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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Quanto vale uma educação: Educated (Tara Westover)

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Quanto valor pode ter uma educação? Quase todos nós tomamos tantas vezes a nossa instrução como garantida. Nos meios onde cresci e estudei, entre o fim do século XX e início do século XXI, nunca conheci ninguém que não tivesse nascido sem ter a certeza de que iria à escola, o que não é o caso da protagonista deste livro: Educated, o livro de memórias de Tara Westover (traduzido em português como Uma Educação, pela Bertrand Editora).

 

Nota: este vai ser um texto longo. Desde que comecei a ler o livro até o terminar dificilmente o larguei. Foi assim que Educated me fez sentir: eu tinha de saber como acabava o relato desta rapariga, nem uma década mais velha que eu, mas com uma vida tão complexa e cheia de feitos tão memoráveis.


Educated descreve os primeiros vinte e tal anos de vida da autora americana; perguntarão vocês como é que alguém tão novo terá tanto (quase 400 páginas!) para contar. Ao contrário do que é esperado duma criança num país desenvolvido, Tara não foi à escola até ter entrado na universidade, aos 17 anos. A família, mórmon, crente no Fim dos Dias e em teorias da conspiração sobre a doutrinação do Governo através da escola e do serviço de saúde, manteve-a longe do resto do mundo até Tara ter seguido os passos dum irmão mais velho rebelde e se ter autoproposto e inscrito na Brigham Young University.


Não vos quero contar muito mais do que as outras sinopses da Internet já contêm, mas deixo-vos uma nota de precaução: este não é um livro fácil, emocionalmente. Tara Westover escreve mesmo muito, muito bem, como se já tivesse uma carreira literária longa, por isso conseguiu prender-me a cada novo parágrafo, mas o que lá está escrito não é bonito. Na infância, adolescência e primeiros anos de idade adulta dela houve muita violência, frustração, mentiras, obstáculos físicos e morais, incompreensão, solidão... É uma daquelas leituras que nos encanta e assombra em simultâneo. A certo ponto, o que mais surpreende deixa de ser o facto de Tara ter chegado a frequentar a universidade, mas sim, contra a vontade de toda a gente que a rodeava, ter alcançado um percurso de sucesso de zero a Harvard em menos de dez anos.


No fim, concluí: a curiosidade pelo mundo recém-descoberto, a cada nova disciplina ou pessoa que conhecia, desempenhou um papel muito importante na vida de Tara. Poder aprender numa sala de aula e usufruir duma educação universitária nalgumas das melhores instituições do mundo não foram experiências que pudesse fazer intuitivamente, ao contrário dos seus colegas. Só quase aos trinta anos é que deixou de se sentir isolada e diferente. No entanto, permaneceu a vontade de saber e conhecer mais. Para nós, os leitores, serve-nos de lição ou para refrescar a memória para valorizarmos a nossa escolarização, socialização e oportunidades de fazer mais e melhor. Relembra-nos que ir à escola ou à universidade não é só ouvir um tipo qualquer falar durante hora e meia. Mesmo a informação mais insignificante que nos possam oferecer deve ser tida em conta, porque, tal como Tara, acabamos por aprender algo novo sobre o que é ser humano, algo sobre o mundo, nem que seja um pretexto para procurarmos mais nos livros, na Internet ou para perguntarmos a quem percebe do assunto. Lutar por uma educação é imprescindível. Uma educação não é escolher o curso com mais empregabilidade; é, acima de tudo e simplesmente, poder aprender.

 

The decisions I made after that moment were not the ones she  would have made. They were the choices of a changed person, a new self. 
You could call this selfhood many things. Transformation. Metamorphosis. Falsity. Betrayal. 
I call it an education.


Enfim. É impressionante como uma miúda cheia de medo e um passado doloroso pôde transformar a sua vida por completo, reinventá-la e reinventar-se. Não quero dizer que não teve momentos de fraqueza, mas na minha opinião é preciso ser-se realmente forte para se ser o protagonista duma vida como esta.


Li em muitos outros textos de opinião que Educated é um livro para todos os gostos e confirmo. Não costumo ler muitos relatos autobiográficos, mas este valeu a pena. É muito difícil deixar a meio um livro assim.


Vejam ainda os textos e vídeos que deixei em hiperligações pelo meio do texto.


Boas leituras! 📚

 

(Este é também o livro que li para o mês de Fevereiro a propósito do desafio Uma Dúzia de Livros, da Rita da Nova).

Ser professor é fácil

Quando digo que dou explicações, acompanho alunos, dou aulas aqui, ali e online, há quem diga "eu também poderia fazer isso". Fazem parecer que ensinar é fácil, que ser-se professor é fácil e que qualquer um o pode executar como quem dá aquela palha. Pega-se num livro, nuns exercícios dumas cópias que temos lá em casa, e já está. O que é, realmente, fácil é acreditar nesta falácia.

