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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

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Ser professor é fácil

Quando digo que dou explicações, acompanho alunos, dou aulas aqui, ali e online, há quem diga "eu também poderia fazer isso". Fazem parecer que ensinar é fácil, que ser-se professor é fácil e que qualquer um o pode executar como quem dá aquela palha. Pega-se num livro, nuns exercícios dumas cópias que temos lá em casa, e já está. O que é, realmente, fácil é acreditar nesta falácia.

 

Sim, de facto, qualquer um pode ser professor, ou explicador, ou dar umas aulas. O mais difícil é, na minha opinião de quem anda a tentar ser bem-sucedida no que faz há cinco anos, fazê-lo bem. Deve ser como o que se diz sobre ter-se filhos: fazê-los é simples, o complicado é criá-los. Apoio algo semelhante no que toca a ensinar: todos podem tentar, mas muito menos pessoas conseguirão fazê-lo como deve ser ou atingindo os requisitos mínimos decentes (por exemplo, não matar os alunos de aborrecimento).

 

Além disso, vejo uma certa condescendência da parte de quem pensa que ensinar é uma tarefa quase intuitiva. Desvalorizam a vocação, a inclinação, a formação, o investimento pessoal, económico e profissional de quem se esforça verdadeiramente para o fazer melhor. 

 

Tive professores no ensino secundário e nas universidades onde estudei e trabalhei que, acredito, nunca abriram um livro sobre educação, psicologia, métodos ou abordagens de ensino na vida. Ensinam como quem atira postas de pescada. Muitos pertencem à geração dos professores "porque calhou", "porque as escolas e universidades precisavam" (por exemplo, depois do 25 de Abril). Quem mais sofre com este cenário desencorajador são sempre os alunos. Não é suficiente saber-se tudo sobre relações interculturais, engenharia bioquímica, ginástica ou filosofia antiga: há que saber passar a mensagem, comunicar e suscitar reacções [positivas/construtivas] na plateia... que são os alunos, seres humanos susceptíveis a estímulos que passam por muito mais do que receber e absorver informação de forma passiva.

 

Não digo que todos os professores sem formação em educação ou pedagogia são obrigatoriamente maus profissionais. Algumas pessoas têm uma veia especial e inata para o ensino, são empáticas e flexíveis, aprendem e apreendem com a experiência (também conheci pessoas assim). Infelizmente, muitos mais são os professores nestas condições que o são sem merecerem.

 

Não pretendo, com isto, atirar areia para os olhos de ninguém, muito menos maldizer seja quem for. Pretendo apenas chamar-vos a atenção para quando lerem barbaridades como "quem sabe fazer, tem a profissão; quem não sabe fazer, só ensina" ou "dás umas explicações? Hás-de me dizer como fazes!".

 

Estou a milhas de distância de ser a professora perfeita. Sou demasiado nova, ainda tenho muito a aprender, muito conhecimento a obter que meio mestrado e um par de cursos não conseguem juntar, ainda não lidei com todos os tipos de alunos possíveis (se bem que já colecciono uma boa variedade). No entanto, esta é uma daquelas profissões que gostaria de manter pela vida fora. Receber o incentivo dos meus alunos e colegas ajuda bastante. Vejo-me a fazer outras coisas, a ganhar experiência naquilo que quero partilhar com os meus alunos, mas ensinar traz-me uma alegria imensa. 

E traz-me trabalho que nunca mais acaba. Os tais investimentos multilaterais. 

 

Por isso, deixo-vos um apelo: não desvalorizem quem ensina (no mínimo, quem ensina como deve ser). Se tiverem filhos ou crianças pequenas nas vossas famílias, façam-lhes ver o quão importante e difícil o trabalho dum professor é, mesmo o dum "tutor" ou "explicador". Se não fossem os professores competentes, apaixonados, inspiradores, trabalhadores que foram encontrando pela vida fora, que seria de toda a gente deste mundo?

Para onde vamos depois de terminar o ensino secundário?

Vai fazer cinco anos que terminei o ensino secundário. Parece pouco, mas meia década já deu para muito. O mais curioso, para mim, é a diversidade de caminhos das pessoas com quem andei na escola - do meu ano e sem ser do meu ano.

