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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Dos outros #43

"Nada há de mais caracteristicamente juvenil do que o desprezo pela juvenilidade. A criança de oito anos despreza a de seis e alegra-se por já estar a ficar tão grande. O estudante liceal está firmemente determinado a não ser criança e o universitário a não ser liceal. Se estamos decididos a erradicar, sem lhes avaliarmos os méritos, todos os aspectos da nossa juventude, poderíamos começar por aí, pelo snobismo cronológico característico da juventude. E então onde iria parar essa crítica que tanta importância atribui ao facto de se ser adulto, ao mesmo tempo que instila o medo e a vergonha relativamente a qualquer prazer que possamos compartilhar com os muito jovens?"

 

C. S. Lewis, A Experiência de Ler

Dos outros #42 - edição especial com comentário

Estou quase a acabar de ler um livro chamado Os Portugueses, do jornalista inglês Barry Hatton (que vive em Portugal há cerca de 28 anos). Este excerto é apenas uma das imensas pérolas que o autor refere acerca dos tugas - perdão, portugueses! - e só lendo o livro todo é que se acredita que, realmente, somos uma sub-espécie humana muito curiosa. Depois de passar 2 semanas a viver com pessoas doutros 4 países, não podia deixar de sublinhar que tudo o que o autor teoriza é verdade, provavelmente em todos os aspectos da nossa vida. Graças a estra grande obra-prima da literatura cultural, fiquei a conhecer-me muito melhor e aos meus compatriotas (pronto, pronto, mais opiniões no outro blogue, quando terminar a leitura).

Apesar de ser um bocadinho longo, aconselho-vos a lerem todo este parágrafo. Vale a pena!

 

Os portugueses tornaram-se adeptos de se irem safando, um talento para a adaptabilidade chamado «desenrascanço», aperfeiçoado por séculos de dificuldades. Trabalhos paralelos ajudam a manter as dificuldades à porta. Fora das cidades, as pessoas têm em geral um bocado de terra onde plantam legumes e, mesmo nas cidades, podem encontrar-se faixas de terreno plantadas no meio do trânsito intenso. A sociedade parece obedecer a regras informais. A ajuda vem da família ou dos vizinhos, ligados por uma rede informal que compensa as limitações do sistema. Não é o modelo da moderna UE, mas mais uma inspiração do passado. Arranjar alguma coisa que é precisa implica alguns telefonemas para amigos dos amigos - relações úteis chamadas «cunhas» - porque o Estado, pensam as pessoas, nunca vos dará nada de bom grado. Estas relações substituem os parâmetros do mérito e da justiça pois, dizem os portugueses, não se trata de «saber como» mas de «conhecer quem». E, esperando por um milagre como o regresso de el-rei D. Sebastião, os portugueses são os europeus que gastam mais, em termos relativos, na lotaria do Euromilhões. Tal como aqueles que afastam os receios de uma repetição do terramoto de 1755, estes jogadores depositam a sua fé na providência e apostam pouco na possibilidade de triunfar através da sua própria iniciativa. 

 

Barry Hatton, Os Portugueses

 

 

 

 

 

 

Dos outros #40

"Perguntou-me o que é que eu escrevia nos livros. Respondi-lhe que me escrevia a mim. Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridículas: amor, esperança, estrelas, e nas palavras mais belas: claridade, pureza, céu. Transformo-me todo em palavras."

 

José Luís Peixoto, Uma Casa na Escuridão

Dos outros #39

"Os bibliófilos sabem que os livros não são apenas ideias encurraladas entre capas, mas artefactos, marcos na nossa vida. «Encaro a minha biblioteca como um troféu pelos meus feitos», disse um académico meu amigo. «Olho para as lombadas dos meus livros e recordo-me de onde estava quando os li e do que aprendi com eles. E tenho um lado da divisão para os livros que vou ler e outro para os que já li. Assim, posso revisitar velhos amigos ou travar novas amizades.»"

 

Wendy Welch, A Minha Pequena Livraria

 

(Encontrem mais acerca de livros no blogue Procrastinar Também é Ler.)

Dos outros #37

"Diz-se que o tempo não pára, que nada lhe detém a incessante caminhada, é por estas mesmas e sempre repetidas palavras que se vai dizendo, e contudo não falta por aí quem se impaciente com a lentidão, vinte e quatro horas para fazer um dia, imagine-se, e chegando ao fim dele descobre-se que não valeu a pena, no dia seguinte torna a ser assim, mais valia que saltássemos por cima das semanas inúteis para vivermos uma só hora plena, um fulgurante minuto, se pode o fulgor durar tanto."

 

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis

Dos outros #36

"Acaso alguém seja melhor nalguma coisa que os outros, a regra portuguesa é pedir-lhe que tenha a polidez e o espírito de solidariedade para agir tão mal como o pior. Assim todos, maus ou bons, podem gozar do privilégio reconfortante e demoracrático de dizer: «Ouve lá, se eu quisesse, fazia melhor... mas, para quê, se são todos tão mauzotes, coitados...?» A incompetência portuguesa nada tem de natural: é um conluio maciço, um autêntico contrato social. Quantas vezes perguntamos, atónitos diante de qualquer produção colectiva, cultural, económica ou político: “Como é possível que tantas pessoas, tão inteligentes e talentosas, tenham conseguido fazer tamanha cegada"


Miguel Esteves Cardoso, "Mediocridade", in A Causa das Coisas

Dos outros #35

"De repente, Fernando Pessoa abriu os olhos, sorriu, Imagine você que sonhei que estava vivo, Terá sido ilusão sua, Claro que foi ilusão, como todo o sonho, mas o que é interessante não é um morto sonhar que está vivo, afinal ele conheceu a vida, deve saber do que sonha, interessante é um vivo sonhar que está morto, ele que não sabe o que é a morte, Não tarda muito que você me diga que morte e vida é tudo um, Exactamente, meu caro Reis, vida e morte é tudo um, Você já disse hoje três coisas diferentes, que não há morte, que há morte, agora diz-me que morte e vida são o mesmo, Não tinha outra maneira de resolver a contradição que as duas primeiras afirmações representavam [...]."

 

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis

Dos outros #34

"Sei que, de tempos a tempos, preciso de não deixar casa. Estar naquele que é o meu recanto mais íntimo, onde guardo tudo aquilo que me é materialmente mais querido. Passei horas trancado em casa como modo de puro enriquecimento cultural e de reflexão. Ou, se preferirem, procrastinação."

 

Nelson Nunes, Um dia não são dias