóide revela já um precoce sentimento de superioridade de si próprio em relação a terceiros, adoptando também uma espécie de modelo de comportamento de alguém que admira profundamente).


   É deste modo que o intelectualóide vai crescendo, sem nunca se identificar com os seus pares. Com eles, não partilha opiniões, pensamentos, jogos, gostos musicais, televisivos ou literários, até porque os outros ainda nem sequer abriram um livro na vida, ao contrário dele, que já leu cerca de trinta livros, sete dos quais são os da saga do Harry Potter, que devorou de cinco a vinte vezes cada um, sem exagero. Os miúdos da sua idade só querem é bola e Playstation (ou Game Boy), mas, para ele, esforço físico é algo inteiramente desnecessário à sua sobrevivência, e, sinceramente, nunca foi muito bom a jogar aos Pokemons, ao Super Mario ou ao Sonic, pelo que são igualmente dispensáveis.


   Já o intelectualóide adolescente começa, aos poucos, a reconhecer que existe algo de errado na sua pessoa e a admitir que é provável que tenha alguma culpa por não ser socialmente bem-vindo. Há uma pequena possibilidade de a culpa não ser somente do resto do planeta.


   Então, a partir desta ideia tão inteligente, o intelectualóide começa a desejar ser um pouco menos parecido consigo mesmo. Progressivamente, vai adoptando alguns hábitos e tendências dos que, outrora, menosprezara. Tenta vestir-se como eles (cores pouco berrantes e que condigam umas com as outras), falar como eles (um impropério a cada duas frases), a viver como eles (sem objectivo nenhum a não ser pertencer a uma rede social e excrever axim) e a dar-se com eles (esta parte corre menos bem, porque os seus pais não permitem que saia à noite para bares e discotecas com os inconscientes dos seus colegas de escola).


   Se o intelectualóide for rapaz, mais cedo ou mais tarde apercebe-se de que não tem jeito para cativar o sexo oposto; se o intelectualóide for rapariga, vai demorar imenso tempo a habituar-se à ideia de que aqueles piropos que lhe tinham mandado eram, afinal, a gozar com ela.


   O intelectualóide adolescente percebe, pela primeira vez, que não tem realmente nada a ver com os jovens normais e que, se não se esforçar à séria, passará o resto da sua vida a ser um falhado.


   Entretanto, o intelectualóide muda de escola, pois passou para o ensino secundário. Tem a oportunidade de conhecer novas caras e conviver com elas num ambiente totalmente distinto daquele em que tinha estado até então. Agarrando-se à única chance que tem de lutar por se tornar uma pessoa diferente, melhor, faz de tudo para se sentir confortável nesta nova vida que lhe foi oferecida. Quer sentir-se acolhido e desejado, mais igual e menos diferente, destacar-se por mérito e não por ser um bicho anti-social.


   Com os seus novos colegas, na sua nova escola, sente-se muito mais livre para explorar a sua personalidade. Apesar de, a pouco e pouco, se identificar mais com os outros jovens, aprende a gostar cada vez mais de si próprio. Adquire um estilo pessoal, cimenta os seus valores, estipula o que é mais importante para si. A puberdade costuma ajudar. Com o despontar desta auto-estima, surge o orgulho em sempre ter sido quem é e o ciclo de rejeição termina. À medida que cresce, conhece também mais intelectualóides, fazendo-o ver que, afinal, nunca fora o único.


   Apesar do seu percurso irregular e, por vezes, um pouco triste e solitário, o intelectualóide aprendeu a ser feliz. Pode não ter sido da maneira mais fácil, mas valeu a pena. Aprendeu a distinguir o bem do mal, a verdade da falsidade e a apreciar os obstáculos da vida como nenhuma outra pessoa. Para si, são os pormenores que contam, porque foram eles que sempre o ajudaram a ser positivo nos momentos mais difíceis.


   Com o tempo, o intelectualóide pode vir a alcançar o sucesso e a plena realização pessoal, reconhecendo, do mesmo modo, que ainda tem muito para aprender. No entanto, sabe bem o que vale e não se rebaixa perante nenhum comentário negativo, daqueles que, outrora, o fizeram vergar perante outrem com menos valor. O intelectualóide vai ficando cada vez mais parecido com os seus pares enquanto, no fundo, tem a eterna consciência de que um intelectualóide será sempre um intelectualóide e que gozar desse estatuto não é um fardo, mas sim um privilégio. E que privilegiado ele é!

pequena grande vitória!

   Conheci a minha amiga Cassandra quando ela estava no quinto ano e, eu, no quarto. Já lá vai imenso tempo! Ela acabou de ser aceite na universidade. Pois é... Estamos a crescer, mesmo sem nos apercebermos! Dos meus amigos, ela é a primeira a atingir o estatuto de estudante universitária (ui, que pomposo!) e eu não me poderia orgulhar mais (não que não me orgulhe dos meus outros amigos, evidentemente). Desde cedo que representa um modelo para mim, não só por ser mais velha, mas também por sempre ter sido uma aluna exemplar e uma pessoa com grandes valores morais, daquelas a quem nunca disse "olha quem fala". Nós as duas e a irmã mais nova dela somos quase como almas gémeas, partilhamos imensos gostos pessoais e pensamos, muitas vezes, de maneira semelhante.


