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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

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Comprar livros em Portugal, durante e após a pandemia

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Bom fim-de-semana, com uma nova crónica minha no P3 do Público - um apelo relacionado com os efeitos da crise recente nas indústrias dos livros em Portugal, mas também sobre o amor que tenho por eles. 📚

 

Deixo-vos um trecho:

"O medo é uma emoção muito comum nestes dias. No entanto, a sugestão que deixo é a seguinte: se tiverem condições para tal, aliviem parte desse medo com livros. Escolham livros que vos consolem, que vos façam companhia, que vos inspirem, que vos informem e (ou) que vos distraiam, que vos façam felizes."

 

Boas leituras! E boas compras!

Considerações sobre o fio da navalha (ou as dificuldades invisíveis dos trabalhadores independentes)

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Sob o pretexto de estarmos à beira duma crise económica, ou de estarmos a atravessar tempos difíceis, há quem se queixe de que os profissionais independentes (como é o caso de professores e formadores, ou seja, o meu caso) estão a cobrar demasiado dinheiro pelos seus serviços. Não podemos cobrar X valores, temos de cobrar Y, porque X é muito para esta época. Temos de baixar os preços, dizem essas pessoas. Temos de ser solidários.

 

Assim, sob um pretexto de falsas boas intenções e hipocrisia, este desprezo dedicado aos trabalhadores independentes, vulgo freelancers, uma classe tão vulnerável quanto qualquer outra, deixa-me bastante desapontada. Não sabe quem reclama dos preços praticados que, com crise ou não, as obrigações fiscais, legais e contributivas continuam a ser as mesmas? Não sabem essas pessoas que o facto de estarmos em teletrabalho não invalida o facto de estarmos a negociar o nosso tempo e a nossa sanidade mental? Não sabem essas pessoas que os trabalhadores por conta própria também vivem no fio da navalha? Não sabem que também estamos expostos à recessão que se adivinha?

 

O meu tempo tem um preço. Os serviços que presto têm um preço. É o meu preço justo e não o aumentei nem diminuí nas últimas semanas. Aliás, continuo a trabalhar com um estoicismo e em tentativa de normalidade que me surpreendem na mesma medida que me deixam ainda mais exausta ao final dum dia à frente do computador, mais do que seria, lá está, normal.

 

Tenho muita sorte, porque acertei numa actividade profissional que vinga, apesar de tudo, no meio da pandemia, e que neste momento até tem algum potencial de desenvolvimento. Contudo, tal como tenho sorte, não me falta engenho. O que me pagam não se justifica apenas pelo meu tempo a trabalhar; uma hora de trabalho não é uma hora. Na minha opinião, o que me pagam deve ser proporcional à formação contínua e ao desenvolvimento de competências e conhecimento nos quais invisto de forma constante. No ano passado, completei quase dez cursos de formação em áreas relacionadas com a minha actividade, além da formação universitária que continuo a frequentar em paralelo. Por esse e tantos outros motivos, não me peçam borlas.

 

Além disso, o que adoptei como vocação e profissão não é um bem ou serviço de primeira necessidade. É, se quisermos, um luxo. Há alternativas, algumas - muitas - delas gratuitas. Os mesmos queixosos que defendem que os professores/formadores por conta própria deveriam cobrar preços mais baixos, porque se pode aprender essas mesmas coisas na Internet, através de apps, sites e programas chapa 0, são os mesmos sujeitos que não utilizam essas ferramentas e que quase exigem ter um criado que sabe coisas ao seu dispor.

 

Correndo já o risco inevitável de enveredar pela personalização da minha mensagem, remato com um apelo: não questionem cegamente quanto custa recorrer ao trabalho de um profissional independente (sim, aquela pessoa dos recibos verdes, que pode ser um canalizador, um professor, um técnico de manutenção, um empregado de limpeza, um consultor, um médico privado ...). Comparem, informem-se, tenham noção, mas não ditem o que outra pessoa deve ganhar sem pensar em tudo isto. Num mundo onde o low cost e a precariedade são banais, apelo a que valorizem a qualidade pelo seu custo justo. Desta forma, se não concordarem com a primeira proposta que receberem, o melhor a fazer é procurar quem vos possa apresentar uma melhor, ou uma mais adequada às vossas necessidades e possibilidades.

 

Quem quer fazer omeletes sem ovos deveria resignar-se ao facto de que tal fenómeno, por norma, não existe. Ainda estou para conhecer um produto ou um profissional de notória qualidade e eficiência que não tenha valido todos os meus cêntimos. É assim que quero que os meus clientes/alunos se sintam: que eu não sou uma profissional low cost, mas que o retorno faz valer a pena - seja em tempos prósperos ou de escassez.

 

E, se o leitor também for trabalhador independente, não se deixe enganar, reduzindo o valor do que faz. Uma coisa é negociar, outra coisa é ser desvalorizado.

Encomendar livros durante o estado de emergência: um dilema

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Hoje encomendei imensos livros dum site nacional, porque têm um dia de descontos e eu quis aproveitar para conseguir alguns livros que tenho vontade de ler/ter há muito tempo.