 

Há muita gente que já anda em mestrados, há quem tenha repetido o secundário no ensino profissional, há quem tenha ido logo trabalhar, há quem concilie estudos e trabalho. Há quem já tenha filhos, há quem só tenha coleccionado namorados. Alguns já vão no segundo filho e/ou no 35º namorado/a.. Há quem se tenha tornado jogador de futebol, há quem se tenha casado ou tido filhos com um. Outros participaram na Casa dos Segredos, e/ou iniciaram negócios. Há quem tenha ido para a tropa ou para a marinha. Alguns emigraram ou foram estudar para fora do país ou para o outro lado de Portugal. Uns trabalham nos supermercados onde vamos todos os dias, outros trabalham em escritórios de alto gabarito ou bancos, ou são professores ou educadores, engenheiros de várias áreas, biólogos, psicólogos (vários), animadores socioculturais, antropólogos, actores, ...

 

Depois de terminar o ensino secundário, nenhum outro casal de pombinhos sobreviveu, pelo menos dos que me lembre do meu ano. A maioria das pessoas engordou. Muitas das miúdas "todas boas" do secundário estragaram-se. Há muitas que não eram "as mais boas", mas que ficaram bem giras. Os rapazes tornaram-se, por norma, melhores do que estavam (a puberdade mais tardia ajudou). Por outro lado, há quem já pareça ter quarenta anos, antes sequer de avistar os 25. E há quem continue na mesma. 

 

Antes de terminar o ensino secundário, nunca pensei no quão diferentes poderiam vir a ser os caminhos futuros de tanta gente que cresceu na mesma vila e frequentou as mesmas escolas/cafés/parques/centros comerciais durante tantos anos. Começamos todos no mesmo sítio, de forma semelhante, partilhamos a infância e/ou a adolescência, mas seguimos por vias tão criativas quanto o nosso ADN. A vida é uma coisa estranha, não é?

Estamos em 2017 e continuamos a discutir as saídas profissionais em Portugal (bem, e no mundo)

Spoiler: estou-me pouco ***************** [inserir qualquer palavra inadequadamente adequada] para as saídas profissionais em Portugal, quais as melhores áreas, quais os melhores cursos, os melhores empregos, aqueles que dão mais dinheiro, e, em geral, tudo o que se intitule "mais e melhor".

 

Após ter recebido algumas mensagens nos últimos anos, desde o início de tags neste blogue, como universidadeemprego, decidi compilar mais algumas questões e respostas acerca da vida durante e após o ensino superior e também acerca das saídas profissionais no nosso país.

 

Vamos lá ver...

 

Não sei que profissão quero ter no futuro, mas tenho de escolher uma licenciatura. Em que área devo tirá-la?

Na área que mais gostares de estudar. Ainda que haja muita licenciatura super profissionalizante e específica por aí (como Direito e Medicina), cujo objectivo é formar os alunos para exercerem carreiras nesses mesmos domínios, quase todas as licenciaturas deixam imenso espaço para oportunidades em áreas profissionais diversas. "Estou a tirar Desenho, por isso estarei quase de certeza condenado a ser um artista falido." Mas porquê? E que tal investir num negócio de retratos personalizados na Internet? Ou ser ilutrador de livros de crianças? Ou tentar a sorte em galerias? Já agora, eu, que tirei uma licenciatura em Ciências da Cultura, terei direito ao título de "cientista da cultura"? Humm... Duvido. E mesmo licenciados/mestres em Direito e Medicina têm imensas opções. A minha amiga Joana tirou Medicina, está a acabar o ano comum, vai tirar a especialidade, mas também já pensou em investir num mestrado em Nutrição. Há tantas opções... para quê limitarmo-nos à licenciatura como único factor de decisão ou relevância no nosso futuro profisional?

Além disso, aos 18 anos, pouco saberemos sobre o que o futuro nos reserva. Para quê deixarmos que a nossa licenciatura nos defina ad eternum?

 

Depois da licenciatura em Portugal, é preciso tirar um mestrado?

Sou também a maior defensora de que o nível de escolaridade ou académico duma pessoa não definirá necessariamente o seu futuro profissional. No entanto, volto a repetir: hoje em dia, toda a criatura viva consegue tirar a licenciatura. Qualquer pessoa com dois dedos de testa entra e é capaz de sair, há imensos recursos, as médias de entrada são baixíssimas e é possível obter uma licenciatura com 9,5 valores de média de curso. Além disso, a maioria das licenciaturas em Portugal só duram três anos, após o Tratado de Bolonha, há dez anos, e são de cariz teórico. Dessa forma, o que é que se aprende em três anos?

Uma das minhas professoras da licenciatura fartava-se de gozar com os meus colegas que achavam que a universidade era uma escola profissional. Não é. A universidade é uma escola teórica, quer queiram, quer não. Se querem ganhar competências técnicas, licenciem-se numa escola politécnica ou façam o ensino secundário profissional. Ou atirem-se de cabeça para o mercado de trabalho!

