Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Uma terra para gente mesmo muito rica

aerial-view-architecture-autumn-280221.jpg

 

Tenho andado a evitar politiquices aqui pelo blogue, mas há um tema actual que me mexe com os nervos e que eu também sinto necessidade de partilhar convosco, para que mais vozes se possam juntar e mais cabeças possam pensar. Vamos falar sobre o preço das rendas em Lisboa e arredores, vamos falar da impossibilidade de viver em Lisboa ou num raio de 50km, vamos falar sobre a eminência daquela voz que nos diz - a nós, gente miúda quase graúda que quer sair de casa dos papás - que nunca iremos passar da cepa torta, porque tudo aponta para que nunca tenhamos dinheiro para ir viver sozinhos, ou mesmo com as caras metades, ou amigos, ou sequer constituir família.

 

Porque isso, viver em Lisboa, em 2018, é só para ricos. Mas gente mesmo muito rica. 

 

Neste momento, é cada vez mais difícil para qualquer pessoa encontrar uma casa para arrendar em Lisboa e arredores. O preço das rendas (e dos imóveis para venda) é superior aos salários e reformas dos cidadãos, há até quem se veja despejado da casa onde morou toda a vida por causa da actualização do contrato (sempre com valores a apontar para cima) ou porque o proprietário quer vender. Poder ter um tecto em Lisboa é um luxo. 

 

Para alguém da minha geração, é impossível entrar no mercado imobiliário; para as restantes gerações, é impossível ficar. Mesmo com rendimentos superiores ao salário mínimo, com 1000€ ou 2000€...

 

Como é que alguém com um salário líquido de 1000€ consegue pagar um T0 a 500€ em Lisboa? Ou um T2 a 1300€? Ou um T3 a 2000€? Até no concelho onde eu resido, a 30km de Lisboa, um apartamento T2 custa 400€ e os preços têm estado a subir constantemente nos últimos dois anos, porque muitas famílias se têm mudado ainda mais para Sul desta Margem. Soma-se o passe combinado de transportes públicos, 100€, três horas na deslocação diária, e aí está a Matemática feita.

 

Por causa destas rendas ridículas - e rendimentos ainda mais incompatíveis com todo o cenário nacional - pessoas como eu e até as restantes pessoas que vivem comigo não conseguem deixar de viver todas num agregado familiar gigante e, apesar de unido, cheio de incompatibilidades que vão surgindo por causa dessa condição. Em alternativa, estamos condenados a ter roommates para sempre. 

 

E eu... 

Como todas as pessoas, quero ter um espaço só meu, sobre o qual se possa dizer que fui eu que conquistei. Pode não ser agora. Contudo, um dia, talvez daqui a um par de anos, cinco, aos trinta, aos trinta e cinco...

 

Se arrumei, arrumei; se desarrumei, desarrumado estará. Se cheguei tarde, seja. Cedo, ainda bem. Convidar alguém sem pedir licença, entrar e sair porque sim, gerir o que é mesmo meu.

 

Todos têm direito a ter um tecto sobre as suas cabeças, a formarem família, a tornarem-se independentes, a deixarem os pais gozar a sua própria independência depois duma vida a criarem-nos.

 

Nem sei porque me estou a justificar.

 

No outro dia, pensei "nunca vou conseguir sair daqui [da casa da minha família]". É triste, mas uma verdade que se aproxima a passos largos da minha vida. 

 

Quando é que esta bolha vai abrandar? Ou rebentar? 

 

E há quem ache mal a minha geração gostar de lanchar nos cafés da moda... é das únicas coisas que [ainda] nos resta! 

Desistir

Aprender a desistir não tem de ser negativo, repito.

 

Desisti outra vez. Desisti dum curso. Ao fim de quatro em seis aulas, fui para casa a pensar "o que é que me prende?". Quase nada, não sou obrigada a lá estar, já está pago e tiradas estão as teimas. Nada me prende, excepto... a perda eminente de face (sobretudo no confronto interior, não com os outros), os pensamentos constantes de que seria só mais uma semana, mais um bocadinho, e que depois me poderei arrepender, e se...

 

Ainda assim, ignorando a minha própria teimosia, desisti. Ultimamente, é isso que tenho aprendido a fazer, não de maneira consecutiva, mas sim produtiva. Desisti deste curso, porque os motivos para o fazer começaram a surgir-me com maior frequência e insistência do que os benefícios - tal como tem acontecido noutras dimensões desta minha vida.

 

Aprender a desistir não tem de ser negativo, repito.