 

Sim, de facto, qualquer um pode ser professor, ou explicador, ou dar umas aulas. O mais difícil é, na minha opinião de quem anda a tentar ser bem-sucedida no que faz há cinco anos, fazê-lo bem. Deve ser como o que se diz sobre ter-se filhos: fazê-los é simples, o complicado é criá-los. Apoio algo semelhante no que toca a ensinar: todos podem tentar, mas muito menos pessoas conseguirão fazê-lo como deve ser ou atingindo os requisitos mínimos decentes (por exemplo, não matar os alunos de aborrecimento).

 

Além disso, vejo uma certa condescendência da parte de quem pensa que ensinar é uma tarefa quase intuitiva. Desvalorizam a vocação, a inclinação, a formação, o investimento pessoal, económico e profissional de quem se esforça verdadeiramente para o fazer melhor. 

 

Tive professores no ensino secundário e nas universidades onde estudei e trabalhei que, acredito, nunca abriram um livro sobre educação, psicologia, métodos ou abordagens de ensino na vida. Ensinam como quem atira postas de pescada. Muitos pertencem à geração dos professores "porque calhou", "porque as escolas e universidades precisavam" (por exemplo, depois do 25 de Abril). Quem mais sofre com este cenário desencorajador são sempre os alunos. Não é suficiente saber-se tudo sobre relações interculturais, engenharia bioquímica, ginástica ou filosofia antiga: há que saber passar a mensagem, comunicar e suscitar reacções [positivas/construtivas] na plateia... que são os alunos, seres humanos susceptíveis a estímulos que passam por muito mais do que receber e absorver informação de forma passiva.

 

Não digo que todos os professores sem formação em educação ou pedagogia são obrigatoriamente maus profissionais. Algumas pessoas têm uma veia especial e inata para o ensino, são empáticas e flexíveis, aprendem e apreendem com a experiência (também conheci pessoas assim). Infelizmente, muitos mais são os professores nestas condições que o são sem merecerem.

 

Não pretendo, com isto, atirar areia para os olhos de ninguém, muito menos maldizer seja quem for. Pretendo apenas chamar-vos a atenção para quando lerem barbaridades como "quem sabe fazer, tem a profissão; quem não sabe fazer, só ensina" ou "dás umas explicações? Hás-de me dizer como fazes!".

 

Estou a milhas de distância de ser a professora perfeita. Sou demasiado nova, ainda tenho muito a aprender, muito conhecimento a obter que meio mestrado e um par de cursos não conseguem juntar, ainda não lidei com todos os tipos de alunos possíveis (se bem que já colecciono uma boa variedade). No entanto, esta é uma daquelas profissões que gostaria de manter pela vida fora. Receber o incentivo dos meus alunos e colegas ajuda bastante. Vejo-me a fazer outras coisas, a ganhar experiência naquilo que quero partilhar com os meus alunos, mas ensinar traz-me uma alegria imensa. 

E traz-me trabalho que nunca mais acaba. Os tais investimentos multilaterais. 

 

Por isso, deixo-vos um apelo: não desvalorizem quem ensina (no mínimo, quem ensina como deve ser). Se tiverem filhos ou crianças pequenas nas vossas famílias, façam-lhes ver o quão importante e difícil o trabalho dum professor é, mesmo o dum "tutor" ou "explicador". Se não fossem os professores competentes, apaixonados, inspiradores, trabalhadores que foram encontrando pela vida fora, que seria de toda a gente deste mundo?

Estamos em 2017 e continuamos a discutir as saídas profissionais em Portugal (bem, e no mundo)

Spoiler: estou-me pouco ***************** [inserir qualquer palavra inadequadamente adequada] para as saídas profissionais em Portugal, quais as melhores áreas, quais os melhores cursos, os melhores empregos, aqueles que dão mais dinheiro, e, em geral, tudo o que se intitule "mais e melhor".

 

Após ter recebido algumas mensagens nos últimos anos, desde o início de tags neste blogue, como universidadeemprego, decidi compilar mais algumas questões e respostas acerca da vida durante e após o ensino superior e também acerca das saídas profissionais no nosso país.

 

Vamos lá ver...

 

Não sei que profissão quero ter no futuro, mas tenho de escolher uma licenciatura. Em que área devo tirá-la?

Na área que mais gostares de estudar. Ainda que haja muita licenciatura super profissionalizante e específica por aí (como Direito e Medicina), cujo objectivo é formar os alunos para exercerem carreiras nesses mesmos domínios, quase todas as licenciaturas deixam imenso espaço para oportunidades em áreas profissionais diversas. "Estou a tirar Desenho, por isso estarei quase de certeza condenado a ser um artista falido." Mas porquê? E que tal investir num negócio de retratos personalizados na Internet? Ou ser ilutrador de livros de crianças? Ou tentar a sorte em galerias? Já agora, eu, que tirei uma licenciatura em Ciências da Cultura, terei direito ao título de "cientista da cultura"? Humm... Duvido. E mesmo licenciados/mestres em Direito e Medicina têm imensas opções. A minha amiga Joana tirou Medicina, está a acabar o ano comum, vai tirar a especialidade, mas também já pensou em investir num mestrado em Nutrição. Há tantas opções... para quê limitarmo-nos à licenciatura como único factor de decisão ou relevância no nosso futuro profisional?