Antes, durante e após a licenciatura, há que investir em formação e experiência paralelas. Já falei sobre as licenciaturas e as saídas profissionais em Portugal há pouco tempo. É mesmo necessário "tirar" qualquer coisinha além da licenciatura, que são apenas três anos numa vida inteira. O mundo encontra-se em constante mutação, há que actualizar os nossos conhecimentos de forma permanente.

Seja como for, os cursos pós-graduados também permitem desenharmos mais um pouco do perfil académico e, quiçá, profissional, que almejamos. Podemos sair da área da licenciatura, podemos permanecer, podemos adaptá-los um ao outro. Há imensa oferta! Pós-graduações, mestrados, MBAs, doutoramentos, formações avançadas... e mesmo cursos profissionais ou profissionalizantes de curta ou média duração, alcançáveis a todos os bolsos.

 

Quero tirar o meu mestrado numa universidade estrangeira, mas pedem quatro anos de licenciatura. O que faço?

As licenciaturas em Portugal têm, por norma, três anos - obrigatórios; tive colegas que tiraram um quarto ano, para poderem estudar outras cadeiras que lhes interessavam. Quer isto dizer que qualquer pessoa pode fazer quantos anos de licenciatura lhe apetecer, apesar dos 180 ECTS básicos. As universidades estrangeiras pedem uma licenciatura como requisito mínimo de admissão e usam "4 anos" de estudo como referência. Na União Europeia, vigora o Tratado de Bolonha, mas cada país no exterior adopta um sistema diferente. Por que não esclarecer estas dúvidas directamente com as instituições onde se espera prosseguir os estudos ou com a embaixada/consulado do país para onde se pretende ir?

 

Os rankings das universidades contam para melhorar as saídas profissionais em Portugal?

Os rankings existem por algum motivo, mas acredito que seja importante de igual forma saber filtrar a informação. De facto, há universidades e institutos cujo lugar nos rankings é baixo por motivos óbvios: fracos resultados em investigação científica, fracas médias de entrada dos alunos candidatos, pouca inovação tecnológica associada ao ensino e até ao funcionamento administrativo, escoamento deficiente de alunos para o mercado de trabalho, professores pouco especializados, poucas provas de internacionalização.

A Universidade Católica Portuguesa é capaz de ser das melhores no nosso país, porque consegue dar resposta a todos estes desafios. Quando lá estudei por um semestre, consegui perceber por que é tão reconhecida. No entanto, eu tirei a minha licenciatura na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, uma das mais antigas escolas de humanidades do país, cujo ensino assenta na tradição e que não depende realmente da tecnologia para formar os seus alunos. Já na internacionalização, avaliação do currículo dos cursos e dos professores, e nos resultados científicos, encontra-se no topo, mas tal não é suficiente para vermos a FLUL a encabeçar maioria dos rankings. Mas não interessa assim tanto.

Por outro lado, muitas das universidades, escolas e faculdades portuguesas mais recentes não estão bem posicionadas, porque lhes falta tudo e mais alguma coisa, o que é relevante para a qualidade do ensino e da preparação dos alunos para outros horizontes (nem digo profissionais, mas principalmente académicos, no estrangeiro, por exemplo).

Mais uma vez, os rankings contam o suficiente, contam o que contam, são números e cálculos e o resultado de variantes fixas que escapam à maioria dos mortais. No entanto, uma e outra vez, cabe aos alunos forjar o seu próprio caminho, independentemente de onde vem a sua licenciatura.

 

Em suma, criem vocês mesmos as vossas "saídas profissionais", em vez de deixarem que outros factores externos as moldem, limitem ou controlem! Ganhem iniciativa, tenham mão no vosso presente e no vosso futuro!

 

Para mais informação e divagação, podem clicar nas hiperligações que vos deixo espalhadas acima.

Aprender Inglês sem estudar?

 

Hoje em dia, saber o mínimo de Inglês já é um dado adquirido, ou que o deveria ser, principalmente para a minha geração. Nascemos com todos os recursos à mão, estivemos em contacto com a língua desde muito cedo, tenha sido na escola, na televisão, nos filmes, em palavras emprestadas ao Português... Quando vamos a uma entrevista de trabalho, já nem é só Inglês que temos de falar. É-nos pedido cada vez mais. Bem nos podemos safar!

 

Enquanto professora, gosto de partilhar a minha opinião sobre como aprender Inglês facilmente (ou outra língua não nativa qualquer).

Por exemplo, os meus alunos ficam muito parvos quando lhes digo que nunca senti necessidade de aprender Inglês a estudar. Logo eles, que estão a tirar a licenciatura em Língua Inglesa, gostariam de saber os meus truques. 