Sei que muitas pessoas têm o emprego em risco, empresas que não sabem o dia de amanhã, e sinto o assunto de forma aguda porque o meu pai trabalha na Sá da Costa (Lisboa) e tiveram de fechar ao público. As perdas vão ser mais que muitas. Na Sá da Costa, continuam a trabalhar em armazém, dizem que têm trabalho para dois meses, mas e depois...? Tenho medo que os serviços e indústrias ligados aos livros, que me são tão queridos, sejam irreversivelmente afectados e que, mesmo a meio gás, seja uma parte da economia a sucumbir (ainda por cima, sendo Portugal um mercado muito pequeno). Assim, ao fazer a encomenda, pensei "é uma empresa portuguesa, mandei vir livros da autores e editoras nacionais, vou dar-lhes um empurrão." Infelizmente, a realidade é espinhosa e fui alertada para o seguinte: há pessoas a trabalhar na distribuição, que estão na rua, enquanto eu estou resguardada em casa. Nem todos temos trabalho durante esta pandemia, e muito menos são aqueles que o podem fazer a partir do seu lar.


E, agora, devemos parar tudo? Ou devemos continuar a tentar estimular o que ainda sobrevive nestes tempos estranhos, principalmente pequenas empresas do país? Afinal, sabe-se lá até quando é que poderemos, sequer, fazer encomendas...

 

Fica por aqui o dilema.

Os meus 5 podcasts favoritos em inglês

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O feriado está quase a acabar, está frio lá fora, provavelmente a esta hora já estamos prestes a ir dormir. No entanto, quis reservar alguns minutos para vos recomendar uma lista com os meus 5 podcasts favoritos em inglês. Lembrei-me de o fazer, depois de ter recebido algum feedback positivo acerca das sugestões de episódios que partilhei ontem no Instagram. Talvez vos consiga convencer por aqui também!

 

Os meus temas favoritos, como poderão verificar, são psicologia e economia. Notem ainda que o trabalho de edição do som e a voz dos locutores é muito clara, agradável e eloquente, e que os títulos dos episódios são bastante sugestivos, sem enganar. Em geral, são esses os critérios mais superficiais que me prendem aos podcasts.

 

Desta vez, sugiro podcasts estrangeiros (facilmente encontrados no Spotify), mas em breve talvez tente partilhar uma lista de podcasts em português.

 

Por agora, vamos lá ver... e ouvir!

 

1. The Science of Happiness

 

Não costumo ler livros de auto-ajuda, mas esta "ciência da felicidade" tem-me ensinado bastante. Aliás, por vezes, nem é tanto ensinar, mas sim educar e relembrar: cada episódio de The Science of Happiness informa-nos acerca dum método testado cientificamente que podemos utilizar para nos sentirmos mais felizes. Os leitores habituais do blogue já sabem o quanto adoro este podcast.

 

2. Shut Up, Brain

 

Este podcast é para quem tem um cérebro hiperactivo que nunca se cala, pensa, repensa, mói, remói, para quem sofre com ansiedade acerca dos mais variados tópicos e não é fã de parar para respirar. Então, como contrariar essa tendência, como promover a nossa própria saúde mental com hábitos construtivos e que aumentem a nossa produtividade? É a essa pergunta que o Shut Up, Brain tenta responder. Apesar de o seu objectivo ser semelhante ao do podcast anterior - ser feliz - e o tema principal ser a psicologia, alguns apontamentos sobre meditação e neurociência também são discutidos.

 

3. Freakonomics

 

Quase todas as pessoas que conheço gostam de falar sobre economia, mas nem sempre temos conhecimento suficiente para enriquecer as discussões com argumentos minimamente inteligentes, "porque não estudámos economia". Além disso, há tanto que ouvimos nas notícias e não entendemos... Graças ao Freakonomics Radio, podemos entrar em contacto com algum jargão, teoria e reflexões da área, sem os acharmos aborrecidos. Por acréscimo, a maioria dos epsiódios conta com entrevistas a convidados ilustres, entre eles vencedores do prémio Nobel ou autores reconhecidos.

 

4. The Indicator from Planet Money

 

 

Para quem tem um attention span reduzido, mas continua a querer instruir-se acerca do que se fala nas notícias (e não só), o Planet Money é o podcast mais indicado. Cada episódio tem cerca de dez minutos, o que me tem permitido ir ouvindo sobre uma variedade de temas, também ligados à economia, durante pequenos intervalos entre actividades ao longo do dia (nomeadamente, viagens de metro curtas). Conheci esta série há poucas semanas, numa aula de Economia da Cultura, e acho que está muito bem concebida para leigos ou principiantes.

 

5. TED Talks Daily

 

 

Não conheço uma única pessoa que fale mal das Ted Talks ou sequer que assuma não gostar delas. Talvez estas palestras, intervenções, discussões e conferências sejam uma das melhores iniciativas criadas nos últimos anos. Desta forma, já cá faltavam as TED em formato de podcast - e uma por dia, consoante indica o título Ted Talks Daily. Pessoalmente, estou a pensar em adoptar o hábito de seguir os episódios diários, sem excepção, e dedicar mais ou menos quinze minutos todas as manhãs ou noites a ouvir algo novo. Porque não?