Além disso, aos 18 anos, pouco saberemos sobre o que o futuro nos reserva. Para quê deixarmos que a nossa licenciatura nos defina ad eternum?

 

Depois da licenciatura em Portugal, é preciso tirar um mestrado?

Sou também a maior defensora de que o nível de escolaridade ou académico duma pessoa não definirá necessariamente o seu futuro profissional. No entanto, volto a repetir: hoje em dia, toda a criatura viva consegue tirar a licenciatura. Qualquer pessoa com dois dedos de testa entra e é capaz de sair, há imensos recursos, as médias de entrada são baixíssimas e é possível obter uma licenciatura com 9,5 valores de média de curso. Além disso, a maioria das licenciaturas em Portugal só duram três anos, após o Tratado de Bolonha, há dez anos, e são de cariz teórico. Dessa forma, o que é que se aprende em três anos?

Uma das minhas professoras da licenciatura fartava-se de gozar com os meus colegas que achavam que a universidade era uma escola profissional. Não é. A universidade é uma escola teórica, quer queiram, quer não. Se querem ganhar competências técnicas, licenciem-se numa escola politécnica ou façam o ensino secundário profissional. Ou atirem-se de cabeça para o mercado de trabalho!

Antes, durante e após a licenciatura, há que investir em formação e experiência paralelas. Já falei sobre as licenciaturas e as saídas profissionais em Portugal há pouco tempo. É mesmo necessário "tirar" qualquer coisinha além da licenciatura, que são apenas três anos numa vida inteira. O mundo encontra-se em constante mutação, há que actualizar os nossos conhecimentos de forma permanente.

Seja como for, os cursos pós-graduados também permitem desenharmos mais um pouco do perfil académico e, quiçá, profissional, que almejamos. Podemos sair da área da licenciatura, podemos permanecer, podemos adaptá-los um ao outro. Há imensa oferta! Pós-graduações, mestrados, MBAs, doutoramentos, formações avançadas... e mesmo cursos profissionais ou profissionalizantes de curta ou média duração, alcançáveis a todos os bolsos.

 

Quero tirar o meu mestrado numa universidade estrangeira, mas pedem quatro anos de licenciatura. O que faço?

As licenciaturas em Portugal têm, por norma, três anos - obrigatórios; tive colegas que tiraram um quarto ano, para poderem estudar outras cadeiras que lhes interessavam. Quer isto dizer que qualquer pessoa pode fazer quantos anos de licenciatura lhe apetecer, apesar dos 180 ECTS básicos. As universidades estrangeiras pedem uma licenciatura como requisito mínimo de admissão e usam "4 anos" de estudo como referência. Na União Europeia, vigora o Tratado de Bolonha, mas cada país no exterior adopta um sistema diferente. Por que não esclarecer estas dúvidas directamente com as instituições onde se espera prosseguir os estudos ou com a embaixada/consulado do país para onde se pretende ir?

 

Os rankings das universidades contam para melhorar as saídas profissionais em Portugal?

Os rankings existem por algum motivo, mas acredito que seja importante de igual forma saber filtrar a informação. De facto, há universidades e institutos cujo lugar nos rankings é baixo por motivos óbvios: fracos resultados em investigação científica, fracas médias de entrada dos alunos candidatos, pouca inovação tecnológica associada ao ensino e até ao funcionamento administrativo, escoamento deficiente de alunos para o mercado de trabalho, professores pouco especializados, poucas provas de internacionalização.

A Universidade Católica Portuguesa é capaz de ser das melhores no nosso país, porque consegue dar resposta a todos estes desafios. Quando lá estudei por um semestre, consegui perceber por que é tão reconhecida. No entanto, eu tirei a minha licenciatura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, uma das mais antigas escolas de humanidades do país, cujo ensino assenta na tradição e que não depende realmente da tecnologia para formar os seus alunos. Já na internacionalização, avaliação do currículo dos cursos e dos professores, e nos resultados científicos, encontra-se no topo, mas tal não é suficiente para vermos a FLUL a encabeçar maioria dos rankings. Mas não interessa assim tanto.

Por outro lado, muitas das universidades, escolas e faculdades portuguesas mais recentes não estão bem posicionadas, porque lhes falta tudo e mais alguma coisa, o que é relevante para a qualidade do ensino e da preparação dos alunos para outros horizontes (nem digo profissionais, mas principalmente académicos, no estrangeiro, por exemplo).

Mais uma vez, os rankings contam o suficiente, contam o que contam, são números e cálculos e o resultado de variantes fixas que escapam à maioria dos mortais. No entanto, uma e outra vez, cabe aos alunos forjar o seu próprio caminho, independentemente de onde vem a sua licenciatura.