 

A questão é: não há truques. Há apenas hábitos. São pequenos gestos diários que fazem a diferença na aprendizagem duma língua. É uma repetição de gestos e pensamentos que valem mais do que mil aulas. Afinal, vamos ser sinceros: muitas vezes aprendemos melhor uma língua estrangeira fora da escola. Perguntem aos vossos pais, aos vossos amigos, aos vossos professores. Muitas vezes, o ensino formal das línguas funciona mais como um complemento. Eu própria aprendi os básicos a ver o Harry Potter e o Cálice de Fogo e respectivos conteúdos bónus vezes sem conta, depois de ter poupado as minhas mesadas até poder comprar o DVD. Ou a ver Crepúsculo. Ou a ler, devagarinho, até perceber quase tudo o que os livros tinham escrito.


Eu percebo a luta que é para muitas pessoas aprenderem línguas e a relutância em investir em aulas (porque, se os professores não forem dinâmicos, as aulas são uma seca prometida). De jovem professora para potenciais poliglotas independentes, aqui vão alguns hábitos para aprender Inglês sem estudar:

 

1. Não substituir as letras originais das músicas pelo linguarejar aleatório

Ouvir música regularmente faz parte da rotina diária de quase toda a gente. Desta forma, a primeira dica que vos deixo é tentarem decorar nem que seja o refrão dos hits do momento que mais passam na rádio ou que vocês ouvem nos vossos telemóveis enquanto vão para a escola ou para o trabalho. Uma vez que o refrão é reproduzido umas três ou quatro vezes em cada música, acabamos por não só cantarolar palavras aleatórias, mas sim a decorar expressões inteiras em Inglês (evitar aprender palavras soltas é um dos princípios mais importantes ao aprender qualquer língua).

 

2. Alterar a língua predefinida nos telemóveis, computadores e outros dispositivos electrónicos

Lá está, aprender Inglês sem estudar pode ser uma consequência natural de hábitos tão simples quanto este. De tanto ler "Clock", de tanto ler "Would you like to reboot your phone?", de tanto ler "low battery", de tanto ler "Your computer is installing a new update", certos padrões de frases vão encaixando a pouco e pouco na nossa mioleira (que é rija, mas nós somos mais).

 

3. Instalar o Pinterest para frases inspiradoras

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Parece-vos foleiro? A sério? Eu solidifiquei os meus conhecimentos de Inglês a ver Hannah Montana e a série dos Jonas Brothers em Inglês, antes de saírem em Portugal. Aos 21, estava já a ensinar Inglès na universidade (self-praising time, cough cough). Por esta altura, já deviam saber que NADA é foleiro. Cada um safa-se como pode e provavelmente muitos de nós adoram frases inspiradoras (ou pseudo), que soem a Pedro Chagas Freitas, mas que servem muito bem para o efeito de nos porem a sorrir. Ainda por cima, o conteúdo gramatical e a estrutura desta frases costuma ser simples. Start your day with a smile. Então pronto, uma frase do Pinterest por dia, não sabe o bem que lhe fazia! Depois é só procurem o significado de novas palavras e voilà!

 

4. Ir ao supermercado e procurar o nome dos produtos em Inglês

Quase todos os produtos do supermercao têm rótulos bilingues ou trilingues, o que torna muito fácil identificar relações como "arroz-rice-riz". Não sabem como se diz molho em Inglês? Olhem lá para o rótulo. É "sauce". E os valores nutricionais? ProteinsCarbohydrates. Vitamins. Ainda por cima, estas palavras estão sempre envolvidas num contexto específico, o que mais uma vez facilita a memorização.

 

5. Rever os vossos filmes e séries favoritos (ou leiam os livros) em Inglês que mais vos marcaram...

... e troquem as legendas em Português para legendas em Inglês. Vocês já conhecem a história. Muitas vezes já sabem certas passagens de cor e salteado. Agora, resta ir mais além e ver e ouvir tudo na língua original. 

 

 

De resto, não se deixem abalar pelo início lento. Não sejam duros convosco, sejam duros com o Inglês, persistam, comparem a vossa evolução ao fim dum mês e não de dois dias. Não tentem descobrir logo a diferença entre o past simple continuous e o present perfect, não abram gramáticas e manuais antes de se sentirem preparados para complementar a aprendizagem natural com outros materiais. Apenas... aproveitem a língua. Não façam por odiar o Inglês, que vos pode trazer tantas alegrias a longo prazo. Aprendam Inglês sem estudar, sem pressa, sem pressão e sem expectativas.