Aprender a desistir não tem de ser negativo, porque não somos feitos de ferro, nem temos de gostar de tudo aquilo que fazemos, nem temos de ser felizes todo o dia, todos os dias, porque ao desistir de algo que nos envolve em amarras podemos ganhar tempo para desenvolver o que nos poderá apaixonar, inspirar e ser bem sucedidos. Poderemos dedicar-nos a outra coisa qualquer, nem que seja a pensar. Ou a descansar.

 

Desistir pode ser bom, pode ser um caminho que, não sendo fácil de tomar para quem está habituado a ser combativo, também poderá revelar-se necessário. Pode ser que crie espaço para caminhos ainda melhores. Pode ser...

 

(É como desistir dum livro que nos tenha desapontado, para poder escolher um outro do qual realmente tiremos proveito!)

Chatices comezinhas

Ultimamente, tenho-me envolvido em mais projectos do que devia. Tenho-me cansado mais do que devia. As pessoas perguntam-me se me sinto bem mais vezes do que o costume. É normal, porque costumo ser uma tagarela imparável e impagável e ando simplesmente a ser uma criatura aborrecida, dormente.

Preciso de descanso, por favor! E já tomei uma decisão: apesar de já ter enviado algumas candidaturas para trabalhos de Verão na semana passada, se ninguém me responder a essas, também não me candidato a mais. Este ano, o primeiro de três, decidi que não vou trabalhar fora de casa. Tenho o copywriting e já me chega. Nem que tenha de pedir mais trabalho em freelance, mas vai ser tudo muito mais soft do que nos anos anteriores!

Estou farta de chatices comezinhas, irritantes, gente ignorante, professores desleixados e fracos, pessoas "pequeninas" e mal-amadas, mal-agradecidas e etc e tal. Só falta um mês, só falta um mês e depois tudo isto passa.

Quando chegamos ao ponto de pespegar os olhos no Facebook (eu sei, cheguei ao ponto de avaliar a realidade por uma rede social, que medo) e vemos que o resto do mundo continua a girar, que há vida além-nós, apesar de tudo, apesar de não termos sequer tempo de comer uma sandes, quanto mais de apreciar os arredores à luz do dia, apercebemo-nos de que decerto há qualquer coisa de errado connosco.

Preciso de respirar, porque ontem à noite é que já me faltava o ar. Tenho de me deixar destas maluqueiras!

 

 

Então e vocês, o que têm feito?

O 69 unilateral que esta sociedade nos faz

Não, não foi piada, pois tive realmente de pagar 69€ do que chamam "multa" por ter trocado uma cadeira de 2º semestre por outra, na semana passada. Uma vez que cheguei ao fim deste semestre e me apercebi que iria dar praticamente os mesmos conteúdos a Pragmática que já estudei em Análise do Discurso e Linguagem e Comunicação, concluí que seria mais útil trocar a minha cadeira opcional para um campo de estudo mais ligado ao meu curso, na área da Cultura, História ou Literatura. Depois de estudar os programas de algumas cadeiras interessantes e compatíveis com o meu horário, escolhi História, Memória e Literatura. Cheira-me que vou a adorar e sei que o professor tem uma boa reputação entre os alunos. Além disso, vou estudar em particular os séculos XVIII e XIX, que são provavelmente a época menos estudada nas minhas cadeiras obrigatórias.

Mas interesses académicos à parte, 69€ é um valor demasiado elevado para uma simples troca de cadeiras. Só tive de preenher um formulário, entregar na secretaria e a senhora que me atendeu demorou menos de 2 minutos a actualizar os dados na minha conta de aluno. UAU, 69€ por 5 minutos do meu tempo e 2 minutos do tempo do serviço de secretariado, mais 1 minuto gasto a pagar a coisa na tesouraria.

E depois acham que o ensino superior é acessível a todos. Sim, sem dúvida - a TODOS AQUELES QUE TENHAM A SORTE DE TER UM TRABALHO PARA CONCILIAR COM OS ESTUDOS OU CUJOS PAIS POSSAM DISPENSAR O DINHEIRINHO. Aaaah, e tal, somos uns ingratos, pois somos, cambada de preguiçosos.

E quem não tem a possibilidade de seguir para o ensino superior fica a chupar no dedinho, porque com o 12º também não se vai assim tão longe.

Ou estudamos, ou estudamos. E ou pagamos, ou pagamos. 