 

Em suma, criem vocês mesmos as vossas "saídas profissionais", em vez de deixarem que outros factores externos as moldem, limitem ou controlem! Ganhem iniciativa, tenham mão no vosso presente e no vosso futuro!

 

Para mais informação e divagação, podem clicar nas hiperligações que vos deixo espalhadas acima.

5 desafios de ensinar no estrangeiro

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Com os meus 117 alunos deste semestre, 1º e 2º ano da licenciatura em Artes Liberais, major em Inglês.

 

Viver fora de Portugal já é suficientemente difícil, mas ensinar no estrangeiro é ainda mais desafiante.

Em primeiro lugar, tenho de vos alertar desde já que adoro ensinar na Tailândia. Esta é uma experiência que está a mudar a minha vida a cada dia que passa.

Tirando as saudades que tenho de casa, da família, do namorado, dos amigos e de Portugal, sinto que só tenho retirado boas energias e um desenvolvimento pessoal e profissional bastante positivo.

No entanto, ensinar no estrangeiro tem também muitos desafios e é preciso ter-se um não sei quê de perseverança e coragem para os resolvermos.

 

1. O passado educativo dos alunos é, inicialmente, uma incógnita para nós

Por muitos livros que nos informem acerca dos sistemas de ensino do país onde vamos trabalhar, a forma como os alunos se comportam vai provavelmente revelar-se... apenas na sala de aula, no terreno. Por exemplo, eu já sabia que a educação na Tailândia não dá lugar ao pensamento criativo e à discussão livre entre professores e alunos, que is professores têm quase sempre a última palavra. Na verdade, todas as palavras. Os alunos são motivados em direcção à passividade. Mas sabia lá eu que eles iam detestar que lhes dessem a possibilidade oposta! (Entretanto, os meus já levaram um tratamento de choque e muitos já dizem que gostam das minhas infindáveis perguntas. Eu também levei uma chapada sem mão e deixei de stressar por não ter muitos potenciais participantes.)

 

2. Os alunos são diferentes, as burocracias idém

Outro desafio de ensinar no estrangeiro é lidar com os documentos de legalização e de ter de o fazer com o staff da escola/instituto/universidade. No meu caso, achei tudo muuuuuito lento, as pessoas complicadinhas até mais não e cheguei a chorar de desespero, já pensava em deportação, problemas com a lei, os oficiais da imigração virem à minha faculdade passar-me uma multa por ainda não ter o visto ou a licença de trabalho regularizados. A outra parte também foi levada às lágrimas, não fui só eu. Afinal, os desentendimentos são bilaterais e precisamos todos uns dos outros.

 

3. A barreira linguística. Perdão, não é barreira, é um muro. Com vidro partido em cima. E arame farpado.

Imagino que ensinar num país cuja língua materna seja parecida às que falamos ou que nós dominemos acabe por facilitar a nossa adaptação. No entanto, imaginem que não falam nenhuma língua próxima, quanto mais a língua local, o alfabeto é incompreensível, o staff administrativo fala um inglês macarrónico, ninguém se entende... Pois, é como voltar à Torre de Babel. Ainda bem que a maior parte dos meus alunos são "English Majors" e que os meus colegas também são professores de Inglês.

 

4. Os alunos cresceram num país diferente, logo pensam distintamente

Desde a questão da falta de pensamento crítico que já não me agradava "a conversa" (ou falta dela). Só quando começarem a conhecer os vossos alunos e a falar com eles diariamente é que os vão realmente entender, mas penso que haverá sempre alguns que simplesmente se fecham em copas e depois esperam que tenhamos poderes telepáticos para lhes ler as razões, os quês e os não sei quês. Estas diferenças poderão estar relacionadas com tabus culturais, estruturas familiares e organizacionais, expectativas a nível pessoal e profissional, linguagem corporal, expressões faciais, registo de língua... You name it!

 

5. A posição e reputação dos professores no país

No que toca à Tailândia, os professores não são os profissionais que são recompensados mais justamente, mas são provavelmente das classes mais respeitadas na sociedade. Um professor é um chefe, uma figura da autoridade e quase omnisciente. As vénias (ou wais) que recebia no início pareciam-me uma tolice desnecessária. Contudo, aprendi a apreciar este tratamento e a negociá-lo com os meus alunos. Tive de lhes ensinar que professores e alunos devem aprender mutuamente. Que temos de trabalhar juntos em direcção a um objectivo comum. E que o respeito deve ser merecido e que eu estou sempre a tentar merecê-lo. Também eu demonstro o respeito que tenho pelos meus alunos, com vénias (a saudação tradicional), palavras de encorajamento ou com simples conversas e confidências. Por outro lado, outros professores terão experiências opostas.

Preparem-se sempre para serem mais ou menos respeitados no vosso país de acolhimento e para as respectivas consequências. Preparem-se para serem tratados com mais ou menos deferência, de acordo com a perspectiva dos vossos alunos, superiores e colegas em relação aos estrangeiros.