 

Boa sorte!

5 desafios de ensinar no estrangeiro

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Com os meus 117 alunos deste semestre, 1º e 2º ano da licenciatura em Artes Liberais, major em Inglês.

 

Viver fora de Portugal já é suficientemente difícil, mas ensinar no estrangeiro é ainda mais desafiante.

Em primeiro lugar, tenho de vos alertar desde já que adoro ensinar na Tailândia. Esta é uma experiência que está a mudar a minha vida a cada dia que passa.

Tirando as saudades que tenho de casa, da família, do namorado, dos amigos e de Portugal, sinto que só tenho retirado boas energias e um desenvolvimento pessoal e profissional bastante positivo.

No entanto, ensinar no estrangeiro tem também muitos desafios e é preciso ter-se um não sei quê de perseverança e coragem para os resolvermos.

 

1. O passado educativo dos alunos é, inicialmente, uma incógnita para nós

Por muitos livros que nos informem acerca dos sistemas de ensino do país onde vamos trabalhar, a forma como os alunos se comportam vai provavelmente revelar-se... apenas na sala de aula, no terreno. Por exemplo, eu já sabia que a educação na Tailândia não dá lugar ao pensamento criativo e à discussão livre entre professores e alunos, que is professores têm quase sempre a última palavra. Na verdade, todas as palavras. Os alunos são motivados em direcção à passividade. Mas sabia lá eu que eles iam detestar que lhes dessem a possibilidade oposta! (Entretanto, os meus já levaram um tratamento de choque e muitos já dizem que gostam das minhas infindáveis perguntas. Eu também levei uma chapada sem mão e deixei de stressar por não ter muitos potenciais participantes.)

 

2. Os alunos são diferentes, as burocracias idém

Outro desafio de ensinar no estrangeiro é lidar com os documentos de legalização e de ter de o fazer com o staff da escola/instituto/universidade. No meu caso, achei tudo muuuuuito lento, as pessoas complicadinhas até mais não e cheguei a chorar de desespero, já pensava em deportação, problemas com a lei, os oficiais da imigração virem à minha faculdade passar-me uma multa por ainda não ter o visto ou a licença de trabalho regularizados. A outra parte também foi levada às lágrimas, não fui só eu. Afinal, os desentendimentos são bilaterais e precisamos todos uns dos outros.

 

3. A barreira linguística. Perdão, não é barreira, é um muro. Com vidro partido em cima. E arame farpado.

Imagino que ensinar num país cuja língua materna seja parecida às que falamos ou que nós dominemos acabe por facilitar a nossa adaptação. No entanto, imaginem que não falam nenhuma língua próxima, quanto mais a língua local, o alfabeto é incompreensível, o staff administrativo fala um inglês macarrónico, ninguém se entende... Pois, é como voltar à Torre de Babel. Ainda bem que a maior parte dos meus alunos são "English Majors" e que os meus colegas também são professores de Inglês.

 

4. Os alunos cresceram num país diferente, logo pensam distintamente

Desde a questão da falta de pensamento crítico que já não me agradava "a conversa" (ou falta dela). Só quando começarem a conhecer os vossos alunos e a falar com eles diariamente é que os vão realmente entender, mas penso que haverá sempre alguns que simplesmente se fecham em copas e depois esperam que tenhamos poderes telepáticos para lhes ler as razões, os quês e os não sei quês. Estas diferenças poderão estar relacionadas com tabus culturais, estruturas familiares e organizacionais, expectativas a nível pessoal e profissional, linguagem corporal, expressões faciais, registo de língua... You name it!

 

5. A posição e reputação dos professores no país

No que toca à Tailândia, os professores não são os profissionais que são recompensados mais justamente, mas são provavelmente das classes mais respeitadas na sociedade. Um professor é um chefe, uma figura da autoridade e quase omnisciente. As vénias (ou wais) que recebia no início pareciam-me uma tolice desnecessária. Contudo, aprendi a apreciar este tratamento e a negociá-lo com os meus alunos. Tive de lhes ensinar que professores e alunos devem aprender mutuamente. Que temos de trabalhar juntos em direcção a um objectivo comum. E que o respeito deve ser merecido e que eu estou sempre a tentar merecê-lo. Também eu demonstro o respeito que tenho pelos meus alunos, com vénias (a saudação tradicional), palavras de encorajamento ou com simples conversas e confidências. Por outro lado, outros professores terão experiências opostas.

Preparem-se sempre para serem mais ou menos respeitados no vosso país de acolhimento e para as respectivas consequências. Preparem-se para serem tratados com mais ou menos deferência, de acordo com a perspectiva dos vossos alunos, superiores e colegas em relação aos estrangeiros.