Basicamente, pagamos para viver com dignidade. Se dispensarmos a parte da dignidade, basta juntarmo-nos àquelas associações de apoio aos sem-abrigo e aos pobrezinhos, onde as tiazocas e os maridos são voluntários e para onde levam os filhos. Sim, porque hoje ouvi um menininho (aspas, pouco mais novo do que eu) dizer no telejornal, acerca dos sem-abrigo, "estas pessoas também merecem comer". Eh pá, em vez de ensinarem os filhos a dar esmola, ensinem os filhos a dar emprego às pessoas, caramba, que eles vão ser os próximos Jotas e ainda acabam como um Passos Coelho que eu conheço, e outros tantos.

Desculpem lá este desabafo, mas a conta do veterinário por causa da minha gata já passou a barreira dos 100€ em 24 horas e, se ela não melhorar até amanhã, há-de ascender perigosamente aos 175€.

'Tá complicado, 'tá.

A ironia da minha vida

Passei grande parte do semestre a prometer-me que, no último dia de aulas do semestre (ou seja, hoje), iria comer um gelado à Santini's do Chiado (sim, daqueles que custam 2.50€, mas que nos enchem a alma e o estômago). Tal não é o meu espanto quando acordo de manhã com dores de garganta. Ainda assim, há quem diga que os gelados fazem bem às dores de garganta...! Decisions, decisions...

 

 

Partilhar

No fundo, no fundo, acho que uma das maiores consequências da crise é ter-nos virado todos para dentro da nossa bolha, onde tentamos resolver os nossos problemas pessoais, esquecendo-nos dos problemas dos outros. Lá está, não é que nos digam directamente respeito, mas os problemas dos outros, por vezes, são os problemas de toda uma comunidade. E a comunidade somos nós.

Quando saio da minha bolha, entro um pouco em negação. Sim, eu tenho problemas, mas há quem tenha outros bem piores do que os meus. Ainda agora, ao sair da estação de Metro da Cidade Universitária, cruzei-me com uma senhora já com uma certa idade sentada nas escadas, acompanhada de um cartão cuja mensagem escrita era um pedido de ajuda. Ao lado, tinha colocado algumas flores em croché, ou assim parecia, e uma caixinha onde algumas pessoas já tinham depositado uns trocos - talvez uma espécie de venda improvisada.

Esta senhora tinha um ar muito debilitado e cortou-me o coração. E se fosse alguém que eu conhecesse? E se a mesma situação acontecesse a alguém de cuja história eu soubesse? Neste caso, eu não conheço a senhora, muito menos conheço a sua história pessoal. No entanto, depois de muito, muito ponderar acerca do assunto, voltei atrás e olhei para ela com mais atenção. Em parte, tinha medo de ser mal interpretada e de lhe ferir qualquer tipo de orgulho que guardasse. Perguntei-lhe se tinha alguma coisa para comer e ela respondeu-me qualquer coisa como "não, depois a menina fica sem lanchinho". Acabei por lhe dar uma tangerina que tinha levado para o lanche. Ela precisa mais do que eu, eu levo comida para um dia inteiro na lancheira.

Pelo menos de mim para mim, sei que fiz o melhor que pude. Dei um pouco do que tinha. Depois de ouvir tantas notícias acerca de reformados cujas pensões são cortadas sem dó nem piedade, depois de ouvir acerca de tanta desgraça, a bolha em que vivo tem de ser quebrada de vez em quando. Este momento foi o meu "de vez em quando", em que partilhei o que consegui. Foi pouco, eu sei, mas talvez noutra altura possa dar outro pouco. E outro. O que for possível.

 

Não dou comida nem dinheiro a instituições, porque não sei o que fazem com aquilo que quero dar. Não apreciam verdadeiramente o gesto, mesmo que insignificante. Para dar, dou directamente a quem precisa, sem intermediários. Hoje foi assim.

Oficialmente

Estou, oficialmente, no segundo ano da licenciatura. Inscrevi-me hoje à tarde, pela Internet, depois de não sei quantas horas com o servidor bloqueado. O meu boletim de matrícula está um pouco confuso (tanto diz que estou no 2º, quanto estou no 3º), mas eu sei que estou no 2º ano e os meus professores também o deverão saber, por isso cá nos entenderemos.

Estou, oficialmente, no segundo ano da licenciatura. Daqui a um semestre, terei metade do curso terminado. Ou deverei antes dizer que terei metade do curso ainda por fazer? Copo meio cheio ou meio vazio?

Estou, oficialmente, no segundo ano da licenciatura. E ainda acho muito estranho ser o que chamam de "universitária", entre outras coisas como "futura senhora doutora" (esta é a minha avó que me chama a brincar, mas pronto). Como é que é possível? Ainda tenho cara de quem acaba de chegar ao secundário e daqui a 1 ano e 9 meses já serei licenciada. Como é que isto aconteceu?