 

E vocês, têm mais sugestões? Até agora, estes são os maiores desafios que encontro ao ensinar num país estrangeiro, mas certamente haverá mais listas por aí. Que tal as vossas ideias?

Emigrar = desistir de Portugal?

Quando me propuseram ficar definitivamente a trabalhar em Bangkok, tive muitos momentos de dúvida que, obviamente, continuam a aparecer-me de vez em quando. O contexto: ao regressar a Portugal em Setembro, teria a possibilidade de frequentar um dos melhores mestrados da Europa, numa universidade de referência, possivelmente conseguiria até assegurar alguma bolsa de mérito, continuaria a dar explicações ou arranjaria trabalho (até já tinha tido uma proposta no fim do segundo ano de licenciatura, mas na altura não conseguiria conjugar estudos e actividade profissional e a relação salário-esforço não era relevante o suficiente), teria a minha base familiar sólida, o meu namorado e os amigos que guardo há largos anos, uma das minhas amigas vai ter um bebé e eu iria com certeza acompanhar a gravidez dela de perto, continuaria a viver na minha zona de conforto, debaixo da asa da avó, no meu quarto cor-de-rosa e cheio de tralha, numa casa de dois andares com quintal, onde continuaria a brincar com os meus cães e gatos sempre que me apetecesse.

No que toca às oportunidades que Portugal me proporcionou, tenho a dizer que poucas foram. Pessoalmente, recebi a bolsa de estudo da DGES por dois anos. A minha bolsa de mérito foi-me sempre atribuída durante os três anos de licenciatura por uma associação privada. A bolsa de mérito da DGES nunca chegou e ainda estou à espera dos três anos que me devem. Idém, para a bolsa de melhor finalista atribuída pela Caixa Geral de Depósitos. Tenho apenas a sublinhar que, não fossem os professores excelentes que tive e que representam Portugal e a função pública, ainda menos aspectos positivos teria para enumerar. Não me sinto amargurada por ter tido sempre que trabalhar ao longo dos últimos anos para pagar a faculdade, mas a verdade é que o sentimento com que me identifico é que fui eu que trilhei o meu caminho sem grande ajuda dessa grande entidade chamada "Portugal".

Portanto, quando me falaram pela primeira vez a trabalhar em Bangkok, logo na minha primeira semana na Tailândia, eu fiquei confusa. Obviamente que adoro Portugal, o sol de Lisboa, a minha casa fora dos centros urbanos, as pessoas que me rodeiam, ouvir a minha língua todos os dias. Mas, caramba, quando surgiu a oferta de trabalho concreta em Bangkok, fiquei sem desculpas para não aceitar. Apenas 12 horas de trabalho lectivo obrigatório, fora horas extraordinárias pagas devidamente, um salário irrecusável para alguém da minha idade numa cidade tão acessível quanto Bangkok, a possibilidade de continuar os meus estudos em simultâneo, montes de pessoas a apoiarem a minha candidatura e com quem estabeleci uma relação extremamente carinhosa desde o primeiro dia (incluindo a melhor chefe de sempre) e... o meu trabalho de sonho e que eu não pensava conseguir nos próximos cinco a dez anos - ser professora numa universidade.

Como pode uma pessoa lembrar-se dessa miragem linda e maravilhosa, solarenga, quente, emocionalmente segura que é Portugal, quando lhe oferecem estas condições todas?

Não, nem eu desisti de Portugal nem Portugal desistiu de mim. A Tailândia foi simplesmente mais rápida, pelo menos por agora. Sou um caso que provavelmente seria bem sucedido em Lisboa ou Bangkok, mas que pendeu mais para um lado do que para outro. É como terem a possibilidade de comprarem uma casa no local dos vossos sonhos mas que demora imenso tempo a fazer, ou uma casa que vai ter de ficar noutro terreno, mas que já está pronta e até traz um sistema de fornecimento de energia solar.

Emigrar, ou ir estudar para outro país, pode não ser apenas sobre desistir do nosso. Hoje em dia, acho que a nova geração se considera cidadã do mundo e que pertence, ou pode vir a pertencer, a muitos sítios diferentes. Infelizmente, a ideia principal a que eu quero chegar com todas estas linhas de texto é Portugal não está a ser rápido do suficiente para a mão-de-obra qualificada que educa e forma. Mais rapidamente esta mão-de-obra é arrebatada para outros sítios. Nem sequer falo de mim neste exemplo específico (eu nem tive tempo de estar em Portugal à espera, por isso nem posso imaginar o que um jovem formado e frustrado deve sentir), mas ouve-se falar de cada vez mais jovens formados que acabam por emigrar, porque mais fácil e rapidamente são valorizados do lado de fora.

Não chega os Velhos do Restelo andarem para aí a apregoar que nós desistimos do país sem mais nem menos, que somos uns cobardes, desistimos rapidamente... Amigos, tentem romper assim com a vossa vida como os emigrantes fazem para ver o que é bom para a tosse.

