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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

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Uma questão de escolha e concentração: Essencialismo (Greg McKeown)

O que é que podemos fazer para simplificar as nossas vidas e torná-las mais fáceis de navegar? (E, já agora, que livro é que vos recomendo para as férias?)

 

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Quando não tenho respostas para algum problema, costumo ir procurá-las nos livros. Com os devidos riscos, não me costumo sair muito mal, já que uma incursão a uma livraria qualquer nos dias de hoje nos oferece uma variedade enorme de títulos simpáticos para todos os gostos e necessidades. Fez ontem uma semana que andei à procura de livros que me tirassem do marasmo intelectual, profissional, pessoal e mesmo de leituras que andava a sentir no ar. Estava para chegar, mas eu não o queria. Lá está, fui procurar nas estantes, antes que me apanhasse.

 

Por acaso, descobri umas promoções engraçadas para alguns livros com títulos interessantes sobre desenvolvimento pessoal. Na maior parte dos meus dias, não acredito em auto-ajuda, mas no último ano tenho-me interessado cada vez mais por temas ligados à psicologia e à cognição, por isso começo a ter um fraquinho por livros sobre produtividade, bons hábitos, tomada de decisão, bem-estar, felicidade no trabalho e empreendedorismo. Foi nesse montinho de livros pré-seleccionados para uma avaliação superficial na sala de leitura que se encontrava Essencialismo - aprenda a fazer menos mas melhor, do consultor Greg McKeown.

 

Suspeito imenso de livros de desenvolvimento pessoal com títulos tipo "catch phrase". Essencialismo quase podia ser o nome de um culto millennial, e eu nem sou nada fã de coisas da onda da Marie Kondo, arrume a sua casa, arrume a sua vida, ou de minimalismo, ou propósito, projecções para o futuro e etc. No entanto, este Essencialismo revelou-se ser mais do que o título. É, de facto, um bom resumo para uma teoria engraçada, a de que às vezes desenvolvemos tantos interesses e ocupações ao mesmo tempo, que nos dispersamos. Fazemos listas de prioridades com 10 itens, mas quão prioritária é uma lista com 10 itens? Por onde devemos começar? Disparamos para todos os lados?

 

Confesso que me tenho sentido assim a minha vida toda. Quero fazer tudo, chegar a tudo, ter todas as experiências, esticar o tempo, ter vários interesses, objectivos para agora e para depois, e ultimamente tenho reconhecido que isso não é produtivo. Enquanto fazemos X, não nos concentramos em Y, e vice-versa. Então, Greg McKeown defende que o melhor é fazer a coisa certa, pela razão certa, no tempo certo. É um pensamento tão simples, mas tão eficiente, não é? Faz bem recordarmos o mais óbvio, quando não o conseguimos ver no meio da confusão.

 

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Além de apresentar uma série de premissas muito cativantes (e tudo devidamente fundamentado segundo estudos científicos), este livro é a típica leitura de Verão - li-o em dois ou três dias, intercalado com outros. Letra grande, parágrafos espaçados e não muito longos, informação disposta visualmente para ilustrar o texto, capítulos curtos e sempre assentes num conselho ou problema, o livro em si responde a problemas dos comuns mortais... Ou seja, é uma leitura prazerosa para quem tira agora férias e procura fazer reset antes de voltar ao trabalho, com uma nova maneira de pensar e agir.

 

🏖️ E desse lado, que leituras de Verão não andam a procrastinar?

Chafurdando nos sentimentos: Constructive Wallowing (Tina Gilbertson)

Ainda faltam dois dias, mas tenho quase a certeza de que esta terá sido a minha última leitura completa antes de 2019: Constructive Wallowing - how to beat bad feelings by letting yourself have them, da psicóloga americana Tina Gilbertson.

 

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De repente, deu-me esta vontade: em 2018 tenho lido mais livros de desenvolvimento pessoal, psicologia e de dita auto-ajuda do que nos anos anteriores. Também contribui para a equação que eu ande a investir numa desmistificação desse género de leituras, para abater o meu cepticismo. Então, parece que estou a terminar assim, com mais uma. Tenho-me interessado tanto pela forma como o cérebro humano trabalha, quanto como usar o meu de melhor forma. Mesmo no mestrado, tenho tentado fazer trinta por uma linha para estudar fenómenos cognitivos aplicados à cultura e à literatura. Tem sido mesmo giro!


Por isso, não admira que esteja a terminar com Constructive Wallowing. Encontrei este livro por acaso no Book Depository, enquanto dava uma vista de olhos pelas pechinchas do Boxing Day, mas não pude esperar pela encomenda. Procurei logo a edição digital para ler no tablet. Ainda bem, acho que precisava de o ler neste momento.