 

Oh, é a vida! Oficialmente.

Monitora X desorienta-se

Ok, a Monitora X é nova nestas andanças e tem muito que aprender. Péssimo hábito a largar: vício do telemóvel enquanto os miúdos estão a brincar "algures por aí". Parece que não há nada a fazer, mas há - supervisionar a toda a hora, sempre de olho aberto e atento! Ah e tal, a Monitora X achava que tinha sorte porque lhe tinham atribuído os meninos e meninas mais pacíficos? Tentem "demasiado pacíficos" ou "louca e permanentemente em guerra uns com os outros". Das duas uma: ou só querem é ficar na areia, a jogar ou a dormir debaixo do guarda-sol, em vez de aproveitarem a oportunidade de experimentar as actividades planeadas (surf, vela, canoagem, ir à água, entretenimentos vários) ou quase que se matam entre si, preferencialmente os colegas do sexo oposto (com alguns insultos pelo meio). Enfim, idades parvas. Só é uma pena que, deste modo, não haja lugar para a dinâmica de grupo, para uns minutos de paz e sossego, para um jogo em que torçam pela vitória comum, com trabalho de equipa, e que os façam destacar no meio da multidão de miúdos que, excepto todos os outros defeitos que possam ter, são uns queridos uns para os outros e entoam os cânticos que criaram em conjunto com orgulho e paixão! Ainda estou para descobrir se o problema é meu. Se calhar, a Monitora X precisa de uma nova abordagem.

 

Fora isso, adoro o que tenho andado a fazer.

Os filhos únicos

Sou filha única, neta única, sobrinha única. Sou assim uma espécie de menina dos olhos de toda a gente e falo a sério quando digo que, por vezes, sinto que a maior parte das coisas aqui de casa gira à minha volta. Acho que, se me acontecesse alguma coisa, a vida é que deixava de acontecer nesta minha família. Eu sei-o, porque sou filha única, neta única, sobrinha única. Não tendo irmãos nem primos, sou mais preciosa e devo ser mais protegida. Sempre o fui e sempre o soube. Se me acontecesse alguma coisa...

Por isso, quando li inesperadamente no site do DN a desgraça que aconteceu ao filho da Judite de Sousa, fiquei a pensar. E se tivesse sido eu? Lagarto, lagarto, lagarto, vade retro, o Dito Cujo seja cego, surdo e mudo. Por causa de uma só pessoa, o mundo de outras tantas pode parar de girar do pé para a mão, sem aviso. 

Não gosto de falar e muito menos de escrever acerca de coisas más, que atraiam energias negativas - mas é impossível ficar indiferente a situações com que nos identificamos, nem que seja só por um bocadinho (ou um bocadão).

Quando se tem mais do que um filho, dois, três, meia dúzia, por muito que custe perder um, ainda existem motivos para viver: os que ainda cá estão de boa saúde. E quando só se tem aquele, o único, o mais-que-tudo, porque pode não haver mais nada?

 

Em suma: quão injusto e contra-natura poderá ser perder um filho jovem, quanto mais por algo que poderia ter sido evitado? Espero nunca, mas nunca vir a saber, seja de que maneira for.

Cismar

De vez em quando, dá-me uma pancada para a divagação, toda ela envolvendo questões muito simples, mas extremamente complexas, que me passam pela mente. Já me calhou perguntar-me se isto não será tudo uma ilusão, se eu já não terei morrido sem dar por isso, sobrevivendo noutra dimensão paralela, se isto não será tudo um sonho e eu estar prestes a acordar, miserável, quando tinha quinze anos e me encontrava completamente desorientada (e nem sequer foi há muito tempo).

Ter um namorado estudante de Filosofia também não ajuda em nada, nadinha, a resolver estas dúvidas à maneira de Descartes, muito pelo contrário. Se for preciso, ele ainda ajuda mais à festa e propõe outras dúvidas mais complicadas de se responder do que as minhas.

Eu sei que este é um hábito muito esquisito, pensar em temas tão pouco ortodoxos, mas não consigo evitar o fluxo de hesitações que me ocorrem nesta minha vida. Na volta, o meu problema de procrastinação é muito pior do que eu julgo e preciso mas é de começar a fazer o que tenho realmente que fazer, ao invés de me aparvalhar perante a minha frágil humanidade, cismando acerca de tralha mental que não me compete a mim desvendar.

 

(Em caso de dúvida...)