 

E vocês, têm mais sugestões? Até agora, estes são os maiores desafios que encontro ao ensinar num país estrangeiro, mas certamente haverá mais listas por aí. Que tal as vossas ideias?

Adeus, 5º semestre!

E pronto, já só me falta um semestre de licenciatura. Algumas pessoas que conheço ficam muito admiradas. "O quê, já está a acabar?" Pois estou! "Mas que idade é que a Beatriz tem??!"
Ontem, contei a um dos meus explicandos que vou começar a "dar aulas" (estágio) daqui a menos de um mês a turmas de sétimo ano (alunos da idade dele!). O rapaz abriu muito os olhos, disse que não acreditava. "Não vai nada!" Pois vou! E esta é a incredulidade de quem só levantou a negativa a Inglês porque eu estudo com ele, lhe ensino quase tudo como se nem sequer passasse pelas aulas.
A minha avó já brinca: "Senhora doutora, como está a Senhora doutora?". É só para me picar.
Alguns dos meus professores da faculdade começam a interessar-se e a perguntar-me o que é que pretendo fazer depois da licenciatura. Alguns sugerem mestrados e percursos académicos futuros.
E daqui a seis meses serei uma miúda de 21 anos licenciada em Ciências da Cultura! Vejam só! Eu, que ainda passo por quinze e dezasseis e a quem os meus explicandos de doze, treze e catorze têm dificuldade em não tratar por "tu" (alguns tratam-me mesmo) - eu terei já estudado durante esses ditos quinze anos! E, mesmo assim, ainda me faltarão, no mínimo, 5 para estudar até onde quero!
Com 21 anos, como se já não bastasse namorar há uma eternidade com a mesma pessoa, também terei um canudo! E já terei dado explicações a pelo menos 6 alunos do ensino básico e secundário!!!! E dinamizado aulas com 4 turmas! E trabalhado em para aí 5 empresas e entidades diferentes! E viajado para pelo menos 4 países estrangeiros no espaço de 36 meses!
Acho que os números são extremamente curiosos. Eles falam por si, enquanto eu mal acredito que falam igualmente por mim. Aliás, eu é que falo por eles, não é? Eu é que os faço...
Nem dá para crer na quantidade de acontecimentos que couberam nos últimos dois anos e meio.

O bicho de ensinar

Eu gosto de ensinar. Aliás, adoro ensinar. Acho que, no fundo, nunca me imaginei a fazer outra coisa. Antes, desculpava o bicho, porque pensava que ele só era alimentado pelo contacto quotidiano com os professores. Durante muitos anos, quase toda a minha vida, a escola foi a única realidade que conheci. A escola, os livros, os meus colegas alunos, eu aluna, os professores.
Então, tentei desmistificar o meu bicho. Pus-me a explorar outros interesses, a procurar o gosto pelo jornalismo, pela escrita, pela cultura, pela literatura. Mas cheguei sempre à mesma conclusão: o melhor mesmo seria poder ensinar todos esses outros bichos, ser professora de qualquer forma.
Quando ensino alguém, quando ajudo alguém com os trabalhos da escola, quando sinto que transmito algum tipo de conhecimento; esse é o momento em que me sinto mais realizada. Estou a contribuir para o mundo, estou a dar a minha parte. Sem o meu bicho, outras pessoas, crianças, jovens, quem quer que seja, não conseguiriam alcançar o que alcançaram. Não conseguiriam encontrar aquele texto especial que lhes levei e que nunca leriam num dos seus manuais, não aprenderiam a conjugar o verbo "conseguir" tão depressa, não passariam a perceber outras línguas de forma tão rápida, nomeadamente a língua do estudo eficiente e a língua da curiosidade.
Neste momento, só aspiro a professora algumas horas por semana. Contudo, já contornei obstáculos que se julgavam insuperáveis. Ressuscitei o Inglês, semeei o Francês e tornei o Português menos pandoresco. Neste momento, são só crianças e adolescentes, mas quem se seguirá no futuro?
Como inimigas, tenho as metas curriculares. São inimigas agridoces, que tanto permitem aferir o "conhecimento" contabilizável, como impedem o aproveitamento de outras competências tão importantes como o crescimento pessoal do aluno, a responsabilidade ou a curiosidade na aprendizagem. "Ah e tal, se o aluno obtiver essas competências, conseguirá aprender, logo terá melhores notas." Por muito que o desejemos, a situação não é assim tão linear. Há quem demore mais a chegar ao "conhecimento" contabilizável do que outros. Há quem simplesmente não se adapte ao sistema de avaliação como ele é imposto. Há quem seja apenas um aluno brilhante a Ciências Naturais e deteste Espanhol. É assim tão inédito?
E depois há outro papel de "professora de 7 horas por semana": o de colmatar o que os professores de 40 horas por semana não são capazes de transmitir: justificar o conhecimento, explicar para que é que serve a matéria, atribuir-lhe uma vertente útil. De que é que serve aos alunos estarem a empilhar Os Lusíadas durante seis meses, se não lhes explicam em que é que eles ficam a ganhar? Somos todos tão bons a escrever cartas de motivação para arranjar empregos de sonho, em empresas de sonho, e abafando a competição... Porque é que não escrevemos também uma carta de motivação em nome da escola e do saber e da matéria, que convença as nossas criancinhas, e os nossos adolescentezinhos, e os nossos adultinhos de que aprender não é uma seca e de que para tudo o que aprendem há um intuito?