Provavelmente, este livro ainda me há-de render mais um ou dois textos para o blogue, mas por agora deixo-vos com algumas das ideias que mais me agradaram e que me ocorreram nesta leitura.

 

Em primeiro lugar, atentemos no título: Constructive Wallowing pode ser traduzido para chafurdamento construtivo. É mais bonito em inglês, mas talvez mais expressivo (ou seja, bardajão) em português. E em que devemos nós chafurdar, segundo a autora? Nos nossos sentimentos, mesmo nos mais negativos e que mais dor nos trazem. Embora ninguém se importe de chafurdar em felicidade, orgulho, satisfação, conforto, não há quem preze em particular o embaraço, a tristeza e a desorientação.

 

Daí resulta o subtítulo: como ultrapassar maus sentimentos permitindo-se tê-los, isto é, em vez de os evitarmos, devemos ter compaixão por nós mesmos e deixá-los vir à superfície. Fazer de propósito para os sentir, sem ouvir a voz crítica que nos manda ser mas é felizes, parar de ser choninhas, concentrarmo-nos em coisas mais importantes do que a auto-comiseração, porque afinal há sempre alguém pior do que nós, etc e tal. Ah, e já agora, não existe tal coisa como "maus sentimentos"!


Pessoalmente, isto é uma lição que me estava a fazer falta ouvir, ou ler. Eu chafurdo, mas não costumo fazer de propósito para sentir toda a carga emocional que se quer soltar. Fico-me pelo suficiente. "Vá, agora já chega, que tenho de me levantar da cama/ir trabalhar/ir ao ginásio/ler/estudar!" Quem nunca disse isto a si próprio atire a primeira pedra. Então, por vezes sinto que enterro os problemas lá no fundinho, para lidar com eles mais tarde, preferencialmente nunca!


Temos tendência a pensar assim, nem que seja porque costuma ser esse o espírito de sacrifício incutido pelas gerações anteriores. Ser forte e aguentar é que interessa. O curioso é que, exactamente por declaramos abertamente o que consideramos ser fraquezas é que nos tornamos mais fortes. Já alguma vez tinham pensado nisso?


Tina Gilbertson explica que, ao deixarmo-nos sentir essas emoções, abrimos caminho para as libertarmos. Uma vez que as aceitamos como normais, minimizamo-las sem precisar de as reprimir. O processo de as sentir torna-se natural e menos obsessivo. 


Às vezes, acordo e penso que me sinto incapaz de me levantar. Que tenho tanto para fazer nesse dia que o melhor é ficar na cama. Que estou desiludida com os esforços que tenho feito para o mestrado sem parecer valer a pena.


Sim, o sono tolda-me o discernimento, mas talvez eu deva parar de responder "já chega de ser piegas" e passar a dizer "realmente, vais ter um dia difícil", que despoletará um raciocínio mais equilibrado sem me impedir de realmente tomar acção quando a altura certa chegar. Se não chamaríamos piegas a um amigo, por que o chamamos a nós próprios?


Claro que não sei se concordo totalmente com esta abordagem. Por vezes, até a um amigo deixaríamos uma nota de advertência. "Olha lá, se puseres mãos à obra em vez de ficar a choramingar mais meio ano, talvez consigas ultrapassar esse bloqueio - o que achas?" Não é preciso sermos os generais temidos da nossa vida, mas levar tudo com suavidade também não me parece positivo como sistema. Há que puxar os nossos galões de vez em quando, tomar uma chávena de café e apostar num dinamismo que nos faça sair dum ciclo de palmadinhas nas costas.


Em suma, o livro é muito bom, há imensa informação útil a retirar, mas a segunda parte já me pareceu demasiado lenta, uma repetição alongada da primeira e perdi mais o ritmo de leitura. Se se quiserem aventurar no Constructive Wallowing, façam-no tendo em vista uma leitura descontraída, pouco exigente e, obviamente, construtiva. Até podem passar algumas partes menos interessantes à frente ou apenas ler alguns capítulos (vejam o índice!).


Muito ainda poderia ser escrito sobre este livro, mas o texto já vai longo e daqui a nada perco a vossa atenção. Resta-me apenas deixar a recomendação deste livro para quem esteja à procura de melhores formas de levar a cabo a auto-reflexão e introspecção, para quem quer uma leitura menos pesada ou para quem gostaria de fazer terapia/ir ao psicólogo, mas não sabe o que esperar dessa experiência.


Boas leituras e procrastinações!