   Acho que ainda não interiorizei a ideia de que, para o ano, também eu vou para a universidade. Sempre me pareceu algo tão distante e, agora, de um momento para o outro, começo realmente a entender o pouco que nos separa. Para mim, é surreal!


   Esta é a minha mensagem de parabéns à Cassandra, a miúda que eu obriguei a fazer rap para o Youtube, a miúda que me fez apaixonar ainda mais pela escrita, pela leitura e pelas minhas anormalidades, a miúda que me faz sempre sentir tão pequenina e tão grande em simultâneo! Só desejo que continue a ter sucesso e o mesmo brilho no olhar! Parabéns pelos Estudos Asiáticos! 

dos hábitos que se perdem

O que é deixar de sentir? O que é perder o rumo por perder afeição como quem perde carteiras? Já não estou habituada a não sentir, porque o senti durante demasiado tempo. Agora, que tudo são lembranças e nada é presente, fico-me por aqui a escrever, como quem procura o que lhe falta. Porém, desta vez, é diferente: não me apetece procurar, a vontade foi com o verão e, com o outono, está para vir o que – isso sim! – eu quero descobrir o que é, afinal. A criança perde os dentes de leite, deixando-os à fada; eu perdi um bocado da minha identidade, que a leva o tempo. O sol vai-se, a lua sobe. Daqui a algumas horas, nasce um novo dia. E é como se eu também acordasse outra vez, de um sono que, de prolongado, me cegava.

os rapazes amorosos

“A pior coisa que as mulheres podem dizer de um homem não é que ele é um cabrão, um egoísta, um mulherengo, nem sequer um paneleiro. A pior coisa que as mulheres podem dizer de um homem é que ele é "amoroso". […] Se uma mulher disser que um homem é um mulherengo, isso quer dizer que tem vontade de o comer, mas também receio. […] Quando uma mulher diz que um homem é paneleiro, ela diz isso com alguma pena mas sem qualquer raiva, pois para ela já não conta como hipótese de cama. Agora, mau mesmo é ser "amoroso". Ser "amoroso" é pior do que ser paneleiro, porque o paneleiro não é sequer considerado, e o "amoroso" é considerado por uns minutos e depois é desconsiderado, pois não tem qualquer ponta por onde se lhe pegue, a não ser a amizade, que neste caso se limita a uma espécie de prémio de consolação.”


Domingos Amaral, “Os homens amorosos” (crónica)


 


   Não sei se as palavras de Domingos Amaral correspondem totalmente à verdade quanto à depreciação dos homens amorosos pelas mulheres, mas, do ponto de vista de uma adolescente, um rapaz/homem amoroso é bastante desejável. Encontrar um rapaz amoroso pode não ser tarefa difícil, ao passo que encontrar um rapaz genuinamente amoroso já é um pouco menos usual.


   Os rapazes que têm essa faceta de “fofinhos”, a quem apetece dar abraços a toda a hora, são relíquias por que qualquer miúda mataria para ter. Está bem, matar talvez não, mas lá que faria trinta por uma linha, é o mais certo. Para quê tentar ter alguma coisa com a criatura mais atlética, mais vistosa, mais sensacional entre o sexo feminino se, no final de contas, ainda nos acaba por sair um parvalhão de primeira, arrogante, egocêntrico, egoísta e, provavelmente, sem sentido de humor?


   Os rapazes que merecem ter o título de amorosos tanto podem ser tímidos como incrivelmente extrovertidos, podem ser populares ou nem por isso. Contudo, se alguma vez lhes chamarem “amorosos”, levem-no como um elogio, daqueles enormes, um num milhão. Não me refiro àqueles casos que ouvem um “oooohn, és tão amoroso!” para, logo a seguir, sentirem as bochechas serem apertadas como se fazem aos bebés. Não, senhor. Refiro-me estritamente aos “oooohn, és tão amoroso!” que significam “és do mais incrível possível e fazes-me sentir a miúda mais adorada de todo o sempre”. Ser-se amoroso é bom, se é que ainda não entenderam.


   Pode-se ser amoroso por inúmeras razões: por se ter um ar indubitavelmente vulnerável num aspecto quase imperceptível, não revelado directamente, aquele factor que faz as raparigas derreterem-se por dentro; por se ter um ar estranhamente inocente, mesmo que, lá no fundo, sejam grandes pervertidos (não exageremos, mas certas raparigas derretem-se com este tipo de “amorosos”); por se ser atencioso e/ou generoso (quando aliadas estas duas características, o resultado é fantabulástico); por se ser romântico. O rapaz que conseguir reunir em si todos os pontos enumerados neste parágrafo deverá, suponho eu, ser de pegar e não largar.


   Portanto, mesmo que, quando cresçamos, deixemos de gostar dos “amorosos”, preferindo antes os “cabrões”, ainda poderemos guardar as recordações de quando, numa certa altura da nossa juventude, estávamos noutra onda. Eu, pelo que me toca, espero continuar a gostar dos “amorosos”, quer tenha vinte ou trinta e cinco anos. E vocês, rapazes amorosos, aproveitem enquanto o podem ser legitimamente. Porém, que ninguém se esqueça: o poder dos cavalheiros nunca deixará de ser o poder dos cavalheiros, novos, velhos ou menos velhos!