Os tempos do elevado patriotismo já lá vão. Esta é mais a era chamada "o patriotismo não paga contas nem nos providencia a realização de objectivos e sonhos pessoais ou profissionais". Se gosto do meu país? Claro que sim, adoro Portugal. Se gosto mais da Tailândia? Não necessariamente. Estou cheia de saudades do céu sem nuvens ou poluição, dos enchidos, dos pastéis de bacalhau, dos rissóis e das pizzas do supermercado a 1,50€, mas a Tailândia concretizou-me uma data de objectivos a todos os níveis duma assentada, as pessoas são doces e genuínas aqui, o trânsito é caótico mas estranhamente seguro, a rede de transportes públicos é eficiente, tenho o meu próprio apartamento com uma vista esplêndida para o centro da cidade, a roupa é muito mais barata, as ruas estão cheias de gente de noite e de dia, há vida a passar-se. Se me mandassem para cá a minha família, o meu namorado e os meus amigos e me assegurassem que poderia realmente ficar na Tailândia para o resto da minha vida como professora e a ser aumentada todos os anos (o que acontece com os professores efectivos da função pública), teria muita dificuldade em recusar.

 

Para mim, emigrar ou ir viver para outro país não significa desistir de Portugal. Antes significa não desistir de mim e dos meus projectos.

O bicho de ensinar

Eu gosto de ensinar. Aliás, adoro ensinar. Acho que, no fundo, nunca me imaginei a fazer outra coisa. Antes, desculpava o bicho, porque pensava que ele só era alimentado pelo contacto quotidiano com os professores. Durante muitos anos, quase toda a minha vida, a escola foi a única realidade que conheci. A escola, os livros, os meus colegas alunos, eu aluna, os professores.
Então, tentei desmistificar o meu bicho. Pus-me a explorar outros interesses, a procurar o gosto pelo jornalismo, pela escrita, pela cultura, pela literatura. Mas cheguei sempre à mesma conclusão: o melhor mesmo seria poder ensinar todos esses outros bichos, ser professora de qualquer forma.
Quando ensino alguém, quando ajudo alguém com os trabalhos da escola, quando sinto que transmito algum tipo de conhecimento; esse é o momento em que me sinto mais realizada. Estou a contribuir para o mundo, estou a dar a minha parte. Sem o meu bicho, outras pessoas, crianças, jovens, quem quer que seja, não conseguiriam alcançar o que alcançaram. Não conseguiriam encontrar aquele texto especial que lhes levei e que nunca leriam num dos seus manuais, não aprenderiam a conjugar o verbo "conseguir" tão depressa, não passariam a perceber outras línguas de forma tão rápida, nomeadamente a língua do estudo eficiente e a língua da curiosidade.
Neste momento, só aspiro a professora algumas horas por semana. Contudo, já contornei obstáculos que se julgavam insuperáveis. Ressuscitei o Inglês, semeei o Francês e tornei o Português menos pandoresco. Neste momento, são só crianças e adolescentes, mas quem se seguirá no futuro?
Como inimigas, tenho as metas curriculares. São inimigas agridoces, que tanto permitem aferir o "conhecimento" contabilizável, como impedem o aproveitamento de outras competências tão importantes como o crescimento pessoal do aluno, a responsabilidade ou a curiosidade na aprendizagem. "Ah e tal, se o aluno obtiver essas competências, conseguirá aprender, logo terá melhores notas." Por muito que o desejemos, a situação não é assim tão linear. Há quem demore mais a chegar ao "conhecimento" contabilizável do que outros. Há quem simplesmente não se adapte ao sistema de avaliação como ele é imposto. Há quem seja apenas um aluno brilhante a Ciências Naturais e deteste Espanhol. É assim tão inédito?
E depois há outro papel de "professora de 7 horas por semana": o de colmatar o que os professores de 40 horas por semana não são capazes de transmitir: justificar o conhecimento, explicar para que é que serve a matéria, atribuir-lhe uma vertente útil. De que é que serve aos alunos estarem a empilhar Os Lusíadas durante seis meses, se não lhes explicam em que é que eles ficam a ganhar? Somos todos tão bons a escrever cartas de motivação para arranjar empregos de sonho, em empresas de sonho, e abafando a competição... Porque é que não escrevemos também uma carta de motivação em nome da escola e do saber e da matéria, que convença as nossas criancinhas, e os nossos adolescentezinhos, e os nossos adultinhos de que aprender não é uma seca e de que para tudo o que aprendem há um intuito?

 

 

Professores do ensino superior, esta é para vocês

Pergunto-me constantemente se certos professores meus não terão a noção do quanto os alunos se estão a marimbar para as suas aulas. Será que não conseguem perceber que não chega saber a matéria toda? Que é necessário saber cativar a audiência, que não só de conhecimento empilhado se faz uma aula? Que não se concebem apresentações de Power Point com mais de meia dúzia de linhas, senão os alunos vão estar mais preocupados a passá-los do que a ouvir o professor?