 

 

Estagiar no ensino superior - porquê?

Notícia de segunda-feira: "Governo quer estágios em todos os anos das licenciaturas e mestrados"

 

Muitos são aqueles que criticam os estágios, em geral. Que são a legalização da escravidão. Que se estabelecem contratos manhosos, ambíguos e apologistas da exploração laboral dos estagiários. Que, hoje em dia, se passa a vida a ser estagiário, sem surgirem as oportunidades de progressão de carreira nas empresas ou instituições e sem se ser recompensado espiritual ou financeiramente. Que se contratam estagiários porque fica mais barato do que contratar um profissional com experiência.
No entanto, essas críticas só vêem o lado negativo dos estágios, até porque é o único que temos conhecido ultimamente. Para lá dessa faceta, existe uma outra.
Os estágios, nomeadamente os estágios no ensino superior, não servem para andar a ser feitos para o resto das nossas vidas, mas sim para serem experimentados nos primeiros tempos profissionais. Servem para vivermos um sneak peak do que irá ser, ou poderá ser, o mercado de trabalho onde nos pretendemos inserir através dos nossos cursos. Para mim, estagiar 120 horas no fim do meu 3º ano de licenciatura, e já ter estagiado outras 100 no ano passado, significa colocar-me à prova fora da minha área de conforto. Entrei e entrarei em contacto com opções de trabalho completamente distintas uma da outra, mas ambas relacionadas com o que ando a estudar. Afinal, para que serve o meu curso? A que mercado de trabalho posso chegar com o meu canudinho e todas as competências que adquiri até ao momento? Como aplicá-los? E o que gostaria eu de fazer no futuro?
É para isto que servem os estágios no ensino superior, principalmente no universitário, que - digo eu - não parece acompanhar a evolução do mercado de trabalho e continua a formar indivíduos indefinidamente sem lhes mostrar outra realidade que não a académica. Nem todos viremos a ser professores, nem investigadores. É verdade que, se quiséssemos um curso mais prático, teríamos optado pelo ensino profissional, técnico ou superior politécnico, mas a universidade também deve alargar os horizontes dos alunos. Quem se candidata ao ensino superior universitário fá-lo por desejar o conhecimento. Mas não nos iludamos: o que nos leva a estudar mais sabe-se lá quantos anos e a investir milhares de euros na nossa instrução passa igualmente pela expectativa de virmos a trabalhar naquilo de que gostamos, com um salário mais composto do que se nos tivéssemos ficado com o 12º ano e com melhores condições nos contratos. Para isso, há que sair da faculdade já com alguma visão.
E sim, eu sou a favor de estagiar no ensino superior em todos os anos das licenciaturas e mestrados, desde que com algumas reservas. Se é para ser todos os anos, que sejam estágios de curta duração, uma semana ou duas a tempo inteiro ou parcial, por exemplo. Nada de serem estágios que duram o semestre inteiro e que, mesmo sendo a tempo parcial, obrigam os alunos a faltar a aulas e a sofrer uma sobrecarga horária (como me acontecerá a mim). E, mais importante do que qualquer outra coisa: nada de usar o trabalho dos estagiários para substituir o trabalho dos profissionais, que ou não são contratados exactamente por o trabalho ser assegurado pelos estagiários, ou porque os próprios se aproveitam dos estagiários para trabalhar o que lhes compete. É suposto um estágio constituir um momento de aprendizagem, que implica a presença e a participação constante de alguém com experiência para orientar o estagiário, género job shadowing. Para quê estagiar num festival artístico (muito comum no meu curso), se esse mesmo festival é quase completamente realizável à custa do trabalho desenrascado dos estagiários? O que se aprende? A trabalhar-se sem orientação e à pressão? A ser-se autodidacta?