 

Antes de terminar, uma nota breve de elogio aos podcasts: são ou não são fantásticos?! Em Portugal, ainda não há muitos, pelo menos não tantos quanto noutros países, o que é uma pena. Se tiverem algum para me sugerir, estou aqui para receber as vossas ideias.

 

There's no such thing as too many podcasts! 

De partir o coração

No outro dia, fui comprar pão ao café que fica na estação de comboios. Era final do dia e as empregadas começavam a arrumar, enquanto o fluxo de clientes diminuía. Chego-me ao pé do balcão, quando uma delas pega num tabuleiro cheio de bolos, daqueles em fatias, ou tortas, bolos cheios de creme de ovos, de chocolate, de noz, de tudo, que custam os olhos da cara. Depois, despeja-o sem hesitar no caixote do lixo. Assim, tudo lá para dentro, sem dó nem piedade. Bolos do dia. Bolos bons, saborosos, que eu já tenho comido lá nos últimos anos e pelos quais já gastei muito dinheiro. Tudo lá para dentro. Tudo lá para dentro. Por essa altura, já a vitrine estava meio vazia. Quem se lembraria de deitar tantos bolos para o lixo, tivessem ou não a qualidade que eu sei que estes em questão tinham?

Numa época em que imensas famílias portuguesas não sabem o que mais podem comer com tão pouco dinheiro, às vezes com nenhum, acho um crime os estabelecimentos deitarem fora comida boa. Com tantos programas de recolha de comida nos restaurantes e cafés para organizações que ajudam pessoas com dificuldade em arranjar o que comer, não me digam que, pelo menos, nem sequer conseguiriam contactar as igrejas, juntas de freguesia ou as câmaras municipais daqui da zona para lhes doarem os excedentes...! Não me digam que os próprios empregados não se importariam de repartir grande parte dos doces e de os levar para casa deles, para darem aos filhos, aos pais, aos tios, sobrinhos ou amigos...!

Partiu-me o coração ver tanto alimento em condições de ser consumido ir pela saco abaixo. Acho que nunca mais hei-de conseguir comprar um bolo na Estação dos Sabores, onde os clientes pagam um pequeno luxo para disfrutarem do que, depois de não ser consumido, é total e estupidamente desperdiçado.

 

dos outros #22

"Estou convencido de que, se quisermos estar do lado certo da revolução mundial, temos de começar por, enquanto nação, passar por uma radical revolução de valores. Temos rapidamente de deixar de ser uma sociedade orientada para as coisas e passar a ser uma sociedade orientada para as pessoas. Enquanto as máquinas e os computadores, as motivações de lucro e os direitos de propriedade forem considerados mais importantes que as pessoas, será impossível vencer estes monstros trigémeos que são o racismo, o materialismo extremo e o militarismo."

Martin Luther King Jr, Eu Tenho um Sonho

a célebre frase daquele economista muito famoso... ah, sim, o Fernando Ulrich

Quase poderia ser a letra de uma música popular muito conhecida. Com alguma sorte, poderia ser a de uma música cantada pela Madonna. No entanto "Se o país aguenta mais austeridade? Ai aguenta, aguenta...!" foi apenas mais uma frase extremamente infeliz dita por alguém que merecia qualquer coisa não menos grave do que uma valente bofa na boca, ou seja, pelo Fernando Ulrich, o presidente executivo do BPI. Apesar da minha ingénua e, talvez, pretensiosa idade, sinto-me curiosamente à vontade para lhe atribuir a qualidade de traste e pedir desesperadamente que nunca mais ninguém o deixe falar em público. Isto é, a menos que a opinião de sua excelência se baseie nalgum dado que desconheço como, por exemplo, que será da generosidade do seu bolso que os portugueses serão alimentados durante os próximos dez a vinte anos. É só uma ideia...


(Por acaso, eu e o Sr. Ulrich temos uma característica em comum: nenhum de nós é licenciado.)

a célebre frase daquele economista muito famoso... ah, sim, o Fernando Ulrich

Quase poderia ser a letra de uma música popular muito conhecida. Com alguma sorte, poderia ser a de uma música cantada pela Madonna. No entanto "Se o país aguenta mais austeridade? Ai aguenta, aguenta...!" foi apenas mais uma frase extremamente infeliz dita por alguém que merecia qualquer coisa não menos grave do que uma valente bofa na boca, ou seja, pelo Fernando Ulrich, o presidente executivo do BPI. Apesar da minha ingénua e, talvez, pretensiosa idade, sinto-me curiosamente à vontade para lhe atribuir a qualidade de traste e pedir desesperadamente que nunca mais ninguém o deixe falar em público. Isto é, a menos que a opinião de sua excelência se baseie nalgum dado que desconheço como, por exemplo, que será da generosidade do seu bolso que os portugueses serão alimentados durante os próximos dez a vinte anos. É só uma ideia...

(Por acaso, eu e o Sr. Ulrich temos uma característica em comum: nenhum de nós é licenciado.)