Não haverá qualquer intenção de aperfeiçoamento, de se ser um melhor professor? De se ser mais eficiente? De se obedecer (minimamente) aos princípios da pedagogia?

E que tal ser obrigatório que os professores do ensino superior tenham formação para serem mais do que investigadores e profissionais conceituados da sua área? Se todos os outros a devem ter, desde aqueles que lidam com os meninos pequeninos até àqueles que lidam com os matulões do 12º...

 

 

Universidade #6 - quem são os professores do ensino superior?

Decidi regressar ao tema "universidade", desta vez para vos falar acerca dos professores do ensino superior. Aliás, acho que, desta vez, até o faço mais num tom de desabafo pessoal do que num tom explicativo. Peço adiantadamente desculpa se vos parecer que estou a generalizar, mas, convenhamos, é a minha experiência que estou a relatar. Reforço novamente que não me comprometo com todo o universo vivo de professores.

 

Então, cá vai disto...

Encontro-me desiludida com os professores universitários. Dos professores do ensino politécnico já não poderei falar, pois trata-se de outro tipo de ensino e meio académico e de investigação, por isso apenas incluo neste grupo de professores aqueles que ensinam nas faculdades.

E por que é que estou desiludida com os professores (e professoras também) universitários?

Porque é isso que eles são: professores universitários.

Para quem ainda não está familiarizado com esta realidade, os docentes das universidades, com ênfase na faixa etária dos 40 para cima, raramente exerceram outra coisa na vida além do ensino. Alguns deles vêm até de meios sociais privilegiados, de boas famílias ou são até filhos e netos doutros professores universitários. Pelo menos os professores com quem tenho entrado em contacto correspondem a, no mínimo, uma destas características.

Sendo assim, muito poucos são aqueles que saíram da bolha da universidade durante toda a sua vida. Entraram na academia antes dos 20 e nunca mais saíram de lá. Primeiro, foram alunos. Depois, tornaram-se professores, tradutores ou investigadores dos centros de estudos. É essa a única realidade laboral e social que conhecem. 

Durante este último ano e meio, desde que comecei a minha licenciatura em Ciências da Cultura (na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), talvez tenha conhecido apenas dois ou três professores que já trabalharam fora da academia. Nota-se logo a diferença. Trazem ideias muito mais criativas para as aulas, a maneira de falarem e de relacionarem com os alunos é geralmente mais descontraída e acabam por utilizar métodos de ensino mais virados para uma vertente prática.

Quanto aos outros professores, os que nunca saíram da academia, estes começam a parecer-me todos iguais. Lêem quase todos os mesmos livros, as suas referências-chave bibliográficas e cinematógráficas (não só obras, mas também autores) são semelhantes. No entanto, ainda há outro aspecto que me incomoda nestes professores: não compreendem a vida fora da universidade. Não compreendem que nem toda a gente tem disponibilidade total para se dedicar ao estudo e à leitura. Que nem todos conhecem as "obras fundadoras da nossa cultura", seja porque nunca tiveram acesso a essas obras, seja porque simplesmente já têm uma lista infindável constituída pelas obras recomendadas por todos os professores dos semestres anteriores (o quê, nunca leu X ou viu Y??? que crime!!! - epá, pelo amor da santa, eu leio 50 livros por ano!). Que há alunos que trabalham, outros que têm de ajudar a família, outros cuja realidade é menos risonha e menos propícia a divagações "além do necessário" (apesar de o necessário ser relativo e de o conhecimento nunca ocupar lugar). Há até alunos que não vivem no centro de Lisboa (!!!!!!!!).

Contudo, há que sublinhar que, na maioria das vezes, os professores não agem arrogante ou pedantemente de propósito. Nem se apercebem de que é isso que pensamos acerca deles. Acho até que pretendem ajudar-nos de verdade, que querem ser simpáticos e prestáveis... à sua própria maneira. São incompreendidos, tal como nós. As suas intenções correm permanentemente o risco de serem mal interpretadas, mas é a vida. Alunos ou professores, acabamos todos assim.

O problema é esperarem demasiado dos alunos. Enquanto a maioria dos professores do ensino secundário queria era despejar a matéria do sumário e ir para casa o mais cedo possível, os professores do ensino superior conjugam três actividades diferentes, entre leccionar em duas faculdades, escrever e traduzir livros, escrever artigos científicos para revistas de renome, colaborar com centros de investigação, organizar e planear conferências até 2020, assistir a outras tantas e coordenar todo um departamento ou curso. Eles trabalham que nem loucos, dormem mais-ou-menos, não deixam de ler três livros por semana, de ir ao cinema ou de papar todas as suas séries favoritas, ainda têm tempo de se casar e de ter filhos e, por isso, esperam os melhores resultados académicos e todo o esforço desumanamente possível da parte dos seus outros colegas e dos alunos.