Espero que esta nova ideia do Governo seja bem aproveitada e que até sirva para apertar a legislação sobre os estágios curriculares, extra-curriculares e profissionais.

A favor dos quadros de honra

Descobri anteontem uma publicação do blogue da Rita Ferro Alvim que me intrigou bastante, a par dos comentários deixados pelos seus leitores. Já data de 2014, mas o assunto é transversal a qualquer ano e contexto.

Então: será melhor haver quadros de mérito e de honra nas escolas... ou não?


Sendo eu uma aluna que estudou nove anos no ensino básico privado e três no ensino secundário público, mais dois anos no ensino universitário público e desde há dois meses para cá no ensino universitário cooperativo (ensino público, com certas vantagens e estatuto de privado) tenho a confessar que já vi de tudo, em todos os níveis de ensino. Felizmente, tenho uma experiência variada para partilhar, o que provavelmente me dará muito jeito, se sempre prosseguir com o bicho de me tornar professora.

Depois de todas estas experiências ao longo da minha curta vida, e como aluna "de mérito" desde que me lembro, assim como provável-futura professora, confesso que sou a favor dos quadros de excelência, ou de honra ou de mérito, ou quaisquer outros que reconheçam as capacidades e o esforço dos alunos. E não, não só devem ser premiados os alunos com boas notas - os que revelam talento nas artes, os que são áses do desporto, os que se envolvem em actividades empreendedoras e os que se destacam pelas suas qualidades empáticas e solidárias devem-no ser de igual forma (método que vem a ser cada vez mais aplicado).

 

Quanto custa um canudo?

Após quase três anos no ensino superior, descobri finalmente o que é que me aborrece tanto, o que me deixa sequiosa por acabar a licenciatura. A minha maior dificuldade foi aprender a nomeá-lo, mas agora já sei dar um nome ao que sinto: frustração.

Frustração perante a falta de interesse e empatia de certos professores em relação aos alunos e perante a sua falta de interesse em evoluírem eles próprios ao fim de décadas ou depois de terminarem os seus doutoramentozinhos numa qualquer matéria que não interessa nem ao menino Jesus.

Frustração por causa de colegas que, por algum motivo que me transcende, decidiram entrar no ensino superior sem demonstrarem qualquer interesse ou apetência para o estudo e para a reflexão.

Frustração por raramente me sentir compreendida. Frustração por raramente conhecer pessoas com quem me identifique.

De facto, tanto há professores sem vocação para executarem uma tarefa tão nobre quanto ensinar e contribuir para o semear iluminado de novas gerações, quanto também há alunos sem vocação para pisarem o chão sagrado de uma faculdade. Cada vez que uns ou outros abrem a boca, regurgitam maioritariamente lixo.

Chamem-me arrogante, chamem-me exigente sem causa, digam que estou errada e que o ensino superior é um mar de rosas (tal como a escola secundária, não é?). Esta é a minha experiência. Uma pessoa não se sente desmotivada só porque sim.

Compreendo que nem todos os alunos tenham de ser tão ambiciosos quanto eu reconheço que sou, compreendo que nem todos tenham de estar decididos, assertivos e conscientes dos seus objectivos de vida aos 20 anos. Reconheço que guardo insistentemente expectativas elevadas acerca de quem me tenta ensinar e que muitas das vezes eles são apenas investigadores mal subsidiados pela FCT.

Mas podiam esforçar-se, certo?

No que toca aos jovens, é verdade que a ausência de perspectivas de futuro profissional a curto ou a médio prazo demove muita gente acerca da urgência e da relevância em descobrir o que pode construir a longo prazo para si. Mas, caramba, se é para andarem a esbanjar o dinheiro dos papás, bem que podiam escolher um entretenimento mais barato para se ocuparem! Tenho colegas na Universidade Católica que andam a pagar quase 500€ de propinas mensais porque, no final, o que interessa é o canudo. Até aposto que muitos deles provêm de famílias cuja derradeira ambição é verem as criaturas trajadas e "senhoras doutoras".

Hoje em dia, em troca de alguns milhares de euros, qualquer abécula pode arranjar um título académico.

E nem me admiro que, a fazer pandã, qualquer intelectualóide possa igualmente dar umas aulas (que o confirmem, por um lado, os testes elaborados pelos professores de 3º ciclo dos meus explicandos e, por outro, a pedagogia de biblioteca adoptada pelos docentes do ensino superior).

 

Fico à espera do mestrado para a prova dos nove.