Então, a diferença entre os professores universitários e os alunos é que os primeiros têm um orçamento familiar que lhes permite delegar as tarefas "da vida real" noutras pessoas (empregadas domésticas, lavandarias, contabilistas, refeições fora de casa), enquanto os segundos têm de se desenrascar por conta e energia própria. O problema é que grande número dos professores universitários não preenche um formulário para o IRS nem vai a uma repartição das finanças há mais de 15 anos, não lava ou passa a sua roupa há 20 e não tem de contar os tostõezinhos do extracto bancário cada vez que vai ao supermercado (porque também não costuma lá pôr os pés) há 25. E são estas ninharias do quotidiano que fazem toda a diferença entre as realidades de uns e de outros!

 

Para concluir e desanuviar o ambiente, partilho convosco este meme. Os alunos da FLUL irão entender e fazer facepalm.

 

 

 

Nota: Futuros universitários, juro-vos que os professores não são bichos, só são workaholics. Não se assustem!

 

Nota 2: Caros professores que, eventualmente, dêem com esta publicação, seja agora ou daqui a três décadas, quando talvez eu mesma for uma professora universitária (e que bom que seria!)... desculpem-me. A sério, tenho tido professores excelentes, mentes brilhantes, génios subvalorizados neste país pequenino em que vivemos. Não me posso queixar, de todo. Tenho aprendido imenso. Só que, perdoem-me, sinto falta de professores que "vivam cá fora". Que se lembrem do que é estar deste lado. Que se lembrem do que é renovar um guarda-roupa nos saldos de Fevereiro com 25€. Que se lembrem do que é ir ao Lidl comprar barras de chocolate a 50 cêntimos, porque no Pingo Doce e no Continente são 60. Que se lembrem do que é ser mais humano e menos... bem, menos professor universitário. 

Greve dos professores a 17 de Junho - eu apoio!

Ora então, os professores estão a planear uma greve geral para o dia 17 de Junho de 2013, mais conhecido por estas bandas como o Segundo Dia de Maioridade da Beatriz e Dia de Exame Nacional de Português. E sabem o que eu digo?

Apoiado, apoiado!

Não, eu não apoio esta ideia porque, assim, me livro do exame nacional. Não, senhora. Isso seria parvo visto que, mais cedo ou mais tarde, terei de o fazer, tal como toda a gente que deseje minimamente acabar o ensino secundário regular. Também não a apoio porque, caso ela chegue realmente a acontecer, não terei de estudar no dia anterior, ou seja, no meu dia de aniversário – há uma coisa que se chama organização e eu não arrastaria o estudo até à última da hora, mesmo que a data não significasse nada para mim.
Eu apoio esta ideia porque, finalmente, os professores (classe profissional que eu muito admiro) ganharam juízo e aprenderam a fazer chantagem com quem está no poder e lhes f*de - desculpem lá a “intensidade” do meu discurso – o emprego, os salários, os horários e outros aspectos vários, como se a sociedade (em particular, a portuguesa) não precisasse de professores, que isto é um povo de autodidactas e gente super interessada em obter conhecimento, não se ‘tá mesmo a ver?

Portanto, não se alarmem, caros leitores e colegas. Estejam descansados, pois ninguém há-de ficar sem o exame feito, haja ou não greve de professores a 17 de Junho. Deixem-nos apenas expressar a sua indignação, tal como a Constituição (ainda) lhes permite.

Sobre o novo despacho das Finanças (ou "o princípio do fim do ensino universitário")

Pois bem, o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, assinou um despacho que vai cortar as despesas no ensino universitário, ou seja, como é sintetizado pelo Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos,  "Fica suspensa a concretização de projectos cofinanciados por fundos europeus, o fornecimento de refeições aos estudantes, a limpeza e higiene, a reparação e conservação de edifícios e equipamentos, o funcionamento de aulas laboratoriais e oficinais, entre outras".
Agora, digo eu, não tarda, mais valerá encerrar todas essas faculdades, cujos projectos e investigações ficarão paralisados, devido à falta de materiais e condições de trabalho, de uma vez por todas. Caso sua eminência, Sô-dotor Vítor Gaspar, não saiba, os cursos de cariz prático, como são a maioria dos de ciências experimentais, necessitam disso mesmo - de experiência. Eu sei que o fofuxo tirou Economia, mas não me venha dizer que, lá quando o rei fazia anos, não precisava de uns quadros e de uns acetatozinhos para levar a cabo a realização de muitos dos seus trabalhos...! E a comida? Alguma vez se viu alguém dar vida ao miolo sem uma boa duma refeição, ou várias até? Eu também sei que andou na Católica, onde não deve haver paredes a cair, mas já viu o problema que era um aluno do público levar com um pedaço de estuque em cima? Ah pois, nem me venham com coisas.
O que me vale (mais ou menos) é estar na área das Humanidades - com prosseguimento, em Setembro, para Línguas, Literaturas e Culturas na FLUL (i hope so!) - e só precisar de um computador com Internet e uma biblioteca para me safar, sendo que desses já cá eu tenho em casa (refeições a cada vinte minutos, infraestrutura firme) com fartura.

A notícia séria, aqui.